A humanidade de Renesmee
16 O Primeiro Contato
Após a apresentação do grêmio estudantil, os grupos foram liberados para seguir em direção às salas de aula para a integração com os professores e os colegas. A primeira matéria de Renesmee seria História. Ela sentia o coração acelerar mesmo sabendo que seu tio Jasper estaria com ela. Edward e Emmett a deixaram na porta da sala, com um olhar tranquilizador do pai e um soco leve no ombro vindo de Emmett.
— Vai tranquila, Ness. — disse Edward com um meio sorriso.
— E sem quebrar a mesa, hein. Primeira impressão é a que fica. — provocou Emmett.
Ela fez uma careta discreta e entrou.
Ao contrário do que esperava, Jasper ainda não estava ali. A sala já tinha cerca de vinte alunos, todos dispersos em grupos de dois ou três. As mesas estavam organizadas em trios, algo que a incomodou profundamente — dividir espaço era... novo.
Renesmee caminhou lentamente até a fileira mais distante da porta, encostada na janela, e ali ela sentia que poderia respirar melhor. Escolheu a cadeira do canto e colocou a mochila sobre a mesa ao lado, numa tentativa silenciosa de dizer não se sente aqui.
Mas o que a incomodava mais que o layout da sala era o ruído. Tudo era barulhento. Alto. Desorganizado. Risos estridentes, passos apressados, carteiras arrastando no chão, o leve tic tic de unhas batendo sobre os cadernos, o cheiro de perfume barato, suor seco, e sangue… sempre sangue, mesmo que em pequenas quantidades, presentes nos corpos humanos como uma lembrança incômoda da sua própria natureza. Um mundo que ela só havia conhecido do alto de árvores ou pelas memórias de seus pais agora estava pulsando à sua volta. Vivo. Confuso.
Ela estava completamente imersa nesse torvelinho de estímulos quando uma voz feminina e suave a tirou abruptamente do transe:
— Ei… posso sentar aqui?
Renesmee se virou num sobressalto, como se tivesse sido chamada dentro de um sonho. Seus olhos encontraram uma menina de cabelos castanho-avermelhados, olhos ansiosos e um sorriso sem jeito.
— Desculpa… não queria te assustar — continuou ela. — É meu primeiro dia, não conheço quase ninguém.
Nessie a encarou por um momento, sem saber o que dizer. Seu primeiro impulso foi olhar em volta, procurar o tio Jasper — que ainda não havia chegado —, mas percebeu que estava por sua conta.
Antes que respondesse, a porta se abriu e Jasper entrou calmamente, com um semblante sereno e o passo firme. Seus olhos encontraram os de Renesmee de imediato, e ele captou seu desconforto num segundo. Com uma leve curvatura dos lábios, ele falou com a menina:
— Claro que pode se sentar.
E com um sussurro, tão baixo que só ela ouviu:
— Desculpe o atraso, pequena. Não imaginei que seria chamada tão rápido.
Ela assentiu com um leve movimento da cabeça.
Margo se sentou ao seu lado, colocando uma pequena bolsa colorida sobre a carteira.
— Então… você também é nova? — perguntou ela, já sorrindo de novo, sem perceber o quanto a outra estava travada.
— Sim… é meu primeiro dia. — Renesmee respondeu com voz baixa, quase ensaiada.
— Ufa! — Margo riu aliviada. — Achei que tinha te irritado de algum jeito. Mas ainda bem que não. Eu sou Margo. E você?
— Renesmee. Mas pode me chamar de Nessie.
— Que nome lindo! Diferente… você é de onde?
Nessie hesitou por um instante.
— Do Alasca… vivíamos isolados. Era... um estilo de vida mais tranquilo. — disse, usando uma das histórias que os Cullen haviam treinado com ela nas últimas semanas.
— Uau. Deve ter sido incrível! Mas imagino que aqui esteja meio caótico pra você, né? — Margo riu de novo. — Essa escola é um pandemônio.
Renesmee não conseguiu evitar o sorriso. Margo era espontânea, simpática e... estranhamente familiar em sua energia. Jasper olhou de relance para as duas e notou a mudança imediata de humor em sua sobrinha. Relaxou um pouco.
O restante da aula passou com pequenas trocas entre as duas. Margo mostrou seu caderno novo com adesivos de bandas alternativas, falou dos livros que gostava, e perguntou se Nessie queria companhia na hora do intervalo. Nessie não sabia bem como responder a isso — almoço ainda era uma coisa complicada para ela — mas sorriu e disse que talvez sim.
Antes que ela se levantasse, Jasper veio até ela, inclinando-se um pouco:
— Foi um bom começo — disse baixo. — Está mais forte do que pensa, Nessie.
Ela respondeu com um sorriso leve, ainda com as bochechas levemente coradas. A primeira aula havia terminado. E com ela, o primeiro passo para ser alguém no meio humano também.
Na saída, Margo se virou:
— Te vejo depois?
— Sim… até depois.
Renesmee a viu desaparecer entre os outros adolescentes, e naquele momento percebeu que algo havia mudado. Pela primeira vez, ela não era só a filha dos Cullen. Era... alguém, entre os humanos. Alguém tentando entender seu lugar no mundo.
E tudo começou com uma simples pergunta: “posso me sentar aqui?”
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