A coragem de encontrar-me
17 Capítulo 16: Você sente prazer em estragar tudo?
Notas iniciais
Completamente atordoada, não consigo dizer nada depois de ouvir as palavras de Tauro. Depois de tantos anos ele está de volta, tão subitamente quanto fugiu. E no pior momento de todos. Tauro me olha com preocupação e a tensão disfarçada no fundo dos seus olhos é insuportável.
— Como você está? — é sua primeira pergunta, no entanto. Apesar de saber o que o retorno de Link pode significar, sua prioridade ainda é com meu bem estar. Meu estômago revira.
— Não sei — respondo, honestamente. — Não pensei ele fosse voltar… nunca mais.
Tauro balança a cabeça, compreensivo.
— Zelda, eu… — começa, mas se interrompe e solta um suspiro triste.
Tenho um mau pressentimento, mas aceno para que ele continue.
— Eu adorei as últimas semanas. Você é incrível. Quando estamos conversando, as horas voam e parecem minutos. Mas eu… eu não tenho tempo nem energia para me envolver em um triângulo amoroso.
Fico aturdida e sem palavras por alguns segundos.
— O que você quer dizer com isso?
Tauro leva a mão à própria nuca, desconfortável, mas continua, me olhando nos olhos enquanto fala.
— Você claramente não superou ele ainda, Zelda. E quando era somente o fantasma dele entre nós, eu pensei que poderíamos lidar com isso. Mas agora ele está aqui, e, mesmo depois de anos, você está dividida. E eu quero me relacionar com alguém que esteja 100% envolvida comigo. Peço perdão por isso.
Mesmo sendo completamente compreensível e razoável o que ele me diz, me sinto traída — ele sabia da história antes de escolher se envolver comigo.
— Você está terminando comigo?
— Estou — diz, simplesmente.
— Mas… eu não entendo. É por causa de ontem? — disparo, magoada.
Vejo desespero em seus olhos ao ouvir minha acusação.
— Claro que não, Zelda! Se a questão fosse puramente física, eu esperaria anos, sem pensar duas vezes. Mas é nítido como a luz do dia que seu coração está com Link ainda. Você pode achar que não, mas eu percebi como sua expressão se iluminou ao ouvir as notícias — mesmo por baixo do susto inicial. E eu não vou… eu não quero competir contra isso.
Completamente atordoada, me levanto. Tauro também e se aproxima de mim.
— Sinto muito que tenha que ser assim. Mas eu mereço um relacionamento completo. Todos nós merecemos.
Assinto, sem saber o que dizer. Ele se aproxima mais, me puxa para um abraço, e deposita um beijo carinhoso no alto da minha cabeça.
— Espero sinceramente que vocês se acertem — fala baixinho e me afasta um pouco para que possa olhar meu rosto. — E, se não der certo e você conseguir superar, quem sabe a gente não tenta de novo? — Tauro ri.
— — -
Eu estou furiosa. Passaram-se quatro dias desde que meu mundo virou de ponta cabeça de novo. Quando todas as peças pareciam estar caindo nos lugares corretos, aquele MALDITO volta e derruba tudo mais uma vez. Pego meu travesseiro, aperto ele contra meu rosto e grito, despejando todo o meu ódio ali. Minha ira é tão intensa que deixo marcas queimadas onde minhas mãos apertam o tecido.
Alguém bate na porta. Olho pela janela e vejo que deve ser meio-dia. Depois que Tauro terminou comigo, vim direto para o chalé e fiquei aqui desde então — que minha fúria destrua a mobília ao invés de algum pobre desavisado.
— Zel? — a voz de Purah vem do lado de fora. — Estamos todos preocupados, já fazem dias que você não sai de casa.
— VAI EMBORA — grito, emburrada.
A porta se abre e Purah entra, ignorando minha ordem.
— Francamente, Zelda, já não passamos da fase das birras?
— Eu tenho o direito! — grito, incapaz de parar de surtar. — Estava tudo indo bem! Por que ele voltou, Purah? POR QUÊ?!
