A busca pelo brilho da lua
23 Shurima
Notas iniciais
—Estou com calor! Estou com muito calor! – choramingava Nami sob o sol escaldante do deserto de Shurima.
—Você que quis vir junto. – lembrou Pyrus balançando sobre seu dromedário.
—E que sede... Você ainda tem água aí? – indagou ela.
—Nami, eu não entendo! Por que você apenas não... – perguntava ele cansado de tanto choro.
—Olha! – ela apontou para o lado com uma alegria imensa.
O invocador virou-se para aquela direção e nada viu.
—Eu estava precisando disso! – disse ela avançando velozmente.
—Nami, onde está indo? – perguntou Pyrus preocupado.
—Dar um mergulho! – sorriu ela.
—Mergulho?... Não! Nami, é uma mira... – tentou avisá-la.
Pof!
A marai mergulhou de cabeça na areia quente.
Pyrus aproximou-se.
—Era uma miragem. Uma ilusão. – contou ele.
Nami levantou o tronco. Ela estava com cara de choro, provavelmente por ter se queimado naquela areia fervente.
—Isso não é justo! – gritou ela – Eu só queria me refrescar! Estou com calor, com sede e, agora, ardendo e coberta de areia!
Ela bateu o cajado no solo e uma grande correnteza surgiu da ponta do instrumento mágico, lavando o corpo da sereia.
—Bem melhor! – comentou ela sentindo-se limpa novamente.
—Por que não fez isso desde o começo? – questionou o ruivo.
—Isso o quê? – perguntou ela sem compreender.
—Deixa pra lá... – ele desistiu de ainda tentar usar a lógica.
—Iria perguntar se precisavam de ajuda, mas acho que quem pedirá algo serei eu! – disse uma voz feminina.
Uma figura misteriosa aproximou-se deles montada em um belo cavalo pardo. Ela usava uma cafia cobrindo o rosto, um cirwal e trazia uma abaia em volta do corpo.
—Vejo que possuem sua própria fonte d’água... Podem dar um pouco para mim? – o estranho estendeu sua bolsa de água para Pyrus.
—Claro! – disse o ruivo.
O estranho jogou a bolsa para ele.
—Mas estamos quase sem água! – “lembrou” a marai.
Pyrus levou a mão à testa.
—Peço perdão, mas acho que o sol forte fritou os miolos dela... – suspirou o invocador perdendo a paciência com tanta incoerência – Nami, como você fez para tirar a areia do corpo?
—Lavei-me! – respondeu ela com simplicidade.
—Ótimo! – ele riu para não chorar de nervosismo – Com que água?
—Com a que conju... Aaaaaaaaaaaaaaaaaah! – ela finalmente percebeu.
—Então faça a gentileza de conjurar um pouco de água doce para encher essa bolsa, por favor! – pediu ele, uma de suas pálpebras já tremendo.
—Certo! – disse ela.
Finalmente cheia, Pyrus atirou a bolsa de volta ao estranho, o qual descobriu o rosto para poder beber, revelando sua identidade.
—Você é Sivir, a Mestra da Batalha! – constatou Pyrus.
—Então me reconheceu mesmo sem minha armadura. É bom ver que meu nome continua forte mesmo fora do deserto. – comentou ela.
—Não diria que aquele biquíni de metal possa ser chamado de armadura, porém... – pensava ele em voz alta.
A campeã de Shurima olhou-o com seriedade.
—Digo, é uma honra conhecê-la! – ele retratou-se.
—O que alguém de Sentina e... – ela procurou as palavras certas – Uma garota do mar?... Fazem em Shurima?
—Como sabe que sou de Sentina? – indagou o ruivo desconfiado.
—Muitos procuram meus serviços, rapaz. Já lutei por muitas bandeiras. Com o tempo fica fácil saber quem vem de onde. – explicou ela.
—Bem, estamos atrás de pistas sobre um artefato. – informou Pyrus – Há alguns anos um explorador de Piltover...
