O que Kenny queria dizer com “Vamos beber” era “Bebam para eu poder rir de um Clyde bêbado e apostar com Craig contra gente chapada aleatória e ganhar coisas legais, limpando minha mente da porra de um casamento forçado que vai tirar minha liberdade de vida”. A final, como ela poderia beber com sua boca tapada?

Antes de se dirigir ao bar, porém, ela tomou seu tão esperado banho com a agua que tinha posteriormente pedido para aquecer. Era bom estar ali, se preparando para sair do palácio que agora mais parecia uma jaula; ela queria ficar o mais longe possível do rei, com medo do que poderia fazer com ele se o visse.

Todavia, o que mais temia é o que Cartman faria com ela após ela o atacar com toda sua fúria. Obviamente, o Rei Humano era tremendamente forte, muito mais forte que a princesa, mesmo que não parecesse; ela estaria destruída se agisse de forma imprudente e, diante a mera imagem do que um dia fora quase um irmão, talvez ela fosse.

Então ela ia aliviar sua dor num jogo de poker e tomar o pouco dinheiro restante de um cidadão qualquer.

Suspirou, pensando no quão patética parecia.

E talvez fosse.

Como Butters estava muito ocupado sendo médico, Kenny só penteou o cabelo, deixando-o solto. Usou um vestido roxo simples e um cinto grosso de ouro, com uma echarpe levemente descansando sobre seus braços, o cachecol –contendo o ratinho adormecido – ainda em seu rosto.

Estava frio lá fora, claro –Kenny sentiu o vento gelado beijar seu rosto assim que deixou o castelo –mas em pouco tempo ela ia estar sentada num lugar lotado cheio de calor humano e com uma lareira, então não se importava, realmente.

Como a taverna era relativamente perto, Kenny decidiu ir andando, e não à cavalo: seria muito trabalho e ela não planejava acordar dolorida de manhã, muito obrigada! Então, calmamente caminhou –dando algumas corridinhas para chegar mais rápido e aquecer o corpo –até o local, ouvindo as conversas animadas e o som das flautas e bandolins mesmo antes de avistá-lo. Sorriu em resposta, sentindo o calor das pessoas mesmo antes chegar perto.

The Giggling Donkey podia ser lido no letreio de madeira acabado do estabelecimento no mesmo estado, encimando um Clyde já corado –por causa da bebida ou do frio –apoiado ao lado da porta, provavelmente à sua espera. Quando a avistou, abriu um sorriso brilhante de orelha a orelha que Kenny sentiu poder iluminar a noite que recaía sobre eles, e a fez sorrir um pouco também. Ignorando formalidades, Clyde recaiu sobre seus braços num abraço, enterrando seu rosto no pescoço de sua princesa.

—Vossa Alteza me fez esperar por taaaaaaanto tempo! –Choramingou ele, fazendo biquinho, assim que se afastou da mulher. –É crueldade, sabia? Fez-me sentir solitário.

“Craig esta aqui, não está?” Indagou Kenny, realmente esperando que ele pudesse lê-la na escuridão que estava. Ele demorou mais que o usual, mas no fim, respondeu, enquanto segurava a porta aberta para ela entrar:

—É, mas ele já me trocou pelos joguinhos dele –dissera o guerreiro, soando verdadeiramente magoado, embora tudo que Kenny podia pensar era O filha da puta começou sem mim?

Todos adoraram a chegada da Princesa, aqui ou em qualquer lugar. Alguns fizeram reverência respeitosas enquanto outros –os mais bêbados – bradaram sons de alegria em conjunto de seu nome. Kenny riu consigo mesma, sentindo os nós nos seus músculos desatarem com a ajuda do calor da adoração por ela.

Ainda envolta em gritos, a Princesa avistou Craig, sentado numa mesa afastada, fazendo apostas com um cidadão qualquer, que já tinha um olhar desesperado nos olhos. Eles se aproximaram.

—Ser amada, hum? –Craig perguntou, o tom monótono como sempre. –Deve ser difícil.

“Eu aguento” ela respondeu, com orgulho, e ia continuar falando, quando foi interrompida por um alto “THUND!”, acompanhado de um gemido. Os gritos cessaram, os olhos se afastando da princesa e em direção ao som, fazendo ela quase sentir frio sem todo aquele calor receptivo. No centro dos olhares, estava um homem, caído e com uma caneca –que quebrara dado impacto – pendente nos dedos sangrentos. Normal, se perguntassem à Kenny: um bar tem bêbados. Mas as pessoas não reagiam assim: a maioria grunhia, alguns reclamavam “é esse cara de novo” e o dono da taverna parecia mais cansado do que irritado, na verdade. Craig já havia desviado os olhos do homem, e Clyde quase chorava bem baixinho. “Tadinho do tio” ele repetia.

