A coragem de encontrar-me
15 Capítulo 14: Um espécime exemplar
Notas iniciais
Tauro passa a mão pelo meu rosto em um carinho confortável.
— Preciso ir, tenho que passar no laboratório ainda pela manhã. Purah pediu minha ajuda para tentar resolver alguma coisa sobre a “lógica do teletransporte” e como “integrar isso com o Purah Pad”, seja lá o que for que significa isso — diz, em tom brincalhão.
Balanço a cabeça em concordância, e ele se levanta para ir até à porta. Abre-a, mas, quando está prestes a sair, eu o interrompo.
— Tauro… espere — me levanto e vou até ele. Ainda estou de pijama, mas o chalé fica em um canto recluso do vilarejo, então acredito que não haverá nenhum vizinho curioso olhando nessa direção.
Ele para e me observa, com um sorriso em seu rosto. Ele está sempre sorrindo, deixando qualquer ambiente leve. Alcanço-o na soleira da porta.
— Me desculpe por ontem — falo timidamente, em voz baixa. — Achei que estava pronta, mas… não consegui.
Tauro balança a cabeça, como se eu estivesse falando um absurdo.
— Zelda, eu adorei cada segundo de ontem. Poderia ouvir você falar por horas e horas… foi maravilhoso. Não se preocupe com nada. Avançaremos apenas quando — e se — você se sentir confortável — me conforta, preocupado com meu posicionamento. Também fala baixo, como se compartilhássemos um segredo.
Fico ruborizada ao ouvir suas palavras. Levo minha mão direita até o braço dele, e escorrego ela lentamente até segurar sua mão.
— Obrigada — dou um sorriso leve. Ele retribui, sorrindo também. Em um gesto que se tornou rotineiro entre nós nas últimas semanas, ele se abaixa e me dá um leve beijo nos lábios.
Nesse momento ouço um baque surdo, como se algo tivesse caído. Tauro franze a testa, preocupado.
— Ouviu alguma coisa? — pergunta em tom um mais alto.
Espero alguns segundos, prestando atenção, antes de responder.
— Acho que foi só o vento.
Ele dá de ombros, volta a sorrir e termina de se despedir de mim.
Assisto ele se afastar e parar no meio da ponte, olhando ao redor, confuso. Vejo que seu olhar se demora um pouco na direção da árvore. Curiosa, olho também; mas não enxergo nada anormal — deve ter sido somente alguma fruta ou galho que caiu. Tauro volta a caminhar e eu entro no chalé, fechando a porta atrás de mim. Me encosto na porta como uma adolescente e me perco em memórias.
Passaram-se pouco mais de três meses desde o dia em que nos conhecemos na Fonte Sagrada, em Faron. Logo depois que ele me resgatou do quase afogamento, Purah entrou correndo na câmara.
— Zelda, você está bem? Pensei ter te ouvido gritar, mas depois não ouvi mais nada então me distraí e… opa, quem é seu amigo?
Sentando rapidamente, endireito a postura.
— Oi, Purah, este é Tauro. Acabei de conhecê-lo… ele impediu que eu me afogasse na fonte.
Purah observa a lagoa e franze o cenho — sua profundidade mal deve passar de um metro — depois olha para mim. Em seguida, dá de ombros; como se o fato de eu me afogar em uma tigela não a surpreendesse.
— Prazer em conhecê-lo, sou Purah, uma das cientistas de Hyrule — diz, se dirigindo a Tauro. — Obrigada por salvar a princesa.
— Princesa? — Tauro fica confuso.
Faço uma leve careta, assentindo.
— Sim… sou a Princesa Zelda, de Hyrule.
Ele imediatamente faz uma reverência, olhando para o chão.
— Desculpe, alteza, eu não sabia que estava em frente a um membro da realeza. Deveria ter estudado mais sobre essas terras antes. Não imaginei que nessa região remota iria cruzar com alguém da realeza.
— Não, não, por favor — insisto. — Isso é só um título, não significa nada… praticamente nem existe reino.
Tauro me encara, ainda sem compreender.
— É uma longa história — digo, e me vejo querendo contar tudo para ele. — Se nos acompanhar de volta a nossa cidade, podemos te explicar.
Purah me encara com curiosidade, após eu dizer isso. Rapidamente acrescento:
— E, em troca, você pode contar mais sobre sua profissão para nós. Purah, ele é historiador e conhece o folclore aqui da região… coisas que nem nós sabíamos… ele deve conseguir nos auxiliar a entender mais sobre as tecnologias ancestrais.
Se Purah estava intrigada com alguma coisa, seu interesse enquanto cientista falou mais alto depois disso.
— É mesmo? — disse com intensidade.
Tauro, então, nos acompanhou de volta a Hateno. Durante o caminho, contamos a ele sobre toda a história da Calamidade. Ele, por sua vez, nos contou o pouco que sabia sobre a tribo perdida de Faron — conhecida como Zonai — e mais algumas curiosidades que tinha aprendido sobre a região antes de chegar em Hyrule.
