Notas iniciais
Meus agradecimentos a Vitor Araujo por ser mais um a fazer parte de meus favoritos e também por recomendar essa fiction. Obrigada Vitor! Aos meus outros leitores: Espero que estejam gostando e estou grata por estarem lendo. Gracias pelos reviews também. Boa leitura!

“Antes de desvendar seus segredos, procure conhecer a sua História.” Essa era outra citação, mas dessa vez eu sabia exatamente de quem: meu pai. Como chefe da guarda vermelha e administrador da Fortaleza, esse sempre fora um dos seus lemas. Eu me lembro dele repetir isso um zilhão de vezes, cada vez que ia fazer um discurso. Algo me dizia que esse conselho seria útil na minha atual situação, já que eu não sabia de tudo que acontecera na Iméria desde meu suposto sequestro. Na verdade eu não sabia um fato sequer sobre sua história e pelo visto ninguém estava disposto a me contar exceto, talvez, a pessoa com quem eu estava indo encontrar.

Eu tinha passado mais cedo na CETI e combinado tudo com Alex: ele me encontraria dali três horas na entrada do bosque que dava a casa de Sofia. Eu sentia saudade de Sofia, podia muito bem passar em sua casa para nos vermos se não fosse o risco de topar com Victor. Era melhor esperar outra oportunidade pra matar essa saudade, talvez eu desse um pulo na casa de cura mais tarde, afinal. Então, lá estava eu, sentada em uma pedra, algum resquício de uma antiga construção, enquanto esperava por meu novo amigo e informante.

Quando Alex chegou nós partimos seguindo uma trilha que eu não fazia ideia de onde iria dar. Engraçado como eu ainda conhecia tão pouco do lugar onde eu deveria ter crescido. Mas, se eu estivesse certa, meus dias de desinformada estariam chegando ao fim. Se tinha alguém mais informado que Alex, eu desconhecia, mas o principal é que ele não fazia questão alguma de manter segredo, ao contrário de todos os outros. Então, isso já era um bom começo.

– Você acha que minha mãe é uma boa administradora? – Perguntei a Alex, tentando acertar o rumo da conversa para chegar onde eu planejava.

– Isso é uma pergunta estranha. – ele parou um pouco pra pensar e continuou – eu não sei, suponho que sim, ela não é alvo de muitas críticas e ela tá com esse cargo desde que nasci, acho que isso quer dizer que sim.

Balancei a cabeça em um gesto de entendimento, já pensando na próxima pergunta que eu desejava fazer.

– Alex, como é viver aqui na Iméria sendo... Como vou explicar?- tentei encontrar as palavras corretas – Deixe-me ver... Estão sempre me dizendo que vocês são escravos e que servem de cobaias, que o pessoal da Fortaleza é cruel, mas eu não vi nada disso até agora então... Eu não sei. Como é isso?

– Eu acho que eu entendo o que você está perguntando. Você não sabe muito sobre nós, não é?

– Não, e ninguém parece querer me contar. Quer dizer, eu cresci na Fortaleza, tudo o que eu sabia é que aqui fora era perigoso, que poderíamos morrer se deixássemos os tuneis. Obviamente isso era mentira, já que ainda estou viva, mas vocês eram só uma lenda pra mim.

– Acho que agora eu entendo porque você está tão interessada. Olhe, você pode me perguntar o que quiser e eu vou te responder, se eu souber, Luz.

– Luz? – Perguntei esperando uma confirmação, quando ele concordou eu continuei — É o apelido mais estranho que eu já vi. – Eu ri e ele deu de ombros – Me explica como essa coisa de escravos e cobaias funciona.

Enquanto conversámos, caminhávamos seguindo a trilha que adentrava cada vez mais na mata, eu tinha a impressão que estávamos subindo uma ladeira e eu continuava sem saber aonde íamos. Alex estava sendo Alex. Preenchia cada segundo de silêncio e sempre respondia minhas perguntas, colaborando como eu já previra. Eu não tinha dúvidas de ter acertado ao pensar nele. Ele parecia não se importar com nada do que eu dizia e pelo contrario, estava bem à vontade com a conversa. Se eu tivesse conhecido ele antecipadamente eu teria economizado muito das horas em que tentei entender tudo o que estava acontecendo.

