A coragem de encontrar-me

16 Capítulo 15: Heróis também precisam de terapia


Notas iniciais
POV Link

Sinto como se estivesse sendo esmagado contra o chão e as paredes, mas não existem chão ou paredes. Sou lançado no vazio, e ventos fortíssimos me atravessam ao mesmo tempo em que me afogo em um mar revolto. A sensação dura uma eternidade e mesmo assim termina em um instante. De alguma maneira, consegue ser milhões de vezes pior do que a experiência de usar o teletransporte entre as torres Sheika.

Vagamente, o mundo se materializa ao meu redor. No segundo seguinte volto a me sentir sólido e caio ajoelhado no chão em um baque surdo. Tomado pela náusea, a primeira coisa que faço é vomitar exatamente onde eu surgi. Balanço a cabeça e bato no meu próprio rosto tentando ficar mais consciente. Olho ao redor, assustado, e noto que funcionou. Bem, eu não estou mais em uma das portarias do Castelo de Hyrule, pelo menos. Se estou no lugar — e no tempo — correto, é um outro ponto.

Estou agachado ao lado de uma pequena casa de madeira. Está chovendo intensamente, e o vento faz com que eu fique encharcado em poucos segundos. Aproveito toda essa água para bochechar e limpar minha boca.

— Droga, o chão está ficando molhado, esqueci a janela aberta — uma voz masculina reclama de dentro da casa. Sem compreender o motivo, sinto que, apesar de nunca ter ouvido essa voz antes, eu deveria conhecê-la.
Percebo, ao ouvir os passos, que estou do lado da dita janela. Prendo a respiração, torcendo para que ele não olhe para baixo. O herói do Tempo foi bem explícito quanto ao fato de que eu não deveria ser visto por ninguém durante a jornada.

”Você irá para estes lugares apenas para resgatar o conhecimento que foi perdido. Temos uma chance de resolver aquele antigo problema. Se você alterar o curso da história — criando mais uma maldita ramificação na linha do tempo — pode ser que percamos essa oportunidade.”

Antes que eu pudesse perguntar algo, ele prosseguiu:

”Passei milhares de anos com essa Ocarina. Tive tempo de sobra para aprender como as canções são criadas e como funcionam” — concluiu e então me ensinou uma segunda melodia. — ”Chamo essa de Ode ao Oculto. Toque-a assim que chegar ao seu destino, e ficará invisível por algumas horas.”

Coloco a mão no bolso e confirmo, com alívio, que a Ocarina ainda está comigo. Mas não posso tocá-la ainda, ou seria ouvido por este estranho. Aguardo, tenso, enquanto ele se aproxima.

— Hylia já deve ter voltado e está tentando afogar os demônios novamente — pondera em voz baixa, conversando consigo mesmo. — Preciso retornar logo, ela deve estar precisando de ajuda.

Suas palavras aumentam minha confusão, mas não tenho tempo para pensar nelas agora; tenso, vejo que ele se debruça no beiral da janela por alguns instantes, assistindo a tempestade. Ele parece focado em algum ponto distante no horizonte e não se vira na minha direção. Eu, por outro lado, aproveito que está distraído e cedo à curiosidade de observá-lo.

De novo sou atingido pela estranha sensação de familiaridade. Tenho certeza de que nunca vi esse homem antes… só que também tenho a mais absoluta certeza de que o conheço. Me pergunto se ele, por acaso, também não seria um Link. Mas não sei se é isso. Ele é mais velho do que os outros que conheci, aparentando já ter passado dos 30 anos. Seu cabelo é um tom mais escuro de loiro e é comprido, como se ele não se desse ao trabalho de cortá-lo. Percebo que ele tem a barba por fazer e o rosto firme e anguloso. É quase como se ele fosse uma versão mais… intensa de todos nós.

A chuva começa a abrandar um pouco e o vento para.

— Hm, acho que vai dar pra passar lá ainda hoje — diz, endireitando a postura. Assisto enquanto ele prende o cabelo em um coque desleixado e se afasta, esquecendo, novamente, a janela aberta.

Espero até que não seja possível ouvir seus passos. Toco o Ode ao Oculto, torcendo para que ele não me ouça, e percebo, fascinado, que meus braços desaparecem na minha frente. Tudo o que eu estava vestindo ou segurando também fica invisível. Vai ser um pouco difícil de me movimentar sem conseguir me perceber e vou depender do tato para reconhecer minhas ferramentas.

