A Whole New World
9 Capítulo IX
Notas iniciais
— Frost...fale-me a seu respeito. — Pedira Elsa em um tom genuíno estranhamente manso,algo exclusivo dela na opinião de Jack,pois em geral a loira tendia a agir com agressividade e impaciência.Todavia,ela não poderia se comportar de outra maneira na presença dele,já que Frost estava constantemente agindo com imaturidade ao despejar provocações e piadas sobre a Rainha somente para divertir-se ao vê-la irritada.
Elsa virou a cabeça para o rapaz cabisbaixo que caminhava lentamente á seu lado em direção á ala de celas.A Rainha declarara que as sessões de treino deveriam ser menos longas a partir de agora,pois caso continuasse a passar a madrugada inteira em claro,involuntariamente,estenderia suas horas de sono como fizera na última vez;e isto nutriria a possibilidade de sua irmã caçula descobrir a respeito de suas fugas noturnas.
Jack permaneceu com os olhos fixos em seus pés e meteu as mãos nos bolsos de seu casaco,perguntando-se porque a Rainha estaria a demonstrar interesse nele tão subitamente.Jack não vira o olhar que portava evidente carga de curiosidade e súplica que a loira lançava-lhe com o intuito de fazê-lo ceder á seu pedido.
— O quê deseja saber? — Indagou ele,reassumindo sua habitual expressão séria e pouco amigável.
Desde que o conhecera,Elsa pegava-se intrigada a respeito do motivo de suas repentinas mudanças de humor.A frieza,o nervosismo e o divertimento pareciam intercalar-se em uma única máscara de sentimentos que cobria-lhe o rosto,mostrando diferentes lados de sua forte e distinta personalidade.Todas as emoções que compunham sua máscara facial podiam facilmente ser alteradas por meras razões.E naquele momento,Elsa perguntou-se por quê ele de repente estava a mostrar-se tão distante.
A loira colocou uma curta mecha que desprendera de seu coque emoldurado por tranças atrás da orelha,e comprimiu os lábios,vasculhando a mente em busca de todo o conteúdo que ansiava ter a respeito dele.
— De onde você veio?
Frost hesitou alguns momentos antes de dar-lhe uma resposta.Ele nunca fora muito comunicativo,preferia o silêncio ao invés de desperdiçar estupidamente palavras e saliva com conversação desnecessária e inútil.E quando o diálogo especialmente tinha como foco sua vida pessoal,Jack dispensava-o rapidamente,com intuito de fugir de perguntas que fizessem-no recordar das memórias de seu triste passado,que há muito tempo fora soterrado no lado mais sombrio e oculto de sua mente.
No entanto,Jack decidiu responder á Elsa,mesmo que não tivesse gostado muito do assunto que ela decidira iniciar.
— Eu vim de muitos lugares diferentes.Alguns longe daqui,outros nem tanto... — Frost somente repetira a mesma resposta que dera á Valentina e á todas as outras poucas pessoas que fizeram-lhe esta mesma pergunta,na esperança de que isso fosse suficiente para fazer Elsa encerrar a conversa.
Todavia,sua resposta pareceu surtir o efeito completamente contrário,e ao invés de dar-se por satisfeita,a Rainha mostrou-se ainda mais curiosa;e prosseguiu:
— Eu me refiro á seu lugar de origem.Onde nasceu?
— Lembro-me vagamente de minha mãe ter dito algo sobre meu parto ter acontecido na carroça de madeira do meu pai.Ele a estava levando á casa das parteiras mas as contrações dela já haviam começado e no final,quem acabou realizando meu parto foi meu pai e eu nasci na carroça.
Elsa lançou-lhe um olhar censurado e crispou os lábios,revirando os olhos em seguida.Ela não referia-se necessariamente ao local exato onde a mãe dele o pariu,mas sim á terra onde crescera e passara a infância.Jack dera-lhe esta resposta propositalmente,pois não fora capaz de resistir á oportunidade de pentelhar a loira de alguma forma.Ele também o fizera pois ainda tinha-se um tanto desconfortável,e desejava evitar que este assunto se estendesse.
— Me refiro á terra onde vivia. — Disse ela por fim,soltando um suspiro pesado.Pegou-se inconformada com a imaturidade de Frost.Ele conseguia agir como um completo bobalhão,mesmo quando aparentava seriedade.
