A busca pelo brilho da lua
13 Mau Agouro
Notas iniciais
—Então você aceitou o convite de sua amiga para morar em Pulôver... — comentou Nami enquanto ela e seu invocador novamente punham os pés na estrada.
—Piltover! — corrigiu Pyrus — E acho que é mais uma questão de não se ter muita escolha... Iônia está repleta de problemas internos e instabilidades políticas desde a invasão noxiana, o deserto de Shurima não é lugar para uma sereia, Demácia é regida por uma série de princípios com os quais não me dou muito bem e pisar em qualquer lugar de Noxus ou Zaun tendo Rávenus como inimigo é suicídio.
—Você pode voltar para o lugar de onde veio, afinal lá é que é sua casa, não? — lembrou a marai.
—Eu voltarei para Águas de Sentina eventualmente, mas ainda não é tempo para isso... — respondeu ele com seriedade no olhar.
Os dois voltaram a caminhar em silêncio, todavia a marai não gostava (ou talvez não conseguisse) ficar calada.
—E agora, quando começaremos a busca? — indagou ela.
—Primeiro, precisaremos encontrar um lugar para ficar. — respondeu ele — Não podemos ficar na casa da Tatá uma vez que ela já tem mais dois lá. Depois, precisarei esperar por uma noite de lua cheia para recarregar minha magia... Mas não ficarei parado nesse meio tempo! Soube que a cidade possui uma academia com vastos conhecimentos em tecmaturgia e uma grande biblioteca. Entrarei em contato com os responsáveis para adquirir autorização para acessar o acervo em busca de conhecimento que nos ajude... Sabe Nami, por mais que eu deteste admitir, Tálida estava certa ao dizer que Piltover é o local mais indicado para nós. Os habitantes de lá têm uma mente mais aberta e aceitam com menos resistência as novidades, e graças a uma xerife implacável, os índices de criminalidade são os menores de Valoran, superando até mesmo Demácia... Não é pra menos que o lugar se autodenomina "A Cidade do Progresso". Avançada, segura e pacífica!
...
—Muito pacífica... — ironizou Nami.
—O que raios aconteceu aqui? — assombrou-se o invocador.
Parados diante dos escombros do que um dia foi um dos símbolos daquela cidade, a dupla observava as equipes de demolição, socorro e segurança trabalhando intensamente na ajuda às vítimas e na limpeza dos restos da Caixa Forte de Piltover por detrás da barreira policial.
—Tem certeza de que era esse o local combinado para o encontro? — questionou a marai.
—Sim, tenho sim! — afirmou ele — A caixa forte é um dos prédios mais famosos e seguros da cidade. Não há como alguém ter nos informado o caminho errado!
—Acho que você quis dizer "era"! — disse Nami sarcástica.
—Olha, eu não sei quem fez isso, mas está de parabéns pela proeza e ousadia! — comentou ele impressionado.
Risinhos distantes chegaram aos seus ouvidos e Pyrus procurou sua origem. Uma sombra se moveu no topo de um prédio próximo e ele teve a certeza de ver um largo sorriso e duas longas tranças antes do vulto desaparecer. Então um objeto brilhante caiu de lá de cima, quicando e tilintando até ele. Era uma moeda de ouro (deformada pela queda).
—Você! Largue isso imediatamente! — ordenou alguém próximo.
Sua dona era uma jovem mulher de cabelos rosa e olhos violeta-azulados. Ela estava repleta de cortes, arranhões e hematomas e suas roupas estavam rasgadas, mas sua beleza era inegável. Trazendo uma grande manopla que vazava óleo e vapor vestida em uma das mãos, ela se aproximou, e, sem dúvida, estava bastante irritada...
—Isso pertence à Caixa Forte de Piltover! — falou ela com os nervos a flor da pele.
—Ao menos, ao que sobrou dela... — comentou Pyrus.
A mulher o agarrou pelo colarinho com a mão nua e puxou-o para tão perto que suas testas colidiram.
—Eu pareço estar de brincadeira para você? — urrou ela, enchendo a cara dele de baba.
—Ei! — interveio a marai.
—Quer confusão também, peixinho? Cai dentro! — esbravejou a mulher.
—Peixinho?! — repetiu a sereia com espasmos involuntários nos músculos ao redor dos olhos enquanto o sangue entrava em ebulição, as pupilas desaparecendo.
Bang! O som de um tiro fez todos pararem o que estavam fazendo.
