A busca pelo brilho da lua
10 Orgulho e Teimosia
Notas iniciais
—Uaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaah! — berrou Nami espremendo o peito dolorido ao ressurgir ilesa em sua base.
—Nami! Nami, fale comigo! — pedia Pyrus tentando mantê-la lúcida — Respire! Tente se acalmar!
—Como? — rosnou ela por entre os dentes — Como ainda estou viva?
—Já lhe disse que está em um campo mágico! — explicou seu invocador tentando abafar a própria euforia — Ninguém morre aí, nem tropas, nem monstros e nem campeões!
—Essa dor... — choramingou ela enquanto retomava controle sobre sua respiração, seu coração batendo como nunca antes.
—É possível enganar a morte quando se luta nos Campos da Justiça usando a energia mágica de seu invocador e o feitiço do local, mas a dor ainda será real. — comentou Pyrus um pouco mais calmo.
—Maldito! — disse a sereia.
—Eu avisei que deveria retroceder! — falou ele em resposta.
—Cale a boca! — gritou ela — É muito cômodo para vocês falarem isso sem saber a dor que estou sentido!
—Eu também estou sentindo o que você sente, esqueceu? — indagou o rapaz caído de joelhos lá no salão vermelho — Cada ferimento seu também é um ferimento meu. Apenas não sangro como você, mas a dor ainda é a mesma!
Nami ficou sem palavras.
—Tente me escutar de agora em diante para nenhum de nós dois sofrer muito mais além disso... — pediu ele respirando fundo — Compre mais duas poções de vida e volte para lá. Temos que defender nossa posição para não prejudicarmos o restante da equipe!
—E se eu não quiser voltar pra lá? — ameaçou ela.
—Nós dois seremos punidos e não poderemos mais lutar por algum tempo, — contou o invocador — o que também nos proibiria de acessar o conhecimento guardado nas bibliotecas do instituto e, em casos mais extremos, seriamos presos até aceitarmos continuar com a nossa parte do acordo. Ou seja, isso apenas atrasaria ainda mais nossa missão!
—Desde quando é "nossa" missão? — perguntou Nami descontente.
—Desde o instante que prometi ajudar-lhe! Agora ande logo e volte para lá! — ordenou Pyrus com firmeza.
A sereia apertou seu cajado nas mãos e olhou para a loja. O vendedor já parecia antecipar o pedido, colocando o que era preciso sobre o balcão. Com o orgulho ferido mais que qualquer outra coisa, ela se apressou de volta ao seu fronte com fogo no olhar. O machado de Darius já danificava a torre adversária quando fora novamente atingido pelo poderoso jato d'água de Nami. Ela atingia-o impiedosamente enquanto ele tentava recuar. A marai continuou a segui-lo, contudo, o noxiano foi capaz de adentrar o limite de segurança da torre sem ser derrubado, desviando-se de todas as tentativas de aprisionamento lançadas por ela.
—Pare Nami, a torre dele irá... — tentou alertar o rapaz.
—Não! Ele também vai sentir a dor pela qual passei! — urrou ela para todos ouvirem, fazendo, sem saber, Darius rir.
Aquela estrutura disparou pela primeira vez naquela batalha. A sereia observou atentamente o projétil mágico se aproximar e se esquivou para fora da trajetória, todavia, o mesmo a seguiu e a atingiu com exatidão, queimando uma boa parte do corpo dela. Nami gritou.
"Como?!" pensou ela.
—Saia já daí! — ordenou o rapaz nervoso — Torres nunca erram seu alvo! Nunca! Sua única chance é sair daí antes de ser tarde demais!
O segundo disparo foi realizado e a marai percebeu que, sendo verídicas as palavras de Pyrus, não suportaria o terceiro. Ela deu as costas àquele que perseguia com tanto afinco para se afastar e esse foi seu maior erro. Nami viu a parte curva do machado de Darius cercando sua passagem e novamente aquele fio a fez sangrar. Ela caiu antes mesmo do piedoso terceiro ataque da torre a acertar.
Novamente os berros de dor da marai ecoaram pela base assim que "renasceu", enquanto Pyrus tremia tentando controlar seu corpo castigado pelos ferimentos que nunca teve ao mesmo tempo em que mantinha a concentração que estabelecia a conexão mental necessária para permitir à sua campeã continuar a lutar. A batalha prosseguiu, e de mal a pior ela foi. O orgulho de Nami a impedia de escutar o que seu invocador a aconselhava ou ordenava, e cega pela ira que cada queda acumulava, entregou abate após abate para seu inimigo, permitindo-o alcançar seu ápice de poder muito cedo naquela disputa. A Guilhotina de Noxus fez a campeã conhecer o horror da mutilação ao ter o corpo dividido das mais distintas formas, e a agonia de uma morte por hemorragia, sendo trazida de volta da beira do abismo da morte sempre no último instante pelo local que os outros chamavam de fonte, uma área com inscrições rúnicas na parte mais profunda da base, a mesma área por onde ela fora trazida àquele lugar.
