Notas iniciais
Perdões meus leitores! A falta de tempo tem atrasado demais meus capítulos eu sei, mas não se preocupem, eu não vou abandonar essa fic. Mesmo que eu demore, vou chegar até o último capítulo. Obrigada leticiamatias e PAulaFErnanda por favoritarem essa história. Boa Leitura!

Ser a Esperança significava que as pessoas daquela aldeia tinham fé de que eu era a única capaz de acabar com o sofrimento pelo qual elas vinham passando até então. Um, elas só não estavam erradas, como, dois, elas acreditavam mais em mim que eu mesma. Quem em sã consciência ia depositar tanta expectativa em uma adolescente como eu? Pessoas desesperadas que precisavam urgentemente serem salvas. Pessoas que não estavam mais em sua sã consciência.

Por um lado, eu sentia ter a força suficiente para derrubar um leão, tamanha fúria ao saber que Victor e Sofia tinham mais coisas em comum comigo do que eles tinham me contado. Por outro, eu me despedaçava por cada mentira que eu ia descobrindo sobre mim. Ao mesmo tempo em que eu derrubaria uma muralha, eu me escondia debaixo da coberta com medo do bicho papão de noite. Uma criança assustada por dentro, uma guerreira por fora.

Entrei na casa de Sofia sem bater. Não me preocupei se Victor estava ou não lá, se eu estava sendo totalmente sem educação ou se eu estava me metendo em algo que eu não tinha nenhum direito. Tudo o que me importava agora era uma explicação. Se Victor ia gostar ou não, eu não me importava, já estava na hora de eu saber toda essa história, principalmente porque essa poderia ser também a minha história.

A sala estava vazia. Gritei procurando por alguém, como ninguém respondeu, sentei determinada a esperar no sofá. Runa apareceu segundos depois com um miado de boas vindas e pulou em meu colo logo em seguida procurando dengo. Encostei a cabeça no encosto do sofá enquanto acariciava o pelo macio da gata e acabei adormecendo. Quando acordei Victor me encarava atentamente, sentado na poltrona em minha frente. Pela posição em que sentava, parecia estar ali há um bom tempo.

– Desculpe, não quis acorda-la. – ele disse pesaroso – Alguém já te disse que você parece um anjo quando dorme?

– Não me olhe assim Victor, não foi por você que eu vim – esclareci quando percebi a expectativa em seus olhos – preciso falar com Sofia, urgente.

– Você não vai pelo menos deixar que eu me explique?

– Você pode tentar Victor, mas não há explicação suficiente que me faça aceitar o fato de que você me usou esse tempo todo pra suprir a falta que minha irmã lhe faz.

– Ui, isso foi pesado – disse Maicon entrando na sala, seguido logo depois por Sofia.

– Acho que chegamos em má hora Maicon – disse Sofia a Maicon.

– Na verdade não – respondeu Victor – Ela veio por você mana.

– É lógico que ela veio pela Sofy, depois do que você fez, esperava o que? E eu te avisei tanto...

– Cala a boca Maicon – ralhou Sofia – se não ajuda não atrapalha.

– Você também sabia não é Maicon. Você é só mais um que vive mentindo pra mim, todos vocês. Será que alguém me disse a verdade alguma vez aqui nesse lugar?

– Eu nunca menti pra você Luiza, não seja injusta – disse Sofia.

– E sobre o fato de você e Victor terem nascido na Fortaleza? – eu cuspi as palavras com toda a raiva que eu tinha guardada em mim – Você é só mais uma também, mas de todos você é a pior.

O silencio caiu sobre a sala e vi Victor, Maicon e Sofia me olharem com os rostos brancos em minha direção, como se estivessem vendo um fantasma. Era claro que eles não tinham ideia do que eu acabara de descobrir. Como eles nada falaram eu continuei.

– Eu confiei em você Sofia, eu te fiz como uma irmã pra mim e você mentiu pra mim esse tempo todo. Todos vocês. Victor, Maicon, Sofia, Cássia e sabem-se lá quantos mais... Todos me traíram desde o momento em que me tiraram da minha casa e me trouxeram pra esse maldito lugar.

Parei por um instante pra notar a expressão de choque em seus rostos. Nenhum deles era capaz de dizer uma palavra, então eu continuei, olhando em cada um de seus olhos enquanto falava com uma fúria de derrubar montanhas.

–Eu odeio vocês! Eu odeio! Odeio por me tirarem da minha família na Fortaleza e a forma como fizeram com que eu me envolvesse. Odeio você Maicon por me fazer confiar em você e gostar de você. Odeio você Sofia, por fazer de você minha melhor amiga e confidente, e por fim, odeio você Victor, por me fazer com que eu me apaixonasse. Mas, mais que tudo, eu os odeio por me tirarem todas as coisas boas que eu ganhei desde que cheguei aqui.

Eu me calei como se tivessem retirado todas as minhas forças. Ofegante, vi a sala começar a girar e minha visão escurecer. Uma pontada na cabeça e senti meu corpo amolecer, depois tudo ficou negro. Acordei deitada na cama do quarto se Sofia. Ela sentava nos pés da cama e me olhava atentamente, quando viu que eu acordara começou a falar antes que eu pudesse protestar:

– Me desculpe por isso Lu.

