—Amiga é só uma capivara!... — Sheslyene tentou advertir, mas não deu tempo, ela já tinha chutado com tudo o animal e caído logo a frente.

Preocupada com a amiga ela correu pra se aproximar, mas a capivara parecia estar tendo alguma reação ao chute. Se movia como se estivesse tendo espasmos, aos poucos foi ficando em pé nas quatro patinhas e antes que Sheslyene pudesse se aproximar mais a capivara a surpreendeu

—Sua amiga quase quebrou minha COSTELA! — a boca com enormes dentes da frente gritava com uma vozinha fina e meio rouca

Parada na frente do corpo de Elvira ao chão e uma capivara ficando em pé com apenas duas patas a primeira coisa que ela conseguiu fazer foi se preparar pra dar o chute mais forte de toda sua vida, quando em um movimento muito rápido as patinhas da frente do bicho se alongaram e seus dedinhos minúsculos cresceram se transformando em mãos grandes o suficiente para agarrar a perna da garota no meio do chute. Seu corpo gorducho e coberto por pelos cresceu rapidamente e a pelagem marrom entrou pelos poros, revelando uma pele tão marrom quanto e em poucos segundos Sheslyene percebeu que a capivara tinha se tornado em algo parecido com um ser humano bem ali, agarrado a sua perna.

Ainda com o focinho grande e a cabeça de capivara no corpo de humano a criatura soltou a perna da menina. Sheslyene gritava de medo. As costas da criatura pareceram estalar, como se tudo tivesse entrado no lugar e então ela se desenrolou do chão até ficar em pé, e assim um longo cabelo preto como carvão caiu por cima do rosto, fazendo ela parecer a Samara, do poço. Nesse momento enquanto Sheslyene gritava a criatura passou sua mão por detrás do pescoço e ela pareceu alongar a musculatura, mais uma vez deu pra ouvir os ossos estalarem, pareciam que estavam se quebrando igualzinho a uma casca de caranguejo. Em movimentos rápidos a criatura passou a mão por dentro dos cabelos e como uma flecha lançou eles para trás junto com sua cabeça, revelando finalmente o rosto que já não era mais de uma capivara.

AAAAAH! — Mais um grito estridente da Sheslyene ecoava por dentro das matas

—Nossa, eu sou tão feia assim? — perguntou a criatura, que agora parecia uma adolescente perfeitamente normal, porém nua

—Não, não, não. Não dá pra mim, eu devo ter ficado louca. Primeiro eu quase fui sequestrada por um homem que fingiu ser um caça talentos, depois as árvores começaram a falar, aí a Elvira tropeçou em uma capivara e a capivara começou a falar e pra completar a capivara virou gente. Eu tô louca, só pode ser — Sheslyene nesse momento conversava sozinha

—Deixa de ser dramática, a sua amiga tá bem, já não posso dizer o mesmo de mim, que fui agredida — a criatura falava enquanto inspecionava o corpo da menina desmaiada

—Moça, você era uma capivara nesse instante, não tá em posição de me criticar. Agora sai de perto da minha amiga, e vai se vestir. — Sheslyene se abaixava do lado do corpo enquanto falava

—Ela tá machucada, se ralou nas pedras depois de bater em mim, mas não tem nenhum machucado na cabeça, então ela deve acordar em algumas horas, a gente só precisa limpar e colocar um pouco de sambacaitá nos ferimentos e separar algumas plantas, como manjericão pra colocar em baixo do nariz. Eu cuido dela — em posição de cócoras a menina de cabelos negros conversava

—Pera, como você sabe disso tudo? Você é algum tipo de india? Tipo, sua cor, seu cabelo, esse olho puxado ai, não é japonês não né? — disse Sheslyene espantada

—Não sou japonesa, sou indio, Kariri Xocó. Moro em uma aldeia que fica aqui na Mata do silêncio.

—Mata do silêncio?? Se tem uma coisa que não teve nessa mata desde que eu entrei foi silêncio — Sheslyene pensava nas árvores

—É justamente por isso, mesmo quando está silêncio aqui se vc se concentrar consegue ouvir as árvores falando através do barulho das folhas

—NÃO! Não quero ouvir nada. Preciso acordar minha amiga. — disse Sheslyene balançando Elvira — Acorda amiga, acordaaaa!

Enquanto Sheslyene gritava desesperada com todas as suas ideias do que fazer esgotadas aquela india que a pouco era uma capivara levantou de sua pose de cocoras, olhou por entre as árvores como se estivesse avistando algo, estalou suas costas se espreguiçando e disse — Vamos, a aldeia não está longe, a gente leva ela juntas e lá cuidamos

—Você ta achando que eu tô louca, né? Vou levar minha amiga desmaiada por ai com uma pessoa que eu nem conheço que era uma capivara — retrucou Sheslyene

—Até parece, já viu no noticiário que índio sequestrou alguém, por acaso? Deixa de besteira que Kariri é povo do bem — a índia respondeu afiada

—Acabei de sair fugida de um sequestrador, eu to traumatizada, flor!

—Tá, você pode ficar ai perdida na floresta, sozinha, ou aceitar minha ajuda e esperar o próximo ônibus com turistas chegar pra vocês voltarem pra cidade. — a india deu um xeque-mate