— Por que quer saber disso? — Ele finalmente ergueu a cabeça e direcionou-lhe um olhar interrogativo,embora suas feições estivessem ligeiramente irritadas.
Elsa não deu-lhe uma resposta imediata.Ela parou sua caminhada lenta e ele a acompanhou,mantendo os olhos fixos em sua figura miúda;avaliando sua postura e rosto.No entanto,sua expressão era um mistério pois ela abaixara a cabeça enquanto ficou a entrelaçar os dedos uns nos outros num gesto de nervosismo e ansiedade.A loira hesitou;e isto fora claramente perceptível para Frost.Sua inesperada pergunta a pegara de guarda-baixa,pois nem mesmo a própria Elsa sabia por quê de repente mostrava-se tão interessada na origem de vida do andarilho.
— É...é somente por curiosidade. — Respondeu ela ao finalmente reerguer os imensos olhos,cujo os pingentes de gelo de suas íris profundas reluziam num fraco e trêmulo brilho etéreo sob á luz da Lua.
Jack não deu-se por satisfeito com a resposta recebida,no entanto,não insistira pois pudera notar que a Rainha encontrava-se tão confusa em relação á isto quanto ele.
Frost suspirou pesadamente e deu continuidade ao tópico anterior do diálogo:
— Minha família é originária das Montanhas do Oeste.Vivíamos numa pequena aldeia localizada entre os vales.
— Nunca soube que há civilização nas Montanhas do Oeste.
— Não "há";e sim "havia".A aldeia foi completamente dizimada á quase vinte anos atrás.
— Por que? O quê houve?
Jack direcionou-lhe um olhar tão devastador e cruel quanto a mais árdua das tempestades de neve que já criara na vida,e esperava que isto fosse o suficiente para que Elsa entendesse que ele não queria dar continuidade á este assunto.
Seu silêncio,porém,trouxe outra pergunta á Rainha:
— O quê aconteceu com a sua família?
Aquilo fora a gota d'água.Frost soltou o ar longa e pesadamente pelas narinas dilatadas,como um touro raivoso.Ele engoliu em seco e pôde sentir a cólera misturada á tristeza preencher-lhe o íntimo numa tenebrosa onda de tormento.
No entanto,mesmo vislumbrando o visível incômodo do rapaz,Elsa ainda não pareceu notar o quanto falar sobre aquilo estava perturbando-o.
— Abra a minha cela e volte para o palácio.Estarei esperando-a ao anoitecer de amanhã para darmos continuidade ao treino. — Jack retomou o caminho para o recinto de concreto e rapidamente adentrou em seu interior,indo diretamente para a entrada de sua cela.
Elsa praticamente tivera de correr para acompanhá-lo.
— Frost,não dê as costas para mim! Você não respondeu á minha pergunta! — Exclamou ela irritada por ter sido deixada para trás falando sozinha como uma completa idiota.
Elsa tocou-o no braço esquerdo com o intuito de fazê-lo dar-lhe atenção.Jack virou-se bruscamente para ela e o abrupto movimento agressivo fez-a retirar a mão de seu braço numa ação defensiva.
— Eu não tenho por que fazê-lo.Não lhe devo explicações a meu respeito ou a respeito de minha vida pessoal. — Soltou ele num suspiro pesado,não pedindo o nível da frieza em sua voz ao dirigir-se á Rainha.
— Mas isso não lhe dá o direito de me tratar com tamanha grosseria!
— Então pare de me importunar com perguntas irritantes,e daí,talvez,eu comece a tratá-la bem.
— Se não queria falar sobre isso,bastava dizer e eu não teria insistido.Mas o quê quer que tenha acontecido com sua família,quero que saiba que pode confiar em mim para contar.
Jack soltou um riso repleto de humor negro.
— Você acha mesmo que seria capaz de entender? Acha que conseguiria sequer tem um minímo conhecimento da imensidão da minha dor? O quê você sabe sobre dor,o quê sabe sobre sofrer,mulher? Você vive rodeada de joias,ouro e diamantes.Se cair uma única gota de molho em seu vestido perfeito,qualquer um aparece disposto a limpá-la com a própria língua! Você não sabe de nada! Então não tente agir como se fosse capaz de me entender!