– Não foi com a Fortaleza que as coisas começaram, ela não é a causadora de toda injustiça, se é isso que te preocupa, Luz. A verdade é que, assim que a população mavriana tomou coragem pra sair dos túneis, eles perceberam que tudo tinha sido destruído, mas que já não era mais tão perigoso ficar do lado de fora. A comida estava escassa e eles precisavam encontrar uma forma de repor tudo o que tinha sido consumido, então eles começaram a procurar por áreas em que alguma vegetação poderia ter sobrevivido.

“Mas estava tudo destruído, demorou muitos anos até que eles encontrassem algo. Quando eles encontraram, advinha só quem já dominava o lugar? Nós, os Iméros. Naquela época não éramos organizados e nossa vida era bem pior do que hoje. Precisávamos desesperadamente de remédios, muitas pessoas morriam por causa de doenças simples que poderiam ser evitadas. Não tínhamos nenhum conforto, roupas, produtos de higiene, tudo era escasso, nem sempre achávamos coisas uteis no meio dos destroços, mas alguns de nós descobriram que tínhamos “poderes telecinéticos”.”.

– Espera – interrompi-o – isso é algo que sempre tive curiosidade. Como vocês desenvolveram essas habilidades? Vocês simplesmente acordaram assim?

– Não, olhe... Ninguém sabe explicar muito bem sobre isso. É o que seu povo vem tentando descobrir a anos. Não acho que seja algo que tenha uma resposta, sei lá, será que precisa de uma resposta afinal?

– Mas o que você pensa Alex?

– Eu acho que deve ter sido da mesma forma como o homem pré-histórico aprendeu a caminhar ou a falar.

– Evolução? Anos. Não é muito pouco tempo para uma evolução?

– E se todos já tivéssemos essa capacidade em nossa mente, mas não tínhamos nos dado conta?

– Então todo mundo teria telecinesia? Isso não é verdade, eu não sou capaz de mexer uma partícula de poeira se quer, quanto mais manipular os elementos como alguns de vocês fazem.

– Você já tentou?

– Claro que não, eu nunca precisei usar a mente pra fazer as coisas por mim, eu sempre usei minhas mãos, eu sequer pensava sobre isso.

– Taí um ponto, você nunca precisou dela, nós sim. A necessidade fez com que descobríssemos essa habilidade.

– Então qualquer um pode aprender?

– Talvez, mas olhe, essa é uma pergunta complexa, eu posso estar errado.

– Entendo. O que aconteceu depois que descobriram que podiam mover objetos com a mente?

– Mais que só mover objetos, nós podíamos manipular todo tipo de matéria com a mente. Quando os mavros chegaram, eles acreditaram que fossemos aberrações. Que tivéssemos sofrido mutações genéticas por causa da radiação. Então, eles quiseram fazer testes pra saber se não estávamos doentes. Não entendíamos o que estava acontecendo, nossas habilidades eram um mistério até pra nós. Também tínhamos medo que estivéssemos condenados à morte, assim concordamos em ajudar. Foi de espontânea vontade no inicio, mas quando nossos entes queridos deixaram de voltar, ninguém mais queria ir. Foi ai que vocês intervieram.

– Como?

– Primeiro eles ofereceram o que nós precisávamos: remédios, roupas, produtos básicos de higiene, e muitas outras coisas. Muitos foram contra, mas o administrador daquela época aceitou. Ele nos fez ver que eram necessários alguns sacrifícios para o bem de toda a população. Com isso, nossa população parou de diminuir, começamos a crescer e nos desenvolver. Plantávamos as sementes que recebíamos e mandávamos 80% para as cidades mavrianas.

“Quando passamos a nos organizar em pequenos grupos, começamos a ser uma ameaça. Nossa presença aqui fora estava sendo mantida em segredo com o nosso consentimento, mas não queríamos mais viver aqui, a gente tinha o direito de ter uma vida mais fácil como a de vocês na Fortaleza, com tecnologia e tudo mais, entende?”

– Acho que entendo – respondi com sinceridade, porque eu não entendia realmente. Muitas pessoas na Fortaleza sempre sonharam com o dia em que pudéssemos voltar a viver na Iméria, e sempre se lamentavam por isso não ser mais possível. Que os imeros quisessem o oposto disso era um tanto estranho. Quando Alex continuou, eu pude entender o que ele estava dizendo.

