A busca pelo brilho da lua
6 A Promessa
Notas iniciais
A passarela se foi e agora o túnel escuro corria veloz ao seu redor. A luz de seu final cresceu rapidamente até encher seus olhos. Pyrus subiu a escadaria e olhou ao redor, todavia não avistou Nami. Ou ela era incrivelmente rápida, ou não rumara para a saída. Ele voltou a correr. Seus sentidos atentos a todos os detalhes. Pelo canto de sua visão, um insignificante reflexo esverdeado chamou sua atenção. Lá estava ela, à margem do lago de Prossidiam, águas encantadas onde era possível ver em seu reflexo sua maior falha, seu pior defeito, o mais horrível de seus medos. A marai olhava-o, e via uma pedra da luz apagada se refletir, fazendo seu pranto inevitável.
—Perdoe-me! — pediu ele aproximando-se lentamente cheio de vergonha — Eu cometi um erro irreparável sem saber e não posso conviver com isso sem seu perdão...
Ela olhou-o por cima dos ombros, vendo o arrependimento que ele parecia sentir, entretanto, ela já não podia mais confiar nele e, por isso, deslizou para dentro do lago.
—Por favor, dê-me uma chance de corrigir meus enganos! — gritou ele, fazendo-a parar apenas com a cabeça ainda não submersa.
—É fácil assim pedir perdão quando se tem tudo o que quer? — indagou ela sem mostrá-lo a face.
—Eu não tenho nada! Nunca mais terei coisa alguma, ao menos, não sem saber se posso ser absorvido de meu pecado! — falou ele cheio de tristeza.
—É uma pena, pois nem a mim você tem mais... — disse ela sentido uma horrível aflição tomá-la.
—Não lhe venderei! — afirmou ele convicto — Não sem escutar de sua boca que é isso o que você quer!
—Jogará fora a maior chance de sua vida? — questionou ela sarcástica e tomada por desprezo.
—Aceitar algo assim... Mais do que você, trairia meus próprios sonhos e tudo no que acredito, e isso é tudo o que me resta... — confessou ele com seu coração em dor — Sabe o que vejo ao buscar meu reflexo neste lago?
Nami voltou a olhá-lo por cima dos ombros com o limite de sua visão.
—A mim mesmo... — contou ele — Porém, são minhas costas que estão viradas para mim. Não sou digno nem de meu próprio reflexo...
A marai se virou para ele. Pyrus encarava as águas com pesar.
—No começo eu não entendia, mas quando fui reprovado compreendi. — explicou ele — No fundo, nunca acreditei realmente que conseguiria. E essa foi minha maior falha. Nem mesmo meu reflexo quer encarar tamanho fracassado... E então eu a encontrei naquela praia e vi a oportunidade de mudar isso, a chance de ser útil a alguém, a chance de acreditar que sou capaz de fazer o que é necessário, mesmo sem ter o título que tanto almejei. E cheio de esperança a trouxe aqui.Então voltei ao lago, porém meu reflexo continuava a me rejeitar. Eu sabia que deveria, eu queria ter tido a coragem de pedir sua ajuda também, mesmo que você a negasse, mas não o fiz e mais uma vez... Não sei quando ou como eu cometi tamanho crime, porém enganei a nós dois e quase enterrei tudo o que existe de mais importante para nós... Nami, prometo que farei de tudo, absolutamente tudo o que for necessário para que pelo menos a sua missão seja cumprida e você possa regressar para seu povo com sua missão cumprida!
—Sua palavra não me serve mais! — disse Nami ainda relutante em aceitar o que escutara.
—Então tome meus sonhos! — propôs ele tirando seu colar e estendendo-o para a sereia.
A marai se surpreendeu com aquela atitude repentina.
—Sem meu colar, todos os meus sonhos estarão perdidos para sempre, mas acho que devo isso a você. — falou ele sem dúvidas no olhar.
—Tolo! Como isso iria me ajudar? — recuou Nami sentindo-se estranhamente mal com aquilo.
—Eu não sei, mas se for o necessário, ou apenas seu desejo, eu o darei a você! — afirmou ele caminhando para dentro do lago.