Elsa somente avaliou-o pelos próximos breves instantes de silêncio.Os olhos semi-cerrados tinham-se intrigados ao fitar o rosto do rapaz.Por fim,a Rainha chegou a conclusão sobre o motivo pelo qual Jack tivera uma reação tão exageradamente agressiva.
— Sua família está morta... — Soltou ela em tom tristonho.
Jack permaneceu em silêncio e retirou-se por um breve momento para ir á sala de vigia não-utilizada pelos guardas,e buscou por lá pela chave de sua cela.Quando retornou,encarregou-se de abrir o cadeado e destrancá-lo por si mesmo.
— Você demorou para notar,hein! Agora foi confirmado que loiras realmente são burras! — Rugiu ele
— Não pode me culpar por ter lhe perguntado a respeito de sua família.Como eu poderia saber que era um assunto delicado para você?!
— Bom,agora já sabe! Então,a conversa está encerrada! — Dito isso,Jack adentrou á sua cela e trancou-a,evitando contato visual com a loira.
— Frost,está sendo cruel e egoísta.E não pense nem por um segundo que não entendo a dor de perder a família,pois meus pais também estão mortos.
— Mulher,já disse que a conversa está encerrada!
Elsa balançou a cabeça em negação como um gesto de descrença e estreitou os olhos,fitando Frost em incredulidade.
— Você é mesmo insuportável! Não me admira que viva como um andarilho.
— E não me admira que você precise de alguém como eu para ensiná-la a controlar seus poderes.Você é tão fraca e covarde que se sujeita á uma vida indigna repleta de segredos e mentiras somente por quê não tem coragem o suficiente para revelar á todos quem você é de verdade!! Você é uma farsa! — O tom de Frost aumentara cada vez mais á medida que suas palavras duras e impiedosas eram freneticamente despejadas sobre a loira num jorrar furioso.
A Rainha arfou pesadamente e seu queixo foi ao chão mediante tamanha crueldade e frieza.Seus olhos arregalados fitavam com espanto a figura relutante do rapaz cujo o rosto tinha-se muito próximo ao seu atráves das barras de ferro da cela.Sua expressão dura não se suavizou pelos instantes de silêncio que se seguiram regados á uma forte névoa de tensão.
Elsa olhava-o horrorizada,incapaz de crer nas palavras que acabara de ouvir.Nunca poderia imaginar que ele chegaria á tal extremo somente por ela ter acidentalmente iniciado uma conservação cuja o assunto o aborreceu.Frost fora longe demais,pois tal agressivo e grosseiro comportamento era desnecessário mediante algo que poderia ter sido facilmente resolvido.
Olhando no rosto de porcelana da bela Rainha,Jack pôde claramente notar o quão havia ofendido-a,e logo deu-se conta que suas últimas palavras poderiam ter sido evitadas se ele somente tivesse controlado seus nervos antes de explodir com ela daquela forma.Mas ele não pudera evitar.Sua carga de paciência era mínima,principalmente quando se tratava de qualquer assunto que envolvesse seu passado.Sabia que agira errado ao derramar sua raiva em Elsa,pois ela nada tinha a ver com as passagens trágicas de sua vida,e não poderia culpá-la por sentir-se curiosa e querer perguntá-lo a respeito de sua origem.Quando vislumbrou pequeninas lágrimas cristalinas deslizarem dos olhos inundados da Rainha e rolarem pela extensão de suas bochechas,Frost engoliu em seco longa e pesadamente.Logo estava sentindo o sobrepeso insuportável que a dor da culpa exercia sob sua consciência.No entanto,Frost aprendera a nutrir seu orgulho pessoal,e não daria o braço a torcer para desculpar-se com Elsa mesmo sabendo que agira errado.
Por fim,Elsa abaixou a cabeça e abraçando os próprios ombros,silenciosamente deu as costas á Jack e deixou o alojamento de celas a passos rápidos.Jack virou-se e olhou através da pequenina janela quadricular de sua cela,assistindo Elsa atravessar o pátio ao lado de fora,indo em direção á saída para retornar ao palácio.
