Kenny seguiu Cartman em silêncio (não que ela tivesse muita opção) durante todos os lances de escadaria entapetada –De cor vermelha para exaltar realeza -até a sala de conferências, no fundo do Castelo, onde o Rei sabia que não havia movimentação e podia ter suas reuniões em paz e sigilo. Havia incontáveis lances de escada na Imensidão que era o palácio do reino humano, e a princesa simplesmente odiava ter que se exaurir tanto fisicamente só para chegar a um lugar que a faria se exaurir espiritual e mentalmente. Mas lá havia uma grande janela que dava para o Jardim real na qual ela podia encara durante toda a reunião, então não era tão ruim.

O Jardim real era o lugar favorito da princesa dentro do castelo, e provavelmente o lugar mais verde da KKK: Sua extensão era tamanha a se perder em seu território, e as dimensões eram marcadas por grandes paredes de cerca viva, com flores salpicadas aqui e ali –Em sua maioria, rosas, de cor branca ou amarela; plantações organizadas de forma a formar imagens, quando vistas de cima; Arbustos pequenos de flores multicoloridas, tais como margaridas e lavandas, podiam ser vistos espalhados belas bordas das cercas e caminhos de pedrinhas que levavam ao labirinto... Era quase mágico, se perguntasse a Kenny. Não estranho, ela percorria todo o caminho pelo labirinto cuidadosamente memorizado e se sentava na borda da fonte localizada em seu centro para ler um romance explícito qualquer que encontrara na biblioteca. Menos estranho ainda, acabava adormecendo ali mesmo, na grama, e havia de ser carregada aos seus aposentos reais por um dos guardas –exceto por Craig; ele só jogada água em seu rosto para desperta-la mesmo.

Ambos rei e princesa ainda tentavam inutilmente esconder seu cansaço e respiração ofegante quando, finalmente, chegaram à sala de reuniões: Todos já estavam presentes, e as únicas cadeiras livres eram as nas cabeceiras, designadas à, claro, o rei e a princesa.

Essas cadeiras e mais uma: Henrietta, braço direito dos Guerreiros de Ataque Direto, estava apoiada no parapeito da janela, inspirando e expirando a fumaça do cachimbo que ela sempre carregava consigo, o que não impedia o recinto de ter um cheiro forte de fumaça.

Henrietta portava um longo vestido negro, coberto por uma armadura da mesma cor, uma caveira estampada em seu peito em ouro negro; na sua cabeça, um elmo escuro pendia, adornado com o mesmo ouro, enquanto uma armadura de couro lhe cobria o antebraço, e uma luva do mesmo tecido lhe cobria as mãos –com exceção aos dedos.

A única coisa colorida na garota era seu batom, que era roxo.

Seus companheiros Guerreiros não ficavam para trás; Pete tinha o mesmo tipo de uniforme, mas sua falta de um elmo deixava exposto seu cabelo vermelho-sangue, que ele balançava para fora dos olhos como um tique nervoso. Kenny já tentara prende-lo com um clipe de cabelo com uma borboleta adormentada, e desviou do tapa que o guerreiro ia lhe desferir bem a tempo. Frinkle era o mais baixo deles, e também o mais novo dos guerreiros de qualquer seção do reino de Kupa Keep, o que não o impedia de ser o mais rápido, ágil e, talvez, o mais agressivo. Michael, o mais alto deles, seu líder, e também o mais poderoso dos quatro, vestia armadura no peito e nos ombros, além de possuir uma manopla em uma das mãos somente, com qual brandia sua espada quando necessário; a outra, nua, era reservada para ataques de fogo de alta potência que luvas atrapalhariam.

Juntos, os quatro formavam os Guerreiros de Ataque Direto do reino de Kuppa Keep, ou, como muitos os chamavam, em razão a sua perfeita manipulação do fogo e do calor, além de sua resistência a ambos, Os Dragões Negros.

