Notas iniciais
"Eu verei o meu lar novamente!"

—Como você pode fazer isso comigo? Eu confiei em você! — falou Nami enraivecida.

Pyrus recuou acuado massageando o pescoço ainda dolorido.

—Espere... Nami... Do que está falando? — perguntou ele completamente perdido.

—Não se faça de "desimpedido" (desentendido)! Foi você mesmo que disse ser este o único meio restante de realizar seu sonho! — vociferou ela apertando o cajado nas mãos — E eu, tola, nem percebi...

—Eu não compreendo... — disse ele assustado.

—Ela fala do pacto de vocês! — falou César ardendo em ódio enquanto seu pai começava a entender uma parte daquilo tudo.

—Pacto? Que pacto?! — indagou Pyrus totalmente desorientado.

—Olhe para seus dedos... — recomendou o Rávenus pai divertindo-se com a situação.

Ao fitar suas mãos, o rapaz pode ver claramente o laço mágico amarrada ao seu anelar direito, contudo sua mente era incapaz de assimilar aquilo.

—O... O que significa isso? — questionou ele desnorteado.

—Significa que você a enganou, — prosseguiu Rávenus sorridente — você a fez assinar um pacto sem ela ter idéia do que estava acontecendo, aproveitando-se de sua ingenuidade a respeito de nosso mundo...

—Espere, eu não tinha a mínima idéia... — tentou dizer Pyrus.

—Então é essa sua verdadeira face! — riu-se Rávenus — Fingindo ser um bom samaritano para atrair inocentes à sua teia para então mostrar as presas... Não pensei que fôssemos tão parecidos.

—Não me acuse sem escutar o que tenho a fa... — insistiu o rapaz sentido seu sangue esquentar.

—O pior tipo de traição que existe! — interrompeu César entrando no jogo de seu pai — E o que mesmo você me advertiu que faria caso a traísse, sereia?

—O mesmo que adverti a ele! — respondeu Nami friamente, seus olhos como o mar em dias de forte ressaca tragando Pyrus com fúria.

—Nami, escu... — pedia ele em vão.

—Iiiiaaaaaaaaaaah! — gritou ela batendo com força seu cajado no chão.

Uma enorme onde se levantou daquele ponto, semelhante ao ocorrido na taverna, contudo, esta era maior, mais rápida e muito mais violenta. Ele não tinha como escapar ou se proteger. Ele sequer teve tempo de tentar se encolher. Todavia, ao atingi-lo, a parede d'água se desfez, desaparecendo sem deixar traços.

—Como? — assustou-se a marai.

O enorme noxiano riu a plenos pulmões da ignorância daqueles dois jovens de diferentes espécies. Os rostos de ambos demonstravam o quão embasbacados estavam, completamente aturdidos perante a série de fatos que se deu ali.

—Não me diga que não sabia! — gargalhava Rávenus.

—Não sabia o quê? — enfureceu-se a sereia.

—Que um servo não pode ferir seu mestre! — respondeu ele com sombras no olhar e um sorriso visceral.

—Quê?... Então... você também me enganou! — acusou Nami sentido a ira corroê-la.

—Ha ha ha ha ha ha ha ha! — gargalhou ele novamente — Não! Eu não lhe enganei! Apenas não contei que sua ameaça era em vão! Não sabe o quão ridícula você se provou naquele momento...

—Nami! — chamou Pyrus sentindo um sentimento se culpa tomá-lo — Juro que não sabia de nada disso! Eu não sabia de nada disso!

—Então deixe-me contar-lhe mais, pobre rapaz desinformado! — guinchou de excitação o maligno e irônico noxiano em seu deleite — Um mestre não tem qualquer necessidade de cumprir seu contrato com seu campeão. Ou seja, um campeão estará eternamente preso ao pacto caso o mestre não cumpra com sua parte. E só para seu saber, nenhum mestre, em toda a história do instituto de guerra, jamais finalizou um pacto simplesmente porque não vale a pena libertar um escravo tão útil!

—Não... — murmurou a marai sentindo todo seu corpo fraquejar.

