A busca pelo brilho da lua
2 "Enxuga Essa!"
Notas iniciais
—Droga! — falou Pyrus.
Já estava escuro quando o rapaz e a sereia chegaram à estalagem na qual passariam a noite. Eles viajaram por dias, preparando acampamentos improvisados não tão próximos da beira da estrada para evitar ao máximo bandidos e assaltantes, porém, também não tão distantes a ponto de atrair animais selvagens ou coisas piores. Ele sempre dava um jeito de se acomodar recostados no tronco de alguma árvore enquanto ela se encasulava em suas bolhas protetoras toda noite. Pyrus evitou rotas com cidades ou vilas. "Ela já é imprevisível demais sem outros humanos por perto!" pensava ele cada vez que via a curiosidade da sereia criar uma potencial situação desagradável. Entretanto, a um dia de viagem do Instituto de Guerra, o caminho se tornava perigoso demais para dormir-se ao relento. Tropas de diversas origens diferentes, seres perigosos atraídos pela magia, criminosos tentados pelas riquezas do lugar almejando aqueles que vêm e vão e tantas outras possibilidades desastrosas. Sem sombra de dúvida, o mais seguro seria buscar abrigo em uma das muitas estalagens que circundavam os caminhos que levavam ao centro político de Valoran. A idéia de ter uma cama sob suas costas naquela noite e uma boa refeição no estômago a roncar agradou o rapaz, mas a sensação de que algo não tão bom iria acontecer ali dentro não saia da cabeça dele.
—O que foi? — perguntou Nami — Por que paramos? É aqui o Instituto de "Guelra"?
—Ahm... não! Aqui é somente um lugar relativamente seguro para passarmos a noite... — respondeu ele.
—Então sigamos em frente! — disse ela já se virando para a estrada.
—Parada aí! — ordenou ele agarrando-a pelo capacete.
—Iiiiiiiiiiiiiiiiiiiih! — fez ela perdendo o equilíbrio (por assim dizer) — Por que você fez isso?
—Já não expliquei que é muito perigoso seguir viajem noite adentro? — ralhou ele.
—Então o que estamos esperando? Vamos entrar! — retrucou ela.
—Ai ai... Estou com um pressentimento ruim quanto a isso! — resmungou ele para si mesmo enquanto seguia a apressada marai.
—Como entramos? — perguntou ela parada à porta.
Pyrus respirou fundo e virou a maçaneta. O interior era iluminado por tochas e lustres e uma grande lareira ao centro do salão aquecia o lugar (que mais parecia um forno de tão quente). As mesas se espalhavam por todos os lados e os olhos em cada uma delas não tardaram a se voltarem para a inesperada visita. Nami olhava em volta avaliando tudo em seu campo visual enquanto Pyrus não pode deixar de reparar na pequena brigada noxiana e seu comandante, assim como no suntuoso destacamento demaciano e seu capitão. Por suas feições, provavelmente regressavam do instituto de guerra, onde certamente estavam a resolver algum conflito. O rapaz até conseguia dizer quem saíra vitorioso pelos sorrisos dos homens de Demácia.
—Venha comigo! — falou Pyrus arrastando a sereia pelo cajado.
A dupla cruzou o salão sob olhares atentos, alguns vorazes, outros, perigosos.
—Queremos um quarto. — falou o rapaz ao taberneiro.
—Imagino que queiram... — falou o gordo homem com um olhar malicioso para Nami — Mas não acha melhor beberem algo antes?
—Não, — respondeu o rapaz rapidamente — muito obri...
—Pyrus, — chamou a marai — está muito quente aqui dentro. Preciso de água!
—Não servimos água aqui, moça, só cerveja. — avisou o taberneiro com deboche.
—"Cereja"? O que é isso? — perguntou Nami com a boca seca.
—He he! É uma bebida. E está bem, bem gelada! — destacou o gordo homem com segundas intenções.
—Gelada?! Eu quero! — falou ela lambendo os lábios.
O homem sorriu e já se virou para um dos barris a suas costas.
—Nami, não acho que seja uma boa idé... — tentou alertá-la Pyrus, em vão, porém.
Mal o taberneiro colocou a enorme caneca na frente de Nami, a sereia já o entornou em quase um só gole sem deixar uma gota para trás.
—Aaaaaaaaaaahhh!... Outra! — ordenou ela secando a boca nas escamas do próprio braço.
—Nami... — tentou Pyrus novamente, agora realmente preocupado.