Assim que percebeu a chegada dos dois no recito, Henrietta deu uma última tragada e não se preocupou em soltar a fumaça para fora da janela enquanto voltava ao seu lugar resignado, mas sem se sentar; ao invés disso, todos os outros se levantaram e, juntos, fizeram uma longa reverência à família real, antes de voltar a se sentar. Kenny acenou alegre e delicadamente com uma das mãos enluvadas enquanto sorria para a guerreira, e riu consigo mesma quando esta a ignorou com um revirar de olhos; Ela realmente a odiava. A princesa perfeita (Princesa Porcelana, como ela chamava-a as vezes), em cores claras e cheia de delicadeza e graça, de quem todos gostavam sem ter que falar um “a”.

Patético, não? Kenny também se odiaria se estivesse em seu lugar.

—Agora que Vossa Alteza resolvera aparecer –Começou Frinkle em um tom pejorativo, que não teve muito efeito, desde que ela era mesmo “vossa alteza” – podemos dar um fim nisso de uma vez?

Muitos dos Guardas das Fronteiras reclamaram abertamente com o pequeno sobre o desrespeito aberto à princesa, pro qual ele respondeu com um olhar irritado e dedos do meio. Mesmo Clyde e Craig pareciam incomodados com as palavras a ela diferidas.

Os Dragões Negros não tinham nenhum senso de nacionalidade ou adoração a realeza, e não se preocupavam em fingir que sim; deixavam claro que o único motivo de concordarem emprestar seu poder era seu absoluto ódio pelos elfos, talvez tão grande como o do próprio rei: Conformistas pomposos e convencidos, se achando melhor que todos, mesmo sendo o motivo do povo humano estar na merda. Eles repetiam como um mantra. Não passam de ladrões convencidos com seus narizes empinados e orelhas enormes.

—Silêncio! –Exigiu Cartman assim que sentou, calando aqueles que ainda insistiam em discutir. –Não temos tempo para questões desde nível. O pirralho está certo, precisamos ir direto ao ponto.

—Relatório de ataque. –Demandou o rei, e Michael puxou um pergaminho de um dos bolsos da calça.

—Entramos na Floresta de madrugada, por volta das quatro da manhã –ela deu um bocejo como pausa- e iniciamos o ataque de fogo de grande expansão, como nos foi ordenado. Cinco quilômetros de diâmetro de mato fora queimado, mas tivemos que recuar quando a Floresta começou a manipular nosso próprio fogo contra nós e nos atacar com ele, e nossa tropa de apoio teve que fugir, e fomos atacados por algum tipo de tribo de índios. –Ele colocou o papel na mesa, escorregando-o para perto do rei, que a pegou e examinou.

Os Dragões Negros tinham um tipo de tropa de apoio, composta em sua maioria com arqueiros, que tinham o trabalho de protegê-los de qualquer ataque inimigo pelos Vigilantes dos Elfos –ou tribo de índios, de acordo com Michael –enquanto eles se concentravam no ataque de fogo. O calor nem o fogo não os machucavam, mas a tropa era um bando de guerreiros normais, e tiveram que recuar.

—O ataque foi um fracasso. –Concluiu o gótico, acendendo um cigarro pendente em seus lábios com uma faísca feita por seu estalar de dedos.

Kenny observava o fogo consumir a ponta do cigarro maravilhada; ela adorava o poder de fogo. Michael lançou lhe um olhar irritado, como se a mandasse desviar o olhar, o que, claro, não teve efeito algum na Princesa.

—Meu rei –Começou Clyde, líder da dita tropa de apoio para esta ocasião. Ele tinha lágrimas presas nos olhos, e um tom de voz desesperado ou suplicante –Se minha tropa permanecesse mais algum segundo naquela Floresta seriamos completamente eliminados. Tivemos metade dos nossos homens com graves queimaduras e o resto de nós com leves –ele apontou para o canto direito do rosto, que estava completamente enfaixado. –Os Dragões podem ser resistentes ao fogo, mas nós somos só humanos normais.

Era possível perceber que aquele fora escrito e memorizado, revisado de novo e de novo para o homem parecer pronto para aquela ocasião. Craig o observava de perto, certo nível de pena em seus olhos, enquanto Kenny o olhava com carinho, tentando encorajá-lo.

