A carta imaginária

2 Tudo começa pelo... início


A verdade que tenho para te contar começa muito antes do que tu, provavelmente, imaginas.

Não queria que nada disto tivesse acontecido... mas a vida não me deu outra escolha. Nunca deu. Sempre tive de me desenrascar sozinha, quer estivesse ou não pronta para ela e para os problemas que sempre a acompanharam. A vida sempre me odiou, e as circunstâncias tornaram-me... nisto.

É aqui que começa a minha história. A nossa história. História essa que, apesar de também teres vivido, não passou de uma grande mentira. Nada do que tu viste e sempre julgaste conhecer é verdade. E a mulher que tu amas, eu, também não.

***

Los Angeles, EUA, 12 de fevereiro de 2005.

— Já te disse que não vou fazer nada disso. Desiste. — disse furiosa à minha mãe, enquanto ela me olhava com cara de poucos amigos. — Quantas vezes já não tive esta conversa contigo? Que mais queres que eu te diga para me deixares em paz?

— Olha o tom. Eu não te estou a pedir que faças nada. Eu estou a informar-te do que vais ter de fazer. — disse elevando a voz com um grave tom autoritário, batendo com o punho fechado na mesa. Fê-la estremecer.

— Só podes estar a brincar com a minha cara! Que raio de mãe és tu? E quem é que te deu autorização para falar com a tia Angela sem sequer me perguntar primeiro? — levantei-me da cadeira atirando-a para trás com força. — Tu é que tiveste essa rica ideia! Tu e ela! Porque é que tenho de ser eu a sofrer?

— Estás a ser mimada e burra, Anna. — Baixou o tom de voz. — Sabes tão bem como eu as dificuldades que estamos a ultrapassar neste momento.

— E isso é desculpa? Huh? Porque é que estamos a passar dificuldades? — perguntei enquanto ria a alto e bom som, por saber a resposta. — Talvez porque és uma inconsequente que pensa que pode gastar tudo em porcaria cara. E achas que eu quero saber disso para alguma coisa? — Gritei-lhe. Eu não queria fazer nenhuma daquelas coisas parvas e ridículas. Eu já tinha 19 anos, ela não podia simplesmente obrigar-me a realizar as ideias de génio que ela e a minha tia tinham. — Se queres dar o cu de alguém, dá o teu! Bolas!

Ela ainda estava sentada à mesa, ao contrário de mim. Levantou-se, deslocou-se até ficar à minha frente e deu-me uma bofetada.

— Estou-me a cagar para o que tu queres ou deixas de querer. Já falei com a tua tia, e tu vais onde eu mandar. — virou costas e meteu-se de frente para a janela, com as mãos apoiadas no balcão da cozinha. — Não me interessa mais nada que tenha a ver contigo. Desde sempre que só me dás despesas e problemas. Chegou a altura de te cobrar por isso. — riu. — És minha filha e quem decide sou eu.

Estava farta daquela conversa. Não ia chorar, muito menos à frente dela. Se ela achava que me ia obrigar a fazer fosse o que fosse só para ela poder continuar a comprar as suas roupinhas de marca, estava muito enganada.

— Não vales o ar que respiras, e espero que ardas no inferno.

Sai da cozinha e bati a porta. Provavelmente não foi a atitude mais madura, mas sempre me ajudou a libertar alguma da minha raiva.

A minha casa tinha dois andares: no andar de cima, ficavam os nossos 3 quartos (o meu, o da minha mãe e um quarto que era usado como "quarto de hóspedes"), as respetivas casas de banho, uma casa de banho de serviço e um escritório, que pertencera ao meu pai. No andar de baixo ficava tudo o resto: sala, cozinha, sala de jantar, ginásio, lavandaria e dispensa.

Não era, de todo, uma casa pequena. Comprámos aquela casa pouco antes do meu pai morrer, quando ainda vivíamos muito bem (economicamente falando, porque na realidade... nunca vivemos bem).

Sempre tive uma relação muito complicada com a minha mãe. Por outras palavras, odiava-a. Sempre me usou de todas as formas possíveis e imagináveis para conseguir o que queria, quer fosse dinheiro, roupa, sapatos ou uma outra qualquer coisa inútil mas estupidamente cara para mostrar às amigas. Batia-me todos os dias, tratava-me mal e chamava-me nomes constantemente.

Com o meu pai dava-me pouco melhor. Sendo sincera, nem sei ao certo como era nossa relação. Ele passava imenso tempo em casa, mas fechava-se no escritório todos os dias até anoitecer. Sempre estive sozinha. Completamente sozinha.

O meu pai morreu numa trágica queda de avião, quando regressava de uma viagem de negócios qualquer.

Andei no psicólogo vários anos, após esse episódio. Disseram-me que tinha um problema qualquer, mas nunca me conseguiram dizer o que era exatamente. Não fiquei minimamente triste após a sua morte. Eu não mostrava nada. Não sentia nada. Em relação a nada. Nem compaixão, nem verdadeiro amor ou apego... Nada.

Não tinha amigos na escola nem boas relações com praticamente nenhum ser de duas pernas. Bem... agora que penso nisso, acho que nunca dirigi a palavra a ninguém daquela escola. Apesar disso, era boa aula.

Deixei os estudos pouco depois de completar 18 anos de idade. A minha mãe achou que eu era mais produtiva e útil se fosse trabalhar enquanto ela ficava alapada no sofá, a ver as suas novelas pirosas e mesquinhas (não sei como é que ela nunca reparou que se estava a ver ao espelho).

Subi para o meu quarto e tranquei a porta. Não queria olhar mais para a cara dela naquele dia... nem nunca mais, de preferência.

— Preciso de um plano. Eu não vou, repito, não vou, fazer nenhuma daquelas coisas... — sentei-me na cama com a cabeça apoiada em ambas as mãos, massajando cada lado da testa com os indicadores. — Como é que ela pode querer que eu seja...

Deixei-me cair para trás e fiquei deitada de barriga para cima.

— Não vou ser acompanhante de luxo. Não vou, ponto final.

Já não havia nada que eu pudesse fazer naquela altura. A minha mãe tinha andado meses a planear a minha partida para Vegas (para casa da minha tia) sem eu ter percebido. Sem me ter dito absolutamente nada. Apesar de trabalhar, nem sequer tinha dinheiro porque ela garantia que me limpava a conta antes sequer do dinheiro lá entrar.

No dia a seguir eu partia, e... foi aqui que tudo começou.

Notas finais
Espero que gostem! História original. Plágio é crime.