–Não é fácil viver aqui, Luz. O tempo é instável, as condições de vida não são lá aquelas coisas. Nós vivemos em ruínas, no que restou de cidades destruídas, alguns dormem em colchoes de palha, e tem radiação aqui fora. A aldeia é segura, mas a gente nunca sabe quando pode encontrar uma área contaminada. Você vive aqui por pouco tempo, e nunca saiu da aldeia, se visitasse as outras cidades você entenderia melhor.

– Existem outras cidades? — perguntei duvidando.

– Sim, é claro. A aldeia é uma das mais desenvolvidas, mas não é única. Em todo caso não é esse o foco. O Fato é que se nós fossemos para o subterrâneo como vocês, quem ia abastecer a população mavriana com os alimentos que nós produzíamos?

– Isso é estranho, todo esse tempo eu estava comendo a comida que vocês produziam e eu mal sabia da existência de vocês. Como isso é possível Alex? É surreal – eu disse indignada.

– Eu também não entendo como vocês possam ser tão cegos quanto a isso. Ninguém se pergunta de onde toda essa comida vem?

– Acho que ninguém se preocupa contanto que tenham o que comer – era duro admitir isso, mas era a pura verdade. Nem eu sequer tinha me perguntado de onde a comida vinha, ou qualquer outra coisa que nos era dado na Fortaleza. Totalmente vergonhoso, pensei.

– Espera, aqui é o fim da trilha, nós vamos ter que escalar as pedras – informou Alex, tirando-me de minha autocensura.

Escalamos as pedras e descemos outras com cuidado. Paramos em uma longa e achatada. A pedra formava uma enorme planície que dava em um precipício. Eu tinha a sensação que já estivera nesse lugar porque ele me era estranhamente familiar. Aproximei-me da queda e vi uma cidade em ruinas que cobria de leste a oeste a paisagem. Foi então que eu sabia exatamente onde estávamos. No mesmo lugar em que Victor me levou, no dia em que ele me deu o cordão com a penugem que eu sempre carregava comigo. Na pedra que dava visão para a cidade fantasma.

Aquele lugar era magnifico apesar de triste. Como consequência das lembranças que ele me trazia, toda minha distração foi deixada para traz. Eu podia sentir a tristeza tomando conta de mim aos poucos. Inevitável e implacável. Como uma nuvem negra pairando sobre minha cabeça. Estranhamente, Alex percebeu minha mudança de humor.

– Você ficou triste. O que eu falei de errado, Luz?

– Não é nada Alex, é que eu já estive aqui com outra pessoa.

– Quem te trouxe aqui? É proibido.

– Ah, obrigado por me avisar só agora! – reclamei – E por que Victor também não me avisou sobre isso?

– Vocês estão saindo não é?

– Parece que todo mundo já sabe não é? Mas a resposta é não, ele é apaixonado pela minha irmã.

– Pode até ser que seja, mas eu duvido que eles voltem, não depois do que ela fez.

– o que ela fez? – perguntei interessada.

– Traição.

– Ela o traiu com o Junior? – tentei adivinhar. Isso parecia bem típico de Laura.

– Pior. Ela o denunciou para o conselho. Ele e Sofia quase foram expulsos da aldeia.

– Mas o que ele fez de tão grave?

– Tecnicamente não fez nada. Ele só não mencionou que tinha nascido na Fortaleza.

– O Victor nasceu na Fortaleza? – quis confirmar sobressaltada. Como eles nunca tinham me dito isso? Porque mentiram pra mim?

– Ele se esqueceu de te contar isso? – ele perguntou alarmado – Luiza isso é sério, ele me mata se souber que eu te contei. Por favor, você não pode dizer isso a ele, por favor, você tem que prometer que não vai dizer a ele que eu te contei.

– Eu não direi, prometo. Mas qual o crime de ele ter nascido na Fortaleza? E porque ele mora aqui na Aldeia?

– Por que ele mora aqui eu não sei, só sei que o conselho pensou que ele pudesse ser algum tipo de espião. Nós não confiamos em mavrianos, não depois do que eles fizeram.

– O que aconteceu Alex? Eu preciso entender isso...

– Quando ameaçamos nos revelar a toda população mavriana, eles vieram com bombas e armas e dizimaram quase metade da população imeriana. Por que você acha que aceitamos tudo que nos é imposto?

– Medo – anunciei o obvio – E onde eu me encaixo nisso?

– Você é a esperança Luiza.

Notas finais
Até o próximo capítulo! Nilkity Abraços!