— Indo bem, Zelda? — sua expressão é de incredulidade. — Você passou quase cinco anos atravessando o reino como um zumbi. Tudo bem, sejamos justas, você trabalhou muito também; fizemos muito progresso em destruir as construções Sheika e os guardiões, estamos atraindo muitos turistas para o reino, movimentando a economia. Mas no âmbito pessoal você está um caco. Achei que Tauro fosse conseguir te ajudar a sair dessa, mas o coitado quase afundou junto! Ainda bem que ele teve o bom senso de se afastar.
— Você está dizendo que ninguém merece o peso de estar comigo? — rebato.
— Eu estou dizendo que passou da hora de você parar de terceirizar sua felicidade para outra pessoa.
Sento na cama. Purah sobe as escadas, senta ao meu lado e segura as minhas mãos.
— Sei que é difícil, Zelda. Mas é você quem escolhe como vai lidar com tudo o que a vida está jogando em cima de você. Link voltou e, querendo ou não, você vai precisar lidar com ele. Ele fez algumas descobertas que precisam ser discutidas com você também.
Meu coração imbecil dispara com a ideia de encontrá-lo novamente.
— Mas vamos nos manter profissionais e civilizados, sim? Primeiro descubra quem você é antes de querer embarcar em um relacionamento com ele de novo.
Bufo, frustrada.
— Eu estou tentando descobrir! As memórias não vêm, Purah.
Ela dá um sorriso enigmático.
— Eu acho que isso está prestes a mudar.
— Como assim?
— Apenas uma teoria que estou formulando com base no que observei.
Antes que eu consiga pedir mais informações ela finaliza:
— Vou voltar pro laboratório. Termine de se recompor hoje. Amanhã cedo passo aqui para irmos até Kakariko. Todos nós precisamos nos reunir para discutir o que está acontecendo.
Resignada e em silêncio, assisto ela descer as escadas e sair do chalé. Exausta, deito na cama e me perco em pensamentos. Antes que eu me dê conta, adormeço.
— — -
— Por que você está se incomodando tanto com isso, Hylia? — uma voz diz enquanto eu flutuo desesperada de um lado pro outro.
— Ele vai destruir tudo, Nayru! — exclamo, frustrada.
Estou dentro do Domínio Sagrado e a Triforce flutua, etérea, ao fundo. Nayru, assim como eu, não se apresenta em forma material aqui e parece mais uma bola de energia; ela, reluz em um tom azulado, e eu, em dourado.
— E qual o problema, Hylia? — questiona Din; sua energia, avermelhada. — Esse é só mais um dos muitos mundos que criamos em diferentes dimensões. Se ele destruir, a gente faz outro.
— Vocês não entendem — suplico. — De todos os mundos que vocês já criaram, esse é o mais harmônico. Nenhum outro prosperou tanto!
— Olha a coragem na hora de mentir — rebate Farore, esverdeada. — Prosperidade nada, isso tudo é por causa daquele hylian que te segue feito um animal de estimação.
Oscilo ao pensar nele, mas me recomponho rapidamente.
— Claro que não! Eu amo aquele lugar e não quero ver esse demônio destruir tudo o que eu construí junto com o povo ao longo de tantos milênios!
— As coisas terminam, Hylia. Isso já aconteceu milhões de vezes e vai continuar acontecendo. É o ciclo natural dos mundos. A gente cria, eles prosperam; como colateral surge uma energia destrutiva, ele decai e finaliza. E repetimos. É simples e natural — reforça Nayru, com toda sua insuportável sabedoria.
— EU SEI DISSO. Ainda não, Nayru! — peço, desesperada. — Esse mundo ainda é muito jovem, tem poucos milênios de idade! E já evoluiu tanto, em tão pouco tempo. É um desperdício isso!