A conjuradora sentiu-se acuada com a atitude inusitada de Pyrus e seus passos inabaláveis em na direção dela, e mergulhou por completo. Agora ele não a seguiria e desistiria. Ou talvez não! Pyrus prosseguiu águas adentro, submergindo até onde ela estava. Nami não conseguia acreditar, seus rostos a um palmo de distância. Ela se afastou, indo para mais fundo, contudo ele continuou até a distância entre eles ser restabelecida. Ela recuou. Ele avançou. Havia uma determinação inabalável ali. O colar estendido a ela na palma da mão aberta. Os músculos do rapaz começaram a se contorcer em espasmos espontâneos gerados pelo instinto de sobrevivência. Ele estava ficando sem ar, no entanto, se recusava a voltar.
—Está louco? Volte! — falou ela, mesmo sob a água.
Pyrus balançou a cabeça em negação, sem demonstrar espanto ao ouvi-la.
—Posso ser incapaz de feri-lhe, mas não tenho obrigação de salvá-lo também! — avisou ela.
Ele sorriu, e nesse momento seus pulmões venceram seu autocontrole, soltando todo aquele ar aprisionado sem mais oxigênio algum e sendo tomados pelo líquido exterior. Seu peito ardeu e convulsões tomaram seu corpo. Ele estava se afogando.
"... Seu invocador deve morrer!"
As palavras daquele monstro se repetiram infinitamente, quase sussurrados, nos ouvidos de Nami e um estranho dilema surgiu para atormentá-la. Ela o deixaria morrer e se tornaria livre novamente para sair a procura de uma chance que talvez nem existisse sem o auxílio do "estatuto" (instituto) em um mundo que ela nem conhecia, ou salvaria aquele no qual seu bobo coração sempre vira uma boa pessoa, mesmo sabendo que um novo engano causaria o sofrimento de seu povo? Perante aquele impasse, ela petrificou.
Diante do vermelho dos olhos dela, o corpo de Pyrus parou de se debater e o colar lhe escapou pelos dedos. O rapaz vislumbrou uma última vez o rosto da marai e, em seu pensamento final, ele desejou-a boa sorte. Ele fechou os olhos e sentiu um estranho frio metálico apertando seu abdômen, seguido por um forte puxão.
"Então é essa a sensação de ter a alma arrancada do corpo? Engraçado..."
Uma poderosa corrente elétrica cruza o corpo de Pyrus, seguida por um violento apertão em suas costas, fazendo-o expelir boa parte de toda água em seus pulmões. Ele recobrou a consciência tossindo dolorosamente restante do excesso de líquido em seu peito. Seu rosto sentiu a grama no qual estava caído.
—... bem?... ei... ei, Pyrus... cê está bem? — perguntava uma voz familiar.
Rodando os olhos nas órbitas, o rapaz tentou desembaçar a vista e encontrar quem falava com ele. Cabelo verde, meias três quartos laranjas, saia rosa, botas roxas e jaqueta azul. Mesmo sem ver com clareza o rosto, só haveria uma pessoa, ou melhor, uma Homofelinnus em toda Valoram que se vestiria assim.
—Tálida? — perguntou ele ainda com a cara na grama.
—Ufa! Ele está bem... — disse ela aliviada soltando um suspiro — Boa Blitão, gj (good job = bom trabalho)!
Tálida era uma fêmea muito semelhante a uma garota comum em muitos aspectos, embora tivesse cauda e orelhas de gato doméstico. Seus olhos amarelos também seguiam a tendência de seus primos animais.
—Como... você me...? — perguntava ele tentando, com dificuldade, se sentar.
—Oras, sou uma invocadora agora, esqueceu? — explicou ela, oferecendo a cauda como ajuda para Pyrus e puxando-o para cima — Ai! Não seja tão rude com ela!... Bem, como dizia, pedi para meu campeão tirar-lhe daquela fria. Lata velha, conheça meu amigo de infância, Pyrus Igns!
—Pra-zer em co-nhe-cê-lo! — falou uma máquina amarela de metal com sua voz robótica — Meu no-me é Blitzcrank. Tí-tu-lo: o gran-de gó-lem a va-por.
—Olá. — respondeu Pyrus — E a água não estava fria.
—É só uma expressão! — zangou-se ela por ser mal compreendida (como sempre), cruzando os braços.
—Obrigado pela ajuda. — agradeceu ele ficando de pé, com algum esforço, e voltando a caminhar em direção ao lago.