Por fim a derrota, em grande parte causada pela própria marai, foi tudo o que ela obteve quando o grande monólito de cristal vermelho, seu nexus, explodiu. Nami encarou Darius, e este lhe devolveu um olhar frio e perfurante, como se esperasse um desafio maior. Então a sensação de ter seu corpo desconstruído novamente a acometeu e ela foi enviada de volta à sua origem, o salão vermelho.
Nami levou alguns segundos para se recompor, seus músculos ainda pulsavam com uma dor que não tinha mais razão de sentir, mas que insistia em permanecer. Todos os olhos se voltavam para ela, alguns com preocupação, outros com completa desaprovação. Ela permaneceu em silêncio encarando seu invocador. Pyrus estava deitado e ofegante, o suor lhe escorria em cascatas, sua face pálida e fraca.
—Pensei que fosse uma duelista, — disse Fiora rompendo o silêncio — mas duelistas de verdade sabem controlar suas emoções, mesmo os mais orgulhosos, para, ao poente da batalha, conquistar-se a vitória.
—Fraca e medíocre! Não vejo como pôde ser aprovada como uma campeã! Deveria voltar para o lugar de onde veio, aberração inútil! — ofendeu aquele de túnica negra avançando em direção a sereia.
—Calado noxiano! Não lhe dei permissão para falar! — esbravejou Jarvan IV saindo de seu altar visivelmente descontente — Alguém de sua laia não tem o direito de chamar ninguém de inútil!
—Gostei do jeito que ele trata seu invocador... — comentou Nami quando Annie se aproximava.
—Achei rude... — respondeu a menina — Ambos foram.
—Rude, besta dos mares, — falou o guerreiro se voltando para a sereia — é sua total e inquestionável incompetência, assim como a incapacidade incontestável de seu invocador controlar-lhe!
—Jarvan, acalme-se! — ordenou a mestra Piaf — Esta foi a primeira batalha que ambos...
—Em minha primeira batalha, vencemos as tropas inimigas em menos de um dia! — retrucou o homem caminhando imponente em direção à marai — E na ocasião, quem morreu continuou morto!
—Não tenho medo de você! — disse Nami quando o grande guerreiro parou frente a ela — Posso mostrar-lhe do que sou capaz aqui fora quando quiser! Vou vencer-lhe e...
—Acho que não percebeu ainda, sereia, mas isso não é brincadeira! — interrompeu-a Jarvan IV — Não me interesso por sua força real, assim como vejo que você não dá a mínima importância por nossas guerras, porém, quando for convocada para lutar nessa arena, será para defender um ideal, uma filosofia ou uma causa que pode ser o fim de um povo ou o início de uma guerra sangrenta. E eu não permitirei que suas falhas e seu ego mesquinho e soberbo coloquem Demácia em risco!
—Aposto que se estivesse do outro lado não diria algo assim! — disse ela ofendida e furiosa — Estaria se divertindo as minhas custas do mesmo modo que eles devem estar fazendo agora!
—Daruis pode ser um noxiano, mas se há algo que sei sobre ele é que, em oposição ao irmão, ele luta por honra e jamais humilha um adversário derrotado! Cresça pirralha, e ponha-se em seu devido lugar! — falou o demaciano dando-lhe as costas e se afastando.
—Tsc! — fez ela aborrecida com as palavras que teve que escutar — Quem ele pensa que é?
—O exemplo e futuro rei de Demácia! — contou a arqueira antes de ir ao encontro de seu invocador.
—Humpf! Grande coisa... — respondeu a sereia contrariada.
Nami flutuava em direção a seu invocador quando um corvo branco adentrou por uma alta janela e pousou no ombro de Merlin com um pergaminho no bico. O velho mago leu a mensagem em silêncio e levantou os olhos para sua campeã.
—Quanto tempo? — indagou ela.
—Heyward não está satisfeito... Continuaremos com a próxima batalha em quinze minutos. — anunciou o ancião sem se alterar — Preparem-se!
—Teremos que voltar lá? Eu não sei se agüento... — comentou Nami em voz baixa.