—Sim! — continuou Rávenus com ainda mais furor — Agora, sua vadiazinha, você não é nada mais que uma propriedade dele! Não passa de um objeto de poder e riqueza!... E pensar que eu votei pela reprovação de um exemplar não perfeito para o cargo de caçador de campeões...

Nami balançava a cabeça negativamente, seus olhos buscando conforto dentre os outros mestres, os quais apenas se mantiveram em silêncio sem qualquer objeção ao que era dito.

—Deve haver um modo de revogar esse pacto! — disse a sereia procurando uma saída.

—Somente uma, — divertiu-se o noxiano — seu invocador deve morrer!

Nami arregalou os olhos e se voltou para Pyrus. O rapaz estava em choque, sua boca semiaberta, sua visão vidrada no vazio. Então um tilintar de metal quicando e deslizando na pedra o acordou do transe. Uma adaga jazia aos seus pés. César jogara-a para ele. Seu pai olhou-o com desaprovação e o sorriso sádico do jovem invocador desaparecera de seu rosto ao notar o erro que cometera. Pyrus se agachou, tomando a lâmina em mãos. Ele fitou a marai tempo o bastante para saber o que ela queria que fosse feito. De joelhos, o ruivo rapaz apontou a arma para a própria barriga. Suas mãos tremiam. Ele a puxou contra si, mas parou a menos de um dedo de sua carne. A faca escorregou por entre seus dedos e voltou ao chão. Pyrus a tomou novamente e a levou ao pescoço desta vez. Um fio de sangue apareceu, uma gota de sangue escorreu, porém fraqueza faltou-o ao ver todos seus sonhos correrem diante de seus verdes olhos, e a lâmina ele jogou para o mais longe possível. O sorriso malicioso reapareceu na face de Rávenus. Ofegante, Pyrus ergueu sua visão para Nami e, para sua surpresa ela chorava.

—Meus amigos, minha família, meu povo, tudo que é importante para mim... Todos vão morrer. Não poderei salvá-los... — falou a marai cabisbaixa antes de perfurar Pyrus com a fúria de seu olhar — E tudo por sua gananciosa vaidade!

—Veja o lado bom, — comentou Rávenus desfrutando do momento — Pelo menos você não estará lá para definhar com eles!

Aquelas palavras... A conjuradora chegara ao limite e rodopiando velozmente seu cajado, mirou a garganta do noxiano, porém, uma barreira se materializou ao redor de Rávenus, repelindo a ataque. O homem não perdeu tempo e agarrou a marai pelo rosto com uma das mãos enquanto segurava a arma dela com a outra.

—Maldita puta! — disse ele sufocando-a aos poucos.

—Solte-a! — ordenou Pyrus automaticamente.

—Você não tem poder sobre mim, moleque! — falou o noxiano pronto para acabar com aquela perda de tempo.

Entretanto, uma magia poderosa cruzou o ar, golpeando-o com força o suficiente para fazê-lo largá-la. Nami tossia compulsivamente caída no chão enquanto Rávenus já se preparava para revidar.

—Vou matá-lo, insolente! — urrou.

—Basta, mestre Rávenus! — ordenou Heyward em um tom firme e intimidador.

—Como disse? — indagou perigosamente o espumante noxiano.

—É direito do invocador proteger sua propriedade! — informou o alto conselheiro.

—Ele não é um maldito invocador! — vociferou Rávenus colérico.

—Se ele tem um campeão, ele é! — enfrentou Heyward com uma expressão perigosa se formando em sua face.

—Nami, você está bem? — perguntou Pyrus dando alguns passos em sua direção — Nami, prometo que darei um jeito nisso tudo! Encontrarei alguém que seja honrado e...

—Ou pensa que sou (*cof cof) muito ingênua ainda, ou o ingênuo (*cof) é você! — tossia a marai — Mesmo que fosse verdade que você, assim como eu, não soubesse de nosso pacto e que ele tenha sido feito por acaso, um completo absurdo, não há ninguém que irá ter interesse em cumpri-lo, seja ele simples ou complicado. Já entendi como as coisas funcionam em seu mundo. As pessoas deste lugar são aquelas que ditam as regras, mas para manterem esse poder precisam de seus servos. Perder um servo significa se tornar um dominado, não mais um dominador, e ninguém quer ser servo de alguém... Os habitantes da superfície não estão dispostos a me ajudar, apenas a me usar, vejo isso agora...