Quando a loira finalmente sumira de seu campo de visão,Jack desviou sua atenção da janela e voltou-se para frente.Soltando um suspiro pesado,ele permitiu que seu corpo se quedasse contra o concreto duro e frio do solo úmido.Frost deixou seu cajado de lado,apoiado em pé contra a parede atrás de si.Jack esfregou as mãos na face num gesto nervoso e jogou o molho de chaves que portava em mãos num canto qualquer da cela,esperando que a ação violenta e impulsiva pudesse de alguma forma aliviar sua frustração e nervosismo.As chaves chocaram-se ruidosamente contra a estrutura de concreto de uma das quatro minúsculas paredes que o cercava,produzindo um alto som metálico que ecoou prolongadamente pelo recinto pouco espaçoso.Jack franziu o cenho desgostoso para o objeto que acabara de jogar no chão,insatisfeito ao constatar que a dor do arrependimento pelo o quê acabara de falar á Elsa não dissipou-se ao descontar sua raiva atirando as chaves contra a parede.
Frost apoiou a cabeça contra a estrutura erguida atrás de si e fechou os olhos,desejando imensuravelmente não ter dito aquelas palavras á Elsa e que pudesse haver alguma maneira de arrancar a sensação horrível que consumia-lhe o peito.Jack perguntava-se por quê estava a sentir-se tão mal por ter magoado Elsa.Oras,ele já quebrara o coração de inúmeras mulheres e nunca sentira-se mal por tê-las tratado como vadias imundas,mesmo que algumas delas não merecessem ser tratadas com grosseria e frieza.Ele sequer era capaz de lembrar-se quando fora a última que sentiu-se verdadeiramente mal por ter chateado alguém.Jack nunca dera importância alguma aos sentimentos de quem quer que fosse,tampouco de uma mulher.
Só posso estar ficando louco...! — Pensou ele com um suspiro.
Que importância tinha o fato de que fizera Elsa chorar? Ela só seria mais uma entre as muitas que derramaram lágrimas por ele.Que importância ela tinha para ele? É apenas uma mulher,afinal!
Frost esforçou-se para firmar-se nisto com a intenção de convencer á si mesmo que não dava importância alguma aos sentimentos de Elsa.No entanto,ele falhara miseravelmente nesta tentativa e pelo restante da noite,Jack viu-se afundar num buraco infinito de cólera e amargura sempre que a imagem do belíssimo rosto de Elsa consumido por tristeza vinha-lhe á mente.
❄ ❄ ❄
— O QUÊ?! — O agudo berro proferido pela irada Rainha fora ouvido por todo o palácio.Até mesmo os jardineiros que encontravam-se ás extremidades do pátio de pedra encarregados de cuidar das flores e folhagem frutífera pertencente aos jardins da vasta propriedade de luxo,foram capazes de ouvi-lá.
O grito também chegara aos ouvidos dos atarefados empregados que moviam-se rápido e agilmente pelos longos corredores do palácio.Ao serem violentamente atingidos pelo abrupto susto que o berro da Rainha lhes deu,alguns dos serventes responsáveis pela limpeza da louça desequilibrou-se e soltou uma pilha de pratos recém-limpos e secos sobre o chão de mármore polido.Assim como as taças de vidro trazidas em bandejas de prata pelas criadas para compor a mesa do café-da-manhã de Elsa e Anna,trincaram-se por toda a sua extensão quando o som terrivelmente agudo proferido pela loira as alcançou.
No quarto de Elsa,Anna tinha-se com o cenho fortemente franzido após ter os tímpanos quase estourados pela força sonora do berro da mais velha.Se ao berrar desta forma Elsa estivera planejando algum tipo de "vingança" contra Anna após ela tê-la acordado com um grito proferido diretamente em seu ouvido no dia anterior,sua retribuição fora sem duvida cruel e merecedora.
— Não esperava que sua reação iria ser tão...gritante. — Disse Anna dando forte ênfase á palavra "gritante",criando uma singela piada de trocadilho.O berro dado pela mais velha fora sua reação ao término do pronunciamento de Anna a respeito de sua decisão de permitir que Robert passasse a viver permanentemente junto delas no palácio.
Elsa,com a face fortemente enrubescida pela raiva fervilhante que queimava em seu interior,sequer pareceu notar a irônica piada dita pela mais nova.
