Notas iniciais
“Sintam minha ferroada!”

Sentado diante de um quente cristal luminescente de coloração amarelo-avermelhado, Pyrus pensava silenciosamente sobre os eventos ocorridos mais cedo naquele mesmo dia...

—Skarner? – surpreendeu-se o ruivo.

Estretanto, no mesmo instante a fenda espaço-dimensional que o trouxe até ali mais uma vez se abriu. Algo estava vindo e o invocador já sabia o que era.

O escorpião de cristal posicionou-se para o combate, demonstrando conhecer o perigo que se aproximava. A monstruosidade do Vazio surgiu emitindo seu grito de fúria em um salto direto sobre o inimigo, contudo o campeão acertou-a com sua dura garra. Uma batalha brutal teve início. Nami e Pyrus, sem forças para intervir, procuraram abrigo e assistiram a contenda. Pedaços de cristal e de seja lá do que fosse feita a couraça da outra criatura eram lançados ao ar a cada colisão. O modo de combate da coisa do Vazio havia mudado. Mantendo-se sobre o solo mais compacto todo o tempo, usava a parte inferior do corpo – uma espécie de cauda com quatro patas artrópodes – como uma arma adicional de maior alcance enquanto seus membros superiores atacavam ferozmente os cristais em forma de pinças de Skarner. No entanto essa área do corpo do campeão era muito densa e resistente para as garras inimigas, fornecendo a defesa ideal, enquanto o ferrão do escorpião providenciava um ataque de uma posição avantajada. A criatura, porém, logo aprendeu o ritmo e o padrão da arma inimiga, agarrando-a. O espanto nos rostos dos dois espectadores foi imediato. Entretanto aquele conhecido como A Vanguarda do Cristal era experimentado em combates e o movimento do adversário deu a Skarner a abertura que procurava. Com uma das garras ele acertou a criatura e com a outra, agarrou seu pescoço. Face a face, a besta urrou mesmo com a garganta sendo esmagada. Sua cauda veio por baixo como uma marreta, acertando impiedosamente a mandíbula do escorpião de cristal, despedaçando-a. Ambos os inimigos largaram-se, abrindo uma pequena distância entre eles. Mas logo o monstro do Vazio avançou novamente. Skarner parecia desorientado demais para defender-se, todavia seu ferrão contorceu-se rente à areia e, como uma lança, penetrou o abdômen do atacante. Os guinchos de dor foram imediatos.

—Eguei ôce! – rosnou o campeão por entre os restos de sua boca – Aora ênha aá!

Um violento puxão trouxe a criatura diretamente para Skarner enquanto um golpe com toda a força arremessou-a de volta. Gravemente ferida, a coisa levantou-se com dificuldade. O escorpião de cristal aproximava-se cauteloso. A fera recuou acuada e com um último guincho saltou de volta para dentro de seu portal. Skarner esperou a fenda fechar-se para então destruí-la com um golpe de suas pinças.

Um invasor já fora neutralizado, agora restavam dois para serem encontrados. Contudo tal trabalho lhe foi poupado. Ao virar-se, Skarner deparou-se com Pyrus à sua frente.

—Acho que deixou isso cair... – disse o rapaz segurando a mandíbula arrancada do escorpião.

—Seu tom educado agrada-me, invocador. – comentou Skarner, trazendo o ruivo dos olhos de jade de volta a realidade.

Após devolver aquele pedaço do campeão, Pyrus apresentou a si e sua campeã ao guardião do oásis, desculpando-se pela invasão e explicando as circunstâncias que os levou a tal impertinência. O vale dos brakerns era uma zona restrita desde que mineradores descobriram suas riquezas, mas no processo de extração despertaram o grande defensor daquele local. Um acordo nos mesmos moldes daquele imposto a Nami foi firmado entre Skarner e o instituto, dando ao campeão o poder de decidir quem entra e sai da terra abrigo de seus semelhantes. Após medir as palavras de Pyrus, o escorpião de cristal concedeu-lhe abrigo para uma noite.

—É raro um de vocês ser gentil com nós escravos. – completou o campeão com sua voz rouca.

—É porque não lhes enxergo desse modo. – respondeu Pyrus – Para mim, campeões são companheiros. Eles me ajudam e eu devo retribuir o favor.

