Notas iniciais
"Oceanos, espalhem-se!"

A aliança de dois elementos é realmente assustadora. Os grãos de quartzo suspensos naquele vento furioso esfolavam qualquer parte de pele (ou escama) exposta e cegavam a tudo que estivesse a mais de um palmo de distância. Mesmo Nami cedeu à força das areias e vestiu sua espessa túnica de lona para evitar o poder da tempestade.

Pyrus prosseguia convicto de estar na rota correta indicada mesmo que o céu e a terra não mais pudessem ser distinguidos. Para não se separarem, uma corda amarrava-os pela cintura. Falar também era impossível. Mesmo tendo as bocas protegidas por grosso tecido, o som perdia-se ao deixar dos lábios naquela assustadora força que os subjugava. A noção de tempo desaparecera há muito. A escuridão era constante e a única luz vinha do próprio colar do invocador, embora pouco isso ajudasse. Ainda assim eles avançavam. O rapaz de Sentina não duvidava dos instintos vindos de sua terra natal sem ter idéia de que estava mais correto do que poderia sonhar.

O cansaço recaia sobre eles. Caminhar sobre aquelas ondas infinitas de areia em constante transformação e enfrentar o sopro do deserto eram tarefas árduas. O mesmo era flutuar sobre elas. A marai lutava para manter um mínimo véu d’água sobre o qual se mantinha antes que as areias o levassem por completo. A exaustão era real e sem suprimentos ambos já chegavam ao limite. Ele podia ouvir. Havia um sussurro malicioso em meio ao vento. Pyrus cogitou recuar e regressar com mais preparo, porém foi quando uma repentina calmaria os atingiu. A tempestade não se dissipara, mas abrandou o bastante para a luz do sol voltar a penetrá-la. Uma silhueta comprida e fina, elevando-se ao céu, apareceu no limite da visão. Eles rumaram em sua direção. Era um obelisco negro esculpido em um único bloco de obsidiana. Nele, inscrições estranhas e antigas pareciam advertir sobre algo.

—Devemos estar perto! – gritou Pyrus.

—O quê? – perguntou a sereia.

—Devemos. Estar. Perto! – repetiu ele aproximando-se e falando pausadamente para facilitar a compreensão.

Ela fez um sinal afirmativo com as mãos.

Eles seguiram adiante. Levou algum tempo para o invocador perceber que a sensação do sussurro desaparecera. Estranhamente isso era mais inquietante. Um solavanco na corda o impediu de prosseguir. Nami estava parada. Ela olhava ao redor com o cajado em punho.

—Qual o problema? – perguntou ele, sua voz quase desaparecendo no ar furioso.

—Vi algo se mover! – respondeu ela em prontidão.

O ruivo apurou a visão o máximo que pode, mas não avistou nada.

—Tem certeza? – indagou ele.

—Sim! – confirmou ela.

Os dois permaneceram imóveis. Nada.

—Não podemos ficar parados aqui! – alertou Pyrus.

—Espere mais um pouco! – pediu ela.

O invocador tentou novamente encontrar algo. Talvez aquilo fosse mais alguém que...

—Ali! – apontou Nami com o cajado.

Pyrus só teve tempo de ver seja-lá-o-que-fosse de relance.

—Tem idéia do que é? – questionou ele.

—Talvez! Fique atento e diga-me se vir novamente! – ordenou ela ainda mais tensa que antes.

Outro movimento cerca de cento e vinte graus a partir do primeiro. E mais um oitenta do anterior. Independentemente do que fosse, parecia mover-se sob as dunas. Agora, mais perto do que antes, algo semelhante à barbatana dorsal de um tubarão (e um dos grandes) emergiu por alguns segundos.

—Que porra é essa? – perguntou Pyrus nervoso.

—Uma besta do abismo! – respondeu a marai com uma ira transcendente.

—O quê? – assustou-se o ruivo – Pensei que só vivesse no fundo do mar!

—Parece que isso não é verdade... – falou ela apertando o cajado entre as mãos – Reconheço o padrão desse ataque em qualquer lugar!

