A Valsa de Vênus
5 Capítulo 05
Quinze anos.
A Curva do Vento fervilhava em movimentação. Nas cozinhas imperava o cheiro de ervas, carne assada e bolos de mel. Servas carregavam braçadas de toalhas, vasilhas e castiçais para o salão; o número de soldados no pátio triplicara e havia tantos hospedes que Rozênia tinha perdido as esperanças de decorar os rostos de todos.
Correu pela passagem que levava aos aposentos de Eliza, desvaindo-se no último segundo de duas garotas convidadas. Ouviu as duas murmurem sobre sua falta de compostura ao passar por elas, mas não se preoucupou em deter o passo para se desculpar.
Quando alcançou o quarto de Eliza, encontrou-a usando apenas um roupão de tecido semitransparente, andando de um lado ao outro.
— Consegui as fitas com Lady Lorena! — disse, mostrando as faixas de pano que complementavam o vestido de Eliza.
A outra suspirou, aliviada.
— Graças aos céus!
Ela se adiantou para pegar o tecido, e Rozênia notou que estavam sozinhas no quarto.
— Onde está sua ama? — Por algum motivo, Elisa corou perante a pergunta.
Brígida tinha andado o dia inteiro ao redor de Eliza, alisando seu cabelo, dando conselhos sobre como se comportar e o que dizer, quais mesuras deveria fazer, e mandando que ela mantivesse a espinha reta durante o baile. Rozênia podia apostar que nada daquilo estava fazendo algum bem para diminuir o nervosismo de Eliza, mas tampouco ousara se intrometer.
— Mandei que ela fosse embora. Não podia suportar mais.
De fato, Eliza parecia um pouco cansada. Ninguém tinha dito aquilo expressamente, mas ambas sabiam que Lorde Bernard estava dando aquele baile para que os nobres da região conhecessem que sua filha estava se tornando uma mulher. Segundo Eliza, tinha havido um festejo parecido quando sua irmã chegara naquela idade, embora ela fosse pequena demais para participar na época. Rozênia ainda não sabia ao certo se ela estava feliz com o banquete que seria servido ou não.
— Vai ficar tudo bem. Não vai ser muito diferente das outras festas que seu pai costuma dar. É só ficar lá, beber, sorrir e dançar com algumas pessoas — disse, mesmo não tendo muita certeza se aquela era uma afirmação verdadeira.
— Eu acho que não quero dançar.
Rozênia bufou.
— Concentre-se em beber e sorrir, então, são sempre as partes mais fáceis.
— Vou ficar terrível nesse vestido — Eliza se lamentou, ingorando suas palavras.
Oh, essa parte, ao menos, Rozênia tinha certeza de que era uma bobagem. Já tinha visto a outra provar o vestido e certamente ela não tinha ficado terrível nele. Permitindo-se a ousadia, deixou os olhos vagarem pelo corpo de Eliza.
Perguntou-se se ela tinha vestido aquele roupão apenas porque sabia que aquilo a perturbava, mas forçou-se a abandonar o pensamento tão logo ele surgiu.
Rozênia era magra como uma seta, seios pequenos, o corpo delineado, mas ligeiramente sem cintura. Por sua vez, Eliza possuia seios fartos e uma cintura bem marcada, embora a rechonchudez da infância jamais a tivesse abandonado. Através do tecido do roupão, Rozênia podia entrever seus mamilos, tão rosados quanto uma flor. Um calor suave preencheu suas entranhas, e ela se forçou a desviar a mirada antes que a outra a pegasse olhando.
— Não seja tola — repreendeu a outra. — É melhor começarmos a pentear o seu cabelo. Sua mãe vai ficar brava se você não estiver pronta na hora.
Eliza torceu os lábios, um pouco contrariada, mas acabou sentando-se na penteadeira e passando-lhe uma escova. Os cabelos dela eram longos e finos e embaraçavam-se com facilidade, então todo o processo costumava ser demorado. Rozênia escovou os fios até que estivessem brilhantes, para então prendê-los no alto da cabeça com um ornamento prata e pérolas. Em seguida, trançou os próprios cabelos de forma muito mais simples, em uma única trança que escorria por suas costas
Quando terminou, Eliza a fitava através do espelho.
— Eu podia te ajudar a fazer algo mais elaborado.
— Acho que eu prefiro assim. — O cabelo de Eliza podia estar muito bonito, mas ela sabia que logo aquele penteado iria pesar, os grampos começariam a incomodar, e a outra terminaria a noite ansiosa para se livrar daquilo tudo.
