Notas iniciais
"Nade contra a maré!"

Pela manhã, Nami e Pyrus retornaram a estrada, porém as palavras de Jax da noite passada ainda ressoavam em suas mentes, inquietando-os. Levou-se o dia todo o restante da viajem, mas enfim, quando o sol poente já espalhava seus últimos raios luminosos, eles chegaram à entrada da grande gruta onde o instituto se abrigava. Um caminho iluminado por tochas serpenteava até o pomposo e magnífico prédio, uma fortaleza erguida em mármore negro, cercado por desfiladeiros cujo fundo era impossível de se avistar de ambos os lados. O lugar impunha-se sobre os viajantes, intimidando-os. Porém Nami não demonstrou medo e seguiu sem olhar para trás. Ela e seu guia pararam diante da larga escadaria que levava à entrada suntuosa.

—O que estamos esperando? — indagou a marai.

Pyrus engoliu em seco olhando para cima e respirou fundo.

—Nada! — disse ele visivelmente desconfortável — Vamos em frente!

Degrau após degrau, o rapaz sentia como se seus pés ficassem mais pesados. Suas pernas tremiam. Elas não queriam prosseguir, porém ele insistiu. Ele havia dito que ajudaria aquela sereia e ele faria isso, mesmo que para tal tivesse que entrar naquele lugar novamente. A escada acabou e agora, diante deles, o grande portão aberto os convidava a entrar em um majestoso salão de paredes douradas e um piso tão lustroso que refletia o teto e suas pinturas de guerras do passado. A insígnia do instituto no chão ao centro e, ao fundo, a estátua do alto conselheiro e também criador daquele local: Reginald Ashram. Pyrus encarou o rosto imortalizado no branco mármore com uma mescla de admiração e vergonha.

—Olhem quem decidiu mostrar as caras por aqui novamente! — falou uma familiar e detestável voz — Se não é o fracassado número um do instituto, tenho pena dele por ter a mesma cara...

—Também é um prazer rever-lhe, César Rávenus... — disse Pyrus banhado em ironia.

—Então o pobre órfão pobre decidiu que não foi o suficientemente humilhado e voltou para ter mais? Quão oportuno... para mim! — sorriu malignamente o rapaz de cabelos castanhos e curtos, vestindo uma túnica roxa de seda.

—Seu papai já lhe comprou um campeão? — provocou Pyrus lançando-o um olhar congelantemente frio.

O sorriso no rosto do adversário desapareceu, dando lugar a um ódio profundo.

—Não preciso da influência de meu pai para isso! — urrou César furioso, seus olhos também castanhos arregalados e avermelhados.

—Comprou? — repetiu Nami sentindo um desconforto ao escutar aquilo.

—Alguns invocadores vendem seus pactos, passando-os para outros os campeões com quem têm menos afinidade. Embora discorde sobre a necessidade de dinheiro, é um meio bastante utilizado para se garantir que o pacto seja cumprido quando o invocador original percebe que aquilo foge à sua capacidade. — explicou o rapaz dos cabelos ruivos.

O sorriso retornou ao rosto de César.

—Tolo! Você sempre foi um tolo ingênuo! — murmurou sua odiosa voz.

—Por que fala isso? — indagou Nami, fazendo-se percebia apenas então.

—Oh la lá! E como posso ajudá-la, querida? — questionou o Rávenus devorando-a com os olhos.

—Você não pode! — interveio Pyrus bruscamente — Ela procura por informação, uma informação que não compete a você!

—Deixe-me guiá-la até meus mestres, então! — pediu ele curvando-se em uma pomposa reverência.

—Meu guia é Pyrus! — falou a marai fitando César enojada — Ele ofereceu-me ajuda, ele deve me ajudar!

—Como desejar... — disse o dono daqueles cabelos castanhos e sebosos — Mas quando a liga cobrar seu preço estarei aqui para ajudá-la a pagar.

—Jamais farei um pacto com você! — afirmou Nami com convicção.

—Não use uma palavra tão forte. — disse ele com um sarcasmo irritante — Irá descobrir que sou muito poderoso e influente...

—Você quis dizer "seu pai", eu suponho. — comentou Pyrus passando pelo inconveniente mago e sendo seguido por aquela que guiava, reacendendo a cólera do adversário.

—Alguém de sua classe nunca deveria sonhar em ter a mesma posição que eu! Você não tem, e nunca terá lugar aqui, verme! — gritou César enquanto eles se afastavam.