Pyrus sentiu um arrepio subir por sua coluna. Enfrentar uma fera irracional era uma coisa, contudo esses monstros, segundo os relatos de Nami, são capazes até mesmo de falar para enganar suas vítimas.

—Fugir é uma opção? – indagou o invocador.

—São mais rápidos que eu dentro d’água! – alertou a sereia.

—Ótimo! – comentou ele com sarcasmo – E esse nada na areia...

Costas com costas, o humano e a marai aguardaram, porém não houve mais sinais do predador.

—Acha que foi embora? – perguntou Pyrus.

Um pulso de energia arcana rasgou as areias em direção a eles. A dupla desviou.

—Definitivamente não! – disse o invocador antes de o chão abrir sob ele.

Seus instintos o fizeram viajar em um flash espaço o bastante para evitar as presas da criatura, a qual se elevou mais de dois metros acima do solo antes de mergulhar novamente. Ele pode ver cada detalhe da monstruosidade como se essa passasse lentamente por ele. Aquela estrutura... Aquele exoesqueleto... Aquela energia... Era uma criatura do Vazio!

A corda que manteve Pyrus e Nami unidos até então agora laçava a monstruosidade e tensionava velozmente. Nami estava prestes a ser arrastada para dentro da terra, todavia ela conseguiu ceifar a ligação com um movimento rápido de seu cajado no último instante.

—Temos que achar o templo! E nossa melhor chance! – gritou o rapaz.

Ela concordou com a cabeça.

Avançando tão rápido quanto podiam, eles seguiram. Aquela barbatana emergiu novamente. Ela vinha diretamente para eles. Pyrus e Nami não recuaram ou mudaram o trajeto. A fera saltou para fora do mar de areia com suas garras e presas diretamente direcionadas para o ruivo. A sereia tentou usar sua Vazante e Fluxo, mas antes de encontrar seu alvo a habilidade foi completamente consumida pela tempestade. Pyrus, por outro lado, desferiu uma potente rajada mágica, a qual acertou a criatura pela lateral, defletindo-a. A besta caiu sobre a superfície e urrou antes de submergir. Sua barbatana aproximou-se paralelamente a eles desta vez antes de desaparecer em um solavanco, emergindo diretamente sob eles em uma explosão de areia. Pyrus protegeu Nami com sua barreira mágica, prevendo que qualquer habilidade da marai falharia nas condições ambientes atuais, enquanto ele próprio desaparecia e reaparecia em outro flash. A sereia foi jogada para um lado enquanto Pyrus foi obrigado a ir na direção oposta. A fera o perseguiu. Ela ultrapassou-o pela direita, fez uma longa e aberta curva e investiu pela diagonal. O invocador já estava pronto para revidar. O solavanco denunciou o salto que viria a seguir, e assim a coisa o fez... Pela esquerda, pegando o invocador totalmente de surpresa. Aquilo transpôs mais de trezentos passos em um piscar de olhos, além de mudar por completo a direção de sua inércia instantaneamente. Pyrus não tinha como se defender. A magia de reposicionamento ainda não estava carregada para ser usada novamente, principalmente depois de dois usos há tão pouco tempo. Entretanto a lâmina do cajado de Nami, em um movimento circular, colidiu contra o ventre da criatura e uma forte explosão aquática salvou a vida do humano. Aparentemente as habilidades corpo a corpo ainda eram bastante eficazes. Pyrus agradeceu com um aceno de cabeça.