— Coloque isso, então — ela falou, remexendo na sua caixa de joias até retirar de lá uma presilha em forma de flor, cujas pétalas eram gemas vermelhas.
Rozênia deu um passo atrás. Duvidava que qualquer outra moça da nobreza que não estivesse sentada no estrado fosse ter algo tão bonito, e Rozênia não era uma nobre. Aquilo chamaria a atenção nas partes baixas do salão.
— Está tudo bem, Eliza. — Sorriu. — Eu já sou bonita o suficiente sem nenhum enfeite.
A outra riu com aquilo.
— Certamente — ela concordou, porém não deixou de se aproximar.
Rozênia sentiu-se acuada quando Eliza tocou seu braço, permanecendo muito quieta enquanto ela prendia o adereço no seu cabelo. Com suavidade, ela ajeitou uma mecha, os dedos roçando na sua bochecha.
Oh, às vezes Rozênia a odiava por todo aquele despreendimento e amabilidade. Eliza quebrava toda compustura que tentava manter como se não fosse nada, e a consciência de que nunca seria tão boa quanto ela era quase dolorosa.
— Ficou bem em você — Eliza sentenciou, sorrindo de canto.
De fato, a cor vermelha constratava com seu cabelo cinzento e também combinaria com o vestido cor de vinho que usaria naquela noite.
— Se você continuar permitindo que eu tenha os seus adereços vou acabar conseguindo mais pretendentes do que você.
O sorriso de Eliza murchou como se Rozênia tivesse lhe dado um safanão, e ela afastou-se. Rozênia sentiu seu estômago afundar. Definitivamente, não esperava por aquela reação. Eliza costumava se furtar do assunto, então as duas nunca tinham realmente conversado sobre aquilo, mas a ideia de que a outra estivesse tão preocupada com o cortejo dos rapazes de repente pareceu perturbadora.
— Estou brincando, você sabe — disse em um tom de desculpas que, no entanto, soou um tanto amargo.
Eliza apenas assentiu em resposta, tomando nas mãos as faixas que Rozênia tinha buscado.
— Você pode me ajudar com o vestido? — ela questionou em uma óbvia tentativa de desviar daquele tema.
Rozênia anuiu.
O tecido era pesado, verde como musgo, o corpete bordado com delicadas flores de prata. Os seios de Eliza se ajustavam com perfeição ao decote quadrado. Rozênia puxou as tiras do espartilho, em seguida contornou a cintura alheia com a palma da mão, avaliando o resultado do seu trabalho.
Eliza suspirou diante do contato, voltando-se e ficando de frente para Rozênia.
— Se eu pudesse, dançaria com você.
Por um instante Rozênia imaginou-se tomando a outra pela cintura, os seios dela pressionados aos seus, enquanto as duas rodopiavam. A ideia parecia agradável, e tão fácil e natural quanto impossível.
— Eu vou estar lá, Eliza — prometeu. — Quando retirarem o banquete e todos se misturarem, você pode me procurar e eu darei um jeito de trocar nossas taças de suco de uva por vinho de verdade — disse, sabendo que era o melhor que podia oferecer.
Pelo tremor nas mãos da outra, não era o suficiente, mas ela voltou a sorrir e entrelaçou os dedos nos seus brevemente, como se decidisse que tomar o máximo possível era melhor do que nada.
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Rozênia sentia-se agradavelmente farta de carne de cordeiro e pêras assadas. A maioria das damas ali tinha muitos parentes no salão, mas as únicas pessoas que realmente se importavam com o que Rozênia fazia eram Lorde Bernard e Lady Lorena, e eles estavam muito longe para poderem prestar atenção nela, então tinha sido fácil conseguir vinho, que geralmente não era servido para as moças da sua idade.
Um rapaz alto e magro tinha convidado-a para dançar não muito depois que a primeira música soara. Por cima da confusão de música e conversas, Rozênia não havia entendido muito bem quem era ele, mas supunha que fosse o escudeiro de alguém. Embora nenhum dos dois fosse exatamente bom naquilo, tinham dançado as quatro canções seguidas.
Assim, seus pés estavam doloridos, ao mesmo tempo em que sua cabeça estava muito leve de vinho e comida quando sentiu alguém tocar-lhe o ombro. Ao se virar, deu de cara com Lady Lorena.