—Já chega! — gritou outra mulher em posse de um potente rifle da ponta do qual a fumaça do último disparo ainda emanava — Vi, solte-o!
Empurrando Pyrus para trás, aquela de cabelos rosa se afastou, abrindo espaço para a outra que vinha na direção deles. Esta tinha cabelos lisos e longos e olhos de um azul claro incrível, e vestia botas longas juntamente com um vestido rodado tomara-que-caia violeta. Ela apoiou seu rifle no ombro e aprumou a cartola antes de se dirigir a Nami e Pyrus com uma seriedade inquestionável.
—Meu nome é Caitlyn, sou a xerife de Piltover. — apresentou-se — Já conheceram Vi, meu braço direito. Peço desculpas pela atitude pouco amistosa dela, porém espero que compreendam que quando um prédio cai sobre sua cabeça é normal ficar irritado, mesmo que, em parte, isso seja sua culpa...
Aquela de cabelos rosa bufou em descontentamento.
—Vejo que não são daqui! Seus rostos não me são familiares! — prosseguiu a mulher da lei — Gostaria de saber o que os trás aqui!
—Uma amiga convidou-me para passar um tempo na casa dela enquanto decido se irei ou não me mudar em definitivo para cá. — respondeu Pyrus.
—E por que deixa sua terra de origem? — interrogou ela.
—Sentina não é um lugar agradável de se viver. — disse o invocador.
Caitlyn o avaliou com um olhar desconfiado e ligeiramente preconceituoso.
—Quem é sua amiga? — perguntou ela.
—Tálida, invocadora da Liga e respon... — dizia ele.
—Responsável por Blitzcrank e Annie. — completou a xerife — Conheço-a!
—Combinamos de nos encontrarmos aqui antes de deixarmos o instituto. — explicou ele.
—É um invocador? — indagou a xerife.
—Sim. — confirmou ele.
—E ela é sua campeã? — deduziu Caitlyn.
—Precisamente! — ele respondeu.
—Nunca os vi antes... — comentou a xerife.
—Acabamos de ser aceitos. — explicou ele.
Caitlyn os avaliou novamente. Ter coragem de se dizer de Sentina já não era comum, a menos que se esteja a fim de confundir alguém, mas ser um invocador recém aprovado ao lado de um campeão do qual ela nunca ouviu falar já era suspeito demais!
—Peço que me acompanhem até a delegacia! — disse a xerife.
—Estamos presos? — indagou ele.
—Há motivo para estarem? — perguntou Caitlyn.
—De forma nenhuma! — respondeu Pyrus.
—Então me acompanhem! — falou ela — Vi, peça a Tálida para ir à delegacia também.
—Só uma coisa antes... — disse o invocador parando em frente à outra mulher e segurando a moeda diante do rosto dela entre o polegar e o indicador.
Ela o olhou com uma ponta de ódio e agarrou a peça de ouro com violência com a mão nua.
—Vamos então! — falou a xerife sem esboçar reação.
...
A noite já caia quando Nami e Pyrus foram liberados. Mesmo após Tálida confirmar as palavras do rapaz, Caitlyn insistiu em bombardeá-los com uma série de perguntas antes de explicá-los a razão do excesso de precaução. Aparentemente, a cidade estava sob a mira de uma lunática cuja maior diversão era causar o caos enquanto destrói tudo em seu caminho. A xerife fez o registro do humano e da marai, dando-os identificações provisórias válidas por trinta dias.
—É tempo mais do que o suficiente para decidirem se pretendem ficar ou não! — justificou ela.
Fotos de ambos foram feitas e suas digitais foram arquivadas. Caitlyn também entregou-os uma edição de bolso das leis da cidade.
—Aprendam todas o mais cedo o possível para evitarem confusão! Águas de Sentina e Piltover têm políticas muito diferentes quanto ao que consideramos ilegal e como resolvemos esses delitos! — alertou-os a xerife à porta da delegacia — E recomendo evitarem passeios noturnos até essa delinqüente ser presa, para sua própria segurança.
A mulher colocou a cartola, conferiu o rifle e partiu sem se despedir, deixando os três à companhia das primeiras estrelas daquele céu púrpura.
—A coisa deve estar séria mesmo. Nunca vi a Cait deixar a educação de lado antes... — comentou Tálida — De qualquer modo, vamos pra casa. Vou preparar o jantar.