Contudo, parecia que o taberneiro já deixara a segunda dose preparada e prontamente a entregou. Desta vez ela só tomou metade, mas era impossível não perceber as maçãs de seu rosto avermelharem.
—O resto do meu dinheiro já era... — choramingou Pyrus vendo que já era tarde demais — Que se foda! Dê-me uma caneca também!
...
Uma hora mais tarde, sete canecas se acumulavam vazias em frente a "trêbada" (mais que bêbada) sereia, a qual já usava o balcão como travesseiro. Pyrus, por outro lado, ainda estava no fim da segunda caneca e continuava tão sóbrio quanto antes.
—Admiro uma mulher que sabe beber! — falou uma voz grave e rouca às costas da dupla.
O dono dela não esperou um convite e apoiando seu poste no balcão, sentou-se ao lado de Nami.
—Mas admiro ainda mais uma que seja capaz de lutar depois de embriagada! — completou Jax, o Grão-Mestre das Armas.
—Está me desafiando? — perguntou a marai tentando se equilibrar em seu banco.
—Sabe qual o meu passatempo favorito, garota? Uma boa pescaria! — provocou ele.
—Ninguém me chama de peixe e sai impune! — retrucou ela pendendo para o lado e caindo em cima de seu manto d'água flutuante — Escolha suas armas!
—Isto daqui será o suficiente... — falou ele pegando seu poste.
"Eu poderia avisá-la sobre ele ser um dos maiores campeões que a liga já teve, mas ela não iria entender nem se estivesse sóbria..." pensou Pyrus apenas tomando mais um gole. "Além do mais, é teimosa demais para me escutar, principalmente nesse estado. Se a coisa fugir do controle, eu 'exausto' ele e tiro aquela sereia cabeça dura da briga...".
Os observadores ao redor se afastaram, arrastando as mesas consigo, abrindo rapidamente uma roda em volta dos dois desafiantes. Jax assumiu sua posição de batalha e com uma das mãos, convidou Nami a atacar. A sereia cambaleou para trás e desembestou em direção ao adversário. Jax bloqueou o primeiro ataque e se esquivou do segundo antes de desferir seu golpe, porém Nami pendeu para o lado, evitando-o. Por um momento, todos pararam sem saber se o movimento dela foi ou não intencional. Então Jax voltou a atacar e novamente ela escapou. Ele acelerava a cada investida, contudo ela continuava a desviar com imprevisíveis e inusitados movimentos complexos. Por fim, excitado com aquele inédito estilo de luta, o grão-mestre alcançou o ápice de sua velocidade, obrigando a marai a bloqueá-lo pela primeira vez. Ela era forte, mas não o suficiente. Sua guarda cedeu. No entanto, usando seus poderes a seu favor, escorregou sobre seu manto d'água por entre as pernas de seu adversário. Empolgado, o campeão energiza sua arma e salta sobre a sereia pronto para desferir seu golpe fulminante. Aquele certamente seria o golpe final caso fosse concluído, todavia Jax não teve essa oportunidade, vendo-se flutuando em pleno ar dentro de uma bolha d'água sem conseguir entender o que aconteceu enquanto Nami sorria com o cajado apontado na direção do desafiante aprisionado.
—Quem é o peixe agora? — perguntou ela com sarcasmo, arrancando risadas de todos.
Jax assumiu novamente sua postura de batalha ainda dentro de seu confinamento místico e lançou seu poste na direção da marai. O objeto atravessou a parede d'água como se ela nem estivesse ali. Nami jogou-se para o lado, desviando por muito pouco daquilo que agora estava cravado no chão de madeira. Pyrus pensou em intervir, mas a prisão aquática se desfez e o grão-mestre caminho sem pressa até sua arma. Ele arrancou-a do assoalho e se voltou para a sereia.
—Surpresa! — falou ele se divertindo.
O rapaz sentou-se novamente, aliviado achando que a luta havia terminado. Ele já levava a caneca à boca quando, para seu desprazer, Nami levantou-se cambaleante, quase sóbria novamente depois do susto, e também assumiu postura de combate.
—Pode vir! — disse Jax visivelmente animado.
Foi a vez de Nami se energizar, fazendo três esferas d'água surgirem ao seu redor. Ela atacou, porém, ao invés de investir contra seu adversário uma vez mais, ela fez surgir, na ponta de seu cajado, uma pequena porção de líquido e o disparou, sendo esse seguido por uma das esferas que a circundavam. Jax desviou do projétil e sua sombra, os quais atingiram a testa de um dos observadores, mais precisamente, do comandante noxiano, em seqüência, fazendo-o cair inconsciente.