—Por que não seguiu minhas palavras? — questionou Pyrus ainda deitado — Estou aqui para lhe ajudar! Por meio dos cinco orbes de comando, cada invocador é capaz de ver muito mais do que seus campeões. Podemos ver aquilo que acontece ao redor de vocês e avisá-los dos perigos envolta. Mas para eu poder fazer isso, preciso que você me escute e siga meu comando, muitas vezes sem questionar para haver tempo o bastante.
—Eu sei lutar muito bem sozinha! — afirmou a marai, seu orgulho novamente interferindo.
—Tenho certeza disso. Eu vi! Mas o mesmo vale para os outros que enfrentará lá! Todos são exímios combatentes das mais diversas áreas, desde o assassinato silencioso e rápido a magias de dor e morte implacáveis. A diferença é que eles usam todos os recursos a seu favor, incluindo seus invocadores e as informações que eles os passam. — argumentou o rapaz — Além do mais, você não está sozinha! Há outros quatro aliados em seu time. E mesmo que todos caiam, eu ainda estarei aqui!
—Mas... É difícil entender o que você está falando algumas vezes! — reclamou ela — "Use a bolha", "jogue o jato", "as esferas satélites", "te sou Nami (tsunami)"... Esse último nem faz sentido e você fala toda hora!
—Por que não dão nomes para as habilidades? — recomendou Tálida.
—Ehr... Como assim? — indagou Pyrus.
—Por exemplo, Annie, venha cá um minutinho! — pediu a meio-felino.
—Está bem! — concordou a menina.
—Annie, quando você está pronta para acertar o adversário e atordoá-lo, o que você me diz? — perguntou Tálida a ela.
—Piromania! — respondeu a jovem campeã animada.
—E quando eu digo "Desintegrar"? — continuou aquela de cabelos verdes.
—Eu arremesso uma bola de fogo infundida em mana! — disse a menina sorridente abraçada a seu ursinho.
—Incinerar? — questionou a invocadora.
—Um ardente cone de fogo! — falou Annie fazendo em gesto com o bichinho de pelúcia.
—E quando... — prosseguia Tálida.
—Okay, okay, acho que já entendemos! — interrompeu-a Pyrus se pondo sentado.
—Como você pode estar tão animada após a carnificina que sofremos? — quis saber Nami assombrada.
—Por que lá é o único lugar onde Annie pode brincar com outras pessoas além da Tálida, do Blitz e do Amumu e usar seus poderes sem ser repreendida pelo instituto! — disse a menina abraçando seu ursinho novamente e fazendo uma carinha triste.
—E com o Tibbers também! — lembrou a invocadora dos olhos amarelo fazendo um cafuné na garota.
—Ah! O Tibbers está sempre brincando comigo! — sorriu Annie levantando o ursinho e rodopiando na ponta dos pés.
—Mas apenas lá você pode deixá-lo caminhar com as próprias patas! — comentou Tálida.
—Isso é verdade! — concordou a garota.
—Do que elas estão falando? — perguntou Nami baixinho pelo canto da boca.
—Você não viu? — surpreendeu-se Pyrus.
—Não vi o que? — perguntou a sereia sem entender.
—Deixa pra lá! Vamos dar nomes burros... — disse ele.
—Onde você está vendo "bustos"? — indagou a marai totalmente perdida.
Calando-se para não piorar a situação com inúteis explicações a respeito da expressão usada, Pyrus apenas coçou o meio das sobrancelhas.
—O que acha de chamarmos de "Prisão aquática" aquela esfera de líquido que você usa para imobilizar seus oponentes? — disse o rapaz então.
—Hum... — ponderou Nami — Parece justo...
—E aquela habilidade que você usou contra Rávenus? Aquela que derrubou-o diante de todo o restante do conselho... "Jato violento" me parece adequado! — propôs ele.
—Prefiro "Vazante e fluxo"! — contrapôs ela.
—Não faz muito sentido! — comentou Pyrus pensativo.
—Claro que faz, afinal, é na vazante da maré que o fluxo das águas arrasta as coisas da superfície para as profundezas, sendo vantajoso para os que nela estão, como meu povo por exemplo, e ruim para os que precisam resistir a ela. — explicou aquela dos olhos rubi.
—Certo... — concordou o rapaz ainda pensativo — E quanto aquelas bolhas que você conjura para ficarem a sua volta orbitando-lhe? Sabe, aquelas que saem voando e acertam o mesmo alvo que seu ataque principal...
No rosto da campeã era visível sua incompreensão.
—Três bolhas rodando ao seu redor! — ele gesticulou tentando ajudá-la a entender.
—Aaaaaaaaaaaaaaaah!... Chamarei de "Bênção da Conjuradora"! — afirmou ela.