Kenny suspirou; sobrara para ela. Desde que ninguém estava fazendo nada, a princesa tinha que fazer, não é? Ela se aproximou do cavalheiro caído, abaixando-se e pegando-o pelo braço –o não sangrento -, com o objetivo de tentar levantá-lo, mesmo com os inúmeros protestos vindo de todos os lados possíveis da pequena taverna. Foi afastada por um alto tapa do mesmo, diferido em um de seus braços, e se afastou com um pulo.

Varias pessoas suspiraram, surpresas. Kenny franziu a testa. Clyde estava pronto para avançar no sujeito, mas foi impedido pela mão de Craig em seu ombro. “Isso vai ser interessante”, ele sussurrava, provavelmente um pouco bêbado também.

O homem tentava se erguer do chão com pernas bambas, murmurando consigo mesmo enquanto o fazia. Kenny voltou a tentar se aproximar, mesmo que isso fosse obviamente uma péssima ideia:

—É TÃO RUIM QUANTO ELE! –Ele bradou na sua cara, a princesa capaz de sentir o cheiro de toda a bebida que ele tomara só naquele dia –AGE COMO SE FOSSE MUITO MELHOR, MAS É FARINHA DA MESMA PORRA DE SACO! –Ele parou o discurso e agiu como se fosse vomitar, mas logo então continuou: — Se aproxima da sociedade com um sorriso bonito e conversa com o povo, até que no fim do dia entra em seu castelinho aquecido e é alimentada na boca com as carnes de melhor qualidade, assistindo sua população se manter de migalhas e peles finas enquanto tu vestes a PORRA DE UM SORRISO DE PORCELANATO!

—Você acha que o que queremos é um sorriso? –continuou, ameaçando avançar na Princesa, que permanecia firme no lugar e lhe encarava nos olhos –FODA-SE SEU SORRISO! FODA-SE SEUS VESTIDOS BONITOS E BEIJOS QUE MANDA COM A MÃO! Até fazer alguma coisa de útil, é tão PODRE quanto qualquer outro elfo que diz tanto odiar! –E, com isso, ele voltou a cair no chão, grunhindo.

A taverna ficou em absoluto silêncio. Algumas pessoas pareciam querer esganar o homem, enquanto outras olhavam para sua princesa cheias de expectativa, quase como se implorassem com os olhos para ela provar que o cavalheiro que este estava errado, que ela não era assim, que não era só uma princesa porcelana.

Mas como ela podia fazer isso, se tudo era verdade?

Por fim, ela apenas cerrou os punhos com força, avançando em direção ao homem pela terceira vez no dia à passos lentos. A tensão que ameaçava afogar todos no estabelecimento aumentando a cada segundo, mas esta parecia não importar para a princesa de passos firmes. Parou a centímetros do homem, e quando este levantou a cabeça para encarar a princesa, toda sua raiva fora substituída por medo. E então ela avançou.

E diferiu em sua testa um beijo. Ele pode sentir os lábios quentes e macios sob o pedaço de pano que os cobria. “Me desculpe” ela dissera logo após, fazendo uma revência de arrependimento à ele. A primeira reação de todos foi surpresa, mas então o cidadão passou a soluçar e chorar, porque isso era o motivo de tudo aquilo: A raiva, o medo, a culpa... tudo era resultado da dor que aquela raça estava sofrendo, e Kenny não podia culpa-los.

“Está bêbado” kenny disse, depois que o homem se acalmara “Vá pra casa; sua mulher o espera”.

E assim, ele a obedeceu: levantou como se suas pernas não estivessem fracas e bambas e sumiu na noite que se estendia lá fora. Ela, mais uma fez, usara seu charme, uma arma infalível que ela possuía. Muitos diziam que aquilo era magia e, de fato, talvez fosse. Mas a única coisa que todos sabiam certamente era que funcionava: a pessoa entrava num estado hipnótico que não a fazia seguir ordens, a fazia querer seguir tais ordens e, se perguntassem a qualquer pessoa daquela taverna, todos podiam afirmar que era verdadeiramente assustador.

O silencio se estendeu por um longo período de tempo, só para ser quebrado por uma risadinha feminina vinda da Princesa.