—Não me insulte, invocador! – retrucou Skarner cético – Só porque não posso feri-lo sem romper o acordo que protege essas terras, não significa que devo tolerar suas mentiras. Vocês são todos iguais no final das contas!

—Se o que diz fosse verdade, teria arriscado minha vida para cumprir meu pacto com minha campeã? – indagou o humano.

—Nenhum de vocês faria isso! – afirmou o escorpião.

—Será mesmo? – perguntou Pyrus.

Skarner voltou sua atenção para a marai a procura de respostas, mas ela manteve-se calada.

—Já brinca há algum tempo com esse cristal... – comentou ele então.

Pyrus olhou para as próprias mãos. Ele não conseguia lembrar-se de quando havia pegado aquela forma translúcida.

—Traga-o a mim! – ordenou o escorpião.

O rapaz levantou-se e entregou a pedra com de âmbar para o campeão, o qual a segurou com zelo entre as garras. Malícia não estava impregnada ali.

Por cima do ombro de Pyrus, Skarner pode ver diminuir o brilho do colar do invocador, o qual jazia sobre um tronco partido sob a luz do luar. O rapaz percebeu a mudança de foco e virou-se. A magia de seu colar estava restituída por completo.

—Seu colar é intrigante invocador. – falou o campeão – A magia que ele emana é pura e natural.

—Sempre procurei aprender mais sobre ele, mas nunca encontrei nada a respeito. – comentou o ruivo – Tudo o que sei é que ele é uma herança de família passada de geração em geração... Você seria capaz de dizer-me mais?

—Esse cristal não nasceu da terra, isso com certeza! – afirmou Skarner – Foi confeccionado por magia utilizando ingredientes que fogem ao meu conhecimento. Não veio desse vale, tão pouco dos brakerns, mas isso é tudo que posso dizer. Talvez Taric saiba mais, porém terá que perguntar a ele.

Pyrus ponderou. Perguntar a Taric realmente parecia uma grande idéia. Ele era um grande conhecedor das gemas, naturais ou não. Seu título – o Cavaleiro das Gemas – não era em vão afinal. Talvez ele pudesse inclusive saber algo sobre...

—Skarner, – chamou Pyrus abruptamente – a razão pela qual viemos a Shurima, pela qual nos aventuramos naquela tempestade e enfrentamos aquela criatura foi porque Nami busca por uma relíquia capaz de garantir a sobrevivência de seu povo. Ela veio à superfície para encontrar este artefato antes que aquele que protege seu lar esgote-se e criaturas do Vazio... Um livro relatório de Ezreal mostra uma peça extraída do templo no olho da tempestade. Nesta, uma imagem é nossa única pista até então. O tempo está correndo e precisamos nos apressar... Na língua dos homens o artefato seria conhecido como Pedra da Lua. Tem idéia do que possa ser?

—Uma pedra capaz de afastar seres do Vazio... – pensou Skarner em voz alta – Seria magnífico ter alguma aqui, contudo sinto dizer que desconheço tamanha maravilha.

A sereia olhou decepcionada para o cristal amarelo-luminescente ao centro.

—Sinto muito. – disse o escorpião – Reconheço o peso que recai sobre você, pois se assemelha ao que carrego. Devo proteger este vale e todos os brakerns até que a magia corrupta dos homens se atenue e nossa existência não esteja mais ameaçada.

—Deve ser uma jornada bem solitária... – comentou ela com os olhos perdidos no interior do cristal de chamas.

—Sinto falta de meus semelhantes... – admitiu ele.

—Eu também. – disse ela.

Eles ficaram em silêncio.

—Devem descansar agora. – disse Skarner enfim – O vilarejo mais próximo está a pouco mais de um dia de viagem. Devem partir ao amanhecer. Indicarei o caminho quando estiverem prontos para ir.

A noite passou rapidamente. O cansaço de Nami e Pyrus os fez adormecer assim que fecharam os olhos. Um raio de sol refletido pelos diversos cristais acertou as pálpebras da marai assim que o astro surgiu no horizonte, despertando-a. Ela espreguiçou. Sentia-se renovada. Porém, ainda sonolenta, desfez o casulo d’água de seu companheiro também. Pyrus acordou com o tombo. Nami riu. Pyrus tbm. Ele sentia-se bem demais para zangar-se por tão pouco.

