A busca pelo brilho da lua
22 Traçando Planos
Notas iniciais
Não foi fácil amansar a fera. Nami ficou furiosa por ter sido “esquecida” no instituto.
—Nami, pela décima vez, eu não esqueci você! – falou Pyrus cansado da birra da marai – O problema é que fui parar em Zaun!
—Certo... – disse ela sem acreditar.
—Se dúvida de minha palavra, pergunte à... – ele parou quando um policial aproximou-se do café onde estavam.
—Também não gosto disso! – comentou ela quando o oficial se afastou.
—Logo poderemos falar sem problema. O passe deverá chegar em breve e poderei regulamentar a situação. – disse o invocador.
—Estou falando do simples fato de ter feito um pacto com ela. Isso vai nos atrapalhar! – explicou a sereia.
—Já lhe contei o porquê de me tornar um invocador... – falou o ruivo em um tom mais sério – Não podia abandoná-la.
—Mas ela só quer botar fogo no mundo! – apontou Nami.
—Tenho dúvidas quanto a isso... – falou ele.
—Sabe que tomarei qualquer medida necessária para impedir que ela coloque em risco minha missão, certo? Seja o que for! – enfatizou a sereia.
—Sei disso! – disse ele.
—Ótimo! – disse ela puxando um livro da bolsa que comprou com seu primeiro salário para poder carregar todo o necessário de forma outra que suas bolhas d’água.
Ela entregou-o para Pyrus, o qual o observou intrigado.
—Pensa que fiquei parada lhe esperando todo aquele tempo? – perguntou ela ainda emburrada.
Pyrus abriu o encadernado e examinou o conteúdo. Não era um livro de feitiços ou qualquer outro conhecimento mágico. Era um relatório de exploração descrevendo ruínas, templos antigos, armadilhas, achados e descobertas. Tudo de forma mais romântica do que técnica. O invocador não conseguia compreender por qual razão a marai havia se interessado por aquilo até a imagem de uma das descobertas do explorador esclarecê-lo. Uma urna, cuja descrição sob a fotografia dizia ser da civilização perdida de Shurima, continha gravuras de seres metade humanos, metade peixes. O ruivo leu com cuidado o texto relacionado. Aquela relíquia foi encontrada em um templo enterrado pelas dunas eternas do deserto. O local foi encontrado por acidente durante uma tempestade. O único sobrevivente de toda a caravana que cruzava aquela área relatou: “As areias estão vivas e famintas! Elas devoram tudo que nelas tocar!”. O explorador, intrigado pela fascinante história, aventurou-se pela região, constatando que a causa daqueles rumores era uma criatura subterrânea capaz de cavar com extrema precisão e velocidade assustadora, dona de uma fome insaciável e voraz. Já dentro do templo, depois de muita dificuldade, encontrou dezenas de objetos de valor inestimável que, no entanto, o deserto reclamou para si e não permitiu serem-no roubados. Pouco após a partida do explorador, a tempestade interminável que assolava a área naqueles dias cobriu qualquer rastro ou evidência daquelas ruínas. Ainda assim, uma prova da aventura sobreviveu. Dentro da urna, o único item que o explorador conseguiu trazer consigo naquela que acreditava ser a primeira de muitas expedições, quase uma dúzia de pergaminhos descreviam, em shurimane arcaico e quase esquecido, aquilo que parece ser as descobertas em conjunto da civilização perdida do deserto e do povo que glorificava a lua. A urna e seu conteúdo foram entregues à Biblioteca Real de Demácia para maiores estudos de suas propriedades arcanas. Pyrus correu as páginas até a contracapa a fim de verificar o autor e para sua não-surpresa o Explorador Pródigo – Ezreal – aparecia em uma foto.
—Você leu isso aqui? – indagou o ruivo.
—Dei uma olhada rápida. – respondeu Nami – Ainda não tive muito tempo livre para aprender a escrita de vocês. Mas já sei reconhecer a palavra “lua”.
—Foi o que pensei... – sorriu ele.