“Por favor, não deixemos que este pequeno acidente interfira na diversão da noite de vocês” Kenny se virou para os músicos, gesticulando para eles continuarem sua melodia, e assim eles o fizeram. Não muito tempo depois, todos já estavam envoltos em conversas paralelas que nada tinham a ver com o assunto. Fora o charme? Ninguém mais podia dizer.

A Princesa se aproximara de seus guerreiros, que a olhavam com certa surpresa nos olhos.

—Princesa... –Clyde começou, como que só agora percebendo algo de essencial importância –O Grande Mago deu-lhe mesmo permissão para sair do castelo?

—Uh-hum. –ela respondera, simplesmente “Agora, se me derem licença, eu preciso de um pouco de ar fresco”.

—Não acha melhor que eu lhe acompanhe? –Indagou o guerreiro, mas ela já estava balançando a cabeça negativamente, com um sorriso nos olhos, se afastando enquanto acenava delicadamente para os dois cavalheiros.

-Você acha que ela vai voltar? –Indagou Clyde à Craig, quando a princesa saíra de vista.

—Nope. –respondeu ele simplesmente, contando as moedas que acabara de ganhar.

E Clyde soube que ele tinha razão.

***

Assim que pisou fora da taverna, Kenny parou e deu um longo suspiro, sentindo o ar gelado entrando e saindo de suas narinas, deixando o local seco. Continuou andando mais um pouco, achando um poste de luz não muito longe dali, o fogo crepitando dentro do pequeno recipiente de vidro. Ela a olhou por um tempo, quase hipnotizada com a luz alaranjada bruxuleante. Calor... ela pensou, somente, sua mente se recusando a processar mais que aquilo.

E então ela socou o poste, o mais forte que conseguira. Uma, duas, três, quatro vezes, alternando os punhos. O quarto soco não fora realmente necessário, mas ela queria que ambos seus punhos doessem igualmente, e precisava de um numero par.

Ah, maravilhoso. Ela pensou, vendo o sangue manchar suas luvas brancas de seda. Se Eric descobrir sobre isso ele vai achar que eu entrei numa briga, e eu estou perdida. Ela bufou em frustração, olhando para o fogo novamente, agora só pensando em raiva.

Ela socara o pobre do poste na esperança de que parte de sua frustração fosse sumir, mas não: agora ela só estava com raiva e com dor.

E era tudo culpa daquele cidadão... Ele fizera tudo mais claro, uma verdade que Kenny deveria ter enxergado há muito tempo: Quando ela se tornasse rainha, aquela seria a reação do povo todo contra ela, em todo lugar que esta fosse. Eles veriam através de suas mentiras e promessas falsas, e a odiariam mais do que odiavam o rei, porque além de inútil ela era hipócrita e falsa.

Eu tenho que impedir que esse casamento aconteça, se não todo o plano vai por água a baixo! Ela pensava consigo mesma, andando de um lado para o outro na frente do poste como se aquilo lhe fosse trazer alguma ideia. Mas Eric não vai mudar sua mentalidade, é deveras teimoso para tal.

Ela olhou envolta, em busca de respostas e, surpreendentemente, ela as achou: Longe no horizonte, era possível ver as silhuetas de uma densa e escura floreta, que se estendia por Deus sabe quantos quilômetros. Do outro lado dela, porém, havia uma civilização de elfos vivendo em liberdade, igualdade e fraternidade ou o que quer que fosse seu lema. Ninguém me conhece por lá, ela pensou consigo mesma, abraçando os ombros nus numa falha tentativa de aquecê-los, e não me tratariam feito merda por não cumprir minhas responsabilidades. Eu não sou uma Princesa lá, muito menos uma rainha, eu não tenho responsabilidades.

Eu posso continuar o plano de lá. Eu vou ter que recomeçar, mas paciência.

Seu rato de estimação, quase como se ouvisse seus pensamentos, escalou para fora do cachecol o suficiente para se apoiar nas patas traseiras, encostando as dianteiras no nariz de Kenny. O animal lhe olhava nos olhos, desaprovação brilhava nos pequenos olhinhos negros.

Não é uma boa ideia. Era como se ele dissesse a ela, Não é boa e não é simples. Há uma floresta mortal separando você de seus objetivos, lembre-se do que aconteceu com Karen.

E então Kenny se lembrou da Floresta, que supostamente engolia aqueles não-dignos para nunca mais serem vistos. Lembrou de todos aqueles que não mandavam águias para dizer que chegaram bem, lembrou de Karen, e lembrou de Kevin. Não foi capaz de conter uma risadinha com aquele pensamento tolo.

