A Second Chance
14 Taking chances
Notas iniciais
O trânsito naquela noite de sábado em San Francisco estava mais pesado do que o normal e Emily demorou para chegar em casa. Durante todo o trajeto relembrou as palavras trocadas com a cantora e se perguntava o que deveria fazer agora.
Ao estacionar o carro na frente do prédio, notou uma forma conhecida, sentada nas escadas: Jake. Sorriu ao ver o amigo ali. Apesar de toda brincadeira e sarcasmo, ele sempre parecia saber quando ela precisava dele.
- Perdido? – Emily estava parada na calçada do seu apartamento, encarando a grande sacola que Jake tinha a seu lado.
- Não, mas achei que você pudesse estar – deu um sorriso na direção da amiga e viu que acertara. – Então resolvi trazer uns amiguinhos.
A sacola cinza que trazia fez barulho de vidro batendo quando Jake levantou-se e seguiu Emily para dentro do prédio. Tinha trazido vinho suficiente para que ela pudesse contar tudo o que tinha acontecido. Ou entrar em um coma alcoólico. O que acontecesse primeiro.
***
Há muitos quilômetros de distância dali, Santana olhava pela janela do avião. Observava as luzes da cidade abaixo e a forma das nuvens que passavam; mas deixava a mente vagar para ainda mais longe.
Não entendia como havia baixado tanto a guarda, como tinha se permitido se expor daquela maneira. Sempre fora tão boa em proteger seu coração e agora ela estava ali, com ele destroçado mais uma vez.
- Ta tudo bem, San? – A voz de Mike a forçou a voltar para o mundo real.
- Sim. Estava pensando no repertório para o próximo CD.
- Ótimo. Andei recebendo algumas músicas que iriam ficar ótimas na sua voz.
- Que bom, Mike. Mas eu estava pensando em incluir algumas coisas minhas, sabe? Acho que é hora.
- Você está falando sério? – A surpresa na voz do empresário era evidente. Sempre tentara convencer a latina a gravar algumas de suas composições, mas nunca teve sucesso.
- Sim. Eu vou direto para o apartamento. Quero ficar um pouco sozinha e trabalhar.
Precisava tirar aquela semana da cabeça e a melhor maneira que conhecia para isso era transformando os sentimentos em música.
***
Tinham esvaziado a terceira garrafa de vinho quando Emily terminou de contar a Jake os detalhes daqueles últimos dias. Sentia-se mais relaxada e não sabia se era pela bebida ou pela conversa. Fosse como fosse, era um sentimento bom.
- Nossa, Em, isso daria um livro!
- Na verdade, vai virar capa de revista. – Os dois riram mais do que o necessário, mas a culpa era da bebida.
- E depois de terminar a matéria? O que pretende fazer?
Ele tinha tocado no ponto que ela tentava não pensar, era a pergunta de um milhão de dólares. Tinha construído tantas barreiras entre si mesma e Santana que não tinha a menor idéia do que fazer quando todas elas ruíssem.
Pensar nisso trouxe lágrimas a seus olhos. Jake tomou-lhe a mão com carinho, dando um leve apertão de encorajamento.
- O que você acha que eu devo fazer?
- Eu acho que você deve entregar a matéria, pedir uns dias de folga e ir até Nova York atrás da sua mulher.
- E então o quê? Vamos viver um relacionamento à distância de novo? A gente já tentou isso uma vez e não deu certo, Jake.
- Sim, mas vocês eram meninas na época. Inseguras. – Forçou a amiga a encará-lo. Precisava que ela realmente compreendesse o que ia falar. – Em, você ama a Santana, isso está mais do que claro. E pela maneira como ela olha para você, é bem óbvio que ela também te ama. Eu sei que vocês já se machucaram no passado e que estão com medo de dar o primeiro passo, mas alguém precisa fazer isso. Vocês podem ser incríveis juntas, mas vai ser preciso coragem. A pergunta é: você tem?