Em poucos dias, Purah, satisfeita com o conhecimento enciclopédico que ele carregava em seu cérebro, o convidou para integrar a equipe de pesquisadores.
— ”Melhor que ter que ficar lidando com aquele velho babaca do Robbie.” — constatou. — ”E bem mais agradável de se olhar também, não?” — completou, com um sorriso sugestivo.
Em pouquíssimo tempo, Tauro conquistou todos ao seu redor. Era gentil, engraçado, inteligente e muito viajado. Tinha muitas histórias para contar de todos os lugares por onde passou e todas as diferentes culturas que conheceu.
Conversar com ele era fácil, leve. Ele conseguia passar de uma anedota leve e hilária para uma discussão profunda e filosófica em poucos segundos, sem esforço algum. Várias vezes, me peguei fascinada ao ouvir ele falar.
Surpreendi a mim mesma quando, depois de quase dois meses desde o dia da fonte, inesperadamente o convidei para “sair”. Eu precisava ir até Kakariko, conversar com Impa sobre a Triforce, conforme a voz me instruiu em Faron. Purah estava ocupada com suas pesquisas e não poderia me acompanhar.
— “Mas Tauro não está fazendo nada de urgente hoje” — insinuou. Sem raciocinar, perguntei se ele não poderia me acompanhar na viagem. Ele aceitou sem hesitar.
Partimos pouco depois. A princípio, ficamos em silêncio, ambos tímidos. Era a primeira vez que ficávamos a sós, desde Faron. Mas poucos minutos depois, já estávamos falando como se nos conhecêssemos há anos. Nem me lembro quem iniciou o assunto. Com Tauro era assim: fácil. Estar ao lado dele era confortável. Diminuía a cacofonia constante do meu cérebro.
E foi assim que, depois de falar com Impa e aprender o que ela tinha a dizer sobre a Triforce, no caminho de volta a Hateno eu me abri com ele sobre Link e nossa história complicada. Quando eu terminei de contar tudo o que aconteceu, ele assentiu e disse apenas:
— Sinto muito. Não deve ter sido fácil para nenhum de vocês.
Quando chegamos de volta ao chalé — ele fez questão de me acompanhar até a porta de casa — e desmontamos dos cavalos, ficamos alguns segundos desconcertados e sem saber o que fazer em seguida.
Tauro falou primeiro.
— Obrigado pelo dia. Foi um prazer acompanha-la até Kakariko. E… obrigado por confiar sua história a mim. Você passou por muita coisa que nenhum ser vivo deveria ter que enfrentar.
Um nó se forma em minha garganta e fico comovida com sua empatia.
— Se… — ele prossegue, mas se interrompe e enrubesce por baixo da pele bronzeada. Noto que ele respira fundo antes de começar novamente. — Se não for muita ousadia da minha parte… Zelda… eu gostaria de te beijar.
Fico surpresa com a confissão. Depois de Link, eu não pensei muito em romance, e, quando pensava, as fantasias giravam em torno dele. Franzo a testa, me perguntando ”Por que não?”. Tauro tinha a idade próxima a minha, sendo apenas poucos anos mais velho. Era muito inteligente, divertido e fácil de conviver. E, de quebra, ainda era muito bonito, com seu corpo alto e musculoso e cabelo ondulado.
Não digo nada, mas assinto timidamente olhando em seus olhos, consentindo. E, quando ele me beija, é… agradável e confortável. E eu me odeio por comparar a experiência com minhas memórias de Link, onde foi tudo tão explosivo.
Mas, apesar de não ser tão intenso, ainda assim foi bom. E Link partiu e provavelmente não vai mais voltar. E mesmo que voltasse, não sei se eu gostaria de me envolver novamente com ele após fugir e nunca mais dar notícias. Tauro está aqui agora e é doce, gentil e se preocupa comigo.
Decidi, então, dar uma chance ao relacionamento. Não discutimos rótulos mas, desde então, temos passado muito tempo juntos. Em público, mantemos certa distância. Sei que Purah percebeu que existe algo acontecendo, apesar de eu não ter falado com ela sobre isso ainda. Ela sempre nos encara com curiosidade e uma sutil satisfação, mas também não se pronunciou sobre o assunto, nos dando espaço.
Quando Tauro e eu estamos a sós, passamos nosso tempo conversando sobre tudo e qualquer coisa. E nos beijamos — muito — mas nada além disso. Até ontem, quando o convidei para jantar comigo no chalé.
Julguei estar pronta para estreitar ainda mais nossa relação. Mas quando os beijos ficaram mais intensos, e seus lábios desceram para o meu pescoço, e suas mãos começaram a passear pelo meu corpo, fui nocauteada pelas memórias de Link.
Afastei Tauro imediatamente, me desculpando. Sem conseguir entender o porquê, senti meus olhos ardendo e precisei refrear as lágrimas. Ao perceber, ele me puxou para seus braços, em um abraço acolhedor.