—Você está errada! — respondeu Pyrus ofendido com aquela declaração — Há pessoas fantásticas nesse mundo, pessoas que fazem tudo ao seu alcance para ajudarem aqueles que precisarem delas! E meu sonho, meu sonho é me tornar uma dessas pessoas!

—Acha que ainda acredito nas suas mentiras?! — gritou Nami cansada de ser insultada.

—Eu não estou mentindo! — urrou Pyrus com uma sinceridade no olhar que calou a marai.

Ela não conseguiu continuar a encará-lo.

—Eu nunca menti para você, Nami... — falou ele retornando a voz a um tom triste e abatido.

—Se é verdade o que diz, venda-a para mim. — propôs Rávenus assustadoramente calmo novamente.

Os olhos de Nami se voltaram instantaneamente para o noxiano, primeiramente repletos de medo, e depois preenchidos por indignação.

—E por que eu faria isso? — indagou Pyrus com frieza — Há um momento você estava prestes a matá-la!

—Tenho meus surtos de fúria, mas garanto que ela será bem tratada uma vez ao meu lado, afinal, mesmo que tente, não poderá me ferir e desencadear o que acabaram de ver. — explicou ele com uma simplicidade doentia.

—Jamais! — afirmou o rapaz — Não a colocarei em risco deixando-a em suas mãos!

—Não pensei que precisaria chegar a esse ponto, entretanto, como meu filho disse mais cedo, sou um homem muito influente, bem relacionado com as pessoas certas e bastante carismático, e posso garantir que os únicos invocadores dispostos a negociar com você, caso não aceite minha proposta, serão os que eu permitir. — ameaçou Rávenus, gerando uma expressão desaprovação e discórdia no rosto de Heyward, porém nada mais.

Pyrus fraquejara e Rávenus percebera.

—E então, o que vai fazer, herói? — provocou o homem.

—Eu... Eu... — hesitou Pyrus.

Os olhos de Nami se voltaram para o rapaz e neles ele pode ver medo, fúria, mas acima de tudo, desprezo.

—Não! Não posso! — respondeu o rapaz enfim.

—Vê! É a prova de que é igual a mim! — falou o mestre vindo de Noxus — Dá mais valor ao poder que pode conseguir com sua serva do que ao dinheiro que pode ganhar em uma transação com ela, mesmo sabendo que está é a única chance que ela terá! Ou talvez saiba o quão valiosa ela é e está se fazendo de difícil apenas para ganhar uma fortuna um pouco maior... De um modo ou de outro, é exatamente o meu modo de pensar!

—Nada disso! Não sou como você! — negou Pyrus — Apenas não permitirei que ela se torne uma escrava de invocadores monstruosos como você! Escolherei alguém que seja honesto e, com o consentimento dela irei...

—Agora precisa do consentimento dela? Não seja hipócrita! Ou faz isso pelo poder, ou faz pelo dinheiro! — afirmou Rávenus.

—Se bem me lembro, acho que escutei você comentando algo sobre dar uma vida melhor para sua mãe... — comentou César cheio de peçonha.

Pyrus desviou o olhar. Sua mãe sempre foi aquela que ele mais quis ajudar. E por um momento a idéia de vender Nami ressoou em sua mente, fazendo-o sentir repulsa de si mesmo.

A marai cerrou os punhos com força e ódio. Ela havia se tornado uma moeda de troca!

—Farei uma proposta a você. Uma proposta que nem você poderá recusar. — falou Rávenus sorridente — Darei por ela o mesmo que Draven vale hoje...

Aquilo pegou a todos (exceto Merlin) de surpresa. A afirmação invadiu a mente do rapaz tal vermes fazem em um corpo pútrido. Nami pode vê-lo vacilar.

—Não... — sussurrou ele lutando contra seus demônios.