— Hylia, você sabe que quando aquele hylian morrer você nunca mais vai vê-lo, certo? Sua essência vai voltar para o tecido do universo, como deve ser. Qual o sentido de colocar tanta energia apenas para evitar isso por mais algumas décadas? — pergunta Din, genuinamente curiosa.
— E outra coisa: a gente estava mesmo querendo materializar uma raça nova que estamos desenvolvendo. São como hylians, mas híbridos com dragões! — anuncia Farore, animada. — Pensamos que iríamos ter que esperar mais alguns milênios até esse reino decair e abrir espaço para eles descerem. Mas se tudo for destruído agora, vai liberar energia para que possamos criar um mundo novo e estrearmos eles!
Como elas podem sequer pensar nisso?
— Ainda não — declaro, irritada. Um plano começa a se formar em minha mente. Minha energia de luz não tem tido efeito algum quando atinge Demise por fora — sua couraça é muito dura e espessa. Mas se conseguisse atingi-lo por dentro…
Concentrada, começo a criar, a partir de pura luz, uma espada. Sua lâmina está imbuída do meu poder. Ela não é muito grande; não tenho força o suficiente para convocar tantas partículas materiais carregadas de energia divina. Se as outras deusas me auxiliassem, poderíamos criar algo muito melhor. Mas, claramente, elas não querem se envolver nisso. Essa luta é minha.
Satisfeita, vejo a espada terminar de tomar forma. Ela não é grande coisa… mas acredito que será suficiente. Quão poderoso pode ser esse demônio, afinal?
Acordo assustada, com o coração disparado. Olho para fora e constato, pela altura da lua, que é o meio da madrugada. Tento entender o sonho, que mais me pareceu uma memória. Mas eu presenciei tudo a partir do ponto de vista de Hylia e isso significaria que…
Balanço a cabeça, dispersando a ideia insana. Isso não faria sentido nenhum.
Foco em outros aspectos do sonho. A voz que ouvi, sem ser as das outras deusas, era a mesma que falou comigo na Fonte em Faron, o que confirma que foi Hylia quem entrou em contato comigo ali. Talvez ela tenha tentado me apresentar uma de suas memórias.
Também reconheci a espada. Era a mesma que vi quando estava falando com Fi dentro da Master Sword. O mesmo cabo turquesa, a mesma lâmina branca com detalhes bonitos gravados nela.
Decido escrever tudo isso para não esquecer os detalhes. Quando termino, já está amanhecendo. Meu estômago se retorce ao lembrar da promessa de Purah de que iríamos todos nos encontrar em Kakariko hoje. Tudo indica que ele também estará lá. De súbito, me levanto e começo a me arrumar. Visto minhas calças de montaria e a surrada blusa branca e azul que sempre visto quando estou em campo. Arrumo meu cabelo, que tenho mantido curto — realmente é muito mais fácil de cuidar —, e prendo a trança que uso como se fosse uma tiara. Impulsivamente, passo um perfume que comprei em Gerudo.
Sem saber o que fazer em seguida, coloco meu caderno na bolsa e decido ir até a casa de Purah. No entanto, assim que abro a porta do chalé, vejo que ela já estava me esperando e terminando de selar meu cavalo.
— Acordamos cedo hoje, hein? — diz, com um sorriso sugestivo. — Que cheiro é esse? É o perfume com feromônios que as Gerudo usam para atrair hylians indefesos?
Minhas bochechas queimam e eu fico defensiva.
— Eu gosto do cheiro de baunilha e queria ajudar o comércio local.
— Sim, comércio local, claro — Purah revira os olhos. Na sequência, fica séria. — Só tenta não esquecer o que falamos ontem, Zel. Você vai ter mais energia pra romance mais tarde, depois que conseguir se resolver.
Suspiro, sabendo que ela está certa. Resolvo mudar de assunto.
— Acho que acessei uma memória nova nessa madrugada.
Satisfeita, vejo o rosto dela se iluminar.