—Vão na frente! Há uma coisa que quero verificar... — disse ele distraidamente.
—Pyrus, você escutou a Cait! Não é seguro ficar sozinho! — lembrou Tálida.
—Ora vamos Tatá, parece até que você não me conhece! — sorriu ele — Para quem cresceu nas Docas da Matança, andar por está cidade deve ser um passeio no bosque!
—Tem certeza? insistiu a meio-felina — Nesse bosque podem haver lobos...
—Claro que tenho! — confirmou o invocador — Não há lobo que pegue esta raposa aqui! Leve Nami e deixe-a tomar um bom banho e descansar. Amanhã será um longo dia, principalmente para quem não está acostumado com o agito de uma cidade grande!
—Humpf! Como se você estivesse... Está bem, mas não se atrase para o jantar! Acho que farei fricassê de peixe hoje... — comento a garota-gato lançando um olhar malicioso para a sereia.
—Ei! — reclamou Nami.
—Como queira! retrucou o invocador afastando-se.
—Pyrus! — irritou-se a marai.
...
De volta aos destroços da caixa forte, Pyrus observava o céu pensativo. Seu intuito era tentar convencer Vi a formar um pacto com ele. A força da Defensora de Piltover como campeã chegou aos ouvidos dos moradores de Sentina quando esta derrotou Gangplank durante uma batalha que definiria o destino de um carregamento de armas hextec encontrado à deriva em águas de ninguém após uma tormenta. Na época, Vi tinha apenas dezesseis anos, o que foi uma humilhação para O Terror dos Doze Mares. Hoje, dois anos e meio mais velha e muito mais experiente, certamente seria uma poderosa aliada.
Boatos diziam que ela ainda não fizera um novo pacto desde que seu invocador morrera em um duelo de espadas em Demácia há quatro meses, e essa poderia ser a chance do rapaz de aumentar sua força e influência, garantindo um caminho menos tortuoso para o cumprimento de sua promessa à marai. Todavia, ele estava atrasado. Os oficiais que guardavam os destroços informaram-lhe que ela havia deixado o local poucos minutos atrás. Talvez aquele não fosse o momento correto, pensando bem... A cidade estava passando por uma crise sem precedentes e Vi tinha fama de ser cabeça quente, daquelas que se enfurecem muito, muito fácil. Talvez ele pudesse se oferecer para ajudar na caçada como moeda de troca, mas isso poderia comprometer o tempo que teria para sua missão com Nami...
Um choro abafado e quase inaudível alcançou os ouvidos de Pyrus. Ele seguiu aquele som até um beco próximo e encontrou uma mulher sentada e encolhida atrás de um monte de sacos de lixo. Ela estava abraçando as próprias pernas, a face entre as coxas. Seus cabelos azuis dividiam-se em duas longas tranças, o que o fez lembrar-se imediatamente de mais cedo. Ele também não pode deixar de reparar nas tatuagens em forma de nuvens orientais ao estilo de Iônia e de balas de revolver e rifle que cobriam o lado direito de seu corpo.
—Por que você não se lembra de mim? — perguntou ela baixinho para si mesma com a voz trêmula.
—Posso ajudar-lhe, senhorita? — indagou Pyrus aproximando-se um pouco mais.
Entretanto, a resposta que obteve foi bem mais enérgica do que ele esperava. A jovem mulher saltou para o lado, sacando e disparando uma inesperada arma de raios. O invocador desviou por puro reflexo. Ela levou a mão à bolsa rosa que levava no ombro e esta se transformou em uma mortífera metralhadora rotativa. Pyrus saltou para trás de uma lixeira , mas isso não impediu-a de atirar. As balas perfuraram o metal como uma faca quente corta manteiga, contudo, por sorte, não acertaram o ruivo rapaz. Então ela pegou um estranho objeto em forma de tubarão recostado na parede. Pyrus viu a boca daquilo se abrir por um dos buracos de bala e um míssil voou e explodiu sua pífia cobertura em uma bola de fogo. Ela soltou uma gargalhada alucinada e correu na direção contrária.