A fera levantou-se chacoalhando o corpo como um cão molhado e agora parecia realmente irritada. Ela mergulhou uma vez mais e começou a circundá-los, submergindo e emergindo frequentemente, como se se preparasse para a derradeira investida. Então ela finalmente atacou. Solavanco e submersão. O salto veio pelas costas, mas a barreira de Pyrus estava preparada. Contudo a fera já havia aprendido sobre aquele truque de algum modo e usou a parede do feitiço para se redirecionar e mergulhar novamente nas areias. Contudo, mal sua cauda desaparecera, outro salto veio do lado diretamente oposto. A prisão aquática da marai se fez ineficaz, sendo absorvida imediatamente pela tempestade. Perplexo pela rapidez com que a fera aprendia o invocador só teve tempo de desviar do segundo ataque. O terceiro foi ainda mais imediato e Pyrus teve certeza de que nem todo o corpo da criatura estava submerso quando esta emergiu novamente em uma posição completamente nova. Havia mais de uma? Confuso, o ruivo precisou reposicionar-se em um flash. Nesse momento de hesitação o sussurro escondido no vento da tempestade retornou trazendo consigo uma ilusão maldita. Nami percebeu que algo estava errado com seu companheiro. O quarto ataque foi frontal, mas desta vez, em um estado catatônico, Pyrus não iria escapar. Nami ainda tentou salvá-lo jogando-se contra ele, todavia isso apenas colocou ambos ao alcance das garras da fera. A marai fechou os olhos imaginando que este era o fim para ela e para seu povo, porém ela estava errada. Um brilho intenso surgiu do colar do invocador, seguido por uma potente explosão sônica que atirou a besta do Vazio para trás. Aquilo acordou Pyrus e causou um zumbido enlouquecedor nos ouvidos da sereia. Ela ficou completamente desorientada e via tudo triplicado, mas aparentemente a fera havia sido várias vezes mais afetada do que ela.

—Som...- disse o rapaz para si mesmo – Aquela coisa não tem olhos!

—Pyrus, tire-nos daqui! – falou Nami apoiando-se no invocador para não cair – Aproveite que aquela coisa está atordoada!

—Eu... não posso! – concluiu ele segurando o colar.

—Como não pode? – perguntou ela incrédula.

—O colar está praticamente descarregado! – explicou o ruivo – Não vai conseguir teletransportar nem mesmo um de nós!

—Merda! – disse ela se pondo a deslizar para longe da fera o mais linearmente que sua desorientação permitia.

—Espere Nami! – ele correu e fechou o caminho da sereia.

—O quê? Quer ser morto aqui? – irritou-se ela.

—Não! Olhe! – ele apontou para o lado.

Os topos de torres corroídas pelo tempo revelaram-se após uma duna não tão distante.

Eles avançaram. Mesmo que a fera os seguisse, não poderia cavar em rocha sólida. Aquilo era a solução, aquilo era a salvação, aquilo era...

—... Um pesadelo! – concluiu Pyrus ao chegar ao topo da duna e ter visão clara das ruínas.

O templo estava lá, mas totalmente soterrado. As torres que lhes encheram de esperança era a única parte que o deserto não engolira por completo. Não havia como alcançar seu interior. A única coisa que poderia entrar era a mesma que os caçava. Pyrus caiu de joelhos exausto.

—Não podemos parar ainda! – disse Nami olhando para trás e vendo que a besta já se recompunha.

—Devia ter trazido a Isabelle... – comentou Pyrus inocentemente.

—O que foi que você disse? – indagou a sereia sentindo o sangue ferver.

—Veja bem, ela sempre carrega um arsenal consigo. Seria bem útil agora...

—Está dizendo que sou inútil? – o sangue da marai esquentou mais do que as areias do deserto.

—Nami, não foi isso que quis dizer! – apressou-se ele a tentar explicar – Mas está tudo tão seco que qualquer coisa que você tente...

—Eu não sou inútil! – urrou ela a meio centímetro da cara dele.

A marai voltou-se para a criatura, a qual já vinha novamente ao encalço deles.

—Nami, o que está fazendo? – assustou-se Pyrus vendo-a rodar freneticamente o cajado sobre a cabeça – Não vai funcionar! O deserto... A tempestade vai...

—Eu. Não. Sou. Inútil! – vociferou ela cravando violentamente a base do cajado na areia.

As águas inundaram o subsolo e banharam o deserto com muito mais do que ele era capaz de absorver imediatamente. Os grãos de quartzo encharcados dobraram-se à vontade da Conjuradora de Marés e uma imensa onda de areia ergueu-se, avançando com um poder destrutivo incalculável. Aquilo varreu o deserto por uma distância que quase se perdeu da vista. A fera não teve força para resistir, sendo engolida por aquele poder inadvertido. Uma larga vala formou-se pelo percurso da fúria de Nami.

