A loba do Norte

1 Depois das Gêmeas


Arya ainda conseguia ouvir a espada deslizando pela garganta nojenta do desgraçado patriarca dos Frey. Talvez tenha sido igual aos boatos que ouvira sobre o que acontecera com sua mãe, Catelyn Stark.

Ela virou-se na cama de palha da estalagem, sem conseguir dormir. Ainda tinha muitos nomes em sua lista preferida, mas estava disposta a deixa-la para trás.

Winterfell. Era tudo o que a garota conseguia pensar. Tinha ouvido os boatos sobre uma guerra no norte, e a ascensão do novo rei nortenho Jon Snow. Ela não podia acreditar.

Frequentemente, nomeações não eram um bom prelúdio para sua família. Eddard Stark tinha sido nomeado Mão do Rei. Pouco tempo depois, sua cabeça estava fincada nos muros de Porto Real. Robb tinha sido condecorado Rei do Norte, e assassinado em seu próprio casamento. Arya esperava realmente que a sorte estivesse a favor dos Stark, ao menos desta vez.

Ela apertou Agulha nos braços e finalmente dormiu, pensando em Jon na cadeira do pai, e Sansa ao seu lado, como a lady que sempre fora. Pensou também em onde estariam os irmãos Bran e Rickon; às vezes, enquanto dormia, Arya sonhava com eles e era como se nunca tivessem se separado. Mas aquela vez, ela só sonhou com Bran.

O sol tinha acabado de nascer quando um guerreiro sem estandarte montou sobre o cavalo e disparou para o norte. Arya tinha aprendido desde cedo que viajar sob rosto masculino era muito mais prático e menos perigoso que viajar como uma mulher. Agora apenas cortar algumas mechas do cabelo não adiantava mais, mas felizmente, ela havia aprendido um truque ou outro em Braavos.

Cavalgou o dia todo e, ao anoitecer, parou em frente a outra estalagem e entregou o cavalo a um rapaz nos estábulos. A garota ouviu um breve movimento nas árvores no interior da floresta, e Arya virou-se para descobrir sua origem, puxando Agulha da bainha. Aquela era uma espada um tanto engraçada para um guerreiro com o rosto que a garota usava, mas ela não se importava. Afinal, portava também uma lança que, propositadamente, esquecera-se de limpar o sangue em sua ponta.

Uma brisa noturna carregou um uivo do interior da floresta. Um uivo distante, mas tão ligeiramente familiar que por pouco Arya não o perseguiu pela floresta.

Ela então entrou na estalagem, jogou algumas moedas sobre o balcão e pediu uma refeição e o melhor quarto.

— O melhor quarto é o dela. — o estalageiro indicou uma mulher com a cabeça. — Mas tenho um outro muito bom.

Arya virou-se em direção à mulher de costas. Nem em mil anos ela poderia deixar de reconhecê-la. Os cabelos vermelhos caiam em cascatas por suas costas. As roupas justas marcavam suas formas perfeitas. A Mulher Vermelha também estava em sua lista de vingança, mas só a fazia recordar-se de um amigo que há muito não vira.

Gendry.

Arya deixou mais uma moeda com o estalageiro e pediu que levassem sua refeição ao quarto em que ficaria. Comeu tudo, tirou o rosto falso, esperou que o silêncio imperasse na estalagem e esgueirou-se até o melhor quarto do local.

A garota sacou Agulha e pressionou o metal frio contra a garganta da Mulher Vermelha.

— Shhh! — ela fez um sinal quando Melisandre acordou. A Mulher Vermelha engoliu em seco, tentando virar-se em direção a sua atacante.

— Eu disse que nos encontraríamos.

— É uma pena que seja a última vez. — sorriu Arya.

— Você não vai me matar. Vi nas chamas a minha morte, e não será por você.

A pressão de Agulha afrouxou um pouco em seu pescoço e Arya deslizou de modo a ficar frente a frente com a Mulher Vermelha.

— Sim, eu me lembro de você... apesar de ser outra pessoa agora.

— Então deve saber por que estou aqui. — mais uma vez, a ponta da lâmina pressionou a garganta de Melisandre — Onde ele está?