Aquilo teria sido o fim da história se os instintos de Pyrus não o tivessem feito conjurar uma barreira mágica que o protegeu da explosão. Em situações normais ele tomaria seu rumo na direção oposta a dela e seguiria com sua vida, assim como já o fez tantas vezes antes em sua cidade natal, entretanto desta vez algo o levou a perseguir aquela insana donzela. A cidade se iluminava e tremia a cada explosão. O rapaz não sabia de onde ela tirava tanta munição, contudo, mais importante era evitar ser atingido. Logo as sirenes da polícia se tornaram audíveis, porém aquela mulher conhecia muito bem os caminhos e vielas de Piltover, evitado qualquer obstáculo em seu caminho enquanto ria compulsivamente.
Mau uma curva dentro dos becos escuros, no entanto ela desaparecera. O ruído das mandíbulas mecânicas daquelas mortíferas granadas o fez olhar para cima. Ele se transportou em um flash de luz para o topo da primeira plataforma de uma escada de incêndio externa, escapando da explosão e seus fragmentos por um triz.
—Dá pra parar? Estou tentando acertar você! — falou a maníaca.
Pyrus não pode evitar de rir. O motivo: nem ele sabia.
—Você está começando a me divertir! — disse ela subindo o último lance de escadas até o terraço.
Pyrus não perdeu tempo e, usando um feitiço conhecido como "fantasma", subiu rapidamente até o topo do edifício, onde aquela arma de raios aguardava-o a uma distância inesquivável.
—Abaixa! — gritou ela sorridente — Brincadeirinha, isso não vai ajudar...
Ele não se moveu, apenas a encarou. Agora que estava tão próximo teve certeza, o rosto dela era lindo!
—Não precisa ficar assustado, ou vivo... — provocou ela.
—Não estou assustado. — respondeu ele.
—Não precisa mentir, pode gritar! — falou ela.
—Não quero gritar. — disse ele calmamente.
—Sério, gritar ajuda... Só que não! — divertiu-se ela — Você não está rindo!
E por alguma razão, esta última frase o fez começar a rir, e então gargalhar.
—Bem melhor! — comentou ela agarrando-o pelo colarinho e puxando-o para o terraço — E então, como posso ajudá-lo a se matar? Um empurrãozinho da beirada? Uma bala na boca?
—Tirando a parte de se matar, esta é a pergunta que gostaria de lhe fazer, — respondeu ele — afinal quero lhe ajudar. Para isso a segui.
—E por que acha que preciso de ajuda? — indagou ela sem perder seu sorriso lunático.
—Diz além das razões psicológicas, eu suponho. — retrucou ele levantando uma das sobrancelhas.
—Sou doida, tenho atestado! — respondeu ela tirando uma papel dobrado da lateral do shorts rosado com a mão livre.
—Por que não estou chocado? — ironizou ele.
—Porque eu ainda não atirei! — divertiu-se ela — He he he! Você também não bate muito bem da cachola, né? Perseguir alguém que quer lhe matar...
—Digamos que você não é a primeira a tentar... — comentou ele levantando a camisa e mostrando uma enorme cicatriz atravessando todo o abdômen na transversal — Pensando bem, isso vem sendo bem freqüente ultimamente... Mas mudando de assunto, por que chorava?
—Eu não estava chorando. — disse ela aproximando seu rosto, com aquele sorriso inquietante, perigosamente do dele — Aquilo era apenas uma armadilha para pegar o primeiro trouxa que se importasse!
—Bem, sou trouxa o bastante para me importar... — falou ele sentindo-se estranhamente inebriado — Quem se esqueceu de você?
—Não. É. Da. Sua. Conta! — disse ela pausadamente, batendo com o papel dobrado no rosto de Pyrus a cada palavra.
—Posso ajudar-lhe a fazer essa pessoa se lembrar! — ofereceu ele.
—E por que você ajudaria alguém que, além de estar lhe apontando uma arma, tentou lhe matar trinta e sete vezes na última meia hora? — indagou a jovem e demente mulher.
—Ajudar aqueles que precisam é a razão pela qual sonhei tornar-me um invocador! — contou ele — E foram trinta e oito!
—Trinta e sete! — insistiu ela.
—Trinta e oito! — retrucou ele.
—Trinta e sete! — ela.
—Trinta e oito! — ele.
—Sete! — ela.
—Oito! — ele.
—Sete! Aquele hidrante não foi intencional!
—Oito! — A casta de banana foi!
Ela cerrou os olhos pensativa.
—Oito... — admitiu por fim — De qualquer modo, você é mais maluco que eu!
—Começo a pensar isso também. — comentou ele.
—Hipoteticamente falando, caso eu aceite sua ajuda, o que vai querer em troca? — perguntou ela acariciando seu lança foguetes de formato inusitado.
