A canção que assobiava a Dona Morte
3 Capítulo 3 - Um dia triste
Notas iniciais
Após inúmeras tentativas de contato desisti do papel de idiota e fui continuar o meu trabalho, afinal só existimos pelo tal. Nossa função designada desde o momento em que nascemos até o dia em que morremos é a única importância da nossa existência, como entidade questiono sempre a minha existência, existência esta que considero monótona e desagradável.
Ser o Ceifador pode parecer bonito e endeusado pelos anjos, mas é trágico, triste e cansativo. Todos os dias escuto as mesmas lamentações, fico impressionado como quanto os humanos são almejados pelo próprio passado e vigiados pelo próprio futuro, algo incerto que incomoda a todos e persegue mais a alma humana do que o próprio lúcifer. As maiores lamentações na hora da morte são: "nossa trabalhei tanto pra nada?"dentre outras, está é a mais comum.
No alto escalão das entidades escuto muito conversas sobre o sentido da vida, dois dias após minha criação o detentor do ato me confiou o segredo do sentido da vida. Confesso a vocês que preferia não ter conhecimento dele, a ignorância é o maior dom até entre os que tudo sabem, contraditório? Sim, mas o próprio prefere não lembrá-lo.
Numa das minhas discussões, "claro, que das poucas vezes que vi o criador foi justamente para discutir com ele" não estava feliz comigo, algo me faltava. Não tinha como ser a morte não acreditando na vida. Qual seria o sentido de criar essas aberrações para simplesmente destruí-las, vários dos meus dias implorei que fosse desfeito não desejando nem céu, nem inferno, somente morte e sono profundo onde eu pudesse descansar.
Infelizmente continuo vivo por mais de quatorze ciclos da vida nos universos sempre transgredindo nos mundos, fazendo o meu trabalho, por pura necessidade e inconveniência o faço muito bem. A vida obriga os humanos a fazer coisas horríveis e a morte me faz o mesmo, quando eu penso em mim mesmo na terceira pessoa chego até acreditar que já possuí alma humana, mas não sei ao certo o quanto isso me faria bem ou mal, então mantenho este pensamento longe.
Nos dias que fiquei num hospital infantil tive a inesperada descoberta de que as vezes as respostas pros maiores dilemas dos vivos só poderia estar num lugar onde vida é muito valorizada, se eu pudesse passar neste hospital o resto da minha vida eu o faria.
Ver todas aquelas crianças cheias de vida, por mais que isso fosse durar pouco nela cada sorriso que eles me davam, sim, eles podiam me ver, mas somente eles o que tornava a situação engraçada. Eu conversava com cada um deles como se cada conversa fosse a última, com estas pequenas conversas amenizava os horrores das passagens pro outro lado. A maioria deles quando me dava a mão na hora certa já sabia o que ia acontecer.
Num dia muito triste quando tive que levar um menino em estágio terminal de uma doença humana esquisita. Ao poder olhar seu corpo do lado de fora, ele me perguntou.
— Por que meus pais estão chorando tanto?
Eu realmente nunca sabia o que responder...
Eu pensava muito e respirava muito.
— Porquê eles estão com inveja e não vão poder ir pra onde você vai — eu disse isso fazendo uma espécie de aviãozinho com o rapaz no meu colo, fazendo com que ele soltasse alguns risos.
Mas no fundo eu sempre queria dizer a verdade. Que os pais choravam por se sentirem inúteis, por sentirem que no único momento que você mais precisava deles não puderam fazer nada a não ser olhar e implorar por perdão, lamentação, culpa, tudo isso é inútil. Perda de tempo, tempo que pros humanos é precioso e é desperdiçado dessa maneira.
Eu nunca entendi muito bem a decisão do criador de levar crianças tão cedo, acho que almas muito boas não merecem a vida humana que pra cada dez prós que ela tem, possui mais dez contras, Desde sonhos realizados à frustrados, amores correspondidos e platônicos, queria entender por que tanto sofrimento pra depois ser levado pro esquecimento. Mais pra frente quando eu tocar no pós vida vocês entenderam.
Mas nesses momentos de desgosto dos humanos, sempre me pergunto: Porque trazer uma alma tão pura para este mundo tão sujo? Isso é assunto para outro hora também.
Voltando ao hospital, se tornava mais repugnante olhar pros humanos nestes tempos de morte. Algumas enfermeiras se sentiam aliviadas em saber que alguém se foi pois o turno se encerraria mais cedo dependendo da situação do cadáver. Não as julgaria por tal atitude, quando menos se espera a vida vai ficando pra trás, principalmente para pessoas que estão tão perto de mortes quanto elas.
A vida humana é sempre acelerada e uma corrida contra o tempo, é quase como uma maratona que não se pode ganhar. O modo de vida dos humanos faz com que eles se tornem cúmplices da própria morte, se eu pudesse consideraria todos suicidas.
O que é impossível que eu não note é o quanto eles correm para tudo e fazem com que esse pequeno tempo no mundo passe tão rápido quanto gostaria o criador, vivo pensando em escrever até mesmo poemas sobre esse mistério que é a vida humana. Acho que o maior inimigo da vida humana é a própria vida que lhes é dada.
Se eu tratasse tanto vida e morte como sujeitos, denominaria todas as desavenças da vida humana como uma única situação "A Morte te obriga a viver de forma rápida e a vida te condena a morrer de forma lenta".
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