—E então? Quando iremos partir? – perguntou a marai terminando sua xícara de café.
—Gostaria que fosse tão simples... A Biblioteca Real de Demácia é restrita apenas para a elite da cidade, tendo alas permitidas apenas para a realeza. – explicou ele – Nem se o próprio escritor disso aqui nos acompanhasse poderíamos entrar. Acho que o próprio alto-conselheiro Heyward não tem autoridade para conseguir uma permissão para nós...
—Não me interessa! – disse Nami obstinada – O destino de meu povo depende disso e farei o que for preciso para salvá-lo! Se precisar, derrubarei a parede do lugar!
—Vê como a Jinx pode ser bem útil? – sussurrou Pyrus sorridente.
—Estou falando sério! – zangou-se ela.
—Sei disso... E por isso precisamos nos preparar... – alegou ele com um olhar repleto de idéias.
Nami não soube o que dizer. Ela não esperava uma reação tão positiva à sua declaração.
...
—Aqui estão os livros que me pediu! – disse Tálida apontando para duas pilhas, cada qual com quase uma dúzia, à porta de sua casa.
—Esses são todos? – indagou o ruivo.
—Nem de longe, – respondeu ela – porém são os que me pareceram mais relevantes.
—Deve ser o bastante para começar... – analisou Pyrus – Obrigado!
—Devolvê-los será sua responsabilidade! – alertou a meio-felino.
—Eu sei! – sorriu ele – Nami, pode me ajudar?
—Tenho escolha? – perguntou ela descontente.
Com cada um carregando uma das pilhas, a dupla voltou para sua inusitada habitação e logo o invocador se pôs a devorar o conteúdo daquelas páginas, parando para fazer anotações e desenhos de tempos em tempos.
—Pyrus! – chamava Jinx vindo apressada e eufórica – O tio Heimer me contou da...
Nami passou-lhe a cauda, mas a doida estava alerta e, mais rápida, pulou sobre a rasteira. Entretanto a marai já esperava por isso e, um passo a frente da outra, acertou-a ainda em pleno ar com um jato de água na cara. Assim que Jinx estatelou-se no assoalho empoeirado, a sereia “sentou-se” sobre ela, impedindo-a de levantar-se novamente.
—Quieta! – ordenou a marai – Ele está trabalhando!
Jinx tentou falar, no entanto Nami submergiu ambas em uma de suas bolhas, deixando apenas um pouco de ar (que era renovado periodicamente) ao redor do nariz da maluca. Descontente, Jinx mostrou a língua para a sereia, a qual gozava o momento.
Nos dias seguintes, a marai fez todo o possível para impedir que a doida das tranças azuis se aproximasse de Pyrus, obtendo grandes sucessos e humilhantes derrotas. O prazer da vitória andava de mãos dadas com o estresse do fracasso para Nami enquanto Jinx divertia-se com o resultado que obtivesse. Pyrus, contudo, não se restringiu à literatura. O invocador passou bastante tempo nos laboratórios da academia, sob autorização do professor Albert, conduzindo testes e experimentos, além de ir à procura de todos os campeões residentes em Piltover buscando informações que ele mesmo classificava como confidenciais.
—Blitzcrank, preciso pedir-lhe um favor... – disse ele ao Gólem à Vapor quando este atendeu a porta da casa de Tálida.
...
Zaun não parecia tão perigosa quando se perambulava por suas ruas mais movimentadas. Blitzcrank parecia ser bem famoso dentre os zaunitas. Todos o olhavam com admiração, embora divergissem nos comentários. Muitos diziam ser este o auge do professor Stanwick, sua maior criação, o momento de seu máximo. Por outro lado, alguns contestavam essa versão, dizendo que, na verdade, o gólem era a primeira prova da grandiosidade do Arauto das Máquinas, o qual teve sua glória usurpada.
—Blitzcrank, – chamou Pyrus curioso – sei que muitos já devem ter lhe perguntado isso, mas...
—Sou ju-di-ci-al-men-te pro-i-bi-do de res-pon-der in-da-ga-ções so-bre meu cri-a-dor! – antecipou-se o gólem.