—Hipoteticamente falando, pediria para você lutar ao meu lado na liga. — disse ele (hipoteticamente).
—A Liga das Lendas (The League of Legends)? — surpreendeu-se ela.
—Sim, — confirmou ele — afinal você vem enfrentando duas renomadas campeãs da liga de igual para igual já faz algum tempo! Estou certo de que...
—E eu poderei lutar contra a mãozuda? — os olhos dela brilharam.
—Quem? — perguntou Pyrus.
—A Vidiota! Bobona de cabelos rosa e mãos enormes! — explicou ela.
—Ah! — entendeu ele — Eventualmente sim, mas também terão que lutar lado a lado quando estiverem na mesma equipe...
—Eu aceito! — falou ela com a expressão feliz mais assustadora que o invocador já viu.
—Então basta fecharmos um pacto! — disse ele.
—E como fazemos isso? — perguntou ela empolgada.
Silêncio. Uma brisa gelada passou pelo terraço com seu assovio característico. Pyrus piscou duas vezes seguidas, sua mente em branco.
—E aí? — cobrou ela.
O invocador começou a suar de nervosismo. Ele não sabia fazer um pacto! O que aconteceu entre ele e Nami foi um acidente! Se ao menos ele tivesse alguma idéia de como aquilo havia acontecido... Porém, tudo que vinha à sua mente era uma vontade inexplicável de beijar aquela louca de cabelos azuis e olhos violetas a sua frente... Espere! Talvez fosse justamente isso que ele precisasse fazer!
—Desculpe-me o lapso, — disse ele enfim — este será meu segundo pacto... Estava tentando lembrar-me de como fazê-lo corretamente.
—E...? — falou ela.
—É simples! — explicou ele rezando para a Mulher Barbada, ou melhor, Nagacáburos pela primeira vez em sua vida, ainda que não acreditasse nessas lendas tão profetizadas em sua terra e o fizesse mais por uma piada de mal gosto do que por preocupação — O primeiro passo, você aceitar minha ajuda, já foi feito. Então, para ser recíproco, prometo que farei o que estiver ao meu alcance para ajudá-la a realizar este seu sonho, por mais singelo ou desafiador que ele seja! E para selarmos esse acordo...
Ele estendeu a mão para ela.
—Só isso?! — surpreendeu-se a jovem insana — Nada de círculos mágicos, luzes brilhantes e explosões? Que broxante!
Pyrus continuou com a mão estendida. Aquela de cabelos azuis soltou um suspiro de decepção e aceitou o aperto, no entanto, assim que suas mãos se fecharam, ele a puxou para si e a beijou. Para sua surpresa, não houve resistência da parte dela. Aquela doida tinha uma língua selvagem! Então uma dentada em seus lábios inferiores o fez gemer de dor.
—Eu fiz isso acidentalmente de propósito! — sorriu ela — Pena... Pensei que você fosse mesmo um invocador. Se queria me beijar, era só ter pedido. Agora vai ter que pagar o preço por ser um trapaceiro!
Ela encostou sua arma de raios (provavelmente uma hextec) na nuca de Pyrus e ele fechou os olhos já esperando o pior.
—Últimas palavras? Rá! Não, só morre! — disse ela sarcástica.
Porém o tiro nunca veio. Pyrus reabriu os olhos e a procurou pelo canto de sua visão. A louca olhava furiosa para sua arma, dando-lhe alguns tapas e voltando a tentar puxar o gatilho, o qual parecia emperrado.
—Algum problema? — provocou ele, começando a sorrir.
—Não, nenhum! — respondeu ela puxando sua metralhadora rotativa e apontando para ele.
Todavia, esta também não disparou.
—Talvez queira tentar o tubarão... — divertiu-se ele.
Ela sorriu frustrada e soprou a franja para o lado. Então puxou o lança-mísseis das costas e mirou. A boca do peixe metálico se abriu, as pupilas dela se contraíram a míseros e desprezíveis pontos e, com a língua (aquela língua maravilhosa) entre os dentes, ela puxou o gatilho... E nada aconteceu...
—Mas que merda está acontecendo aqui? — esperneou ela — Droga de lança-mísseis chato!
—Uma curiosidade sobre os pactos. Eles tornam o invocador imune a seus campeões! — zombou ele antes de mudar brutalmente para um tom sério e sincero — Ainda sim, cumprirei nosso pacto! Juro que farei esse alguém lembrar-se de você! Falando nisso, ajudaria se eu soubesse quem é esse alguém.