—Ei, onde pensa que está indo? — indagou a meio-felina agarrando-o e virando-o para si.
—Tenho um assunto a resolver. — disse ele.
—Entendo... — falou ela olhando-o com as sobrancelhas levantadas — Purificar!
Duas esferas concêntricas branco-transparentes de tamanhos distintos surgiram ao redor do rapaz por alguns instantes e desapareceram novamente.
—Pronto! Problema resolvido! — disse a invocadora orgulhosa de si mesma colocando as mãos na cintura.
—Certeza? — perguntou ele.
—Uhum! — confirmou ela.
Pyrus se virou e continuou seu caminhar para o lago, e mais uma vez foi parado por Tálida.
—Que história é essa? — indagou ela bastante descontente — Minha magia deveria ter anulado qualquer feitiço que aquela sardinha jogou em você! Por que ainda está indo na direção do lago?
—Ela não jogou feitiço algum em mim. — disse ele com naturalidade.
—Hã? Está me dizendo que está indo atrás dela por livre e espontânea vontade? — assustou-se ela.
Ele confirmou com um movimento de cabeça.
—Quer virar comida de peixe? — gritou Tálida indignada — Sabe o quão perigosos esses seres são? Tem idéia do número de relatos de marinheiros que foram atraídos por elas e desaparecem nas profundezas?
—Ela não é assim. Acredite, passei tempo o suficiente junto dela para poder afirmar isso... — defendeu ele.
—Então por que ela mesma não o salvou? — perguntou a invocadora desconfiada.
—Está chateada comigo. Eu a magoei. Magoei muito. E agora preciso pedir perdão... — explicou ele cabisbaixo.
—Bem, magoar mulheres é sua especialidade, mesmo que seja sempre sem querer... — lembrou a meio-felina com cara de quem já viu isso se repetir várias vezes — Entretanto, não precisa se matar para provar que está arrependido!
—Talvez desta vez precise... — comentou ele.
—Besteira! — falou ela agarrando-o pelo rosto e encarando-o com firmeza — Você pode se um grande idiota às vezes, e merecer ser pisoteado por uma multidão enfurecida por isso, mas conhecendo-lhe desde que éramos filhotes, posso afirmar que você jamais faria algo tão imperdoável assim. Estou certa de que quando ela perceber isso também irá perdoar-lhe (assim como já fiz milhões de vezes).
—Espero que tenha razão, — disse ele abaixando as mãos dela — no entanto, ainda preciso fazer isso. Devo a escolha a ela.
E com essas palavras ele voltou a adentrar o lago.
—Ela verá que você é um cara legal! — gritou Tálida escondendo sua preocupação pouco antes dele submergir por completo.
Pyrus nadou até a marai uma vez mais. Nami dava-lhe as costas, porém ele sabia que ela já o tinha percebido e apenas esperou. Todavia, desta vez o ar não tardou a faltar-lhe. Seu corpo estava longe de ser capaz de repetir a façanha anterior. Estava prestes a perder o controle de seu diafragma e começar a se afogar novamente, porém, desta vez a sereia já havia tomado uma decisão...
Tálida aguardava apreensiva na superfície. Aquele idiota teimoso estava demorando muito para voltar.
—Blitz, preciso de outro puxão biô... — falava ela quando foi interrompida pelo que parecia uma explosão na superfície do lago.
Uma grande bolha d'água surgiu e deslizou rapidamente para a terra, desmanchando-se imediatamente ao alcançá-la para permitir que aquele em seu interior respirasse. Pyrus inalou todo o ar que foi capaz de uma só vez. Ele estava ofegante e surpreso. Nami também emergira e, deslizando lenta e graciosamente, vinha na direção da margem trazendo consigo um olhar furioso. Ela parou no limite entre a grama e a água e esperou o rapaz olhá-la, sem mudar o foco para os outros por nenhum momento.
—Se quer tanto assim se matar, ótimo, mas faça isso bem longe de mim! — ralhou com Pyrus a marai, surpreendendo Tálida não apenas com sua apetitosa beleza, mas também por sua reação inesperada.
—Nham! — fez a invocadora lambendo os beiços com sua língua áspera.
—Pensei... que quisesse me ver morto! — falou o rapaz sem tirar os olhos dos vermelhos dela, deixando-se cair exausto de costas na grama.