Fico em pé e olho para dentro da casa através da janela. Não é um cômodo muito grande, e parece ser uma sala de estar e jantar. Me iço pela abertura e entro silenciosamente, me movendo devagar. Caminho até a mesa e vejo que existe um grande caderno aberto sobre ela. Curioso, me inclino para ler o que está escrito. Preciso chegar muito perto, pois a letra dos textos contidos nele é muito pequena. Percebo que a entrada deve ter começado em alguma página anterior, mas não quero encostar em nada, então começo a leitura a partir da metade.

aumentando. Hylia está cada dia mais preocupada. Eu ainda estou confiante de que conseguiremos, mas a incerteza já começou a aparecer em meus pensamentos. Já sofremos quatro ataques e conseguimos destruir as hordas de Demise, mas cada vez com mais baixas. Ela acha que não suportaremos um quinto, já que ele está aumentando a intensidade das investidas a cada tentativa. Não sabemos quão forte é seu poder nem qual é o tamanho de seus exércitos.

Hylia decidiu permanecer aqui ao invés de retornar para o Domínio Sagrado, como de costume, até que consigamos controlar essa ameaça. Demise nunca disse o que quer, mas, considerando os postos onde atacou, acreditamos que ele está tentando descobrir onde está a entrada para o Domínio Sagrado para que possa tomar posse da Triforce. Hylia acha melhor lutar contra ele aqui do que esperar até que ele consiga entrar lá. Cada ataque se aproximou mais do Templo onde está o portão que permite a entrada.

Ela diz que se ele conseguir alcançar a Triforce será o fim de todos nós. Concordo com ela. Demise apresentou apenas uma sede intensa por poder, sem se preocupar com a destruição que causa por onde passa. Hylia disse que apenas quem tem as qualidades de Poder, Coragem e Sabedoria balanceadas dentro de si pode usar o poder da Triforce. O problema é que, além de poderoso, Demise parece apresentar estas outras características — afinal, é necessário ter muita Coragem para resolver enfrentar uma deusa, e Sabedoria para conseguir arquitetar um plano capaz de derrotá-la.

Hylia é a guardiã da Triforce. É sua responsabilidade garantir que a relíquia nunca caia em mãos erradas. Durante muitas eras não houve problemas. Ela recebia as orações dos líderes dos povos, e pesava quais deles tinham boas intenções e um coração sincero. Os que passassem em seu crivo eram julgados dignos de entrar no Domínio Sagrado para realizar um pedido em benefício de seu povo. Eles precisavam acessar essa esfera, uma vez que, ainda que a Triforce tenha sido criada pelas deusas, ela nunca pode ser usada por uma.

Por muito tempo este arranjo funcionou bem e os povos prosperaram. Hylia viveu no Domínio Sagrado, à beira do próprio Tempo, pela maior parte da sua existência, cuidando da Triforce e recepcionando os escolhidos. Ela nunca tinha vindo até aqui antes do surgimento de Demise, e disse que não sabe como ele foi criado. Não foi ela nem nenhuma das outras três deusas. Ela está preocupada de que ele será capaz de utilizar a Triforce para desejar pela destruição do mundo.

Hylia desceu até aqui pela primeira vez depois que ouviu muitas orações simultâneas sobre o mal que tinha começado a assolar as terras. Isso aconteceu há alguns anos. Pela primeira vez, notou que não conseguiria auxiliar a partir do domínio onde estava. Foi quando a conheci. Ela pediu a todos os líderes que reunissem seus exércitos para que pudéssemos combater a ofensiva de Demise. Ela disse que iria lutar junto conosco, usando seu Poder de Luz para tentar obliterar a escuridão trazida por aquele demônio.

Todos concordamos em lutar. Não tínhamos outra opção. Eu era o líder do exército do pequeno reino onde morava, e, depois de nossa primeira reunião, passei a treinar os jovens soldados com o triplo de intensidade. Até agora, Hylia vinha até nós apenas para discutir estratégias de defesa e para, efetivamente, lutar ao nosso lado durante os ataques. No entanto, com a aproximação da ameaça ao local onde está o portal para o Domínio Sagrado, ela decidiu permanecer aqui até que erradiquemos Demise.