No entanto, soou o relógio central da cidade, anunciando o início de um novo dia, interrompendo a conversa e distraindo o invocador.
—Já é tão tarde?! — espantou-se ele — Melhor eu voltar antes que...
Contudo aquele terror destrutivo agarrou-o pela gola da camisa e puxou-o para si.
—Onde pensa que vai? — indagou ela com um olhar voraz — Agora que começou, trate de terminar!
—Hã? Do que está falando? — assustou-se Pyrus.
Ela lambeu os lábios. Seu sorriso se abriu largo novamente. Seus olhos estavam famintos...
Enquanto isso...
—Dormiu enfim... (Abraçada com aquela coisa do "careta" (capeta))! — disse Nami, fechando a porta do quarto de Annie.
—O nome é Tibbers. — comentou Tálida.
—Que seja! — respondeu a marai — E o "Flitz"?
—O "Blitz" está recarregando. — corrigiu-a a meio-felina.
—Larga da minha barbatana... — murmurou a sereia.
—Disse algo? — provocou a garota-gato.
—Nada importante. Apenas pensei alto... — respondeu Nami.
Tálida riu e retornou a sala e a campeã a acompanhou.
—Ela gostou de você! — comentou a garota dos olhos amarelos fendados — Isso é muito bom! Fico feliz! Normalmente seus poderes sombrios afastam as pessoas e ela acaba tendo apenas o Blitz, o Amumu e a mim ao seu lado...
—Só espero que ela não queira brincar mais vezes de apaga essa! — lembrou Nami tendo um arrepio na espinha — Por falar nisso, ela não tem pais?
—Tem sim. Gregori Hastur, o feiticeiro cinzento, e Amoline Hastur, a bruxa da sombra. — contou Tálida — Eles moram nas Terras Vodu, além da Grande Barreira, uma cadeia de montanhas que divide Valoran. Sempre que tenho tempo, levo-a para visitá-los.
—Mas por que ela não vive com eles? — questionou a marai.
—É complicado... Os pais dela são exilados políticos de Noxus, e você já teve a infelicidade de conhecer um dos homens mais influentes e poderosos de lá. Annie, mesmo tão jovem, fez um acordo com o instituto, trocando a proteção de sua vila por sua força nos campos da justiça. Graças a isso, Noxus não pode encostar um dedo na colônia. Contudo, para poder estar sempre disponível à liga, ela precisa viver ao lado se seu invocador, além, é claro, do fator segurança, afinal, é ela o pilar que sustenta um acordo tão instável. Caso algo aconteça a ela, tudo pode ruir... — explicou a meio-felina.
—Uau... Ela carrega um peso tão grande quanto eu, embora ainda seja tão nova... — comentou a sereia.
—Vocês são mais parecidas do que imagina, — falou Tálida — inclusive quanto a habilidade de controlar elementos.
Nami voltou seus olhos para a última porta à esquerda ao fundo do corredor e sentiu o afeto aumentar em seu peito. Talvez ela tivesse tempo para ter uma amiga na superfície... Falando em tempo...
—Onde o Pyrus foi se enfiar? — indagou-se a marai em voz alta — Já está bem tarde, especialmente para alguém que prometeu não se atrasar para o jantar! (A comida já está toda fria...).
—Conhecendo Pyrus como eu conheço, ele ainda vai demorar bastante para voltar. — alertou a meio-felina pegando um novelo de lã sobre a mesa de centro e começando a brincar com ele — Ele sempre foi um explorador... Adora desbravar novas terras, conhecer cada curva e contorno de novos lugares... Precisava ver como ele adorava passar horas dentro daquelas cavernas úmidas...
—Mas e se ele encontrar aquela procurada? — preocupou-se Nami ao visualizar mais um empecilho em sua missão.
—Não há com que se preocupar, — disse Tálida mirando o novelo, o qual havia escapado-lhe e agora jazia no chão, e pulando sobre ele — Pyrus é mestre em achar confusão... Com a sorte que tem, certamente vai acabar topando com ela. Se bobear, ele ainda acaba a prendendo! Acredite ou não, Pyrus é duro de se derrubar e sempre vai fundo em tudo que faz!
—Assim espero! — comentou a sereia com um mal pressentimento...
Continua...
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