A canção que assobiava a Dona Morte
2 Capítulo 2 - Quarenta e dois em chamas
Ah Amélia, como eu gostava dessa jovem, assisti a vida dela do começo ao começo do fim. Desde jovem sempre foi completamente animada com um sorriso que nunca sumia de sua face, esse era o maior dos seus troféus. Uma moça linda, loira que quase chegava a ser a albina.
Mas as ruas de Quebec sempre foram difíceis para a pobre coitada, pessoas cheias de felicidade sempre acabam sentindo e passando por mais desavenças que pessoas normais. O motivo disso era muito simples, o fato de que este sentimento incomoda todas as pessoas ao redor, causando lhes inveja dentre outros sentimentos ruins. Mas seria a inveja o sentimento que causa a sensação ruim a respeito de Amélia? Não seria então a felicidade o causador de todo o sofrimento? Tanto alheio como próprio?
Apesar das pessoas almejarem tanto essa sensação, para conquistar paz e tranquilidade previamente trilhada por um caminho tortuoso em busca de redenção, eu a Morte declaro que este sentimento está mais ligado à tristeza do que a própria assim dita.
Sempre tentei ajudar os humanos a serem felizes apesar de não entender essa necessidade. Até que um dia resolvi me fazer humano.
Por vinte e quatro horas apaguei de minha memória totais responsabilidades como O Ceifador e fui conhecer Amélia. Depois de vinte e seis anos olhando para ela pude sentir pela primeira vez um calor ao ver aquele sorriso um pouco triste. Pois eu sabia que aquele era o ultimo dia de Amélia, mas no momento em que me sentei ao lado dela e me tornei Gilbert, já não tinha mais esta informação. Meus instintos “humanos” tomaram conta de mim, fazendo com que eu a seguisse por uma rua ou duas, até ela entrar em um ônibus, sendo mais bobo do que qualquer rapaz normal apaixonado entrei naquele ônibus.
— Que droga! Será que posso te pagar um amanhã motorista? – disse Amélia ao motorista, já que parecia ter perdido o dinheiro da passagem de ônibus.
— Deixa que eu pago pra você? – o garoto bobo sorriu em fazer esse gesto, afinal era a deixa que eu, digo, o garoto precisava para conversar com a garota.
— Não, não precisa.
— Amanhã a gente se acerta você me paga um café – ele sorriu e ela também.
— Então o que te trás a Quebec, seu sotaque te denuncia muito – perguntou Amélia enquanto os dois se sentavam.
— Vim ver os meus pais, eles estão um pouco doentes, mas nada grave.
— Seria inadequado também eu não perguntar o seu nome.
— Gilbert e o seu?
— Muito prazer Amélia.
Daquele instante em diante começamos a conversar como se não houvesse mais ninguém ao nosso redor, eu tinha a sensação de conhecer ela a minha vida toda, era estranho ser humano e não ter conhecimento do que eu sabia, mas ao mesmo tempo ter. A cada segundo que conversávamos ficava mais evidente que eu gostava dela, a cada história que ela contava sobre sua vida, até mesmo que já tinha dançado em boates pra fazer dinheiro. E eu rindo de todas as decisões difíceis que a vida havia obrigado ela a tomar. Amélia nunca conhecera sua mãe, foi criada por seus tios rígidos, mas o sorriso nunca sumia do seu rosto.
Dalí em diante a vida foi passando e os nossos destinos chegando. Algo me pediu para descer do ônibus e tomar meu rumo. Aquela sensação me fazia sucumbir, um desejo enorme de passar mais tempo encostado nela e de querer abraça-la e sentir aquela voz suave. Eu fiquei olhando o ônibus por mais uns quinze a vinte segundos quando me virei de costas ouvi um estrondo.
Um ar de dúvida e um calafrio repugnante sussurraram na minha nuca, me virei novamente pra trás e vi o ônibus em chamas. Senti quase como se alguém arrancasse meu coração, não poder mais saber que Amélia estava ao menos bem fez com que eu me sentisse a pior pessoa do mundo, vontade de correr até o ônibus não me faltava, mas havia fogo, muito fogo. Sentia-me covarde, sabia o que havia acontecido e queria negar. De repente todas as dores do mundo começaram a fazer sentido e qualquer sentimento de felicidade se fez obsoleto para mim, pela primeira vez em toda minha vida como entidade, senti duvidas sobre o Criador.
Na minha cabeça só existia uma dúvida. Por quê?
Sofri por sete minutos, até que voltei a mim e a ser quem eu era. Fiquei me questionando o que eu experimentara como humano, seria raiva, amor, ódio e dúvida os piores sentimentos da humanidade. Quando via a alma de Amélia ao lado do ônibus em chamas junto com as quarenta e duas pessoas que morreram cremadas, por causa de um explosivo que havia sido colocado no ônibus, reparei que a única coisa que fui enquanto era humano, foi egocêntrico.
A morte de Amélia e de todas as outras pessoas era algo muito triste, mas como tudo neste mundo É passageiro... Não sentia mais nada á respeito da morte de Amélia. Eu só conseguia sentir nojo de mim, ela afogou num ônibus cheio de fumaça tomada por calor e sangue e enquanto humano, eu só conseguia pensar que não estaria mais junto d’ela, mas não pensava nela, era só eu. Como o ser humano é sujo.
O responsável pelo genocídio em miniatura também estava no ônibus, o infeliz queria um suicídio, admiro muito o suicídio, mas levar outras almas junto é inaceitável.
Arrastei o desgraçado para os confins do Inferno com muito gosto.
Naquela mesma noite questionei o criador, não fui atendido por ele, tampouco respondido. Acho que dos momentos que passei por humano este foi um dos que eu mais me senti um deles.
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