Notas iniciais
"As marés se elevam..."

Nami rodopiava alegremente com Annie nos braços. A garota, recém liberta do encanto de Ahri, ainda não tivera tempo de entender todo ocorrido, mas logo começou a rir, divertindo-se com a marai. A sensação de desconstrução veio e levou os dez campeões dali, de volta ao instituto, porém a sereia sequer se importou com tal desconforto desta vez tamanha era sua felicidade. Ela deslizou rapidamente até seu invocador, o qual estava de pé, totalmente imóvel, completamente despenteado e de cabeça baixa.

—Vencemos! Vencemos! — falava ela.

Pyrus permaneceu inerte.

—Ei, dá pra dizer alguma coisa? Acabamos de vencer aquele otário de "Nosptus" e o nojento do filho dele! Comemore! — zangou-se ela acertando uma dedada no peito dele.

O rapaz tombou para trás, sendo amortecido e segurado pouco antes de atingir o piso por outro véu d'água conjurado pela marai.

—Pyrus! — chamou ela preocupada.

Zzzzzzzzzzzzzzz... Zzzzzzzzzzzzzzz...

—Ele... dormiu?! — disse perplexa.

—O esforço foi demasiado para ele... — disse Merlin se aproximando — Providenciarei estadia para vocês. Poderão descansar aqui até ele se recuperar.

—Sabe, eu não entendo... — comentou a marai — É evidente que os outros invocadores também estão cansados, mas nenhum parece estar sofrendo como ele...

—O ritual arcano que realizamos antes do início da batalha, quando nos preparamos para lhes enviar para os campos da justiça, não é único e possui variações. — explicou Merlin com calma — O método que seu invocador usa é arcaico e foi há muito abandonado, pois compartilha a dor que o campeão sente com o mago que o invoca, além de dar muita liberdade aquele. Essas peculiaridades há tempos foram removidas de modo que só tenho conhecimento de um outro homem que executa a mesma variante que este rapaz.

—Então ele não precisava ter passado por tudo isso? — surpreendeu-se Nami.

—Não. — respondeu o velho feiticeiro com simplicidade.

Logo os integrantes daquele salão começaram a esvaziá-lo. Jarvan IV e o homem da capa negra saíram em silêncio antes de todos. Ludmila e Fiora se foram a seguir e Merlin já partia com Ashe quando a sereia, ao reparar somente então que voltara ao normal, lembrou-se de uma dúvida que a intrigava desde o final do julgamento.

—Espere senhor Merlin! — pedia ela saindo apressada pelas portas do salão.

—Sim, jovem conjuradora? — disse ele virando-se para a marai.

—O que aconteceu comigo? Digo, por que eu mudei nessa última batalha? — questionou Nami com a curiosidade a flor da pele (e das escamas) — Como posso ter me transformado em outra por receber o consentimento de lutar em troca de ajuda e também agora?

—Seu maior sonho ou seu pior pesadelo. — falou Ashe.

—Hã? — confundiu-se Nami ainda mais.

—Todo campeão deve ser aceito pelos campos da justiça, do contrário não renascerá após morrer em batalha. — contou o velho mago — Para isso um feitiço poderoso é necessário, contudo ele possui um efeito colateral. Uma forma alternativa refletindo a parte mais íntima daquele ser, seja ela seu mais luminoso sonho ou o mais sombrio de seus pesadelos, é criada.

—Mas meu maior sonho sempre foi salvar meu povo... — lembrou a sereia.

—Então alguma relação entre sua outra forma e seu sonho deve encontrar. — aconselhou Merlin.

—Mas por que apenas na última batalha...? — insistiu ela.

—Porque apenas nessa você teve a determinação verdadeira de fazer o que fosse preciso para tornar esse sonho realidade, abdicando do próprio orgulho para isso. — explicou Ashe — Ou melhor, vocês tiveram...

"Pyrus esteve determinado a me ajudar?" perguntou-se a sereia, seu consciente ainda incapaz de crer em tal afirmação.

—Com o tempo vocês aprenderão a usar essa outra forma, essa outra "pele", com mais freqüência, — continuou a mulher de olhos azuis como gelo verdadeiro — o que pode ser útil em determinadas ocasiões para confundir o inimigo, ou trocar, no seu caso, a posição, a composição e o tipo de armadura, afinal, metal comum não teria parado o machado de Darius...