Com os punhos cerrados ás laterais do corpo sinuoso e delicado,a jovem Rainha deu alguns passos a frente da figura encolhida e hesitante da ruiva que enroscava seus dedos uns nos outros num claro gesto de nervosismo e desconforto,exatamente como ela própria costumava fazer quando encontrava-se apreensiva com algo.A expressão da Princesa era como a de uma criança que é pega pela mãe fazendo travessuras,e utiliza métodos infantis com o intuito de desculpar-se.
— Você acaba de me dizer que permitiu que Robert se mudasse para viver conosco aqui sem o meu consentimento e ainda espera que eu não tenha uma reação exagerada?! — Soltou a loira furiosamente,fuzilando a ruiva embaraçada com uma chama fumegante de ira queimando o gelo diamantino de seus olhos claros.
Anna soltou um suspiro pesado e quedou os ombros em sinal de desânimo.Decidiu que não permitiria-se ser acovardada pela fúria devastadora da mais velha,afinal,Anna já cogitara a possibilidade de receber uma reação como aquela por parte de Elsa quando ela lhe contasse a respeito de sua decisão sobre a estadia de Robert no palácio.
O jovem Rei comparecera no dia anterior á propriedade real enquanto Elsa esteve fora,e pôde facilmente convencer Anna,utilizando sua confiante lábia,de que seria melhor para a própria Rainha e para contribuição do desenvolvimento de seu relacionamento amoroso com ela se ele passasse a viver no palácio,mesmo que algo assim só viesse acontecer após estar oficialmente casado com a loira.Ele pediu que Anna lhe desse autorização para se mudar para o palácio,e ela,acreditando que suas palavras eram repletas de "sentimentos sinceros",concedeu á ele isto;imaginando que seria de grande suporte para Elsa elevar seu compromisso com Robert para outro nível,e com isto talvez até ser capaz de apaixonar-se por ele,o quê a pouparia da dor de ter de passar o resto da vida ao lado de alguém que não amava.
Anna logo tratou de interromper a série de sermões que Elsa estava prestes a despejar sobre si por ter sido estupidamente imprudente ao tomar uma decisão como esta sem antes lhe consultar.A ruiva explicou á loira a respeito dos motivos que levaram-na a ceder ao pedido de Robert,e confessou ter feito aquilo sem seu conhecimento pois sabia que ela não iria concordar.
Elsa ouviu as explicações da irmã em silêncio,e ao término do pronunciamento da mesma,a Rainha esfregou as têmporas com força e soltou um suspiro pesado ao fechar os olhos por um breve instante.
— Anna,eu acredito que tenha feito isso com a melhor das intenções por quê quer meu bem.Mas eu não consigo me imaginar vivendo com ele...pelo menos,não agora! — Disse Elsa ao abrir os olhos e franzir as finíssimas sobrancelhas carameladas.
— Nós duas sabemos bem que mesmo depois do casamento,você não irá conseguir adaptar-se á presença constante de um homem.Veja a estadia dele aqui como uma forma de ajudá-la a acostumar-se com a vida de casada que irá ter.Elsa,eu somente fiz isso para tornar as coisas menos difíceis para você.Não faz ideia do quanto vê-la casando-se por pura obrigação deixa-me triste.Casamento tem a haver com amor verdadeiro,e não com obrigação!
— Concordo com você,e agradeço por estar preocupando-se tanto com meus sentimentos.Mas entenda que eu tenho de fazer isto para o bem do reino.Eu não tenho escolha!
— Mas isto não significa que não pode aprender a gostar dele.Elsa,sei que posso estar me precipitando ao dizer isso,afinal,vocês dois se conhecem a pouco tempo,mas algo me diz que este homem realmente gosta de você e que está disposto a conquistá-la.Você devia dar uma chance á ele.
— Você mesma não havia dito que não posso forçar-me a me apaixonar?
— E não pode;mas isto não é o quê estou propondo que faça.Estou propondo que dê uma chance e permita que Robert conquiste-a.Você pode descobrir que gosta dele...pode se surpreender.
Elsa novamente suspirou pesadamente,e cruzou os braços sobre o busto.Ela desviou seus olhos do rosto da irmã por um breve instante enquanto ponderava sobre suas palavras e as condições da atual situação.
