A Trindade Mágica

6 Capítulo 6 - Magia Espiritual


Oito anos se passaram, aquele espírito transcendente que nasceu da união de várias almas estava a oito anos naquele lugar que não era nem o paraíso, nem o inferno, muito menos a Terra. Ele morava em um lugar totalmente diferente, mas ao mesmo tempo que se assemelhava a estes outros, pois lá também residiam diversas almas, em diferentes estados emocionais. Haviam espíritos de humanos e de animais. Essas entidades choravam em lamentos, brincava umas com as outras, conversavam entre si, caminhavam, demonstravam raiva, frustrações, pareciam estar com dor, angustiadas, alegres, animadas. Elas faziam tudo o que os seres vivos faziam.

Além de ver esses seres no mesmo local em que residia, o espírito transcendente também ouvia diversas vozes que não pareciam vir dali. Na verdade, ele não sabia bem de onde vinham, apenas que as escutava como se estivessem dentro de sua cabeça.

Aquele ser olhou em torno de si e, ainda sem entender muito sobre o que acontecia e onde estava, se locomoveu sem rumo pelo lugar para tentar entender tudo aquilo. Depois de um tempo o espírito transcendente trombou em uma alma que estava em seu caminho. Isso o fez parar e observar em quem — ou melhor, no que — ele havia esbarrado. A alma, que estava de costas, se virou para ver quem havia se chocado com ele e assim o espírito transcendente viu que era um senhor com aparência de idade avançada.

— Está tudo bem? — Perguntou a alma do senhor.

O ser maior não conseguiu entender muito bem a pergunta, pois ouvia diversas vozes em sua cabeça. Ele sinalizou para sua companhia que haviam coisas em sua mente balançando a cabeça de maneira estranha, já que não tinha braços ou pernas.

— Fale. O que é? — Perguntou novamente o velho, desta vez usando seu braço direito para apontar para a própria boca.

O espírito entendeu o gesto feito e tentou falar:

— VOZES!

Devido ao grito dado, todas as almas daquele lugar olharam para a dupla — como quando uma biblioteca está em silêncio e alguém grita dentro dela, fazendo todos direcionarem os olhares para quem emitiu o som — e tiveram diversas reações desde susto a raiva.

O senhor se aproximou do perturbado, colocou suas mãos na cabeça dele, fechou os olhos e, de repente, as vozes cessaram. Após isso o ancião abriu os olhos, soltou a cabeça do espírito e se afastou a distância que estava anteriormente. As almas que olhavam para a dupla pararam de observa-los e retornaram ao que faziam antes, como se esquecessem deles ali e o sublime ficou surpreso e alegre com o que havia acontecido.

— Parou. Como? — Perguntou o maior, curioso.

— Eu só usei a Magia Espiritual para encerrar o seu uso dela — explicou o homem.

O espírito transcendente deitou a cabeça para o lado enquanto olhava o seu salvador — como quando um cachorro, confuso, deita a cabeça enquanto olha pro seu dono tentando explicar algo.

— Acho que você não entendeu né? — Perguntou o homem tentando entender a reação daquela alma.

O espírito transcendente voltou sua cabeça a posição normal e continuou olhando para o velho e perguntou:

— Onde?

— Onde o que? Onde você está? — Perguntou o senhor, tentando entender o que o espírito queria dizer.

Nenhuma resposta foi dada, apenas um olhar que permanecia parado.

— Qual o seu nome meu filho?

— Nome? — O espírito não entendeu o que aquilo queria dizer, o que o deixou confuso.

A alma do senhor abaixou a cabeça levemente, fez um gesto de negação com ela, riu, levantou a cabeça e se aproximou do espírito para contar-lhe coisas:

— Pelo visto você é algo novo e pelo seu tamanho e forma não deve ter aparecido aqui normalmente, como todos nós. Eu vou te explicar tudo então preste atenção em tudo que eu disser ok?

O transcendente continuou parado, olhando fixamente para a alma do senhor, tendo essa atenção quebrada apenas por uma piscada.

— Espero que você entenda tudo. Comecemos com você: pelo o que eu vejo, você é um espírito transcendente que deve ter sido formado pela união de várias almas de seres humanos diferentes. Aqueles humanos deviam ter nomes, mas você não se lembra de nenhum deles pelo visto.

O espírito novamente faz aquele movimento com a cabeça mostrando estar confuso.

— Ah tá. Você ainda não sabe o que é um “nome”. Nome é… aquilo pelo o que as pessoas te chamam, é parte do que você é, parte da sua identidade. Ele é a primeira coisa que diz quem ou o que você é.

O espírito retornou a cabeça para a posição normal. A alma do senhor entendeu aquilo novamente como uma compreensão do que ele falou e prosseguiu com seus ensinamentos.

— Acho que entendeu. Então, depois você escolhe um nome para si. Tá vendo todas essas coisas a nossa volta fazendo coisas diferentes tanto em conjunto quanto sozinhas?

O senhor apontou para as outras almas que residiam ali e o sublime acompanhou com o olhar para todos, reparando melhor em cada uma.

— Elas são almas, assim como nós… bem, assim como eu. São seres pensantes, humanos e animais, que antes estavam vivos e agora estão mortos.