O mestre e a arqueira retomaram seu andar, deixando Nami imersa nos próprios pensamentos. Então sua intuição a levou a fazer uma última pergunta.

—Quem é o outro invocador que, assim como Pyrus, também compartilha da dor de seu campeão? — a voz elevada para cobrir a distância que já os separava.

—Ele! — respondeu Ashe, apontando com o polegar para o velho homem de barba longa ao seu lado.

Mais tarde, ainda naquela noite...

Nami olhava pela grande janela ao lado da banheira na qual repousava. Água morna, bolhas criadas pelo líquido daquele pote onde se escrevia "sabão" e a pitoresca paisagem mística da caverna inundavam a mente da marai. Ela viu, escutou e viveu coisas que jamais sonhara existir nos últimos dias, e conheceu seres que geravam mais perguntas do que respostas. Ela imaginava que relação haveria entre seu sonho e sua nova "pele". Foi quando uma antiga lembrança da infância passou diante de seus olhos vermelhos. Nami deixou a banheira (mas retornou para tirar aquela incômoda e lisa substância das escamas) e voltou para o quarto.

—Banho demorado!

A sereia olhou para a cama e viu que Pyrus finalmente despertara.

—Vejo que voltou a normal... — comentou ele ainda deitado.

—Ainda bem, né? — falou ela antes de uma breve pausa — Merlin disso que aquela... hã... "forma"... é uma representação de meu sonho de salvar meu povo.

—Eu suspeitei que fosse, — comentou ele — afinal as formas que representam pesadelos e medos são bastante assustadoras.

—Vo... Você sabia esse tempo todo? — gaguejou de nervosismo ela.

—Sim. Aprendi quando estudava o feitiço de invocação. — contou ele.

—E não me disse nada? — irritou-se ela.

—Você nunca me perguntou! — respondeu o rapaz com simplicidade — Porém confesso que não conheço a relação entre as duas coisas...

—Eu sim... — disse ela.

No rosto de Pyrus formou-se a nítida expressão de alguém que pedia para ela prosseguir.

—Há muito tempo, antes das primeiras lendas surgirem, meu povo se espalhava pelas planícies oceânicas e vivia em paz. Éramos livres para percorrer a vastidão dos mares e explorar os mistérios que suas profundezas ocultam usando a luz das pérolas abissais para isso. Não havia medo, não havia angústia. Porém, um dia tudo isso mudou. Um imenso tremor abalou o mundo e enormes rachadura se abriram e se expandiram por toda parte até tornarem-se apenas uma, tão profunda que parecia não ter fim. Então, delas surgiram os monstros que quase extinguiram meu povo. Milhares de nós morreram e a esperança quase desapareceu, contudo nossa grande mãe, Iara, nos abençoou... Perseguida por uma daquelas bestas terríveis, essa marai agarrou com todas as forças a última opção que lhe restara e nadou para a superfície. Ela se atirou nas ondas de uma praia deserta e saltou para o mais longe possível da água, arrastando-se pela areia. Contudo, a fera não se foi. Sem poder regressar ao mar, essa marai sufocou lentamente nesse seu "ar". Sua visão tornou-se turva e ela pode sentir que não duraria muito tempo. Mas o pesadelo estava longe do fim... A besta do abismo revelou seu terrível segredo e saiu das águas apoiando-se sobre as mesmas coisas que usava para nadar. Aquele monstro demonstrou sentir prazer em fazer sua presa definhar e sofrer, demonstrou ser mais que uma fera irracional. Essa minha antepassada entregou-se ao desespero, lutando para arrastar-se para longe com suas forças restantes, lutando para sobreviver. As presas e garras daquela abominação perfuraram-na e rasgaram-na quando ela foi agarrada. Ela sentiu que aquele era seu fim, e antes de se render a dor e desmaiar, viu um feixe de luz azul aparecer um meio as trevas. Ela pensou que aquilo era sua essência deixando seu corpo, um pequeno fragmento de Iara regressando a grande mãe. Entretanto, seus olhos voltaram a ver. Ela ainda estava viva...

Impaciente com a refeição jamais ingerida, o estômago de Pyrus rugiu, fazendo o rapaz ruborizar de vergonha. Nami não deu importância. Ela rumou para uma mesa ao centro, onde havia pão, alguns embutidos de carne, queijo, vinho e água.