Anna aguardou pacientemente por sua próxima fala ou resposta,e soube ao acompanhar as mudanças de expressão no rosto da mais velha,que havia conseguido fazê-la ceder.
— Onde ele está agora? — Indagou a loira ao descruzar os braços.
Anna permitiu-se abrir um sorriso aliviado quando ouviu aquilo,pôde ver que de fato havia vencido esta batalha.
— Ele está aguardando-a no salão principal.Disse á ele que você desceria para ir á seu encontro depois que conversássemos.
Elsa assentiu em concordância e com um suspiro,atravessou o quarto a passos rápidos e alcançou a maçaneta da porta.Girou-a e abriu a porta,dando continuidade á sua caminhada pelo extenso corredor em direção á escadaria que levava ao salão.
Anna seguiu-a,acompanhando seus passos á uma curta distância.
Robert ergueu o rosto para contemplar a elegante e bela loira que vinha á seu encontro ao descer os degraus da escada rapidamente.O jovem abriu um galante sorriso e sem que houvesse tempo para Elsa notar,um forte brilho mesclado á malícia e satisfação preencheu-lhe as orbes esmeraldinas,pois ele considerou a aparição da Rainha como resultado bem-sucedido de seu plano.
Por fim,a loira postou-se diante dele e Robert cumprimentou-a com uma breve porém respeitosa reverência,e beijou-lhe as costas da mão como sempre fazia.
— Imagino que Anna já lhe contou a respeito do que foi decidido entre nós ontem. — Disse ele casualmente.
— Sim.Bom,mesmo que ela o tenha feito sem meu consentimento,eu aceito sua estadia aqui.Seja bem-vindo ao palácio,Robert.
— Muito obrigado,Elsa.Lhe garanto que minha morada aqui fortalecerá nosso relacionamento e contribuirá para que tenhamos um casamento feliz.
Elsa somente assentiu e logo fez menção de retirar-se,mas Robert rapidamente tratou de interrompê-la ao pegar-lhe carinhosamente pela mão,e proferir:
— Elsa...pode me acompanhar até o jardim? Gostaria de conversar com você á sós.
A loira suspirou e balançou a cabeça em concordância.Em seguida,virou-se para a irmã caçula em pé sob o último degrau da escada assistindo á cena e pediu-lhe:
— Anna,por favor peça que um dos criados se encarregue de levar os pertences de Robert aos aposentos que ele irá se hospedar.— A ruiva de pronto confirmou com um aceno de cabeça e acatou á ordem da mais velha.
Robert entrelaçou seus dedos nos de Elsa e caminhou junto dela até o jardim.Lá,o jovem Rei pediu que os jardineiros se retirassem para dar alguma privacidade á ele e sua noiva.Os empregados rapidamente trataram de obedecer seu futuro soberano e pediram licença ao saírem.Quando finalmente viram-se sozinhos no agradável espaço natural cercado por arbustos baixos,vegetação abundantemente variável e diversas espécies diferenciadas de flores cultivadas em vasos e locais especiais,—Robert virou-se para a loira e gesticulou para que ela ocupasse o lugar vazio á seu lado sob o banco de pedra branca situado no centro do jardim.
— O quê queria me dizer? — Perguntou a Rainha ao sentar-se o mais distante possível dele.
Robert não respondeu-lhe;e com um mínimo sorrisinho formando-se nos pálidos lábios finos,ele ficou a observar a beleza estonteante da jovem mulher loira sentada á seu lado.Não pôde deixar de notar a forma graciosa e excepcionalmente atrativa com a qual ela estreitava os olhos sempre que a fraca luz do Sol da manhã os alcançava.Ou como as claras sardas que possuía na região do nariz ficavam ainda mais perceptíveis sob a claridade solar,dando-lhe um ar ligeiramente inocente e puro,o quê tornava-a ainda mais convidativa aos olhos do jovem Rei.
Elsa notou a intensidade com a qual Robert olhava-a,e mostrou-se confusa mediante aquilo.Porém,não se manifestou verbalmente.Permaneceu em silêncio quando ele ergueu a mão e tocou-lhe os lábios com as pontas dos dedos.
