A busca pelo brilho da lua
1 Água e Fogo
Notas iniciais
Praia. Dia de sol. Não havia nuvens no céu e a temperatura era tanta que se podia fritar um ovo nas pedras que surgiam da areia lá e cá. O mar, no entanto, estava calmo, com ondas meigas e um azul claro fascinante. Andava, à sua margem, um jovem rapaz. Aparentava ter, no muito, seus vinte e quatro anos. Cabelos de um vermelho-escuro raro que se estendiam ao meio de suas costas presos em um trança simples e olhos verdes como o jade refletindo o brilho do astro luminoso, o qual ele tentava, em vão, cobrir. A camisa jogada sobre os ombros, as botas levava na mão e as pernas de sua calça dobradas até o meio de suas canelas. Um colar pendia de seu pescoço e seus pés tateavam as frescas águas salgadas. Perdido em pensamentos levemente distorcidos pelo calor, ele repara em algo estranho um pouco mais afastado da maré. Uma esfera d'água pairava poucos centímetros acima da areia, distorcendo os raios de sol em uma infinidade de tons de verde e azul. Ele nunca havia algo parecido, nem mesmo em seus livros. Seria uma miragem? Ele se aproximou. Parecia haver algo ali dentro... Algo respirando! Seduzido pela curiosidade, ele ergue sua mão livre e toca delicadamente aquela superfície.
No interior de tal cova mística, o ser adormecido desperta perante a perturbação repentina e aquilo que muito se assemelhava a dois olhos vermelhos se volta para a origem do distúrbio. O rapaz encara-os intrigado, porém, antes de entender o que estava diante de si, a esfera se desfaz com violência, jogando-o para trás. Todavia, antes de suas costas tocarem o chão, outra bolha se forma ao redor de sua cabeça. Ele pode ver que aquele ser, seja lá o que fosse, avançava em sua direção. Por entre as ondulações, o rapaz conseguiu distinguir uma cabeça e dois braços, contudo não encontrou as pernas. Entretanto, compreender o que era aquilo já se tornava a menor de suas preocupações... Ele estava se afogando, e o pior, em terra firme! Debatendo-se à medida que sentia o ar faltar em sues pulmões, ele mergulhava e tirava as mãos naquela máscara mortal na tentativa, sem sucesso, de arrancá-la. Percebendo que estava prestes a perder o controle, ele agarrou com força o colar em seu pescoço e, com enorme esforço, se concentrou, conjurando sobre si mesmo um dos muitos feitiços que tanto estudou na tentativa de perseguir seu sonho.
As águas que envolviam sua face caíram pela areia e o ar invadiu seus pulmões. O cheiro da maresia nunca antes lhe pareceu tão agradável. Então estranhas palavras invadiram seus ouvidos, palavras de uma língua desconhecida por ele, mas tão melodiosas quanto uma doce canção. Ele voltou seus olhos para o ser e surpreendeu-se com o que viu.
Uma sereia. Uma sereia de pele e escamas esverdeadas. Ela usava um elmo ornamentado e levava um cajado nas mãos, e sua beleza era tão grande quanto as lendas contavam. Seus lábios novamente emitiram aquelas palavras enquanto seus olhos o avaliavam com curiosidade.
—Não compreendo o que diz. — falou ele sentando-se.
A sereia se aproximou com cautela, embora curiosa, até seus rostos ficarem muito próximos e então repetiu aquela música desconhecida.
—Eu disse que não... — tentou responder ele novamente antes de ser calado por um inesperado beijo.
Surpreso com aquela sensação inédita em sua vida, ele assustou-se, porém logo percebeu quanta sorte tinha. O primeiro beijo de sua vida, e logo com um ser místico tão lindo! Porém era normal aquela impressão em sua garganta? Era comum tê-la tomada pelo que pareciam ondas sem fim?... Enfim suas bocas se separaram e ela se afastou.
—Por que você me beijou? — perguntou ele retoricamente, já não esperando resposta.
—Para aprender sua língua! Por que mais seria? — respondeu ela cheia de lógica.