– Por ter mentido pra mim desde que cheguei aqui ou por ter sido uma falsa amiga desde o início?

– Por ter feito você cair no sono bem no meio da sala. Você estava descontrolada. – ela disse com uma careta.

– Ai – eu disse levando minha mão direita à cabeça – esse negocio de desmaiar e acordar em lugares estranhos está acabando comigo. Três vezes já é demais.

– Eu concordo.

– Não, eu não te perdoo.

– Por ter omitido o local do meu nascimento desde que você chegou aqui ou por eu ter sido uma amiga preocupada que só queria te proteger?

– Por ter me feito cair no sono bem no meio da sala – respondi.

– Você está incoerente Luiza.

Eu ri.

– Porque eu não consigo ter raiva de você por mais de dez minutos? – perguntei retoricamente.

Ela levantou da cama e caminhou até uma cômoda de madeira na cor marfim. Abriu a primeira gaveta e retirou algo de lá que eu não pude ver o que era. Demorou um minuto até entregar o objeto em minha mão. Eu conhecia perfeitamente aquele objeto característico da Fortaleza: era um tablet holográfico. Suas baterias programadas para durarem por séculos garantia seu funcionamento na Iméria, já que não existia energia elétrica para recarregá-lo se fosse preciso. É por isso que eu conseguia ver brotando dela a imagem holográfica de duas menininhas brincando de boneca. Uma das meninas era muito parecida comigo, e eu pensei ser Laura, a outra supus que fosse Sofia. Não consegui entender porque ela estava me mostrando isso.

– Eu sei que talvez você nunca volte a confiar em mim novamente, mas eu quero que saiba que é como uma irmã pra mim e não importa se você se afastar, eu sempre vou querer te ter de novo do meu lado. Você é minha melhor amiga, sempre foi desde a infância e sempre vai ser, mesmo que você não queira.

Foi só então que eu notei que aquela não era Laura e Sofia brincando, era eu naquelas lembranças. Eu e Sofia brincando de boneca em minha casa na Fortaleza. Isso explicava porque eu tinha um carinho tão grande e repentino por Sofia, porque ele não era repentino, pelo contrário, era de longa data. Desde nossa infância. Mas eu não me lembrava de nada daquilo.

– De quando é isso Sofy?

– Acho que eu tinha uns cinco anos, você seis, já que é um ano mais velha que eu. Uns quinze dias depois dessa foto, eu fui trazida pra Iméria. Eu e meus irmãos.

– Por que?

– Nós fomos morar com uma tia em Venezian. A Fortaleza não quis mais gastar com educação dos filhos dos traidores. Nós fomos largados no meio da Iméria, três crianças abandonadas no bem no meio do deserto. O Breno, meu irmão mais novo, tinha um ano e meio; eu estava com cinco e Victor com dez. Estávamos completamente perdidos e com fome quando Claude nos encontrou e nos reconheceu. Foi ele que nos levou pra casa da tia Cecília em Venezian.

– Como vocês vieram parar na Aldeia?

– Há uns dois anos, Victor brigou com meu tio Luis e ele o expulsou. Eu não quis abandonar meu irmão e saí com ele. O Breno ainda mora com meus tios, mas, a gente veio pra Aldeia porque meu irmão já trabalhava pra sua mãe desde os quinze anos. Ele é o garoto de confiança dela. Ela nos deu essa casa e aqui nos vivemos até hoje.

– Por que seus pais foram considerados traidores?

– Porque eles sabiam do relacionamento dos seus pais e conheciam os planos dos dois de se casarem e com isso criar uma aliança entre a Iméria e a Fortaleza. Seu avô jamais aceitaria isso. Ele condenou meus pais à morte e mandou destruírem a aldeia logo em seguida. Seu pai conseguiu anistia pra mim e meus irmãos, mas por pressão do governo ele foi obrigado a nos abandonar tempos depois no deserto.

– Eu sinto muito por seus pais.

– Não sinta, se você me perdoar por não contar toda a verdade desde o inicio já ta de bom tamanho.

Quando eu nada respondi ela continuou:

– Prometo que nunca mais te escondo nada.

Ao invés de responder com palavras, joguei as cobertas de lado e a abracei bem forte. Ela tinha lá suas razões por me esconder tudo. Eu não tinha como entender mais eu podia aceitar isso, principalmente se eu podia ter minha amiga de volta.

– Agora que você já me perdoou, eu tenho que te pedir algo... – ela parou em dúvida – você tem que falar com o Victor Luiza...

Eu ia protestar mais ela não me deu tempo.

– Dá uma chance pra ele te explicar, por mim pelo menos.

– Tá bem, mas não hoje, eu preciso voltar pra casa, Cássia deve estar preocupada.

– Isso é outra coisa que eu queria falar. Eu não entendo os motivos dele, então não me pergunte o porquê, mas Victor acha que você está correndo perigo lá com Cássia.

– Por quê?

– Você vai ter que conversar com ele sobre isso.

Notas finais
- Qualquer erro que notem, podem mandar uma mensagem ou deixar review... Obrigada!