O espírito voltou sua atenção para seu companheiro e antes mesmo de fazer qualquer outra coisa ouviu o senhor falar:

— Já sei. Você não sabe o que é vida e morte né? Como eu posso te explicar? — A alma levou a mão ao queixo, pensou por alguns segundos e depois disse a sua explicação. — Vida é como é chamado o tempo que um ser vivo tem desde o seu nascimento, com o funcionamento do seu corpo.

O senhor moveu seus braços e sua cabeça para exemplificar o que seria um corpo funcionando. O espírito transcendente olhou aquelas ações e depois voltou a olhar atento ao companheiro, esperando uma continuação de sua explicação.

— Acho que entendeu. Agora, a morte é justamente o contrário disso. É quando esse funcionamento do corpo para totalmente e não volta mais.

O espírito transcendente abaixou sua cabeça e fechou um pouco seus olhos, como se estivesse triste.

— Olha, não precisa ficar triste — disse o senhor, tentando consolar seu companheiro. — Não é porque algo morreu, que significa que sua vida chegou ao fim. Olha para nós por exemplo. Todos aqui estão mortos, mas nós continuamos aqui, existindo. Graças a Magia Espiritual.

O espírito olhou para o senhor, olhou ao seu redor para ver as outras almas presentes ali e depois voltou para o homem que lhe contava as coisas que de fato continuou a explicar-lhe:

— Ah, é. Você tinha perguntado onde estava. Então, aqui é a fonte Magia Espiritual. Um plano onde todos os espíritos dos seres pensantes residem, sejam eles bons ou ruins. Você, por ser maior que qualquer outra alma daqui, ouvir várias vozes na sua cabeça e não saber de nada que está acontecendo me parece confirma que realmente você seja um espírito transcendente, que nasceu da união de várias almas humanas. Elas deviam ser usuárias da Magia Espiritual e fizeram isso com algum propósito.

O homem novamente levou sua mão ao queixo, pensativo, enquanto o tal espírito novamente olhava ao redor e até mesmo para o próprio corpo, como se estivesse compreendendo tudo o que foi lhe ensinado até o momento: onde estava, o que cada um lá era e até o que ele mesmo era.

— Talvez eles tenham feito isso para que você nascesse aqui e fosse o representante da Magia Espiritual e assim usá-la — pressupôs a alma do senhor, arregalando os olhos para o espírito sublime.

— Talvez… — disse o espírito transcendente, parecendo mais imitar o que o senhor havia dito do que responder àquela suposição.

— Bem, se for isso você precisa entender mais sobre essa magia, mas primeiro: já pensou em um nome pra você? — Perguntou o senhor.

O espírito olhou para o companheiro, abaixou a vista, a pressionou — como se estivesse pensando — arregalou os olhos, focou no senhor e falou algo.

O espírito de idade avançada repetiu aquilo como se estivesse querendo confirmar que era mesmo o nome do espírito mais novo e o mesmo acenou positivamente a cabeça — coisa que ele havia visto um grupo de almas fazer enquanto conversavam entre si.

— Ok. Agora eu vou te explicar sobre a Magia Espiritual. Com ela você consegue ouvir/ler pensamentos e se comunicar através da mente, sentir o mesmo que os outros e manipular seus sentimentos, ver o passado e presente das pessoas e consegue localizar alguém em curta distância. O Custo para usar essa magia são os sentimentos do mago: cada magia específica que você queira usar precisará estar sentindo alguma coisa. O Nível usado na magia vai depender da relação que o usuário tem com o plano espiritual: quanto mais forte for a sua crença nos espíritos, sua convicção da existência deles, sua devoção, sua ligação com os espíritos, mais forte será a magia. Acho que você agora conseguiria usar níveis altos de magias — o senhor sorriu com aquela outra suposição, acreditando que ela poderia estar perfeitamente correta.

O espírito arregalou os olhos, olhou rapidamente para si e depois voltou a prestar atenção naquela alma a sua frente e a mesma regressou com a fala:

— Como você nasceu aqui e parece estar entendendo bem tudo não acho que vai cometer uma falha dessas, mas é bom te contar mesmo assim. Quanto maior for o desrespeito com os espíritos maior será a punição espiritual que pode ser desde uma dor de cabeça até um tipo de coma espiritual. Esse castigo pode ser aplicado de forma imediata ou ir se acumulando até ser aplicado após a morte do usuário, diretamente na sua alma. Essa é a Penalidade da Magia Espiritual. Tem mais uma coisa importante a te ensinar nessa magia que é a Moralidade dela. A moralidade define a divisão entre magia boa ou magia ruim, afetando o mago perante a sua sociedade. E então, entendeu tudo?

O espírito transcendente ficou olhando para a alma do senhor, sem dizer nada.

— É só responder: sim ou não — disse o ancião dando dica de como o seu companheiro poderia lhe responder.

— Sim? — Disse o sublime franzindo um pouco o olhar, demonstrando ainda estar um pouco confuso.

O velho riu da situação como um todo e depois abraçou o ser confuso em um ato amistoso e disse-lhe enquanto o levava consigo em uma caminhada por ali:

— Venha. Você ainda tem muita coisa para aprender e ficar aí, parado, não vai ajudar em nada. Vamos conhecer todos daqui e assim você vai aprender mais sobre o plano espiritual, a magia que nele reside e um pouco sobre o mundo dos vivos.

E assim ambos seguiram, para que o espírito transcendente fosse rumo a descoberta e assim adquirindo conhecimento.