Por um segundo temeu que a senhora fosse repreendê-la por ter bebido vinho, mas, se ela percebeu que o rubor em suas bochechas tinha tanto a ver com o álcool quanto com a dança, não disse nada a respeito. Obviamente, ela tinha questões mais preocupantes em mente.
— Você viu Eliza?
Por reflexo, Rozênia olhou ao redor.
A última vez que tinha visto a outra havia sido durante a primeira canção, dançando com um rapaz que Rozênia reconhecera como o filho de um lorde vizinho. Esperara que Eliza viesse se juntar a ela em seguida, mas em meio à música, bebida e comida, tinha suposto que a outra houvesse superado o nervosismo e estivesse bem por conta própria.
— Não estive com ela durante toda a festa.
Lady Lorena praguejou baixinho, de uma forma que Rozênia jamais esperava ouvir. O gesto fez a semelhança entre a Senhora e sua mãe acentuar-se mais do que nunca.
— Faz duas horas que não vejo Eliza. Já mandei procurá-la no quarto, mas ela não está lá.
— Se eu a vir, digo que você está procurando.
A Senhora agradeceu antes de se afastar em direção às varandas do salão. Rozênia, porém, sabia que Eliza não estaria lá se realmente não quisesse ser encontrada. Virou o último gole de vinho do seu copo e foi na direção oposta.
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Depois de toda a movimentação no salão, as escadas que levavam às salas de estudo pareciam terrivelmente silênciosas.
De longe, pôde entrever uma faixa de luz através da porta que dava para o estúdio de Marcella e suspirou de alívio.
Deu dois toques no batente para anunciar sua presença, mas ainda entrou no quarto a tempo de ver Eliza despertar sobressaltada. Ela tinha se encolhido em um dos sofás do aposento e, muito obviamente, tinha caído no sono depois de chorar.
Rozênia fechou a porta atrás de si, sentindo o cheiro familiar de ervas e óleos tomar seus sentidos. Tanto ela quanto Eliza passavam muito tempo naquela sala, ambas aprendendo coisas que não deviam saber. Contornou o balcão, onde uma profusão de plantas secas estava disposta, indo até a outra.
Eliza a fitou como se achasse que ela era uma miragem. Seus olhos estavam vermelhos e inchados, seus cabelos tinham se soltado do penteado e seu vestido estava amassado, dando-lhe um aspecto selvagem, que Rozênia sempre apreciara mais do que quando ela estava inteiramente composta.
— O que aconteceu? Sua mãe está preocupada. Por que você não me procurou? — questionou, sentando-se ao lado da outra. — Você está bem?
Em vez de responder de imediato, Eliza deixou-se pender em sua direção, aninhando-se contra o seu torso. Surpresa, Rozênia a acolheu, passando o braço por suas costas.
— O garoto com quem eu estava dançando me beijou.
Um medo surdo ecoou através de Rozênia.
— Ele forçou você a alguma coisa?
Elisa sacudiu a cabeça, negando.
— Ele só me beijou. Quando eu me afastei, não insistiu.
Lentamente, Rozênia levou as mãos à face da outra, afagando seus olhos inchados.
— E foi tão ruim assim?
— Foi errado! Eu achei que podia tentar, mas não consegui...
Rozênia sentiu alívio pulsar em suas veias. Poderia se convencer de que era apenas porque a outra não tinha sido ferida, mas sabia que, no fundo, era algo mais egoista do que isso.
— E o que seria o certo?
Torcendo-se entre o seu abraço, Eliza a encarou em uma mistura de desafio e desalento.
— Você não gostaria de saber.
Oh, talvez ela já soubesse e apenas estivesse se esforçando muito para ignorar. Naquele instante, porém, a outra tão próxima e algumas taças de vinho correndo em seu sangue, manter a compustura parecia muito difícil.
Seu toque sobre a face de Eliza tornou-se mais pesado e, ao se aproximar, fez isso muito lentamente, dando tempo para a outra escapar se quisesse. Mas, afinal, foi Eliza quem se impulsionou para frente e a beijou em primeiro lugar.
Tinha passado séculos sentindo-se superior a Elisa, e, ao mesmo tempo, invejando-a e sentindo que não era capaz de alcançá-la. No entanto, naquele instante, suas bocas uma na outra, sua mão na cintura de Eliza e os dedos dela aferrados sobre o seu cabelo, atraindo-a sempre para mais perto, pareceu que as duas finalmente estavam em igualdade.
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