—Ezreal? – presumiu ela.
—O próprio. – confirmou o ruivo.
—Ele está sempre por aqui, – comentou Sivir – contudo, nunca paga meu preço...
—Há um livrou no qual ele relata seus achados em uma de suas expedições aqui em Shurima, e dentre eles há uma urna que chamou nossa atenção. – explicou Pyrus – Segundo o relato, aquela foi a única relíquia que ele conseguiu recuperar antes do templo ser engolido pelas areias.
—Suponho que o plano é encontrar esse templo... – concluiu ela.
—Esse seria o ideal, – confirmou Pyrus – mas qualquer pista já estaria de bom tamanho.
—Ou são muito corajosos, ou muito ingênuos! – comentou Sivir – Eu mesma já tentei chegar a esse templo. Sei exatamente onde ele está. No entanto, a besta que protege aquelas areias é implacável. Se me perguntarem, diria que Ezreal tem sorte de ainda estar vivo.
—Agradeço o aviso, porém precisamos tentar. – disse o invocador convicto.
Sivir mediu-o com o olhar.
—Estava indo verificar as condições de um oásis não muito distante... – disse ela depois de alguns segundos – Faço-lhes uma proposta: vocês vêm comigo e abastecem minhas reservas de água, poupando muito tempo e esforço de meus homens, e eu lhes darei a localização do que procuram. Pode não acreditar, mas essa é uma das melhores barganhas que já fiz com um estrangeiro.
—O que acha Na...? – o ruivo virava-se para perguntar à sua parceira, contudo deparou-se com uma grande e transparente bolha d’água dentro da qual a marai parecia muito feliz – Feito!
...
O acampamento das tropas da Mestra da Batalha estava poucas léguas de distância, mas diante do sol poente detrás das dunas do deserto, Pyrus aceitou o convite da mercenária de passa a noite ali. Aqueles sob o comando de Sivir comemoraram seu regresso e prontamente trouxeram os jarros e as bolsas para Nami recarregar. No jantar: carne cozida e olhos e bode no azeite, tudo acompanhado de um pão achatado, fino e circular, diversos temperos típicos e frutas secas. Esfomeada como de praxe, a sereia comeu mais do que qualquer um ali, aceitando tudo que lhe era oferecido. Sua gula interminável tornou-a um entretenimento a parte para os soldados, os quais apostavam entre si quando ela iria parar.
—Sabe navegar pelas estrelas? – indagou Sivir.
—Sou de Sentina, lembra-se? Aprendemos isso antes mesmo de ler ou escrever. – respondeu Pyrus.
—Vê a estrela do leste? – apontou a campeã – Ela deve ficar sobre seu ombro direito pelos próximos sete dias até uma tempestade de areia tornar impossível vê-la. Quando isso acontecer, siga seus instintos, para mantê-la diagonalmente a sua frente e encontrará o templo. Ele não costuma ficar muito tempo visível, então precisará de sorte também.
Pyrus tirou um pequeno astrolábio do bolso e fez suas medidas. Sivir olhou com desdém para o objeto.
—Ufa! Estou farta! – disse Nami aproximando-se.
Alguns homens ao fundo comemoravam e pegavam o dinheiro colocado sobre um tapete.
—Então recomendo que durma! – disse a outra se levantando – Em Shurima, quem não dorme durante a noite não consegue fazê-lo durante o dia.
Sivir voltou para sua tenda.
—Acho melhor seguirmos o conselho. – falou Pyrus.
—Então até amanhã! – concordou a marai antes de criar uma bolha protetora ao redor de si e outra ao redor de seu invocador.
Pyrus olhou relutante para seu astrolábio. Sivir era conhecida por cobrar preços exorbitantes por qualquer serviço, então por que aceitou tão pouco por uma informação tão valiosa?
“Acho que só terei a resposta quando chegar lá...” pensou o invocador guardando o astrolábio no bolso e indo dormir.