— Eu sabia que isso ia acontecer! — saltita, batendo palmas. — Agora sim, progresso! Me conta tudo! Ou melhor, não fale nada! Quero descobrir junto com o restante do pessoal em Kakariko. Agora estou ansiosa para chegar lá logo, vamos, vamos, vamos — apressa, me empurrando para o meu cavalo.
— — -
Chegamos em Kakariko pouco antes do meio-dia. Purah não parou de falar nem por um minuto durante toda a jornada, desfiando as novas descobertas que tinha feito em conjunto com Tauro em relação às tecnologias ancestrais. Curiosamente, ouvi-la falar sobre ele não causava nenhuma reação em mim. Talvez ele tenha razão; nossa conexão provavelmente é puramente a de bons amigos.
— Estamos próximos de entender como o teletransporte funcionava entre as torres antigas e a Tela Sheika. Acho que vamos conseguir replicar isso pro Purah Pad. Parece que o segredo está no pedestal que tinha nas torres, e não no cristal como imaginávamos antes — me informa. — Tudo indica que ele servia mesmo apenas para escanear a região e alimentar o mapa. Precisamos pensar em uma solução de como vamos carregar o mapa do Purah Pad agora, mas isso é um problema para a próxima etapa.
Aceno concordando, sem conseguir prestar muita atenção no que ela está falando. Estamos paradas em frente à escadaria da casa de Impa, depois de desmontar nossos cavalos. Vejo que a Epona, a égua que costumava pertencer a Link, já está presa na cerca ao pé da escadaria. Meu coração dispara na mesma hora, as palmas das minhas mãos ficam suadas em segundos e minha respiração se descontrola.
— Zelda, vai dar tudo certo — Purah garante, me reconfortando.
— Eu sei. Vai subindo, Purah. Vou me acalmar primeiro. Já entro.
— Ok. Te aguardaremos para começar.
Assisto enquanto ela sobe as escadas e entra na residência, sem olhar para trás. Como está na hora do almoço, Dorian e Cado não estão aqui a postos. Já faz muitos anos desde que tivemos qualquer ataque dos Yiga, então a vigilância por aqui está mais leve e eles fazem seu almoço no mesmo horário.
Respiro fundo, tentando me acalmar e tomando coragem para subir até a casa de Impa — e reencontrar Link. Mas, obviamente, nada nunca pode ser como eu planejo. Então escuto sua voz, tão familiar, vindo de algum ponto atrás de mim.
— Zelda? — ele diz e meu coração pula uma batida. Me viro lentamente, tentando manter a compostura, como se esse momento não significasse absolutamente nada demais para mim.
Preciso me conter quando meus olhos encontram com os seus. Imediatamente o ar fica carregado de energia, de palavras não ditas, de mágoas e expectativas — e, percebo frustrada, desejo.
Link não mudou nada e, ao mesmo tempo, mudou muito. Seu rosto está adulto, não mais o de um adolescente. Vejo que agora existe uma sombra em seu maxilar, onde deve crescer a barba que ele parece manter aparada.
Ficamos alguns segundos em silêncio, nos encarando.
— Você voltou — digo, reafirmando o óbvio.
Ele acena hesitante, concordando.
— Voltei.
— Encontrou o que estava procurando? — questiono e me surpreendo com a acidez na minha voz. Assisto ele passar a mão no cabelo, desconcertado. Acho reconfortante ver que ele não perdeu esse pequeno hábito.
— Um pouco, sim. Passei anos sem fazer muito progresso… e, quando fiz, entendi que teria que voltar pois as respostas estão em mim… e em você — conclui, envergonhado.
— Então eu sou apenas uma ferramenta para você terminar sua jornada? — rebato, irritada.
— Não, Zelda, eu… Eu acho que isso tudo é muito maior do que a gente — diz, gesticulando exasperado. — E acho que precisaremos dos dois lados da história para entender tudo.
Reviro os olhos, ressentida.
— Vamos entrar? — pergunta, desconcertado.
— Vai você primeiro. Preciso pensar um pouco antes de revelar o que descobri até agora.
Fale com o autor