A humanidade de Renesmee

20 Escolhas de Sangue e Silêncio


A luz do quarto já estava apagada quando Edward abriu a porta novamente, desta vez sem palavras. Renesmee ainda estava deitada, mas com os olhos abertos, pensando. Bella havia saído minutos antes para pegar uma manta no andar de baixo, deixando pai e filha a sós mais uma vez.

Ele se aproximou com passos leves, sentando-se na beirada da cama.

— Nessie… você não comeu nada desde o almoço. — Sua voz era suave, mas carregada de preocupação.

Ela virou o rosto para o travesseiro, como quem quer evitar o assunto, mas sabia que não havia escapatória quando se tratava de Edward.

— Eu não tenho fome de verdade. Não com essa comida…

— Mas seu corpo sente — ele disse, passando a mão nos cabelos dela com delicadeza. — Mesmo que você não perceba da forma como os humanos percebem, você ainda tem necessidades. E negar isso vai te deixar fraca, confusa, emocionalmente instável. Isso pode te machucar. Pode nos preocupar.

Ela suspirou, fechando os olhos por um momento.

— Eu só queria ser normal. Comer um sanduíche e me sentir cheia. Satisfeita. Mas é como se eu estivesse sempre… à espera de algo que realmente preencha.

Edward assentiu, compreensivo.

— E você ainda deseja continuar sem caçar? — perguntou, mesmo já sabendo a resposta, respeitando o espaço da filha para verbalizá-la.

— Sim — respondeu ela com firmeza. — Mesmo que a comida humana nunca sacie de verdade. Mesmo que o cheiro na escola me enlouqueça por dentro, eu quero… eu quero tentar viver como humana. Pelo menos agora. Enquanto eu puder.

Ele ficou em silêncio por alguns segundos, absorvendo a coragem da filha, o controle que ela vinha exercendo com tanto esforço. A decisão dela exigia mais do que disciplina: exigia identidade.

— Essa escolha é sua. Sempre será. E nós vamos respeitá-la. — Ele olhou profundamente em seus olhos. — Mas saiba que, se um dia quiser mudar de ideia, não é um fracasso. É só uma adaptação. Nós também passamos por isso. E você não está sozinha.

Ela assentiu devagar.

— Obrigada, pai.

— Eu e uma parte da família vamos sair pra caçar essa noite. É a melhor forma de estarmos bem amanhã. Alertas. Presentes. E você sempre terá companhia aqui, seja quem for que fique com você. Ninguém vai te deixar sozinha.

— Eu sei.

— Quer comer algo agora? Eu posso te ajudar a preparar um chá, ou talvez aquele arroz com legumes que a Esme deixou pronto. Ou… só companhia no sofá.

Renesmee sorriu de leve, virando o corpo para ele e se aconchegando em seu abraço frio, mas sempre acolhedor.

— Só companhia. Acho que é tudo de que eu preciso agora.

Ele a abraçou mais apertado, beijando o topo de sua cabeça.

— Então terá. Sempre terá.

E ficaram ali, por alguns minutos, no silêncio que só quem se ama profundamente consegue partilhar.