“A floresta não é um problema, eu não posso morrer”. Ela disse, ainda rindo um pouco, mesmo que o rato não pudesse ler suas mãos. “Eu sou a Princesa, a final”.

A princesa estava tendo uma discussão interna sozinha colocando a segunda voz em um rato. Realmente, patético. Acariciou a ponta do nariz deste, que apenas o balançou levemente e, como que contente com a resposta da princesa, voltou para seu abrigo quentinho e quieto. Kenny olhava o horizonte pensativa, mas antes que pudesse tomar qualquer decisão, uma voz lhe chamou a atenção: era Clyde.

—Princesa! –Ele bradava da distancia, correndo em sua direção, Craig logo (muito) atrás, caminhando calmamente. – Me perdoe, eu sei que me pediste para não te acompanhar, m-mas está ficando tarde e... pode ter mais gente na rua como aquele cara do bar e eu fiquei preocupado com vossa alteza... –Ele explicou, e Kenny reconhecera que aquele era mais um dos discursos ensaiados do guerreiro –então eu decidi... Craig e eu decidimos...

—A levaremos de volta ao castelo, Vossa alteza. –Craig completou, mais exato e certeiro do que o outro guerreiro –Está escuro, ficará tarde, e eu não quero lidar com o Rei gritando na minha cara se lhe perdermos. –Ele simplesmente disse, se virando e caminhando em direção ao castelo como de o assunto estivesse encerrado, não antes de envolver sua capa pelos ombros da princesa.

Clyde a olhou com olhinhos brilhantes de filhote, gritando “me desculpa” com eles. Kenny se forçou a sorrir e dispensar o pedido com um aceno de mão. “Fico contente que se preocupem tanto com sua Princesa” Ela disse simplesmente.

—Ah, eu tenho dois líderes tão piedosos... –Clyde sibilou, secando uma lágrima imaginária do canto dos olhos. –Há algo que eu possa fazer para recompensar?

“Me carregue até o castelo” Kenny pediu, levantando os braços, e Clyde deu uma risada antes de pega-la no colo e correr até a imagem distante de Craig, que gritava para eles se apressarem.

Bom, Kenny pensou, franzindo as sobrancelhas, Isso dificulta imensamente meu trabalho.

***

Se Kenny não tivesse de luvas, no dia seguinte, suas mãos se encheriam de calos: A força que ela punha naquela espada, enquanto batia esta nas grades que bloqueavam sua janela, era mais do que ela pensava possuir no corpo. Por que ela possuía grades em sua janela? Cartman afirmava que era para manter inimigos fora, mas ela acreditava que era para mantê-la dentro: havia grades em todas as janelas do castelo. O rei não confiava nas pessoas.

Kenny decidira prosseguir com seu plano de fuga hoje mesmo, por motivos mais complexos do que um simples capricho: Já estava tarde o suficiente para as ruas estarem vazias e, mesmo que pudesse fugir em qualquer outra madrugada, Clyde com certeza contaria ao rei que Kenny saíra sem sua permissão, e ela seria confinada no palácio pelas próximas duas semanas até o casamento, aumentando a vigília sobre ela e dificultando seu plano mais do que desejado e necessário.

Era agora ou nunca.

Não muito tempo depois, o rato da princesa retornara com um bando lhe seguindo, assim como a princesa pedira. Rapidamente, todos começaram a ajuda-la, com garras e dentes, a destruir as grades, tudo isso evitando fazer barulho, pois ela sabia que, do lado de fora do recinto, haveria um dos guardas sentado, ao lado da porta, vigiando-a.

Se Clyde estiver lá fora, fugir será fácil, ela pensou consigo mesma, pensando no quão manipulável –principalmente esse você tivesse um belo par de peitos – o guerreiro costuma ser. Uma das grades finalmente cedeu com um som metálico, caindo toda a altura da torre na qual ficava o quarto da princesa até o chão. Agora, para a Princesa conseguir se arrastar por ali, ela precisava de, pelo menos, mais uma. Se for Craig o guarda, será mais complicado, mas ele é bom para negociar, e não é como se ele verdadeiramente desse a mínima. O único problema é se o guarda for...

—Princesa? –Uma voz soou à porta, interrompendo o pensamento dela. Merda, substituiu tudo o que possivelmente podia correr em sua mente. –Vossa Alteza está... o que está fazendo?