Eu sou o único, fora ela, que sabe onde fica esta entrada. Normalmente, ela concede este conhecimento aos escolhidos somente quando eles se dirigem até lá para realizar o pedido. Uma vez feito, ela apaga suas mentes para que não se lembrem onde está o portal. Todavia, nos últimos anos, Hylia e eu nos tornamos muito próximos. Depois das reuniões, eu ficava mais tempo mesmo depois de todos os outros terem ido embora, discutindo estratégias com ela. Eventualmente, ela começou a confidenciar suas preocupações e segredos comigo. Eu me sentia fascinado com cada palavra que saia de sua boca e assistia a cada movimento que fazia. Tarde demais, percebi que a amava.

Infelizmente, mesmo enquanto em sua forma “materializada”, Hylia não podia ser tocada por outros mortais, por ainda ser uma deusa. Uma vez, tentei encostar em sua mão; as pontas de meus dedos queimaram ao menor toque.

Mas não importa. Estar ao seu lado é mais que suficiente para mim. Eu faria qualquer coisa por ela.

Hylia partiu para o Domínio Sagrado uma última vez antes de retornar para sua estadia mais longa aqui, para fazer o que chamou de “últimos preparativos”. Enquanto isso, retornei para minha casa para escrever estes parágrafos, pois não sei quanto tempo mais teremos. Espero que, no pior dos cenários, pelo menos a história sobreviva. Depois que ela retornar, não pretendo deixar seu lado em nenhum momento, até o fim.

A entrada termina assim, abruptamente. Percebo, então, que estou no lugar certo. A Era onde Hylia ainda caminhava sobre a terra. Minha cabeça dói com a quantidade de informações que aprendi. Me questiono, intrigado, como tudo isso se relaciona à minha história e de Zelda, ou à ameaça da qual a árvore Deku me alertou.

Vejo que o homem volta para a sala onde estou, mas não percebe minha presença. Dou um passo para trás, silenciosamente, e assisto ele pegar o caderno que eu estava lendo e guardar em uma bolsa grande. Vejo que é uma mala cheia de roupas, e que ele também carrega uma outra cheia de armas. Pega uma espada comum, um arco e uma aljava e os equipa. Escolhe também um escudo.

Por fim, equipado e carregando suas malas, ele sai da casa — e eu sigo em seu encalço silenciosamente. Se dirige para um cavalo cor de chocolate com crina branca que parece olhar diretamente para mim, com uma expressão confusa — se é que cavalos podem ficar confusos. Percebo que a chuva parou.

— Está olhando para o quê, Epona? — ele pergunta, com carinho na voz. Então se vira para onde ela está olhando — na minha direção — mas seu olhar passa direto por mim e olha para o cenário às minhas costas. Também me viro e a cena faz meus joelhos fraquejarem. Muito similar ao dia em que a Calamidade atacou, enxergo, à distância, muitos vilarejos destruídos e ardendo em fogo. Olho novamente para o homem e sua expressão é de ódio e determinação.

— Isso termina hoje — determina. Monta no cavalo e parte em disparada.

Sabendo que não conseguiria alcançá-lo, simplesmente me sento no chão, subitamente exausto, e assisto à destruição diante de mim. Entendo que, de alguma maneira, aprender sobre a batalha para a qual ele está se dirigindo é algo fundamental. Mas, vendo que não tenho mais nada a descobrir aqui agora, pego novamente a Ocarina e toco a Canção do Tempo, me concentrando de volta à portaria onde estava, na minha era.

— — -

Um pouco mais preparado para as terríveis sensações de viajar através do tempo, dessa vez, quando caio de volta em Hyrule, consigo ao menos não vomitar. Satisfeito, constato que voltei exatamente para o mesmo ponto onde estava quando toquei a Ocarina pela primeira vez. Epona parece nem perceber que eu me ausentei.

Me recosto na parece, ainda zonzo. Pondero o que eu devo fazer agora. Poderia ir direto para o segundo lugar que os Links instruíram — que, entendo agora, provavelmente é para onde aquele homem estava indo quando partiu com a sua Epona. Mas estou exausto e ainda me sentindo fraco pela viagem.

Decido esperar alguns dias antes de prosseguir. Ainda está escuro, então me deito no chão, usando a bolsa como travesseiro. Partirei para Kakariko amanhã cedo, para compartilhar minhas descobertas com Impa.

Gostaria de contar tudo isso para Zelda; mas assim que penso nela, me lembro de que agora ela está com Tauro. Odiando a mim mesmo por ter partido, sinto meus olhos arderem. Sabendo que estou sozinho, permito que as lágrimas escorram silenciosamente pelo meu rosto, e adormeço pensando nela.