—Okay... Mas você tem mais amizade com Viktor do que com Piditly, né? – questionou o ruivo.
—Cor-re-to! – confirmou Blitzcrank.
—Foi o que pensei... – concluiu o invocador.
Depois de mais dois elevadores, eles chegaram a um grande prédio com fios e cabos saindo por todos os lados. Blitzcrank adiantou-se e abriu a porta da frente sem cerimônias, entrando sem se anunciar. Pyrus o seguiu, deparando-se imediatamente com a versão da Boca do Abismo, entretanto.
—Alvo reconhecido! – falou a máquina já ativando seu sistema de armas.
Contudo, o Grande Gólem à Vapor acertou Kog’Maw com seu poderoso punho, jogando-o contra a parede e iniciando sua auto-destruição. Porém, antes do relógio zerar, Blitzcrank puxa a carcaça metálica para perto e queima os circuitos responsáveis pela detonação com seu campo estático. Pyrus não diz uma única palavra.
—De-ve es-tar com de-fei-to no-va-men-te. – falou o gólem.
Eles seguiram adiante, subiram algumas escadas e, enfim, chegaram ao laboratório principal. O local era extremamente organizado. Todas as ferramentas em seus devidos lugares, depósitos de materiais divididos em ordens numéricas e alfabéticas, chapas de cobertura e blindagem pré-cortadas nos tamanhos adequados prontas para serem inseridas nos diversos equipamentos de estampagem, dobra e corte de precisão, pernas e braços sobressalentes guardados em armários hermeticamente vedados... E ao centro disso tudo o Arauto das Máquinas a desenvolver e analisar seus projetos conceituais nas dezenas de telas transparentes flutuantes que o cercavam.
Blitzcrank soltou ruidosamente a carcaça de Kog’Maw no chão.
—Precisava ter feito isso? – indagou Viktor ainda no mesmo lugar sem tirar os olhos das telas.
—E-le a-pre-sen-tou de-fei-to. – informou o gólem.
—Não é defeito quando o alvo está presente no banco de dados. – retrucou o arauto.
—E por que Py-rus es-ta-ri-a pre-sen... – indagava Blitzcrank.
—Pergunte a ele! – interrompeu Viktor.
—Lugar errado, hora errada? – falou Pyrus.
—Duas vezes? – insistiu o arauto.
—Para você ver como tenho sorte. – ironizou o ruivo.
As telas ao redor de Viktor desapareceram em rápida sucessão, liberando caminho para o campeão vir até o invocador.
—Os sensores não detectaram ninguém suspeito além daquela ladra em um raio de dois quilômetros daqui naquele dia e a análise das imagens demonstra surpresa verdadeira em sua face, – comentou Viktor – ainda assim, estou certo de que há alguma relação entre vocês!
—Digamos que está certo... – confirmou Pyrus corajosamente.
Viktor escaneou o rapaz. Ele parecia deliberar sobre algo.
—O que quer aqui? – perguntou o arauto rispidamente.
—Preciso de ajuda em um projeto pessoal. – informou o ruivo sem demora.
—Não estou interessado! – respondeu Viktor imediatamente dando-o as costas.
—Eu sei que não. Por essa razão quero apenas encomendar a tecnologia. – falou Pyrus.
—Dinheiro não me interessa! – disse o arauto enquanto algumas daquelas telas reapareciam à sua frente.
—Mas a tecnologia da qual preciso talvez sim... – retrucou Pyrus – Falo de um mecanismo de conversão bio-tecmatúrgico que absorva energia do usuário para alimentar outros equipamentos, em especial, micro-catalisadores hextec de magia elemental.
As telas à frente de Viktor desapareceram novamente.
—Pelo que entendi você pretende misturar conhecimento tecnológico com conhecimento arcano... Faz idéia do quão difícil isso é? – questionou o arauto.
—Mais ou menos. Comecei a estudar o assunto há pouco tempo. – confessou o invocador.
