A Trindade Mágica

5 Capítulo 5 - Magia de Sangue


Oito anos se passaram, aquela criança que nasceu na bacia de sangue: Hemógues. Ele agora tem oito anos de idade. Um menino de cabelo vermelho escuro e curto, olhos castanhos, pele branca e lábios rosados. O jovenzinho cresceu na cidade de Duamontana, próxima a regiões montanhosas, com dois ótimos pais que cuidaram e o ensinaram bem para que ele se tornasse um rapaz sério e determinado, mas nem sempre ele mostrava que o trabalho dos pais dava resultado: Hemógues era, na maior parte do tempo, brincalhão e provocativo, além de sempre querer sair correndo pela rua, sem medo algum e quando fica irritado não pensa direito e age logo por impulso. Mesmo com esses poucos momentos de raiva e muitos momentos de uma chamada rebeldia, o garoto ainda era mais conhecido pela sua determinação em fazer aquilo que desejasse e por ser destemido.

Junto com os ensinamentos mais comuns que seus pais passaram ao garoto, tinha algo a mais que eles precisavam instruir a ele: o uso da magia. Primeiro os pais teriam que procurar o menino pela cidade.

— HEMÓGUES! — Gritavam os pais enquanto corriam por aí em busca do seu filho.

Enquanto caçavam eles foram surpreendidos pelo menino que assustou-os saindo de trás de um muro. Os pais advertiram o garoto dando uma bronca nele e dizendo que ficaria mais tempo de castigo, por ter fugido do castigo anterior. Hemógues deu de ombros em um ato de sua rebeldia, mas seus pais nada fizeram, pois sabiam que apesar daquilo ele ainda era um bom garoto e até as vezes educado.

De volta em casa os pais tentaram começar uma conversa:

— Hemógues, nós temos uma coisa para te ensinar — começou a dizer o pai.

— Vai ser como lutar? Porque como caçar vocês são ruins. Nunca me acham — Perguntou Hemógues provocando os pais ainda com uma certa inocência.

— Não! — Respondeu a mãe, um pouco irritada com o filho, mas depois se acalmou e continuou — É algo que nos ensinam desde pequenos. Você até já deve ter visto outras crianças fazendo isso. Ah fala você pra ele — a mãe parecia indisposta para falar sobre o assunto.

— Tá bom — respondeu o pai que prosseguiu com o que eles queriam falar. — Então filho, há muito tempo atrás, quando as primeiras cidades foram construídas, algumas pessoas tinham muitos desejos. Desde desejos pessoais como ficar mais bonito, ficar mais forte, comer sem engordar…

— Eu desejaria isso fácil — interrompeu a mãe, falando sentada no sofá enquanto olhava em direção a cozinha.

Os homens na casa riram daquilo e depois o pai voltou a falar:

— Também desejavam coisas para as outras pessoas, tanto para poder ajudá-las quanto para poder prejudicá-las. Aquelas vontades eram tamanhas que as pessoas não se controlavam e tentavam fazer todas aquelas coisas, mas nem sempre conseguiam. Um dia uma jovem decidiu fazer uma caminhada, distante da cidade, mas depois de muito andar acabou ficando perdida e em pouco tempo foi cercada por bandidos que a deixaram muito assustada e com medo de morrer. Eles a atacaram, rasgando suas roupas e a segurando, mostrando que queriam mesmo machuca-la. Enquanto ela tentava se defender um dos bandidos a ameaçou com uma faca, colocando-a em seu pescoço e fazendo um pequeno corte, causando um leve sangramento.

Até aquele momento Hemógues parecia espantado com a história, mas ainda prestando atenção nas palavras de seu pai.