Eles entraram em um longo corredor às costas da estátua, sob a escadaria que a circundava e o balcão que levava aos níveis superiores, e seguiram até o seu findar, onde um grande jardim de grama e grandes pedras inscritas por runas, com arbustos espaçados e raras árvores, revelava-se alguns metros abaixo. Eles desceram a escadaria de rocha e rumaram em direção à sua extremidade oposta, onde mais uma série de escadas de diferentes formas, tamanhos e materiais os aguardavam. Entretanto, durante todo o trajeto até ali, Nami não pode tirar os olhos da expressão séria que persistia na face do companheiro desde o último encontro.

—Algum problema? — perguntou Pyrus cruzando os braços e parando no meio do caminho.

Nami hesitou.

—Se esta for a pergunta, tentei tornar-me um invocador sim! Foi este o sonho que falhei em realizar! Está feliz agora? Podemos continuar sem você me encarando desse jeito o tempo todo? — esbravejou ele fitando-a com um olhar frio e desolador.

A marai sentiu-se magoada e ofendida e, com uma expressão de desaprovação, deu-lhe as costas. O rapaz logo percebeu a besteira que fez.

—Olha, desculpe-me! — pediu ele baixando a cabeça arrependido — Você não teve qualquer responsabilidade em minha falha para eu jogar minha frustração desse jeito em você. Não tenho o direito de falar assim com você. A responsabilidade foi minha e apenas minha! EU deveria ter me esforçado mais... E agora devo aceitar que sou um fracasso...

A sereia olhou-o por cima do ombro ainda com aquela expressão e o avaliou. Ela levou seu cajado até o queixo do rapaz e ergueu sua cabeça apenas para acertar seu rosto com um tabefe.

—Nunca mais fale desse modo comigo sem razão, entendeu? — ordenou ela.

Ele concordou.

—Eu apenas quero entender o que aquele ser asqueroso quis dizer a seu respeito, ou por que ele parece temê-lo tanto... — explicou Nami.

—Isso é fácil de compreender... — disse Pyrus com a voz baixa de vergonha — O pai de César foi, e ainda é, um dos maiores invocadores que a liga já teve. Graças e ele, grandes conflitos foram resolvidos com quase nenhum derramamento de sangue. Visando os mesmos passos que o pai, César estudou nas melhores academias que o dinheiro poderia pagar...

"Ainda não entendi o que é esse tal de dinheiro!" pensou a sereia curiosa.

—... Já eu, — continuou ele — bem, eu sou o último de minha linhagem por parte de pai. O último Igns. E minha mãe é uma cidadã (se assim podemos dizer) de Águas de Sentina, um lugar nada agradável para se crescer, acredite em mim. Meu pai morreu quando eu ainda era um bebê, deixando-me todos seus bens, o que, no caso, é o colar que tenho no pescoço. Na esperança de dar uma vida melhor para minha mãe, comecei a estudar magia com coisas que conseguia aqui e ali. Infelizmente nasci sem qualquer dom mágico, e não importava o quanto tentasse, jamais consegui algum progresso. Certa noite, um grupo de piratas invadiu minha casa buscando algo de valor que pudessem trocar por rum. Eles encontraram o colar. Eu não podia deixá-los levar meu único tesouro e os enfrentei. Uma espada atravessou minha barriga, porém o colar regressara às minhas mãos. Essa é a última coisa da qual me recordo. Em minha lembrança seguinte estou caído do lado de fora no colo de minha mãe enquanto nossa casa ardia em chamas com os patifes dentro. Meu ferimento tinha cicatrizado, ainda que a cicatriz carregue até hoje. Foi quando descobri que esse colar me dá a habilidade que meu corpo não tem. Posteriormente descobri que posso recarregar sua energia mágica em noites de lua cheia...

—Ainda não compreendo! — falou a sereia.

—É simples... — disse ele — Eu sou a ralé vinda de um buraco do mundo, sem passado e sem futuro, enquanto César é a elite da elite. Caso alguém como eu, que mal teve estudo e muito aprendeu e faz por intuição, adquirisse o mesmo título que ele, isso seria uma vergonha para ele de seu ponto de vista. Por isso sou uma ameaça para ele, ou melhor, fui...

—E é isso? Vai desistir de seu sonho desse jeito? — indignou-se a marai.