—Pense bem, — recomendou o noxiano se aproximando dele e colocando a mão em seu ombro — com esse dinheiro poderá até mesmo comprar outro campeão e ainda assim ajudará sua mãe. Que outra escolha tem? É isso ou sair por aquela porta e se arrepender perante meu poder. Aceite minha proposta, rapaz. Estou sendo muito generoso...

Pyrus se sentiu rasgado em dois. A tentação fazia seu cérebro murmurar-lhe que aquela era a melhor escolha. E era mesmo. Qualquer outro teria aceitado sem hesitar, inclusive Nami caso a situação fosse inversa. Contudo, seu coração sabia o quão errado era vender alguém por lucro próprio. A transferência de pacto foi pensada para ajudar os campeões, não enriquecer os invocadores! E o pior: não se tratava apenas de um simples desejo individual e fútil, mas do futuro de todo um povo que certamente desapareceria para sempre caso ele cedesse. Ele devia dizer não... Ele tinha que dizer não!

—Onde pensa que vai? — perguntou César trazendo Pyrus de volta de seus pensamentos.

—Tenho que salvar meu povo! — respondeu Nami sem qualquer emoção rumo à porta.

—Como pretende fazer isso se não pode salvar nem a si mesma? — provocou-a César.

No entanto, a marai apenas prosseguiu em silêncio.

—Nami! — chamou Pyrus quando ela passava por ele.

—Eu tenho nojo de você! — falou ela sem sequer se voltar para ele.

Aquelas palavras acertaram-no como a mais letal das maldições, afligindo sua alma ao notar que ela tinha razão.

A sereia se afastou tribunal cruzando a longa passarela sem olhar para trás e Pyrus permaneceu ali, devorado por pesar e culpa, sentindo o mundo sumir sob seus pés. Como ele poderia seguir adiante se logo o primeiro passo em direção aos seus sonhos já fora tão errado? Como trazer paz se em sua primeira chance ele cria apenas discórdias e mágoas?

—Não se preocupe, — falou Rávenus vendo-a sumir na passagem que levava ao jardim ao longe — não importa para onde ela vá, sempre será possível trazê-la de volta, afinal, ela sempre estará ligada a você, ou melhor, a mim, assim que concluirmos nosso acordo... E então, negócio fechado?

Rávenus estendeu sua grande mão, mas o rapaz continuou imóvel e sem reações.

—Estou falando com você! — disse o noxiano elevando a voz e segurando-o por ambos os braços.

—Consertar... — murmurou Pyrus, seus olhos ainda vítreos e vazios.

—Como disse? — indagou o negociante.

—Preciso consertar isso... Corrigir o primeiro passo para não chegar ao lugar errado... — comentou o rapaz para consigo mesmo.

—Do que está falando? Basta apertar minha mão! — disse Rávenus erguendo o pulso direito do invocador.

Porém, antes de cerrarem-se as mãos, Pyrus repeliu a dele e, dando-o as costas, tentou seguir Nami.

—Ainda não terminamos! — vociferou o mestre de Noxus agarrando o rapaz pelo ombro.

Pyrus lançou-o um olhar perigoso e ameaçador antes de se desvencilhar e, correndo, foi ao encalço daquela que ele magoara.

—Volte aqui, maldito! — urrou Rávenus com o intuito de segui-lo, sendo, contudo, impedido por Merlin.

—Eles devem encontrar um acordo entre eles mesmos antes de tomarem qualquer decisão... Não interferirá! — impôs o sábio mestre.

—Saia da minha frente, velho! — ordenou Rávenus, sem sucesso.

Enquanto isso...

—De-te-cta-da pre-sen-ça não re-gis-tra-da! — alertou uma voz metálica.

—Do que está falando, lata de sardinha? — indagou sua extravagante invocadora acabando de lamber os dedos.

A máquina apontou para um distante lago do outro lado do jardim. A fêmea cerrou os olhos para entender o que estava à sua margem.

—Uma sereia?... E... Pyrus? — disse ela espantada.

Continua...

Notas finais
Olá pessoal! Felizmente estou conseguindo manter o ritmo e postar um capítulo a cada quinze dias. Espero que continuem lendo e gostando. Até a próxima. Crazy.