—Parece-me um pouco pretensioso... — comentou Pyrus.
—Posso usar isso em qualquer aliado, garantido que, mesmo seu ataque errando o alvo, essas bolhas d'água energizadas pela força dos oceanos o acertarão, pois, assim como as torres, elas nunca erram, causando um bom e considerável dano ao desgraçado. E se dermos sorte, elas acertarão em articulações e juntas, dificultando a movimentação de nossos inimigos. Isso tirando o fato de que, ao que parece, quando uso uma de minhas habilidades, ganho um considerável aumento de velocidade sei lá o porquê, e provavelmente isso também se aplica aos meus "companheiros"! — argumentou Nami com ar de superioridade.
—Justo! — concordou o invocador imediatamente — Agora só falta seu feitiço mais poderoso, aquela onda gigante que você invoca batendo seu cajado no chão. Pensei em nomeá-la "Maré violenta"...
—Gostei! — disse ela cruzando os braços.
—Sério? — perguntou ele sem acreditar — Que bom!
—Pyrus, — chamou Merlin aproximando-se junto com a mestra Piaf — podemos interromper?
—Certamente! — respondeu o rapaz.
—Discuti com Ludmila a impressão que tive de Nami durante a primeira batalha e, tirando o orgulho excessivo, concordamos que suas habilidades seriam muito melhor aproveitadas na posição de suporte. É intrigante, mas sua magia parece interferir com a do campo, tornando seus aliados menos suscetíveis às restrições de Summoner's Rift. — comentou o velho sábio.
—E o que esse tal suporte deve fazer? — indagou a marai desconfiada.
—Exatamente o que o nome diz! — falou a mestra Piaf — O suporte deve dar apoio ao restante do time, aprisionando, prendendo, imobilizando os adversários, protegendo, curando, energizando os aliados, mas principalmente, defendendo o atirador, o qual é, na grande maioria dos casos, o principal causador de dano físico do time, cuja representante, em nossa atual formação, é a comandante dos povos do norte, soberana das terras de Freljord, rainha Ashe, a Arqueira do Gelo.
—Está pedindo para eu ficar atrás fazendo um papel totalmente secundário e não atrapalhar o restante de vocês? — indagou a marai sentindo-se ofendida.
—Nami, o cargo de suporte é, em muitas composições, a peça chave para... — dizia Pyrus.
—De maneira alguma! Eu sou a Conjuradora de Marés! Não posso ficar me escondendo enquanto os outros lutam por mim! — zangou-se ela.
—Também é um dos seres mais egocêntricos e orgulhosos que já conheci! — retrucou Ludmila.
—Diga o que quiser! Sou uma excelente lutadora e posso vencer qualquer um em um confronto direto! — esbravejou Nami.
—Não duvidamos de seu potencial, jovem marai, — falou Merlin com serenidade e calma — porém é evidente que a magia de Summoner's Rift interfere em demasia com a sua, tornando-a muito fraca para fazer o mesmo lá.
A sereia já se preparava para dar uma resposta muito mal educada quando Pyrus interveio a seu favor.
—Dê mais uma chance para ela! — pediu o invocador levantando-se — Deixe-a descobrir as limitações de seus poderes dentro dos campos da justiça e, caso fique comprovado que eles são insuficientes, trocaremos de posição.
Piaf olhou para Merlin visivelmente reprovando a idéia, contudo, o velho apenas sorriu para a dupla invocador-campeã e com a cabeça concordou.
—Está quase na hora! — interrompeu Ashe aproximando-se.
—Sabemos, obrigado. — agradeceu Merlin — Preparem-se!
—Está bem! — disse Pyrus prontamente.
Os dois mestres se afastaram em silêncio enquanto a sereia tentava encontrar algo para dizer.
—Obrigada! — falou ela por fim.
—Sei o quão importante é para você provar sua força, — comentou o rapaz — no entanto, deve ser honesta consigo mesmo. Caso perceba, após a próxima batalha, que não é forte o suficiente para a posição, para enfrentar Darius, aceite a mudança.
—Mas... — ela tentou discordar, porém lembrou-se do estado no qual seu invocador ficara com toda aquela teimosia — Está bem.
—Pronta para a próxima? — perguntou ele sorrindo.
—Acho que sim... Não estou mais com muita dor, somente cansada. — contou Nami.
—Também estou, entretanto, acho que o mesmo vale para nossos adversários... — lembrou ele.
—Invocadores, assumam suas posições! — ordenou a voz feminina de antes vinda de lugar nenhum.
Continua...
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