Ali, parado, provavelmente atraído pelo som metálico material no chão, estava Butters, o guarda que mais a daria trabalho. Por quê? O Paladino era a pessoa mais ingênua e sentimental do reino, e também a mais fiel ao rei. O que significava que ele negaria tudo o que estava acontecendo, não acreditando que Kenny os estava traindo. Ia tentar convence-la a ficar e, o pior de tudo, não ia conseguir, e então a obrigaria a ficar.

Ele era o único que ela sabia que não podia fugir sem uma luta. E ela definitivamente não tinha tempo para tudo isso.

Ele sabia o que ela estava fazendo, e ela sabia que ele sabia, ou pelo menos tinha uma ideia. Ela também sabia que ele tentava negar aqueles fatos. Butters tolinho...

Fugindo desse inferno” Ela explicou, tentando apagar todas as dúvidas que podiam ainda estar flutuando na mente do paladino. Encarou-o enquanto o dizia, para aumentar o impacto.

—Bem, você não... Vo-Vossa Alteza não... eu não... –Ele gaguejou, atingido com a surpresa, não tendo tempo o suficiente para processar o que lhe estava sendo mostrado. Kenny suspirou pesadamente, se virando completamente para o guerreiro, deixando os ratos fazerem o resto do trabalho por ela.

“Leo” Ela o interrompeu, “Cartman me fará rainha. Ele quer que eu me case com ele” Em resposta desta declaração, Butters alongou a coluna, surpreso. Claro que ele não o avisou, ele nunca o avisa nada. Mas acho que ele não falou sobre isso para ninguém, ainda. “Eu não consigo me casar com ele. Eu não sou capaz de governar um povo que não é meu”

Ela queria falar mais que isso, explicar todos os porquês era muito melhor fugir, mas ela sabia que nada mudaria a mente do Paladino, e ela verdadeiramente não tinha tempo. Não deveria ter sido vista, para começo de conversa, e precisava chegar à floresta antes do amanhecer. E isso significava atravessar toda Kupa Keep.

—Mas... mas Vossa Alteza é! –Insistiu ele, adentrando o quarto lentamente, deixando a porta atrás de si se fechar com um baque. Pelo menos assim não vai atrair mais guardas... —Como seu protetor, posso garantir, Vossa Alteza fora treinada a vida toda para este momento! O reinado, a coroa! Não era isso que você sempre queria?

“Não é simples assim, Butters. Cartman não me dará a Coroa. E le vai me usar como imagem”

—O Rei não faria isso! –O paladino reclamou, franzindo as sobrancelhas –Ele é um Rei justo. Se ele lhe prometeu a coroa, a coroa ele lhe dará!

“Leo” ela repetiu, calando-o mais uma vez “Cartman fez lavagem cerebral em você. Ele não é tão grandioso como pensa.” Ela começou a sentir a fúria ferver seu sangue, e presumia que seu rosto podia ou não estar vermelho por causa disso “O tipo de trabalho que serei submetida é um trabalho escravo banhado na porra de ouro que o gordo rouba do povo de quem devia cuidar”.

“Eu me recurso a fazer parte dessa merda”.

—Neste caso... –O paladino concluiu, num tom surpreendentemente frio. Quando Kenny o olhou nos olhos, achou ali uma fúria parecida com a que estava sentindo no momento, mas direcionado a pessoas diferentes: Kenny sentia raiva de Cartman, Butters sentia raiva de kenny. —Espero que você me perdoe. –Ele sacou seu martelo da justiça, e um raio estourou do lado de fora da janela. Butters fizera começar a chover.

Você’ Butters dissera, fazendo a princesa estremecer levemente, um arrepio correndo pela espinha: O paladino nunca a chamara de Vos Mercê, sempre de Vossa Alteza, ‘Kenny’ no mínimo. Foi então que a Princesa percebeu: Ele tinha perdido todo o respeito por ela.

Deixando isso de lado, ela sacou o arco e ajeitou o cinto com as flexar em suas costas. “Idem” ela vagamente disse, tendo que se abaixar e rolar imediatamente para não ser atingida pelo martelo lançado por Butters.

Ainda abaixada, Kenny simplesmente estendeu um dos braços, apontando para o guerreio em sua frente. Quase imediatamente, a onda de ratos partir para cima dele, atacando-o com garras e dentes, enquanto Kenny puxava o arco.

Da janela, um raio fora atraído até o corpo do guerreiro, fritando todos os ratos que estavam em contato com seu corpo, e fazendo o resto fugir. Ele chamou o martelo de volta, e esse pousou em sua mão, não antes de bater no ombro da princesa, fazendo ela errar o primeiro tiro. Puxou outra flecha, e depois outra: Butters desviou de uma, a outra foi bloqueada pelo seu martelo.