O rapaz ficou boquiaberto, sem saber se estava mais surpreso em receber uma explicação, ou por está ser dada com se fosse a coisa mais normal do mundo.
—Você... Você aprendeu minha língua me beijando? — perguntou ele enfim.
—Claro! — confirmou ela cheia de razão — Ou não foi assim que sua mãe lhe ensinou a falar?
—Não, não foi assim! — retrucou ele se levantando — Além do mais, o que você estava tentando me falar?
-Perguntei se você estava bem, afinal, a bolha que coloquei em sua cabeça se desfez... — explicou ela.
—Depois que ela se desfez eu fiquei bem, mas antes eu estava sufocando! Por acaso estava tentando me matar? — esbravejou ele ao descobrir que quase morrera por causa dela.
—Estava tentando lhe salvar! — retrucou ela no mesmo tom — Afinal, quem tocou minha bolha tentando entrar foi você! Achei que já estava "fofocando"!
—Su-fo-can-do! — corrigiu ele — E não estava tentando entrar!
—Então por que tocou minha bolha? — indagou ele visivelmente irritada.
—Estava curioso! — retrucou ele também irritado.
—E você sai botando a mão em tudo que não sabe o que é? — questionou ela encarando-o com firmeza.
O rapaz abriu a boca para contra-argumentar, mas vendo que ela tinha alguma razão em seu raciocínio se calou. Ela continuou a encará-lo como se esperasse um pedido de perdão.
—Desculpe-me! — falou ele ligeiramente contrariado — Acho que tivemos um péssimo mal entendido.
—Humpf! — fez ela cruzando o braço e virando-lhe as costas.
—Meu nome é Pyrus. — apresentou-se ele tentando mudar aquele clima chato — Como se chama?
A sereia balançou a nadadeira duas vezes, como um felino irritado, antes de decidir se responderia ou não.
—O meu é Nami. — falou ele voltando a encará-lo, porém ainda olhando-o emburrada — Ou pelo menos penso ser assim que se pronuncia em sua língua... Você é um ser da superfície?
—Acho que sou... — respondeu ele um pouco incerto — Ao menos, vivo em terra firme.
—Essa terra não é muito firme não. — comentou ela cutucando a areia com seu cajado.
—É só uma expressão, um modo de falar. — disse ele desconcertado.
—Diga-me! É você aquele que possui a pedra da lua? — indagou ela.
—O que? — falou ele sem entender.
—A lenda diz que a Conjuradora de Marés encontrará aquele que possui a pedra da lua ao chegar à superfície e ofereceria, em troca dela, uma pérola abissal. — contou a sereia.
—E o que é essa pedra da lua? — perguntou o rapaz.
—É a nossa fonte de luz. — explicou Nami — Ela nos protege dos perigos do abismo, mantendo suas criaturas afastadas. A nossa está se apagando e é minha missão conseguir uma nova antes que isso aconteça para que, por mais cem anos, as futuras gerações vivam. Se falhar, será o fim dos "marai".
—Marai? — repetiu ele.
—Sim, é como nosso povo se chama. — esclareceu ela — Você não sabia?
—Nas nossas lendas, seres como você recebem outro nome... — falou ele.
A marai olhou para cima, como se procurasse algo em sua mente.
—"Seleia"? — perguntou ela.
—Quase isso. O correto é "sereia"... — corrigiu ele com um leve sorriso começando a se esboçar em sua face.
—Eu sabia! — respondeu ela rapidamente — Só não estou acostumada ainda com sua língua.
—Não seja por isso! Pode me beijar quantas vezes mais forem necessárias. — falou ele com um sorriso travesso.
—Uma vez é o suficiente... — respondeu ela distraidamente — Até que "sereia" é uma bela palavra... E então?
—Hã? Ah! Não, eu não possuo nenhuma pedra da lua (seja lá o que isso for)... — respondeu ele.
Nami suspirou frustrada.
—Bom, já chega de esperar! — falou a marai para si mesma — Não foi parada que consegui a pérola abissal, não será parada que conseguirei a pedra da lua!