O caos estava instaurado e já não seria mais possível para Pyrus "exaustar" tanta gente. Os noxianos encontraram a desculpa que procuravam e agora digladiavam contra os demacianos. A batalha entre os dois desafiantes também ganhou grandes proporções, tomando toda a taberna. Nami usava todo líquido disponível (ou seja, muita cerveja) para criar suas prisões aquáticas, seus poderosos jatos e seus projéteis nocauteantes enquanto Jax não hesitava em destruir qualquer mesa ou cadeira que ficasse em seu caminho. A essa altura, Pyrus já havia pulado para trás do balcão e observava a confusão sem saber se estava mais surpreso por ver Nami se mostrando rival para o grande campeão ou por ver que ninguém havia morrido ainda.
—Você tem que pará-los! — falou o taberneiro se agachando ao lado do rapaz.
—Por que eu? Foi você que a convenceu a beber! — lembrou o rapaz sem tirar os olhos da luta — Você que os faça parar!
—Somente alguém do instituto pode pará-los agora! — argumentou o homem.
—E você acha que eu sou de lá? — indagou Pyrus confuso.
—Não é? — assustou-se o taberneiro — Então o que faz com alguém tão poderoso?
—Sou apenas o guia! — sorriu o rapaz.
—Que os deuses nos salvem! — falou o homem com os olhos arregalados.
Enquanto isso, um machado quase arrancou a nadadeira de Nami e uma espada riscou seu rosto. Jax derrubou mais dois soldados e avançou sobre ela sem piedade.
—Eu voltei! — gritou ele usando outro de seus saltos atacantes.
Cansada daquilo, Nami deslizou para trás, deixando outra bolha aprisionante no caminho.
—Agora é minha ve... — dizia o campeão quando a marai conjurou seu ataque final.
—Iah! — gritou ela batendo a base de seu cajado no chão.
E do lugar onde sua arma tocou o solo um tsunami surgiu. Jax perdeu o fôlego com o que viu, e não teve tempo de restituí-lo a tempo. A onda gigante varreu a taberna e tudo que havia dentro dela (incluindo Pyrus). Todo o fogo que existia ali se esvaiu. As tochas, encharcadas, estavam perdidas e a grande lareira de centro, acabada. Agora a única luz que iluminava o lugar vinha da lua cheia que banhava os céus daquela noite e adentrava o lugar através das janelas mais altas por entre as vigas que sustentavam o teto e os lustres. Não se foi conhecido o destino de toda aquela água, que assim como aparecera também sumira, mas o que ainda restava inundava o chão até a altura dos tornozelos. Jax, dentre outros, tossia para fora a água salgada que invadira seus pulmões por debaixo da mascara e do capuz. Com as mãos no submerso assoalho de madeira, ele encarava seu reflexo perplexo com todo o poder que presenciara. Ele tentou se colocar de pé, contudo, assim que levantou a cabeça, uma bela porção de cerveja acertou sua cara. Enquanto todos tentavam se recuperar, Nami calmamente tomou uma das canecas, encheu-a nos barris que, de alguma forma, ainda estavam no lugar e jogou seu conteúdo em seu adversário assim que este esboçou alguma reação. A marai atirou a caneca por cima dos ombros (acertando e abatendo novamente o comandante noxiano que acabava de acordar) e colocou as mãos na cintura.
—Enxuga essa! — falou ela toda cheia de manha inclinado o tronco para frente.
O grão-mestre ficou ali parado, sem saber o que dizer.
—Ha ha ha ha ha ha ha ha ha! — começou a gargalhar Jaz por fim.
Enquanto isso, Pyrus tentava se aproximar cambaleante. Após ser atropelado pela inesperada onda, ele acabou colidindo com a parede, e o taberneiro com ele. O rapaz ainda estava zonzo após ser atingido por tanta banha, porém, ainda assim estava quase chegando até a marai. Todavia, antes de poder dizer algo, foi empurrando violentamente para o lado por um soldado noxiano apressado.
—Você é certamente muito poderosa, musa dos mares! Por que não se une a nós? — convidou o guerreiro — Para nosso povo, isso é uma qualidade que lhe daria grande influência, destaque e respei...