Naquela noite os sonhos de Pyrus foram mais estranhos do que de costume e diferentes de qualquer outro antes. Vozes sussurravam em meio às dunas do deserto, vozes sombrias que o guiaram às ruínas perdidas de uma cidade esquecida pelo tempo. A tempestade eterna soprava furiosa tentando enterrar o que não é natural, contudo aquela força obscura resiste e cresce silenciosamente. O chão estremece e um templo em ruínas se ergue. A voz sussurra em seu ouvido: “Icathia!”. Uma besta disforme eleva-se à sua frente e diz algo em uma língua desconhecida, embora ele entenda de algum modo: “Nem o sol da ascensão do deserto pode nos impedir! Esse sol não brilha mais!”. A coisa avança em um ataque fulminante, entretanto uma luz prateada resplandece do colar de Pyrus queimando a criatura e fazendo-a guinchar de dor. Outra voz surge: “Shurima protege o dia; os Lunari, a noite. Juntos protegemos essa terra do Vazio!”. No entanto, esta voz não era outra além da dele mesmo, saindo por entre seus próprios lábios. “Pyurs...” chamou uma terceira voz. “Pyrus...” insistia esta que muito lembrava a de...
—Pyrus! Seu vagabundo! Levanta! – gritou Nami sem paciência.
Ele sentou-se assustado.
—Nunca mais como olhos de bode antes de dormir... – comentou ele ainda confuso – Que sonho doido!
—Do que está falando?! – esbravejou a marai – Olhe ao redor! Fomos abandonados!
O ruivo fez o que sua campeã ordenou. Apenas areia e dunas os circundavam-nos. Em um momento de intuição ele levou a mão ao bolso, todavia o astrolábio não estava mais lá.
—Filha da... – ele deixou que a imaginação completasse a frase.
—Temos que ir atrás deles! – disse a marai furiosa.
—À pé? Jamais os alcançaríamos! – afirmou Pyrus com razão.
—E faremos o quê então? – questionou a marai com os nervos à flor da pele.
—Viemos encontrar um templo e é isso que pretendo! – respondeu ele com firmeza.
—Como? – indagou Nami.
—Sivir me contou como localizá-lo. – contou Pyrus.
—Ainda vai confiar nela? – a serei estava boquiaberta.
—Quando tiver uma idéia melhor ou uma pista mais confiável de como achar o templo serei todo ouvidos, mas até lá seguirei com os recursos que temos. – disse o ruivo pondo-se a caminhar.
—“Portaria” (porcaria)! – reclamou Nami pondo-se a segui-lo.
Não muito distante dali...
—Tem certeza de que devemos deixá-los ir? – perguntou um dos homens de Sivir.
—Não se preocupe. Eles estão indo ao encontro do próprio destino. A besta do Vazio quase nunca falha. – sorriu a mercenária brincando com o astrolábio em sua mão.
—Mas já houve sobreviventes! – lembrou o subordinado.
—Se o deserto decidir que eles devem viver, que assim seja... – respondeu ela – Confio no julgamento das areias.
—Rávenus nos pagou para matá-los. Se ele descobrir que os deixamos ir... – lembrava o homem.
—Ele nos pagou para matá-los caso os encontremos. E ele não precisa saber que isso aconteceu. – interrompeu ela – Além do mais, ele sabe muito bem que trabalho para quem pagar mais.
—Poderíamos conseguir água facilmente! Conhecemos todos os oásis desse deserto! Não precisávamos deles! – argumentou o outro.
—Você sempre pensou pequeno demais! – debochou Sivir – Eles querem chegar ao templo amaldiçoado dentro do qual aquele desgraçado do Ezreal disse ter inúmeras riquezas. Se conseguirem, teremos um meio de fazer o mesmo, o que é muito mais valioso que qualquer pagamento noxiano. Se falharem, teremos cumprido com nossa parte do acordo.
O homem calou-se pensativo.
—É por isso que sou a chefe e você, o empregado! – falou a campeã dando uma esporada em sua montaria e saindo a galope.
Continua...
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