— Ei, ei, ei — disse, preocupado. — Não precisa se desculpar — garantiu, e me deu um beijo no topo da minha cabeça. Descansei ela em seu ombro. Ele passou o polegar pela minha bochecha, espalhando as lágrimas que escaparam. — A gente não precisa fazer nada, Zelda.
Dei um suspiro triste, e ficamos naquela posição por alguns minutos.
— Vamos falar de outra coisa — sugeriu, com um sorriso suave. — Vai, me conta mais sobre os sapos diferentes que você leu na enciclopédia — pede, mudando de assunto. E passamos a noite assim, conversando sobre banalidades. Em algum momento, adormeci em seus braços, e tive um sono tranquilo e sem sonhos.
De volta ao presente, tento decidir o que farei no dia de hoje. Tauro vai passar o dia auxiliando Purah, e as obras de demolição das estruturas Sheika aqui da região de Hateno já terminaram há algumas semanas. A equipe de voluntários ainda está decidindo qual para região irão em seguida e se organizando para iniciar a jornada.
Decido rever as anotações que fiz sobre a tal Triforce no dia em que visitei Impa. Confesso que não prestei muita atenção no que ela estava falando, pois estava pensando em Tauro. Mas escrevi tudo o que ela disse em meu caderno. Depois de procurar pelo em todos os cantos, me lembro, irritada, que deixei ele no laboratório de Purah. Troco de roupa rapidamente, e saio do chalé.
Por um instante, sinto uma sensação estranha, como se alguém estivesse me observando. Procuro ao redor e não encontro nada anormal. Balanço a cabeça, dispersando a preocupação, e sigo meu caminho.
— — -
”No início, antes do tempo, dos espíritos e da vida, três deusas douradas desceram sobre o caos que era Hyrule. Din, a deusa do Poder; Nayru, a deusa da Sabedoria; e Farore, a deusa da Coragem.
Din, com toda sua força, cultivou a terra e criou o solo vermelho.
Nayru doou sua sabedoria à terra, e à presenteou com o espírito da justiça.
Farore, com sua rica alma, gerou todas as formas de vida que cumpririam tal justiça.
Após finalizar sua missão, as três grandes deusas retornaram à sua origem. E os sagrados Triângulos dourados permaneceram no ponto onde elas deixaram este plano.
Desde então, os Triângulos se tornaram a base para a providência do mundo. E o local onde eles residem se tornou o Domínio Sagrado.”
Releio a passagem que Impa citou para mim no dia em que conversamos sobre a Triforce. Ela disse que esse conto foi repassado de geração em geração por milênios, e passou a ser conhecido como o “Mito da Criação”.
— Muitas coisas se perderam ao longo dos anos — reclamou, decepcionada. — Nós, os Sheika e a família real, tentamos preservar todo o conhecimento. Mas em relação a este assunto, temos apenas o que ouvimos de nossos pais e avós, e eles dos deles. Me questiono, inclusive, se essa citação está correta. De alguma maneira, ela me soa familiar; como se a conhecesse de outra vida…
E eu entendo o que ela quis dizer com isso; me sinto da mesma maneira ao reler estas frases. Impa me contou que, de acordo com a literatura que consumiu, tudo indica que durante muitos milênios a Triforce foi considerada uma relíquia sagrada pelos povos que habitaram Hyrule. Diziam que seu poder era tamanho que poderia alterar o destino da terra, dependendo de quem a portasse.
Hoje, no entanto, sua existência é desacreditada, caindo no campo das lendas. Ninguém nunca viu os tais triângulos, fora os que estão nas decorações das construções históricas de Hyrule.
Tento entender qual minha relação com essa relíquia lendária. Impa ficou surpresa quando questionei o que ela sabia sobre a Triforce. Ambas achamos muito curioso que a voz que falou comigo na Fonte de Faron citou algo que, aparentemente, não existe.
Fi me disse que após visitar cada fonte mais memórias chegariam até mim. No entanto, ainda não me lembrei de mais nada mesmo tendo se passado mais de três meses. Estou começando a me questionar se tudo isso não é apenas uma grande perda de tempo.
Frustrada, fecho meu caderno. Estou sentada na bancada de trabalho do laboratório de Purah. Estamos apenas Tauro e eu aqui, uma vez que ela, aparentemente, precisou sair às pressas essa manhã por algum motivo. Tauro pareceu estranhamente evasivo quando perguntei o que poderia a ter levado a sair tão abruptamente assim.
Levanto os olhos e vejo que ele está me observando pensativo, como se ponderasse alguma coisa. Assisto, curiosa, enquanto ele parece tomar uma decisão, caminha na minha direção e se senta na cadeira à minha frente.
— Zelda — seu tom está sério, o que é incomum para ele. Meu coração se aperta, e eu me pergunto se ele pensou melhor e se irritou com a noite passada. — Purah não queria que você soubesse antes que ela voltasse, mas sei que isso pode demorar alguns dias. E eu não acho justo esconder essa informação de você.
Franzo a testa, desorientada com suas palavras.
Tauro respira fundo como se estivesse juntando coragem, e diz as palavras que fazem o chão sob meus pés se desfazer:
— Link está de volta a Hyrule.
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