—Então você e seus homens só os abandonaram para morrer, soldado? –Perguntou o rei, calmamente, como se aquela pergunta fosse tão normal quanto “como foi seu dia?”. Clyde dera um pulo.

—B-bem... entenda... –Gaguejou o guerreiro, temeroso.

—Mesmo que eu o tenha dado uma missão simples e específica de proteger a fronte de ataque? –Ele continuou, mais firme desta vez, e Clyde entendeu que ele havia de ficar calado e escutar –Sabe, eu me lembro que, após você concluir seu treinamento e ganhar seu título de guerreiro, você fez um juramente, não? Como era mesmo ele...

Entrego-me, de coração e alma, mesmo corpo se necessário, pelo Kupa Keep Kindom e seu rei, mas, sobretudo, seu povo; o povo humano. —Craig recitou, com os braços cruzados e olhos fechados, poupando o amigo do trabalho. O rei afirmou com a cabeça, e Clyde encarava Craig perplexo, certa raiva em seus olhos, como se dissesse “eu podia fazer sozinho”; este não se deu o trabalho de reabrir os olhos para encarar de volta.

—Sacrifícios há de ser feitos, Clyde. –Cartman dizia, diretamente ao guerreiro, talvez esquecendo todas as outras pessoas que estavam no recinto –Preciso saber que tenho sua confiança e, sobretudo, preciso saber que posso confiar em você.

—Você entende, Donovan?

—Eu entendo... –ele respondeu, olhando para baixo, enquanto punha-se de pé – Eu entendo o meu erro e meu egoísmo, e entendo que não agi como um líder ao simplesmente fugir de nossas responsabilidades. Entendo que o plano que por tanto tempo Vossa Majestade tem planejado foi por água a baixo por minha causa, e aceito qualquer punição que for a mim diferida em consequência.

—Só peço que poupe meus homens; eles só estavam seguindo ordens. –E voltou a se sentar.

Cartman suspirou pesadamente, colocando o pergaminho na mesa com um baque. Todos deram um pulo, e Clyde voltou a encarar o rei.

—Estou um pouco decepcionado com você por pensar que meu plano seria tão simplório quanto um ataque de fogo direto; esta fora meramente a primeira fase de um plano muito mais extenso e complexo. –O rei disse com uma voz macia, vestindo um sorriso cínico enquanto descansava o queixo em seus dedos cruzados. Kenny olhou para Michael, confusa, mas ele estava tão confuso quanto ela; nem mesmo ele tinha conhecimento da extensão deste dito “plano”. –Eu aprecio sua coragem, guerreiro: colocaste a segurança de seus homens acima do plano e estava disposto a enfrentar seu rei por eles. Preciso de guerreiros assim, mas direcione esse senso de proteção ao seu povo, ao seu reino. —Ele enfatizou. Clyde olhava para ele não mais com medo, mas com certa admiração agora, misturada com a confusão.

—Preciso de homens corajosos, mas preciso de homens corajosos o suficiente para se sacrificar por Kupa Keep. –Ele continuou, ficando-se de pé, com uma postura reta – Imagine que os elfos —ele pronunciou com nojo – estivessem num plano de invadir o reino; o que você faria?

—Comandaria até o último homem à morte para proteger o reino. –O Rei respondeu por ele. Seu discurso tinha certo tom de repreensão, mas também elogiava a bravura do guerreiro.

Guerreiro, este, que aos prantos, emocionado e talvez orgulhoso de si mesmo, deixando de lado qualquer senso de respeito ou vergonha, levantou-se de sua cadeira e correu em direção ao seu rei.

—Waaaah! Meu Rei! –Ele choramingava, abraçando o mesmo com força –Me desculpaaaaaa! Você é tão piedoso comigo, tenho um rei tão piedoso...

—Clyde! Ew! –O rei exclamava, afastando o guerreiro com um empurrão, que tentava, sem sucesso, secar as lágrimas que insistiam em cair. O Rei voltou a se sentar, e Kenny, aos risos, levantou e se deixou ser abraçada pelo guerreiro. “Tão piedoso...” ele repetia baixinho, com o rosto enterrado nos peitos da princesa.