—Eu queria! — disse ela seriamente — Mudei de idéia...
—Por quê? — indagou ele curioso.
—Depois que aquela mão de metal lhe salvou, vim até a superfície e escutei a conversa de vocês. — contou ela — Vou lhe dar mais uma chance, mesmo que não mereça. Porém não se engane, continuo a não confiar em você. Acho que nunca mais confiarei novamente.
—Mas se não confia nele... — começou Tálida confusa.
—Um pressentimento me diz que é o que devo fazer, — explicou a marai prevendo a questão que lhe seria imposta — e eu confio em meus pressentimentos.
—Obrigado! — agradeceu ele sentido grande alívio em seu peito.
—Okay, alguém pode finalmente me contar como toda essa confusão começou? — pediu Tálida não contendo mais a curiosidade.
...
—E foi isso! — concluiu Pyrus após a longa narrativa de como chegaram aquele ponto.
—Como você fez um pacto sem saber? — questionou Tálida jogando os braços para o alto inconformada.
—Se eu soubesse, não teria feito! — retrucou ele inconformado com o inconformação da amiga — De qualquer modo, preciso arrumar a bagunça que causei.
—E como vai fazer isso? — indagou a invocadora.
Pyrus sentou-se cruzando as pernas e, pensativo, apoiou a cabeça nas mãos. Então um pensamento iluminou sua mente.
—Já sei! — falou ele batendo um punho na palma da outra mão — Tálida, passarei meu pacto para você!
—O que? — assustou-se Nami.
—Nem pensar! — discordou imediatamente a meio-felina — Já tenho dois campeões sob minha responsabilidade. Outro seria demais! Sem condições!
—Mas Tálida, você é a pessoa mais honrada que conheço! Estou certo de que está se esforçando para cumprir seus contratos! — falou ele.
—Pessoa? Honrada? Ha ha ha! Não me faça rir! — disse ela cheia de sarcasmo — Meu primeiro pensamento ao ver essa sereia de perto foi imaginar de quantos modos diferentes poderia preparar um belo prato com ela!
—Heim? — fez Nami.
—Você sempre foi honesta comigo! — lembrou ele.
—Por que você é o único amigo verdadeiro que tenho! — confessou ela ruborizada — Não quero perdê-lo. Mas isso não significa que sou tão confiável quanto pensa.
—E onde encontrarei outra pessoa que conheça tão bem a ponto de confiar Nami e sua missão? — questionou Pyrus.
—Eu não quero que encontre outra pessoa! — gritou a sereia irritada por ser tratada como um objeto novamente, surpreendendo a dupla de amigos — Apenas quero que cumpra aquilo que disse que faria quando nos conhecemos! Você afirma que o pacto não era sua intenção, então prove me ajudando a findá-lo.
—Mas eu nem seu realmente um invocador... — lembrou ele tristonho — Como poderia...?
Plaft!
A marca dos cinco dedos da mão de Tálida agora se formava na face de Pyrus, agora perplexo.
—Só porque você foi reprovado naquela porcaria de exame, onde fizeram de tudo para que você falhasse, não significa que você não é qualificado para ser um de nós! — disse ela nervosa diante da atitude derrotada dele — Foi você quem me ensinou todos os feitiços que sei! Foi você quem me deu a esperança de ser mais que uma mera ladra de comida naquelas docas nojentas de Sentina! E caramba, você tem uma campeã! Ela pode parecer um peixinho de aquário, mas ainda é uma campeã!
—Peixe? — falou Nami, sua sobrancelha direita tendo espasmos involuntários.
—Qual é Pyrus? Cadê aquele cara que sonhava em mudar o mundo? Cadê aquele garoto que sonhava com um futuro melhor? — perguntou Tálida acariciando o local do tapa.
—Você disse que quer voltar a ser digno de seu próprio reflexo, não? — comentou Nami abruptamente — Então comece acreditando em si mesmo!
Sem palavras, Pyrus olhou para a grama. Vergonha e medo. Então fitou o teto e se lembrou das estrelas lá fora. Coragem e felicidade. E por fim para Nami e Tálida. Gratidão.
—Nós salvaremos seu povo, Nami. É uma promessa!
—Então acho que precisará disto! -falou a marai devolvendo-o seu colar.
Continua...
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