Ela segurou seu cajado com as duas mãos e deslizou sobre um manto d'água flutuando alguns centímetros sobre a areia, porém parou não muito adiante e se voltou para Pyrus.
—Se não possui a pedra da lua, o que está fazendo aqui? — indagou ela curiosa.
—Vim espairecer um pouco... — falou ele com um ar abatido — Falhei em realizar meu sonho e agora não sei mais qual rumo tomar. Nunca me senti tão perdido antes. Por isso decidi olhar o mar. Suas ondas vêm e vão dia após dia sem precisar de motivo para isso. Talvez observando-o consiga aprender o mesmo.
Nami sentiu pena daquele ser da superfície, contudo ela não tinha tempo para perder ali.
—Por onde pretende começar sua busca? — perguntou Pyrus fitando o oceano — Valoran é um lugar muito grande e bastante perigoso para uma sereia desavisada.
—Eu não tenho idéia, mas ficar parada esperando nunca foi uma qualidade minha. — respondeu a marai.
—Posso ir com você? — indagou ele inusitadamente — Posso ter falhado em meu sonho, mas talvez ainda possa encontrar um modo de seguir adiante e ajudar quem precise de mim. Posso ser útil em sua busca, ser seu guia.
Nami hesitou. Ela não sabia se era seguro confiar nele, não conhecia suas verdadeiras intenções e tão pouco podia dizer se o que falara era verdade, todavia, o mesmo se aplicava a tudo a sua volta naquele novo mundo. Como ela podia ter certeza de que aquele não era um ser do abismo tentando seduzi-la com suas mentiras assim como conta-se ter ocorrido com tantos outros marais que se aventuraram para além dos limites da cidade submersa de seu povo? Pelos anciões, como ela havia sido descuidada beijando-o daquele modo! Ele poderia tê-la envenenado... Ela observou-o novamente com seus olhos vermelhos como brasa. Uma intuição sussurrou em sua mente que ela deveria acreditar nele, e depois de muito deliberar, aceitou.
—Confiarei em você. Mas caso tente qualquer coisa que ponha minha missão em perigo, usarei todos os meus poderes para fazer com que a fúria das marés recaia sobre você! — alertou ela receosa.
—Prometo fazer tudo ao meu alcance para garantir que você obtenha essa tal "pedra da lua". — falou ele estendendo a mão para ela.
—O que significa isso? — questionou o gesto a marai.
—É um modo de demonstrarmos que entendemos os termos um do outro. — explicou ele — Para isso apertamos as mãos.
—Certo. — disse ela segurando a mão dele — Agora vamos logo! Não temos tempo a perder!
—Okay! — concordou ele parado no mesmo lugar enquanto a sereia já se afastava rapidamente sobre a faixa de areia — Mas acho melhor irmos na outra direção.
Nami parou de um sobressalto e, fazendo um loop em pleno ar, retornou.
—Por quê? — perguntou ela contrariada.
—Se o que procuramos for, como imagino, um artefato mágico ou enfeitiçado, nossa melhor chance é começarmos a busca pelo lugar que concentra a maior parte do conhecimento a respeito no mundo: o Instituto de Guerra.
—E o que estamos esperando? Nadando! — falou ela apontando para uma direção aleatória com o olhar fixo no horizonte.
—Por aqui! — indicou ele sem conseguir conter o riso.
Eles rumaram para fora da praia e depois de passarem por uma faixa de grama amarelada, a qual Nami não resistiu a sensação de tocar (e até mesmo rolar como um cão animado, o que a deixaria se coçando por todo o restante do dia), eles chegaram a uma estrada. Pyrus se sentou para limpar os pés e vestir as botas enquanto Nami observava-o intrigada. Eles prosseguiram viagem para o norte, rentes ao mar, porém os olhos da marai não paravam de se voltarem ao extremo dos membros inferiores do rapaz.
—Algum problema? — perguntou ele incomodado.
—Pés são esquisitos! — concluiu ela com naturalidade.
Continua...
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