Viktor hesitou. A idéia era promissora. Ele mesmo já cogitou tal estudo, mas não encontrou solução para os problemas dos protótipos.
—Caso construa as sanguessugas para você, o que pretende fazer com elas? – perguntou ele.
—Manoplas para amplificar meu poder. – respondeu o ruivo.
Viktor riu.
—Você seria totalmente drenado em um instante. Sanguessugas não podem ser controladas. Elas continuarão a absorver seu poder arcano até ele se esgotar por completo! – apontou ele.
—Normalmente isso seria verdade, – concordou Pyrus – contudo minha fonte de poder não é inerente a mim. Ela é externa. E ela eu posso controlar, o que, por sua vez, impede que as sanguessugas drenem tudo ininterruptamente. Mas preciso ter certeza de que as sanguessugas absorverão apenas energia arcana e nenhuma outra mais.
Viktor analisou aquela idéia. Na verdade era uma ótima solução para o problema, entretanto...
—Mesmo que funcione, uma manopla como essa não afetaria seu desempenho como invocador. Summoner’s Rift e os outros campos da justiça anulam potencializadores arcanos que não tenham sido previamente aprovados e enviados para o arsenal particular do instituto. – lembrou ele, demonstrando já conhecer a relação entre aquele com quem falava e a liga – Seu projeto só se mostraria útil para um caso de...
—Uma batalha real. Precisamente! – confirmou Pyrus.
Viktor manteve-se em silêncio.
—Meu dever com meu campeão certamente me colocará em situações de risco. Precisarei aventurar-me em lugares pouco receptivos e inóspitos para adquirir o conhecimento necessário para ajudá-lo. Devo estar pronto para isso. – falou o ruivo.
—Você é o novo invocador de que todos estão falando, correto? – perguntou o arauto – Aquele que desafiou Rávenus!
—Acho que sim... – disse Pyrus surpreso em ver como os boatos estavam crescendo.
—Por que eu? – questionou Viktor – Existem centenas de tecmaturgos em Zaun que aceitariam sem hesitar sua proposta. Já minha opinião é de que seria mais eficiente trocar seus braços biológicos por um sistema metálico adequado!
—Não estou pronto para isso ainda. Não estou pronto para iniciar a substituição de minha carne por ferro e aço. Ainda assim quero suprimir minhas fraquezas dando esse primeiro e tímido passo rumo à evolução. Venho até você porque é o melhor tecmaturgo de Runeterra. Blitzcrank é a prova viva disso. Sei que se alguém for capaz de fazer o que preciso, e fazer bem feito, esse alguém é você, doutor! – disse Pyrus com convicção.
O Arauto das Máquinas ponderou.
—Precisarei de tempo para analisar com mais cuidado sua proposta. – falou Viktor finalmente – Entretanto, caso aceite, quero acesso irrestrito ao projeto de suas manoplas como pagamento!
—De acordo! – consentiu o ruivo.
—Agora devo voltar ao trabalho! – prosseguiu o arauto.
—Agradeço por seu tempo! – disse Pyrus retirando-se junto de Blitzcrank.
O homem e o gólem refizeram seu caminho de volta à Piltover.
—Intrigante... – falou Viktor sentindo-se inspirado.
...
—Na próxima, quando sua situação na liga estiver acertada, levo-lhe junto. – prometia Pyrus para Jinx – Caitlyn não poderá pedir sua extradição enquanto estiver em terras estrangeiras nesse caso.
—Onde está indo? – indagou Nami deparando-se com o ruivo pronto para viajar.
—Shurima! – respondeu Jinx por ele sem rodeios.
—Quero investigar o relato daquele livro sobre o templo perdido. Ver se acho mais alguma relação entre seu povo e o império desaparecido. – explicou o invocador.
—E pretendia fazer isso sem mim? – indagou a marai.
—Não acho que um deserto seja lugar para uma sereia... – comentou Pyrus.
—Eu pedi sua opinião? – respondeu Nami grosseiramente.
—Eu quero só ver! – riu Jinx.
Continua...
Fale com o autor