A humanidade de Renesmee

8 Cansaço e Consolo


Ao final do terceiro dia de treinamentos, Nessie subiu as escadas devagar, sentindo o corpo mais pesado do que o normal. Entrou em seu quarto, fechou a porta com um suspiro e encostou-se à parede. Deslizou até o chão com os olhos fixos no teto.

— Eu quis isso, não é? — murmurou para si mesma. — Quis viver como humana... ter experiências reais. Mas ninguém me contou que ser estudante era tão exaustivo.

Ela olhou para os livros abertos sobre a escrivaninha: cadernos coloridos, folhas com anotações de Emmett sobre Educação Física ("nunca derrube ninguém"), marcações de Alice em textos literários ("leia com emoção, não com olhos de vampira") e rascunhos de história com comentários de Jasper ("não tente corrigir o professor se souber algo de verdade").

Apesar de tudo, o que mais a preocupava era a pilha de folhas no canto direito da mesa: seu simulado de conhecimentos gerais, agendado para o dia seguinte.

Era um teste completo, cobrindo matemática, português, física, química, geografia, história e até atualidades.

Ela tentou revisar um tópico de física, mas ao ler sobre força centrípeta e leis de Newton, seus olhos começaram a arder. As palavras embaralhavam, os gráficos pareciam dançar na página.

— Isso não entra na minha cabeça! — exclamou, jogando o caderno sobre a cama com um som abafado.

Sentou-se na beirada, pressionando as têmporas com os dedos. A exaustão não era física — era mental, emocional. Ela não estava acostumada com limites, com falhas. E isso a assustava.

Foi nesse momento que a porta se abriu suavemente, sem ruído. Edward apareceu, com um semblante calmo, mas atento.

— Posso entrar, pequena?

Ela fez que sim, sem levantar o rosto.

Ele se aproximou e sentou-se ao lado dela, respeitando o silêncio por alguns instantes.

— Está difícil, eu sei — disse, com a voz baixa. — Você está sendo desafiada de todos os lados: corpo, mente, comportamento... E tudo isso em nome de um desejo muito simples.

— Eu só queria pertencer — sussurrou Nessie, enfim deixando algumas lágrimas rolarem. — Mas tudo parece maior do que eu. Ser normal é muito mais difícil do que eu imaginei. E física... física é impossível.

Edward sorriu com ternura e passou um braço ao redor dos ombros da filha.

— Você está fazendo algo que nenhum de nós teve que fazer. Está tentando viver entre dois mundos, sem negar nenhuma das partes que te compõem. Isso é... incrivelmente corajoso.

— Mas e se eu não for boa o suficiente? E se eu não conseguir fingir ser humana por tempo suficiente? E se eu usar minha força de novo sem querer? E se eu não entender as aulas? — as palavras saíam em fluxo, sem controle, como se há dias estivessem presas.

Edward a puxou para um abraço firme, silencioso.

— Ser bom o suficiente não significa não errar — ele disse, após um tempo. — Significa continuar tentando mesmo quando está difícil. E quanto a física... posso te contar um segredo?

Ela o olhou, desconfiada.

— Nem eu entendo aquelas fórmulas todas.

Ela riu entre as lágrimas, aliviada por um momento.

— Mentira.

— Verdade. Carlisle tentou me ensinar física quântica em 1923. Quase fugi pra Itália só pra escapar das aulas.

Ela encostou a cabeça no ombro do pai.

— Acha que eu vou conseguir?

— Com certeza. Porque você não está sozinha. Todos nós estamos aqui — mesmo com buzinas e regras irritantes — porque acreditamos em você. E você ainda tem algo que nenhum de nós teve no começo: o apoio de toda uma família de vampiros meio malucos, mas totalmente apaixonados por você.

— Menos o Emmett... ele quer me transformar numa atleta olímpica.

— Ele só está tentando te preparar do jeito dele. E amanhã... você vai fazer esse simulado. Vai se sair bem ou não — e tudo bem. O importante é que você vai aprender.

— Promete que fica comigo essa noite? — pediu, baixinho.

— Prometo. E sem buzinas.