Ela lhe secou as lágrimas dos olhos com os polegares, aninhando seu rosto entre suas mãos. Ele era tão fofo, às vezes...Sabe quando vê um filhotinho tropeçando enquanto corre e pensa que gracinha! Porque ele é idiota e burro? Esta era a sensação que Clyde passava a ela. A princesa lhe diferiu um beijo na testa. “Fizeste o seu melhor” ela o reassegurou, e eles puderam voltar a se sentar.

—Agora, para a segunda fase do plano, terei de formar mais de um grupo de ataque. –Cartman começara, e todos voltaram a se calar. –Precisamos de diversos grupos com nem tanta gente, nem tão pouca, e elas entrarão em sigilo na Floresta, se camuflando pelo ataque; o órgão vai estar tão ocupado com sua própria regeneração que não vai se preocupar com intrusos; é o momento perfeito para atacar.

—Inicialmente, enviaremos quatro grupos de uma vez só, cada grupo com um Dragão como seu líder. –Ele voltou a atenção para os guerreiros de preto, que assentiram com a cabeça. – Michael, forme um grupo de no máximo vinte homens e ataque pelas fronteiras a Oeste. Henrietta fará o mesmo, mas ao sul, e Pete atacará ao Norte. Frinkle, você dará a volta no reino e ataca a Leste, onde sabemos que a segurança é mais fraca em Larnion.

—Você tem um mês, anão, para dar a volta e adentrar o reino. Esperaremos sua chegada para mandar o restante das tropas.

—Frinkle, eu quero que tu partas imediatamente. Reúna seus homens e vá o quão antes. Leve uma águia com você e mande notícias.

O garoto assentiu com a cabeça, fazendo uma reverência, antes de sair do recinto. Michael soltou uma lufada de fumaça.

—Ele servirá de isca, não é?

—É claro que sim. –Respondeu o rei, tranquilamente –Então os elfos mandarão tropas a Leste e desmilitarizarão as Fronteiras Oeste, e aí você pode atacar.

—Então esperemos uma carta de Frinkle dizendo que ele foi pego? –Pete indagou.

—Esperaremos uma carta dos elfos dizendo que eles o tem como refém. –Respondeu o rei, se levantando. Todos fizeram o mesmo. –Esperaremos até este momento para atacar.

—Dispensados. –Comandou, e todos se dirigiam a porta, aliviados que já tinha acabado. Os Dragões pareciam indiferentes, mas quando eles não o faziam?

Kenny estava prestes a sair do recinto, pensando em como seria bom agora só tomar um banho quente de banheira, com bombas de espuma aromáticas e coloridas, enquanto lê um livro ou só dorme até ficar enrugada. Porém, seus planos lhe pareciam mais uma fantasia distante quando sentiu os dedos grossos de Cartman se fecharem com facilidade ao redor de seu pulso fino. Merda, ela pensava, olhando para o corredor, enquanto o rei fechava a porta e este ficava fora de sua visão, tão fodendo perto!

—Menos você; temos questões a conversar. –Ele vestia um tom sério que enviou um arrepio espinha abaixo da princesa. Ela assentiu, antes de voltar a sentar-se, desta vez, na cadeira ao lado da cabeceira de Cartman.

—Creio que tenha noção do estado social de Kuppa Keep...

“Estamos em crise” Ela respondeu imediatamente. Não era mentira, e todos podiam perceber. Aqueles que não o faziam estavam, provavelmente, em negação ao fatos: O preço dos produtos aumentava, simplesmente porque o reino tivera que diminuir a importação élfica e os produtos estavam em falta e, bem, a população não podia comer ouro –basicamente a única coisa que kupa keep possuía em abundância.

Além disso, o inverno atacava sorrateiramente, matando alguns moradores de rua e aumentando o número de doenças envolvendo a hipotermia, por simples falta de peles para aquecer as pessoas. Os curandeiros –como Butters – estavam tremendamente ocupados em fabricar poções e realizar feitiços. Era a única coisa que eles não podiam aumentar o preço, e nem precisavam: O Reino tinha algumas plantações de plantas medicinais em estufas.