Finalmente,ele lhe respondeu:
— Na verdade,não existe nada que quero lhe dizer.Somente trouxe-a aqui para que pudéssemos ter algum tempo juntos e sozinhos.
Elsa ergueu as sobrancelhas,mostrando-se simultaneamente surpresa e assustada.A Rainha não soube como reagir mediante tal revelação.Ela sentiu-se ruborizar,e isto foi-lhe horrivelmente desconfortável,pois estava constrangida.
Robert retirou seus dedos dos lábios de Elsa,porém continuou com o olhar intenso sobre ela.
— Ah,érh...Robert,eu... — Elsa balbuciou palavras desconexas até que finalmente conseguisse pronunciar:— Eu estou atrasada para uma reunião importante com a corte real.Eu devo me retirar agora.
— Eu irei com você.Afinal,sou o futuro Rei de Arendelle e devo acompanhar minha esposa em seus compromissos.
— Então devemos partir agora.Estamos atrasados,a câmara em que as reuniões são realizadas fica um tanto distante daqui e...
— Elsa,você é a Rainha.O quê significa que pode se atrasar o quanto quiser ou o quanto achar necessário.
— Não posso fazer algo assim.Sujaria a minha imagem como soberana de Arendelle.E como Rainha,devo ter comprometimento com meus horários.
— E quando terá um tempo para mim?
— Robert,eu...
— Elsa,eu entendo que talvez esteja desconfortável.Acredite,isto tudo é tão novo para mim quanto é para você.Mas como minha noiva,deve dedicar algum tempo á mim.
— Se está se referindo á troca de carinhos,não acho que seja adequado pois eu o conheço há tão pouco tempo e...
—...E irá casar-se comigo em um mês.Em nossa Noite de Núpcias,dirá á mim que não pode se deitar comigo por quê tem uma reunião?
— Não...! Eu...
— Pois bem.
— Robert,está tentando me pressionar de alguma forma ao lembrar-me dos deveres de uma boa esposa? Eu sei como uma boa esposa deve agir!
— Eu não concordo.Já que não está se comportando como minha noiva. — Robert fez uma breve pausa para suspirar,e então continuou:— Querida,por favor não me interprete mal.Eu somente pensei que um pouco de afeto físico ajudaria-a sentir-se mais a vontade em relação á mim.Afinal de contas,logo iremos nos casar,então temos de aprender a ter intimidade um com o outro.
Elsa nada disse,pois reconhecera que ele tinha razão.Mesmo contra sua vontade,Elsa teria de aprender a ceder ás vontades de seu futuro marido e permitir que ele a tocasse quando quisesse.Afinal,em uma sociedade como aquela,uma mulher jamais poderia negar quaisquer vontades de seu marido ou mesmo recusar-se a não ser submissa á ele.Olhando nos olhos claros de seu noivo,Elsa pôde enxergar a veracidade de suas boas intenções e sentimentos puros existentes ali.
Por fim,a loira quedou seus ombros e assentiu em concordância ao que fora dito por Robert.
Visto que havia colocado a Rainha contra a parede e deixado-a sem argumentos,Robert aproveitou-se de seu breve momento de vulnerabilidade e aproximou-se dela.Robert fora rápido em seus próximos movimentos para evitar que Elsa tivesse a oportunidade de repeli-lo ou mesmo impedi-lo e,tomando o pequeno rosto feminino da loira em suas mãos,ele inclinou o corpo para frente e alcançou seus lábios pintados por um batom cor-de-rosa escuro.O beijo fora somente um tímido roçar de lábios,e embora Robert tenha desejado intensamente aprofundar o toque e poder sentir mais da maciez suave da pele perfumada e convidativa e explorar com mais ardor os lábios delicados da loira,ele terminou o beijo tão rápido quanto começou,e em seguida afastou-se de Elsa.
O rosto da Rainha tinha-se novamente corado por vergonha quando Robert desprendeu seus lábios dos dela.O silêncio fluiu por ambos pelos próximos instantes,e Elsa somente ficou a fitá-lo mutuamente com a expressão indecifrável.A loira perguntou-se se deveria considerar aquilo como uma demonstração carinhosa de afeto físico,ou como uma espécie de intimação que obrigava-a a permiti-lo tocá-la ou beijá-la sempre que quisesse.
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