—O teste para nos tornarmos invocadores consiste de duas partes. — explicou ele — A primeira é o conhecimento, ou seja, a quantidade de magias que se é capaz de conjurar e sua competência em usá-las em situações de risco. Passei com a nota limite... A segunda é sua capacidade de guiar um campeão pela arena, os quais são, normalmente, emprestados pelos próprios avaliadores. Nas academias recebesse treinamento prévio para essa etapa, contudo, não tive essa oportunidade. Falhei miseravelmente!

—Mas você conhece suas falhas agora! Basta corrigi-las e tentar novamente! — incentivou Nami.

—E só se pode fazer o teste uma única vez. Não há segunda chance. — completou ele.

—Eu... Sinto muito! — falou a marai envergonhada.

—Está tudo bem! Ainda posso ajudar as pessoas com minha magia, mesmo que seja pouco. — falou ele forçando um sorriso — É verdade que caso eu faça um pacto com alguém forte o bastante para se tornar um campeão, seria aceito devido às regras da liga, mas se não sou capaz de ser um invocador pelos caminhos oficiais, como serei capaz de cumprir o pacto? Não, eu sempre cumpro as promessas que faço e não suportaria fingir ter a habilidade de fazer algo além de minha competência. Por isso esse meio também está fora de cogitação... Bem, ainda posso ajudá-la a não ser um fracasso como eu e...

—Você é uma boa pessoa, Pyrus! — falou Nami repentinamente — Nesses dias em que viajamos juntos pude ver isso em você. Não hesitaria em fazer um pacto com você caso fosse um invocador. Estou certa que vai encontrar seu caminho!

As palavras fugiram à capacidade do rapaz e uma enorme felicidade surgiu e cresceu em seu peito. Ele sorriu um terno sorriso e depois de muito tentar, somente pode dizer "obrigado".

Após tantas revelações, os viajantes seguiram adiante. Dentre tantas escadas em caracol ou em zigue-zague, de metal ou de pedras levando aos andares superiores, eles tomaram uma que levava para baixo, a única do gênero, quase escondida em meio às sombras. Mais um longo corredor, porém, opondo-se ao anterior, este não possuía esquinas, passagens ou portais levando a outros destinos, além de ser muito mal iluminado. A rota desembocou em uma distinta e comprida ponte de madeira sustentada por cabos que e espalhavam em todas as direções, mas que sempre findavam em grandes pedras flutuantes. Via-se, ao fundo, o destino daquela longa caminhada, uma espécie de domo rodeado por cinco minaretes, cada qual de um tamanho diferente dos demais. Nami e Pyrus começaram a travessia e pela primeira vez a sereia sentiu-se intimidada.

—O que é este lugar? — perguntou ela com um mau pressentimento.

—O tribunal! — falou ele friamente — Aqui são julgados os maiores criminosos de Valoran...

—Então por que...? — indagava a marai.

—Também é aqui que o conselho dos cinco decidirá se você é grandiosa o suficiente para se tornar uma campeã da liga, assim como todos que lhe antecederam e todos aqueles que virão depois de você. Meu veredicto, o de ser incapaz de prosseguir com meu sonho, também foi dado aqui. — concluiu o rapaz.

—Mas eu não quero isso! — falou Nami — Vim em busca de ajuda, não de fama ou riquezas!

—Estou ciente disso, — disse ele — contudo, tenho certeza de que este será o preço cobrado. Você deve tentar negociar, porém minha intuição diz que será inútil. Sinceramente, gostaria que você não fosse tão poderosa, assim eles seriam mais brandos, no entanto, após ver a extensão de sua força na taverna aquela noite, duvido que aceitem qualquer outra coisa de ti.

—Eles não têm como saber se você não contar! — observou Nami quase em tom de ameaça.

—Eles têm! — afirmou Pyrus seriamente parando em frente ao último portal que separava Nami do destino que suas escolhas a levaram — E eu não direi nada. Não devo! Não posso!

—Mas por que aqui? — resmungou ela emburrada.

—Nem todos os campeões da liga são gentis e amáveis como você... Mentes malignas, seres sombrios, criatura selvagens... Todos sendo trazidos pelos mais diversos motivos e encontrando na oferta da liga sua escapatória. Este é o ponto mais profundo do instituto. Nada entra ou sai daqui se este não for o desejo do conselho. — explicou o rapaz — Pronta?

—Não! — respondeu ela hesitante.

—Ótimo! — falou ele abrindo as grandes portas de uma só vez.

Continua...

Notas finais
Tentarei postar o próximo capítulo ainda esse mês. Espero que continuem gostando. Um feliz ano novo a todos! Crazy.