A mata do silêncio
4 Capitulo 4
As duas adolescentes pegaram uma por cada braço da menina desmaiada e levantaram a apoiando por trás de seus pescoços. Por coincidência ambas tinham a mesma altura, o que facilitou o deslocamento, era engraçado de se ver, Sheslyene branca com os cabelos castanho claro batendo na cintura ao lado da índia até então sem nome, da pele marrom como uma casca de árvore e os cabelos negros do mesmo comprimento.
Após andarem uns vinte minutos pela mata finalmente chegaram na aldeia, não tinha muita movimentação, as ocas bem afastadas umas das outras pareciam vazias, a fogueira central apagada, e diversos afazeres dos outros indios foram deixados ali, parece que todos tinham acabado de sair.
—Cadê os indios tudo desse lugar? — Estranhou Sheslyene
—É tardezinha, nesse horário muitos foram caçar, os demais estão fazendo as tarefas dos rios ou carregando alimento, não se preocupe, é melhor assim — respondeu a indigena
Cansadas de carregar aquele corpo arranjaram um lugar para deitar a Elvira, a índia conduziu até uma cabaninha, ou seria uma ocazinha? Aquele lugar coberto era pequeno e cheio de coisas guardadas, muito mato, plantinhas de cores diferentes, cuias e cabaças, Sheslyene não estava ambientada com nada disso e até estranhou a india arrumando as palhas pra deitar Elvira em cima. Em seguida saiu rapidamente dá oca e foi buscar alguma coisa. Voltou com um pequeno recipiente rustico onde esmagava alguma coisa verde.
poc poc poc poc poc poc — uma tora de madeira batia no recipiente formando uma meleca verde
—O que você tá fazendo? — Sheslyene perguntava fazendo careta
—Sambacaitá, é para as feridas dela, joelhos e cotovelos, estão sangrando. — respondeu
—Ah, tá bom… essa meleca aí vai virar uma pomada?
—Sim, quase isso. — a índia continuava a bater — poc poc poc poc
—Eu nem te perguntei, como é seu nome mesmo? — finalmente Sheslyene perguntou
—Aruana — respondeu rapidamente levantando as sobrancelhas e girando a cabeça levemente para ver de onde vinha o barulho que acabava de ouvir
—Menina, não é que tem um bairro… — Sheslyene foi interrompida por um garoto indígena que acabava de aparecer com um peixe na mão
IAKARA TUKI NITSOU WANABI RO? — disse o meninoNAKRARIO TOME DUSTA, NAKARA, NAKARA — respondeu prontamente Aruana
—O que foi que vocês disseram? — Sheslyene perguntou curiosa
—Nada, ele só queria contar que pegou um peixe. Olha, terminei aqui, vou pegar mais umas coisinhas pra ajudar ela — Aruana disse enquanto saiu rápida e levemente, quase pareceu uma folha voando.
Enquanto isso Sheslyene ficou ao lado da amiga, observando se havia o menor sinal de que ela estava acordando. Mas nada, ela dormia profundamente. Não demorou muito até que a índia Aruana voltasse, mais uma vez com coisas na mão, misturando e esmagando com a tora de madeira.
—Não vai me contar de onde vocês vieram? — Aruana indagou a única das meninas que estava acordada
—Ah, é uma longa história… Se não se importar eu conto — sem esperar uma resposta ela já foi falando — Bom, eu sou de família humilde, moro na periferia de Cajusville, e por algum milagre de Deus eu fui a única na família que nasceu bonita, obrigada, de nada. Sem querer me gabar, mas sou a mais alta tenho 1,75 e sou quase loira, puxei a minha vó, lá no bairro me chamam de galega, e tenho olho verde, puxei da minha vó também. Minhas tias dizem que sou a única do nariz bonito, mas eu nem acho. Enfim… Todo mundo da minha familia diz que eu devia ser modelo, quando eu era bebê me botaram pra fazer um comercial e a partir daí decidiram que eu tinha nascido pra brilhar. Minha mãe me criou sozinha e ela acha que meu destino é ir pra São Paulo e ganhar a vida como modelo, ela diz que eu tenho tudo que ela nunca teve, estudo, beleza e oportunidade. O problema é que ninguém nunca parou pra perguntar o que eu queria.
Nesse momento Aruana, que não estava prestando muita atenção, mirou seu olhar na garota e conseguiu enxergar através dela.
—Foi assim que fiquei amiga de Elvira, sabe? Ela era a única que entendia como eu me sentia, obrigada a estar em um lugar que eu não queria estar, ser uma pessoa que eu não queria ser, só pra agradar minha mãe, porque eu sei o quanto é importante pra ela. Elvira é a única filha no meio de 5 meninos, é do mesmo bairro que eu, ela é a mais nova, os pais sempre quiseram uma menina, porém só conseguiram na última tentativa, e aí ela tem que carregar todas as expectativas que os pais jogaram em cima dela.
—É, eu acho que vocês encontraram mais uma pro time de vocês — Aruana suspirou e deu uma pausa naquelas sementes e folhas que ela estava moendo — Eu também estou em um lugar em que eu não gostaria de estar, sendo alguém que não gostaria de ser.
Enquanto falava Aruana, que estava com o cabelo repartido ao meio, jogou todo o seu cabelo para o lado, assim revelando que a lateral de sua cabeça estava recém raspada, era um sidecut, e em sua orelha tinham dois piercings prateados.
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