A humanidade de Renesmee
14 Primeiro Dia – Novos Papéis, Velhos Laços
O céu estava cinza, típico do clima da nova cidade, e o ar tinha aquele cheiro fresco de lugar onde chove muito e tudo é silenciosamente vivo. A casa já fervilhava de movimento antes mesmo das sete da manhã.
No andar de baixo, Alice corria de um cômodo a outro, entregando roupas coordenadas que já havia separado com uma semana de antecedência — cada peça cuidadosamente pensada para refletir personalidades humanas e não chamar atenção indesejada. Rosalie estava no banheiro, arrumando o cabelo de Renesmee com uma trança embutida que terminava em um laço discreto.
— Você tem que parecer natural, Nessie — dizia ela, concentrada. — Bonita, mas não perfeita. Lembra o que combinamos?
— Nada de brilhar, nada de voar, nada de chamar de mãe, pai, tio ou tia — recitou Renesmee com um sorrisinho cansado.
— Isso — respondeu Rosalie, fazendo um carinho rápido no ombro da sobrinha.
Lá embaixo, Esme estava em pé junto à bancada da cozinha, com um fichário grosso em mãos e um semblante levemente nervoso.
— Aqui estão todas as matrículas — disse, entregando os documentos impressos e já assinados por ela mesma. — Os papéis da escola, os horários e os nomes que vocês vão usar. Ah, Renesmee, olha aqui sua grade — puxou-a de lado, com cuidado. — Segunda à sexta, entrada 7h30, saída 12h50. Físico-química, inglês, matemática, história...
— Isso é muita coisa — murmurou Renesmee, examinando a planilha colorida. — E eu começo hoje?
— Hoje é só entrega da documentação e reconhecimento de espaço. As aulas começam amanhã, então aproveite para se familiarizar com o prédio, os rostos, os caminhos... — disse Carlisle, descendo as escadas impecavelmente vestido com seu jaleco sobre o braço. Estava calmo, mas o brilho nos olhos entregava o entusiasmo silencioso.
— Então... já vai trabalhar? — perguntou Bella, olhando-o com respeito e leve preocupação.
— Hoje é meu primeiro plantão no hospital. Preciso me apresentar como Dr. Cullen novamente. — Ele sorriu para Renesmee. — E você, minha menina, vai brilhar — disse ele, e tocou de leve sua testa com os dedos. — Mas não literalmente.
Edward entrou na sala em seguida, segurando duas chaves de carro.
— Vamos dividir em dois carros. Eu levo Nessie e Bella. Jasper, Alice, Rosalie e Emmett vão no outro. Assim parecemos... variados.
— Isso é tão complicado — murmurou Renesmee.
— Vida dupla sempre é — comentou Emmett, que já estava de óculos escuros e uma mochila nas costas só para parecer “estudante”.
— Ah, e antes que esqueça — disse Esme, abrindo a bolsa e entregando uma pequena lancheira a Renesmee. — Não precisa comer tudo, querida.
— Saco vazio não para em pé — recitou Renesmee, rindo. — Você diz isso toda vez.
— E vou continuar dizendo até você decorar.
Com todos finalmente prontos, seguiram para os carros. Esme ficou parada na varanda por um instante, observando sua família partir — Edward ao volante, Carlisle no hospital, seus filhos assumindo papéis que ela mesma ajudara a moldar.
— Coragem, Esme — murmurou para si mesma, antes de voltar para dentro com o fichário em mãos. Ainda tinha um último formulário para entregar online antes das 10h.
No carro, Edward trocou olhares com Bella através do espelho retrovisor.
— Está nervosa?
— Mais do que gostaria — respondeu ela, segurando a mão de Renesmee.
A menina olhava pela janela, pensando em como a vida mudava rápido. Ela havia sonhado com esse dia durante anos... e agora que estava ali, com o uniforme ajustado, a mochila nova e a realidade batendo à porta, sentia o friozinho na barriga que só os humanos costumam sentir. O que era irônico, porque era justamente isso que queria viver: a humanidade, com todos os seus desconfortos e descobertas.
Ao chegarem à escola, Alice imediatamente começou a ajustar os cabelos de Rosalie, e Emmett já descia do carro fazendo piada sobre os “estudantes normais”.
— Lembrem-se — disse Carlisle, do outro carro. — Naturalidade. Estamos aqui para observar, entregar documentos, nos ambientar. Nada mais.
Renesmee caminhou entre eles, tentando se concentrar. Quando alguém no corredor a olhou por mais de três segundos, ela se escondeu atrás de Bella.
— Ei, você vai arrasar — disse Bella, agachando-se ao nível da filha. — Você é inteligente, gentil e corajosa. Isso ninguém pode fingir, nem esconder.
— Nem usar supervelocidade hoje, né?
— Definitivamente não — respondeu Edward, tocando levemente suas costas. — E nada de ler mentes também.
— Essa parte é com você, pai.
Entregaram os documentos, pegaram o mapa do colégio e caminharam pelos corredores. Renesmee tentava guardar tudo: onde era a sala de biologia, o banheiro, o laboratório de informática. Quando se sentou para observar o pátio de longe, percebeu que não estava sozinha.
Alice se aproximou e sentou ao seu lado.
— Tudo vai dar certo, Nessie. Eu vi. Talvez com algumas surpresas, mas... boas.
— Você sempre diz isso.
— E quase sempre estou certa.
Rosalie logo apareceu com um copo d’água.
— Aqui, humana — brincou. — Lembra de hidratar. Coisa de gente comum, lembra?
Elas riram, e por um momento, todo o nervosismo parecia ter evaporado.
Edward e Bella, um pouco mais afastados, observavam a cena com olhos brilhando de amor e orgulho.
— Ela está pronta — disse Edward.
— Nós é que talvez não estejamos — respondeu Bella.
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