—Não dê ouvidos a essa escória noxiana! — interrompeu um nervoso soldado demaciano jogando Pyrus para o outro lado quando esse se colocava de pé novamente — Um ser místico como ela jamais usaria seus dons para propósitos tão sórdidos quanto os praticados por sua raça imunda! Venha comigo para Demácia, diva dos oceanos! Lá encontrará justiça e sabedoria, virtudes muito mais dignas para...
—Cale-se patife! — urrou o noxiano atingindo seu inimigo com um soco no nariz.
—Você me pagará por isso, bastardo! — gritou furioso o demaciano ferido partindo para cima do outro homem.
—Já chega! — ordenou Nami em alto e bom som acertando a cara de ambos com seu cajado — Não só tenho minha própria missão para cumprir como também estou com fome agora. Taberneiro, um prato de peixes por conta do pescador derrotado ali, "polvo com vapor" (tradução: por favor).
—Espe... — começaram tanto o noxiano quanto o demaciano ao mesmo tempo antes de Jax colocar os dois para dormirem com seu poste.
—A moça disse que está com fome. Respeitem! — falou o grão-mestre retomando seu senso de humor.
...
Algum tempo depois, graças à enorme cooperação (forçada por Jax) dos soldados de ambos os exércitos, o lugar estava seco o suficiente para o fogo ser rê-aceso e Nami finalmente ter seu prêmio como vencedora, ainda que a vontade do taberneiro fosse expulsá-la. Ela jamais havia provado peixe assado antes e, maravilhada com o sabor desconhecido, repetiu. Os seres da superfície realmente sabiam preparar uma comida deliciosa.
—Quem diria que ela come peixe? — comentou Jax apenas observando, ao lado de Pyrus, a refeição desaparecer a cada generosa bocada.
—É claro que eu como peixe! — falou a sereia de boca cheia — Acha que se tem muita opção no fundo do mar? É verdade que há aqueles que acreditam que não devemos comer outros seres que coexistem no mesmo lugar que nós, mas quem gosta de alga é baleia!
—Gostei dela! — falou o grão-mestre visivelmente animado.
—Eu também! — comentou Pyrus roubando uma garfada.
—Ei! — reclamou ela.
—Já pensou em se unir à liga, garota? — perguntou Jax.
—O que é isso? — indagou ela.
—Uma solução para as guerras que assolaram, e ainda assolam Valoran. — explicou ele — Por séculos os povos da superfície derramaram sangue alheio em busca de riqueza e de poder, mas então um grupo de poderosos magos e feiticeiros criou um lugar mágico para que as disputas fossem solucionadas sem tanta morte. Cada reino, democracia, ou seja qual for o tipo de organização social do lugar, elege seus campeões para lutarem nos "Campos da Justiça", defendendo suas causas e desejos. Assim nasceu o Instituto de Guerra e "The League of Legends" (A Liga das Lendas).
—Não tenho tempo a perder com essas coisas, — falou Nami seriamente — preciso encontrar a pedra da lua e salvar meu povo.
—Faz muitos anos que não conheço o paradeiro de nenhuma pedra da lua grande o bastante para isso... — comentou Jax.
—Você sabe o que é? — perguntou Pyrus surpreso.
—Sou mais velho do que aparento, garoto. — respondeu o grão-mestre avaliando o rapaz e concluindo que sua ignorância era sincera.
—Mas o instituto deve ter alguma pista, não? — indagou Pyrus.
—Tenho minhas dúvidas, porém estou certo de que estarão dispostos a ajudar. — disse Jax com sarcasmo — Haverá um preço, no entanto. Eles exigirão um pacto. Você concordará em lutar pelo invocador que escolher e este realizará seu desejo...
—Farei qualquer coisa por meu povo! — afirmou Nami sem hesitar.
O grão-mestre soltou um pequeno riso repleto de desdém e, tomando seu poste, levantou-se, deixando uma sacola de moedas no balcão.
—Como é bom ser jovem e ingênuo... — comentou ele antes de se voltar para o taberneiro — Pelos estragos.
Jax já se afastava quando Nami o chamou.
—Espere! O que quer dizer com isso? — interpelou ela.
—Apenas aqueles que estão lá dentro sabem o que se passa realmente naquele lugar... — falou ele sem se virar — Se me permite um conselho, tenha cuidado ao escolher com quem fará seu pacto para não se arrepender depois. Agora, se me dão licença, prometi a Olaf ajudá-lo com o gelo para a cerveja de Gragas.
E deixando tanto o rapaz quanto a sereia repletos de perguntas, ele partiu em silêncio noite adentro.
Continua...
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