— Aquela ameaça foi a gota d’água no desespero daquela moça e então, com seu pescoço sangrando e prestes a ser violentada, ela desejou com toda sua força de vontade que pudesse se defender e matar aqueles homens. Foi aí que de repente ela ganhou uma resistência absurda, não sentindo mais a dor daquele corte e nem sequer sentia mais o toque dos homens no seu corpo e com isso ela mais uma vez se mexeu pra se soltar dos bandidos e todos aqueles que antes a seguravam foram jogados para longe. Dois deles bateram com as costas em árvores com tanta força que tiveram suas colunas quebradas e assim morreram na hora. Outros bandidos caíram no chão mesmo, com muita dor, mas isso não os impediu de tentar agarrar a moça. Quando ela percebeu isso correu pra cima deles desferindo um soco em cada um, quebrando e amassando seus crânios matando-os na hora. O último que sobrou, ainda no chão, vendo tudo, foi justamente aquele que ameaçava a moça com a faca antes. Ela olhou pra trás e viu que aquele homem com faca havia se levantado e corria em sua direção, cambaleante de dor. A moça, ainda sangrando, correu em direção ao bandido armado.

Hemógues, quieto, não estava mais chocado com a história e sim atento ao pai e curioso para saber o final dela.

— O bandido levantou seu braço, segurando a faca, para esfaquear a moça e a mesma cravou sua mão na lâmina para impedir que seu corpo fosse furado, exceto pela sua mão. O homem se espantou com aquele ato aparentemente impensado, mas aquilo não era ainda o fim. A jovem, com sua mão sangrando bem mais que seu pescoço desejou com uma determinação maior do que a de antes que aquele homem morresse sofrendo e logo após aquele pensamento passar pela sua cabeça ela fechou seu outro punho e desferiu um soco na cara do bandido quebrando uma parte do seu crânio, mas não o suficiente para mata-lo de imediato. O homem caiu no chão, tentando gritar de dor, mas parte de sua mandíbula estava danificada pelo golpe e lá ele ficou, com o rosto esmagado, gemendo de dor, sem conseguir dizer uma única palavra. A mulher retirou a faca presa em sua mão, jogou-a no chão, próximo ao homem e ficou observando-o morrer aos poucos.

— Ouvindo tudo isso agora, realmente parece uma história bem forte pra uma criança de oito anos — disse a mãe, pensativa no sofá.

O garoto olhou para sua mãe, achando que ela havia interrompido a história e depois voltou a olhar pro pai que também parecia pensativo com o que ela disse e depois riu envergonhado.

— E aí pai? — Perguntou Hemógues.

— E aí que depois que aquele último malfeitor morreu, a moça voltou pra sua cidade. Chegando lá os habitantes logo se assustaram, os pais dela mais ainda e perguntaram o que havia acontecido. A garota contou tudo pra eles e então, como forma de conforto, sua família a abraçou. Enquanto ela era abraçada ela olhou pra sua mão que tinha sido penetrada pela faca e vendo aquele ferimento enorme, sangrando ainda, ela desejou que seus machucados se curassem. Depois do desejo sua mão de fato se curou um pouco. A jovem se assustou e depois começou a pensar em tudo o que tinha acontecido. Seus pais a soltaram do abraço e com a mãe ainda chorando a adolescente disse o que passava pela sua cabeça. Os pais primeiramente não acreditaram, a própria menina ainda tinha suas dúvidas, mas decidiu pôr a prova e novamente desejou a cura de seu ferimento, desta vez com uma vontade ainda mais forte que antes. Como num passe de mágica a mão dela começou a se curar rapidamente até ficar perfeitamente bem.

— Uau. Então depois ela saiu por aí combatendo o crime com seus poderes? — Perguntou inocentemente Hemógues enquanto dava socos e chutes no ar.