Ela avançou na princesa, que ergueu sua espada rápido o suficiente para bloquear o ataque direto de Butters, diferindo seu próprio ao longo do peitoral do paladino, deixando uma trilha de sangue. Nada profundo, visto que Butters atacou imediatamente após, batendo num dos olhos da princesa com o martelo. Com isso, ela caiu sentada no chão, atordoada. Aproveitando a oportunidade, o guerreiro ia desferir um golpe em sua cabeça, mas a princesa rolou para o lado a tempo, e o martelo atingiu o chão. Aproveitando sua posição, Kenny se levantou e puxou uma flecha, cravando-a com as mãos mesmo nas costas desprotegidas do paladino. Ele gritou de dor em resposta, lançando o martelo em sua direção com raiva. Ele novamente atingiu o ombro de Kenny, e ela tinha quase certeza que o segundo golpe o tinha deslocado. Ela pegou o martelo antes que seu dono pudesse chama-lo de volta, pisando em sua mão assim que ele a ergueu para tentar, sentido alguns dos dedos –que não estavam esticados – quebrando debaixo de seu pé.

Butters respirava forte, tentando se levantar, mas falhando no processo. Parte era por causa da dor e perda de sangue, Kenny tinha certeza, mas outra parte era por causa do veneno que a ponta de sua flecha estava banhada. Ela queria avisar para o Paladino, a final, ele era curandeiro e conseguiria se tratar, e se não o fizesse a tempo, ele certamente ia morrer.

Mas, bem, ela não tinha tempo, tinha? Os gritos de Leo provavelmente atraíram mais guardas.

Com o martelo do homem deitado no chão, Kenny foi até a janela e bateu com força na grade já roída por ratos, e esta cedeu com facilidade depois de alguns golpes, diferente de quando ela estava usando a espada. O ar que entrava pela janela era gélido e parecia cortar seu rosto como pequenas navalhas. Ela largou o objeto pesado, dando um longo suspiro enquanto via o mar de ratos que sobrara se dispersar pelas paredes dos quartos, trabalho realizado. O de Kenny subira pela sua perna e se enfiara em seu sutiã; Kenny vestia um macacão de mangas compridas todo preto que usara no funeral da antiga rainha, e uma mascara da mesma cor no rosto, ao invés do cachecol: tudo em prol de um bom disfarce na noite.

Ajeitou a máscara mais para cima no rosto, arrastando-se pelo buraco nas grades e começando a descida pela borda da torre, só com meras luvas de seda ensanguentadas para proteger suas mãos e um ombro deslocado. Mesmo quando ela rasgou-as dato o atrito com as pedras, não diminuiu a velocidade. Quando sangue começou a escorrer por suas palmas, começara a descer ainda mais rápido.

Então, ouvira um grande estalo e, por um momento, achou que tinha quebrado o pulso. Contudo, assim que avistou os clarões que se aproximavam e o chão começar a tremer, percebeu: Butters não estava morto, tampouco inconsciente, e lhe atacava com raios.

Dois deles atingiram as paredes perto dela, quase fazendo-a cair, e então outro lhe atingiu em cheio. Perdeu o controle das mãos, e a dor fora excruciante antes mesmo de ela bater em cheio no chão, quebrando o braço direito e a mesma perna, onde caíra encima. Convulsões lhe cobriram todo o corpo, tão fortes que deslocaram alguns ossos; sentiu o gosto de sangue. Ela sentia que ia morrer, até mesmo queria estar morta: qualquer coisa para escapar daquela tortura.

“Paladino Tolo” ela pensava sozinha, sentindo os ossos quebrarem com as convulsões enquanto observava a sombra se afastando da janela no topo da torre. “Eu não posso morrer. Sou a Princesa, a final!”

Quando seu corpo parou de convulsionar, Kenny se punha de pé com o resto das forças que seu corpo ainda tinha. Ela não podia mais ir para a Floresta, disso ela tinha certeza; mas pensou rápido e pensou num plano b. Indo até o celeiro do castelo, que não tão longe dali, avistou a pequena carroça puxada por mula de Timmy. Escorregou para dentro dela, se afundando o máximo possível dentre as sacas com material duro dentro. Suspirou fundo, uma duas, três vezes, antes de parar de se mexer completamente.

E tudo foi envolvido por uma fria escuridão.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.