—Não sou inútil! – concluiu ela visivelmente esgotada.

Pyrus olhou para a destruição que sua companheira causou. Então uma estranha formação rochosa revelada pela ira da marai chamou sua atenção. Ele correu para vê-la de perto. Nami o seguiu. Por uma fenda um portal, cuja energia emanada muito lembrava a de seu teletransporte, fazia-se presente.

—É assim que aquilo fazia! – a lucidez preencheu a mente do invocador.

O grito feroz da criatura cortou o vento da tempestade. Ela certamente estava ferida depois daquilo, mas o quanto não dava pra estimar.

—Não temos muita escolha... – comentou ele antes de agarrar as vestes de Nami e puxá-la consigo para dentro.

Aquilo era um espaço interdimensional criado pela magia do Vazio. Pyrus não tinha idéia de como funcionava, porém julgou que devia ser algo intuitivo para ser usado com tanta maestria, facilidade e velocidade por aquela coisa. Mantendo em mente a vontade de ir para o ponto mais distante possível do local de partida, o invocador foi arrastado pelo fluxo de energia arcana sem soltar a grossa lona da túnica de Nami por um instante sequer, impedindo que se separassem nas bifurcações. Enfim eles foram alinhados ao que parecia ser uma saída sem ainda haver qualquer sinal da criatura. Não era possível dizer se o local onde iriam parar seria melhor do que o anterior, mas eles precisavam acreditar na própria sorte. Contudo a sensação de alívio não durou muito. Tentáculos espectrais agarraram as pernas de Pyrus. A desaceleração repentina fez a túnica escapar das mãos do invocador, permitindo que ela prosseguisse compulsoriamente para a saída. Pyrus estava sendo tragado por outro caminho, para um portal diferente, obscuro, um portal Vazio. Ele não tinha forças ali para resistir.

“O Vazio reivindica-lhe!” disse uma voz em sua mente.

Um guincho de dor veio a seguir, mas não do humano. Nami cortara os tentáculos em um único golpe da parte afiada de seu cajado. E agarrando seu parceiro pelo colarinho, levou-o para o caminho certo. Eles emergiram, tão rápidos que caíram vários passos de distância.

—Como conseguiu voltar? – perguntou Pyrus.

—Aquele lugar não é tão diferente da água. – disse ela.

—Interessante... – disse ele olhando ao redor – E falando nisso, que lugar é este?

A dupla estava à entrada de um verdejante vale. As areias ainda estavam sob seus pés, mas à frente, e não muito distante, palmeiras cresciam, dando lugar a árvores mais folhosas em meio a rochas cristalinas das mais distintas cores à medida que se avançava para o interior daquele grande oásis. O brilho das pedras translúcidas vinha da mistura da luz da lua cheia, a qual começava a elevar-se no céu já um pouco estrelado, e do sol que desaparecia em um belo poente alaranjado. Havia restos de construções humanas naquele lugar, contudo essas pareciam ter sido abandonadas e destruídas há muito.

—O que aconteceu aqui? – indagou-se o rapaz pensando em se levantar.

Todavia, das areias uma grande criatura levantou-se e pôs-se sobre ele e Nami. Por um momento Pyrus não conseguiu acreditar que aquela coisa conseguira não só prever onde eles sairiam como também se antecipou a isso, porém logo reparara que não era a mesma. No lugar do exoesqueleto jaziam cristais e no lugar de um furor assassino, violência controlada.

—Skarner? – surpreendeu-se o ruivo.

Continua...

Notas finais
Amigos, mil perdões! T.T Problemas pessoais impediram-me de postar esse capítulo mês passado. Farei de tudo para tentar colocar outro ainda esse mês pra compensar. Ah, não houve tempo de revisar, então erros podem aparecer aqui, ali e em todo lugar. Avisem-me e corrigirei. Peço perdão novamente. Crazy.