—Quando recobrou a consciência, — continuou a sereia cortando o pão e preparando um lanche — essa marai se viu em uma lagoa cavada na própria areia. Seus ferimentos não estavam totalmente curados, porém haviam sido tratados e a cicatrização já estava avançada. A carcaça da besta que a perseguia jazia não muito distante e já se enchia de coisas oportunistas que devoraram sua carne, coisas capazes de nadar além da superfície, coisas que agora eu sei que se chamam pássaros...

Ela levou o lanche para o rapaz.

—Obrigado! — disse ele encabulado — Como ela...?

—Já traduzindo a lenda com o que aprendi desde que cheguei aqui, um homem a salvou. O mesmo homem que fez isto. — contou ela apontando para o artefato em seu pescoço.

Ela voltou para a mesa e começou a preparar outra refeição.

—Este homem do povo da lua ensinou centenas de coisas, incluindo magia, um dom que, assim como em vocês, não existe em todos os marai. — prosseguiu ela — Mas como disse, Iara abençoou o rumo daquela de quem herdei mais do que nome. Antes de regressar ao fundo dos mares, o homem a agraciou com mais um presente, uma pedra mágica capaz de repelir as feras do abismo...

—A pedra da lua! — falou Pyrus.

—A pedra da lua! — confirmou ela dando uma dentada no próprio lanche — Como agradecimento por tudo, ela deixou-o com sua pérola abissal, a qual ele descobriu ter incríveis propriedades mágicas. Essa marai foi a criadora do único abrigo e último refúgio em que nosso povo poderia sobreviver. No entanto o homem a alertara que em cem anos a magia daquela pedra findaria e uma nova precisaria ser buscada. Então ela criou a ordem dos sacerdotes, os quais deveriam passar seu conhecimento de geração em geração e encontrar a próxima Conjuradora de Marés. Desse momento em diante, a lenda de seu feito é contada, conhecida como "A Lenda da Grande Koi Rosada"!

—Koi Rosada? — repetiu ele sem entender.

—É como dizem que o homem a chamava... — justificou a marai.

—Então sua outra "pele" é ela? — sorriu ele.

—Diria que é como eu sempre a imaginei. — respondeu.

—Agora faz sentido... — ponderou ele — Pode preparar mais um?

—Abusado! — falou Nami cruzando os braços.

—Por favor! — pediu ele — Estou morrendo de fome! Você não tem idéia de como é desgastante invocar-lhe quatro vezes seguidas nos campos da justiça.

—O quê? Você vem falar para mim que aquilo é desgastante? Era eu que estava sendo cortada! — zangou-se ela.

—E era eu que fornecia toda a energia mágica necessária para lhe curar, afinal o nexus só funciona se os invocadores injetarem magia nele! — retrucou Pyrus.

—Falando nisso, melhor você aprender logo outra técnica de invocação para não ficar tão acabado novamente. — aconselhou ela.

—Não quero! — disse ele convicto.

—Como assim "não quer"? — indagou ela.

—Não acho justo deixar outro sofrer sozinho por causa de minhas falhas. — falou o rapaz — Não sou infalível! Na verdade, cometo muitos erros, tomo decisões ruins, mais do que gostaria, afinal não sou perfeito. Contudo, deixar outro pagar por isso é inaceitável! Dividir a dor com o campeão é uma maneira que encontrei, enquanto estudava, de me perdoar. Deste modo, ao falhar, sentirei na pele as conseqüências e me esforçarei para não me repetir, corrigindo o defeito.

A marai nada disse, apenas se virou e preparou mais dois lanches, dos quais entregou um para Pyrus e comeu o outro.

—Devo admitir: estou muito feliz de ter encontrado uma campeã que saiba fazer lanches tão bons! — falou ele sorridente e de boca cheia.

—"Abajulador" (bajulador)! — respondeu ela antes de continuar a comer.

Continua...

Notas finais
E aí galerinha do meu coração, mais um capítulo quentinho direto do forno! E tenho uma grande novidade! Próximo capítulo será uma loucura! A coisa vai ser doida, doida de pedra! Personagem novo na área! Nada de participações especiais como as que tivemos até o momento, o próximo chegará pra ficar. Será que alguém consegue adivinhar quem? Certamente partirei muitos corações, mas não quero nem saber. A história é minha e eu faço dela o que quiser! Ficaram curiosos? Não percam o próximo capítulo. Crazy.