Mesmo assim, ninguém podia negar que o reino estava definhando.

Cartman assentiu lentamente, quase como um professor orgulhoso da resposta certa de um aluno. Kenny queria brincar sobre isso, mas ele prosseguiu antes que ela pudesse:

—Bem, parte do povo está atribuindo esses problemas ao governo, e a outra parte atribuí eles ao Reino élfico e sua ganancia. —Ele dissera, com as sobrancelhas franzidas, como se admitir aquilo machucava — o reino está divido entre aquelas pessoas que querem uma guerra, e aquelas que vivem aqui, mas planejam, ou apenas desejam como um sonho tolo, fugir para o reino élfico.

“é como fazer sexo com uma pessoa pensando em outra!” acrescentou Kenny com entusiasmo, e Cartman a olhou fundo nos olhos “Ultrajante!” ela acrescentou exageradamente. Verdade seja dita, ver Eric tão sério assim a incomodava um pouco; ele não era assim. Ele era Raivoso, determinado, confiante. Agora estava parecendo um rato encurralado, prestes a atacar por causa do desespero. Ela só queria fazê-lo rir ou... qualquer coisa que a lembrasse do velho Eric.

—E –ele continuou, ignorando totalmente o comentário da princesa – Eu venho perdendo voz política ao longo dos anos, o que faz este número de pessoas com pensamentos fugitivos aumentar consideravelmente.

—Em resumo, eu temo uma revolução. –Ele concluiu, e Kenny endireitou a coluna.–E talvez te coloquem no meu lugar quando cortarem minha cabeça ou algo assim.

Ela não evitou um leve sorriso, agradecendo pelo cachecol que lhe cobria a boca. Ela se viu longe, fundo em sua imaginação, vestindo uma coroa extravagante e elegante sobre os cabelos, sentada a um trono incrustado de diversas pedras preciosas e em suas mãos descansava um cetro, com a cabeça do rei enfiada em sua ponta, ainda pingando de sangue e tingindo seu vestido –ainda mais cheio e mais exageradamente maravilhoso (quanto mais melhor!) –branco e lilás de vermelho. Ela não se importava, desde que os servos e servas gatinhos(as) continuassem a lhe servir uvas na boca.

Balançou a cabeça, afastando o sonho distante. A final, se Cartman estava ali, e estava falando com ela sobre aquele assunto, provavelmente já tinha uma forma de impedi-lo de acontecer.

—Como forma de evitar isso –bingo, pensou a princesa –eu cheguei a uma conclusão simples: coloquemos você no poder, atendendo aos pedidos do povo, antes que eles tenham a oportunidade fazer isso a força.

Por um momento, seu rosto se encheu de esperança, e ela suspeitava que seus olhos estivessem começando a brilhar. Imagine só, finalmente governar Kupa Keep! Uau, a Rainha. Fazer o que quiser e ter um povo inteiro na ponta dos dedos.

Mas e Cartman?

A esperança drenou de seu rosto. Claro que ele não ia dar o trono a ela tão facilmente assim. Ele não desistiria do trono até o ultimo pedaço da pele do pescoço dele ainda estar grudado a cabeça. Algo vinha por ai, e Kenny suspeitava que não era coisa boa.

Seu rato se agitou dentro de seu cachecol, talvez sentindo a agitação de sua parceira. Ela o acariciou, tentando acalma-lo antes de ele começar a fazer barulhinhos.

—Kenny, você se tornará a Rainha Humana de Kuppa Keep... –Ele começou, e ela ansiosamente esperou, aumentando instintivamente a velocidade das carícias ao rato –como minha esposa.

Aí estava.

A Princesa se levantou num pulo, derrubando a cadeira no processo. Seu rosto ruborescia por causa da raiva, seu dedo sangrava por causa da mordida que o rato a diferira. Talvez estivera acariciando rápido demais. Talvez a apertara por causa da surpresa.

Quem liga?