— Não né filho — Respondeu o pai que depois continuo a história — Depois disso aquela moça voltou a praticar atos onde se feria até sangrar, desejava algo com determinação e aí aquilo acontecia. Seus pais viam tudo e se espantavam, mas até que depois ficaram tentados aquilo e resolveram fazer o mesmo. Surpreendentemente eles conseguiram também e logo muitas outras pessoas naquela cidade faziam o mesmo o que chamou a atenção de várias pessoas estudiosas e importantes que foram até essa cidade para entender o que estava acontecendo, mas perceberam que aquilo não acontecia só ali. Outros lugares no mundo também tinham pessoas capazes de fazer coisas parecidas e diferentes daquelas. Depois de muitos anos estudando isso as pessoas descobriram que aquilo era magia e que sua fonte era o sangue do usuário. Por isso deram o nome dessa magia de Magia de Sangue.

— Uau! — Disse o menino com um brilho em seu olhar.

A mãe reparou naquilo e sorriu por perceber a felicidade do filho com aquilo.

— E acabou a história.

— Ah… que chato — resmungou Hemógues, mudando completamente seu humor, ficando chateado e até um pouco irritado.

— Olha os modos. Respeita seu pai — disse sua mãe em um tom de voz alto e sério, já dando uma pequena bronca no filho.

Hemógues se conteve, mas continuou com o olhar chateado e foi aí que seu pai chamou sua atenção ao continuar a falar:

— Mas… advinha só. Você também pode usar a Magia de Sangue.

Aquela notícia fez a alegria do menino que sorriu, gritou, pulou, correu pela casa. Parecia que tinha ganhado um caminhão de brinquedos. Seus pais só conseguiam sorrir ao verem o filho feliz daquele jeito. Hemógues parou de comemorar de repente e parou na frente de seus pais sério e determinado:

— Mãe. Pai. Me ensinem a usar essa magia.

— Claro! — Disse a mãe levantando do sofá rapidamente com um sorriso de animação.

— Mas primeiro temos que te ensinar as regras pra usar a Magia de Sangue — disse o pai.

— Ah é. Tem essa parte chata. Você sempre corta o meu barato — dessa vez a mãe que resmungou diretamente para o pai enquanto voltava a se largar no sofá.

— Então Hemógues, presta atenção. Essa Magia te permite fazer quase tudo o que quiser, porém somente coisas físicas: ficar mais forte, mais resistente, mais ágil, rápido pra correr ler e etc.

— Posso ter chifres? — O garoto perguntou aquilo com muito entusiasmo.

O pai olhou para a mulher que mostrou que não sabia responder aquilo. Ele voltou a olhar pro filho e respondeu com sinceridade:

— Eu não sei, filho… ninguém nunca quis ter chifres. Muito pelo contrário.

— Ah tá, entendi. Já posso ir praticar a magia?

— Não, calma. Tem mais coisas que você precisa saber — advertiu o pai e depois continuou a contar-lhe. — O Custo pra você usar a Magia de Sangue é o seu próprio sangue: você precisa estar sangrando pra conseguir fazer algo com essa magia. O Nível que você quer que a magia tenha dependerá da sua determinação: quanto maior for a sua determinação, a sua força de vontade, mais forte aquela magia vai ser. Você pode usar a Magia de Sangue quantas vezes quiser, mas se você não cumprir com o desejo de quando usou a magia, provando que sua determinação era menor do que o que queria, você vai sofrer em si mesmo o castigo com fortes dores, no mesmo nível do desejo utilizado. Isso é a Penalidade dessa magia.

Hemógues ao ouvir aquilo ficou um pouco assustado. Até engoliu em seco.

— Agora sobre a Moralidade

A mãe revirou os olhos e levantou do sofá, aparentemente de saco cheio, e interrompeu o pai:

— A magia de Sangue não tem Moralidade. Pronto. Vamos começar a praticar.

Ela estava notoriamente ansiosa por aquilo. Seu companheiro notou aquilo e fechou os olhos, abaixou a cabeça levemente e balançando negativamente ela como se não aprovasse aquela atitude, mas depois fingiu que aquilo nem aconteceu e se juntou a sua mulher para juntos ensinarem seu filho a Magia de Sangue.