—Trouxe algumas frutas que coletei ao longo do vale para vocês. – anunciou Skarner vindo ao encontro da dupla.

—É muita gentileza sua! – agradecia Nami lambendo os lábios já se adiantando para alcançar o café da manhã embrulhado em folhas de palmeiras.

—Guarde um pouco pra viagem! – pediu Pyrus – lembre-se que todo o dinheiro que tínhamos foi levado. Temos que poupar para a viagem de volta.

—Está bem... – disse ela desapontada devolvendo os montes de tâmaras com as quais já enchia as mãos.

O escorpião de cristal acompanhou-os até a saída do vale e os instruiu como chegar ao destino mais próximo.

—Antes de partirem, gostaria de advertir-lhes quanto à sorte que têm. – comentou o campeão – Se a maioria dos xer’sai não estivesse extinta nesse mundo vocês não estariam mais vivos.

—Xer’sai? – indagou o ruivo.

—O Vazio é bem mais antigo do que imagina. – alertou Skarner – Quando nós brakerns caminhávamos livres sobre a terra, muito antes de o homem ter a pretensão de existir, aqueles seres já tentavam tomar este mundo. E dentre eles, os escavadores de dunas — xer’sai — foram os mais numerosos. Não tenho muita certeza, mas suponho que o mesmo evento cataclísmico que levou meu povo a entrar em hibernação tenha eliminado a maioria deles. Eu só tive o trabalho de eliminar os restantes quando esses também despertaram. Agora apenas sua rainha — Rek’Sai — ainda resiste.

—O instituto sabe sobre ela? – questionou Pyrus.

—Se soubesse já a teriam escravizado, assim como todos os outros. – comentou o escorpião com rancor pessoal na voz.

—E ele deve saber? – indagou o invocador.

Skarner pensou por um momento.

—Se puder me fazer esse favor... – disse ele, dando a Pyrus a sensação de um sorriso, ainda que a idéia disso fosse bem estranha – Talvez o instituto não seja de todo mal.

Pyrus não pode conter uma pequena risada.

—Mais uma coisa! – lembrou-se Skarner – Estenda a mão!

Embora receoso e sem entender a razão, ele o fez. Então, com uma delicadeza impensável, o escorpião depositou na palma do invocador aquele cristal âmbar com o qual este brincava na noite anterior.

—Isso lhe pertence agora. – falou o escorpião.

Pyrus não conseguia entender e isso transparecia em seu semblante.

—Embora nós brackerns tendamos a escolher o cristal com o qual nos fundiremos por toda a eternidade, acreditamos que certas vezes é o cristal que nos escolhe. – contou o campeão.

—Mas eu não sou um brackern! – lembrou o rapaz.

—Verdade... Ainda assim ele escolheu-lhe. Curioso... Muito curioso... Deve haver alguma razão para isso, embora esta seja um mistério para mim. – falou o escorpião — Agora ele é seu para você fazer o que bem entender.

Pyrus olhou para o cristal em sua mão.

—Cuidarei dele! – disse envolvendo-o com os dedos.

—Assim espero! – respondeu Skarner.

—Então acho que isso é um adeus... – comentou Nami.

—Acho que está mais para um “até logo”... – sorriu o ruivo.

E à medida que o sol elevava-se no céu a dupla afastava-se mais do vale dos brackerns imaginando qual seria a próxima aventura que os aguardava.

Continua...

Notas finais
Olá meu amados leitores! Aqui está, direto do forno! Capítulo novo pra vocês! Ainda está quentinho! E galera, eu praticamente passei ele do caderno diretamente para o site, e como hoje minha mania de trocar as letras está maior do que de costume, há uma chance de 99,5% de chance de vocês encontrarem erros, então caso ocorra, só avisar que eu arrumo, okay? Tbm quero aproveitar para expressar minha imensa gratidão a todos que acompanham a história. Estamos quase com mil visualizações e isso me faz muito feliz! É gratificante ver tamanha aceitação em algo coloquei meu coração para fazer. Sei que ainda tenho muito pra melhorar, mas o apoio de vocês me dá o suporte pra prosseguir, então muito obrigado novamente. E se por acaso acharem que outros também vão gostar, compartilhem! Um abraço! Crazy.