“Impossível” ela simplesmente disse, e o Rei suspirou, quase como se já estivesse esperando por aquilo.

Talvez estava.

Ele achava que Kenny era burra? Instintiva ou o que? Okay, ele a ia colocar no trono, e ela teria todo poder político que desejava.

Só que não.

Ela estaria ali como uma mera imagem; as pessoas iam gostar de ver sua querida princesa com uma coroa na cabeça. Maravilhoso, mas elas esperariam mudanças, e Cartman não a deixaria mudar nada. Ela teria que agir como o rei quisesse, fazer como ele fazia, dizer publicamente as desculpas que o rei mandasse...

Ela seria um fantoche nas mãos do verdadeiro governante.

E, em pouco tempo, o povo começaria a odiá-la também. A chamariam de falsa, duas caras e gananciosa. Não que ela se importasse, se isso não mudasse totalmente sua vida!

Francamente, ela teria mais poder como princesa do que como uma rainha comandada por Cartman.

—Pense nas pessoas que tanto a amam, Kenny–Ele dissera, fazendo o rosto da mulher ficar ainda mais vermelho. –E ficariam contentes em te ver no trono. Eles ouviriam a você, e eu poderia finalmente agir. Eu só preciso de mais apoio político, e você pode trazer isso para o trono.

“Não sou tola, Eric. Não podes me enganar, te conheço até melhor do que se conhece” Ele realmente estava tentando manipula-la? Ele estava ainda mais desesperado do que um rato encurralado.

—Pense o que quiser, Rainha Kenny. –Ele disse, levantando-se calmamente, como se a conversa já estivesse encerrada, e um arrepio percorreu todo o corpo da Princesa. –O casamento acontecerá, indiferente a sua opinião egoísta.

—Tem duas semanas para se preparar. –Disse, e saiu do recinto, deixando Kenny sozinha com sua frustração.

Assim que a porta bateu, Kenny derrubou a cadeira mais próxima com um tapa, sentindo seu rato saltar de seu cachecol e cair de costas no chão. Se recompondo, pôs-se a rosnar para porta, como se Cartman ainda estivesse ali. Ela queria gritar.

Após um minuto, dois ou talvez dez, ela se recompôs um pouco, sentando-se num canto e deixando o rato escorregar para o seu colo. Acariciava seu pelo devagar desta vez, como um vilão de desenho animado acariciando seu gato gordo.

Depois de seu ataque de frustração, ela se sentia exausta. Talvez um banho a faria bem, mas ficar sozinha com seus pensamentos não era a melhor coisa para ela agora; talvez ela explodisse por conta deles. Bom, ela teria que fazer alguma coisa eventualmente, e concluiu que sair do recinto que cheirava a fumaça e lhe dava claustrofobia seria um bom começo. Largou o rato em suas roupas e deixando-o escalar e se aninhar onde desejava; escolheu o sutiã da princesa.

Ou seria rainha?

Kenny arrumou todas as cadeiras que havia derrubado –todas as quatro – e arrumou os cabelos desgrenhados no reflexo da janela. Ela era uma figura calma e alegre, devia parecer como tal, não como uma louca que tivera um ataque. Na janela, porém, sua atenção foi voltada para as duas figuras conversando lá em baixo, no jardim: Clyde conversava animadamente com um Pete deveras entediado. Sua mente brilhou com uma ideia, e ela percorreu toda a sala a procura de um objeto pequeno, mas pesado.

Num canto, achou um botão. Dá pro gasto, pensou, abrindo a janela com pressa, antes que o guerreiro decidisse ir embora. Mirou e se concentrou, prendendo a respiração, e então, jogou o botão com toda sua força.

Clyde pegou o botão no ar, antes que o atingisse na cabeça.

Kenny nunca errava o alvo; mas Clyde não era fácil de machucar também –apesar de parecer idiota.

Ele olhou para cima, em direção à janela, confuso, e Pete usou essa brecha para dar no pé. Ao ver que era a princesa, porém, ele sorriu, e ela forçou um sorriso de volta.

“Me encontre no bar de sempre, chame Craig” ela disse, “vamos beber”