A pergunta de Jake ficou martelando em sua cabeça bem depois de o fotógrafo ter ido embora. Teria coragem para tentar um relacionamento com Santana mais uma vez? Teria coragem para dar o primeiro passo? Teria coragem para se expor completamente, sem garantias de que daria certo? Teria coragem?
Levantou-se do sofá para pegar um copo d’água, mas com a falta de jeito peculiar aos que beberam um pouco além da conta, deixou o conteúdo da bolsa cair todo no chão. Entre celular, blocos de anotação e maquiagem, encontrou o CD que Santana lhe entregara algumas horas antes.
Segurando o objeto como se fosse uma relíquia religiosa, ligou o notebook que estava em cima da mesa e inseriu o disco no drive. Sentia uma espécie de alvoroço interno enquanto esperava o som sair dos alto-falantes.
Não sabia o que esperar da gravação feita em um momento roubado da agenda cheia da cantora. Mas ela fizera tanta questão que Emily ouvisse que crescia na jornalista a certeza de que encontraria ali as respostas para as perguntas que não ousava fazer.
De repente a voz rouca de Santana Lopez invadiu o pequeno apartamento de Emily. Não tinha nenhum acompanhamento instrumental, mas ela colocava tanta emoção em cada palavra, que a gravação já parecia definitiva.
I'm not a perfect person / Eu não sou uma pessoa perfeita
There's many things I wish I didn't do / Há muitas coisas que eu gostaria de não ter feito
But I continue learning / Mas eu continuo aprendendo
I never meant to do those things to you / Eu nunca quis fazer aquelas coisas a você
And so I have to say before I go / E então eu preciso dizer antes de ir
That I just want you to know / Que eu só quero que você saiba
Aos poucos Emily reconhecia a letra da canção que tanto tocara durante a sua infância. A letra tinha sido escrita por outra pessoa, mas parecia saída do coração de Santana diretamente para o dela.
I've found a reason for me / Eu encontrei uma razão para mim
To change who I used to be / Para mudar quem eu costumava ser
A reason to start over new / Uma razão para começar de novo
And the reason is you / E a razão é você
Emily se pegou pensando no que Jake falara mais cedo. Será que estariam prontas para um relacionamento como aquele? Será que ainda tinham chance de dar certo? A verdade é que tinham se machucado muito da primeira vez, mas as pessoas que se encontraram agora eram muito diferentes daquelas meninas de 10 anos atrás.
I'm sorry that I hurt you / Eu sinto muito por ter machucado você
It's something I must live with everyday / É algo com que eu preciso conviver todos os dias
And all the pain I put you through / E toda a dor que eu te fiz sentir
I wish that I could take it all away / Eu gostaria de poder lever tudo isso embora
And be the one who catches all your tears / E ser a pessoa que seca todas as suas lágrimas
That's why I need you to hear / É por isso que eu preciso que você ouça
A gravação terminava com uma risada sem graça de Santana e, naquele momento, Emily se deu conta do que precisava fazer.
Deixou que a água quente que saía do chuveiro a ajudasse a recobrar o resto de sobriedade que faltava. Tinha pouco tempo e muito trabalho pela frente. Precisava fazer aquilo direito. Fez uma garrafa de café fresco, reuniu todas as suas anotações, sentou-se ereta na frente do computador e encarou a tela em branco que brilhava à sua frente. A noite seria longa, mas tinha um sorriso no rosto e uma gravação caseira para lhe fazer companhia.
***
A lua já ia alta no céu, naquela noite quente de domingo, quando finalmente terminou o trabalho. Foram quase 24h escrevendo, editando, cortando, colando e montando a história da mulher que amava. Precisava fazer jus a ela.
Quando Dianna chegou para trabalhar na segunda-feira, descobriu que não era a primeira na redação, como costume. Emily já estava lá e parecia que a esperava.
- Emily! Tão cedo! Ficou com saudades da redação?
- Na verdade, eu vim entregar isso. Terminei a matéria.
- Já? Você sabe que o prazo para começar a diagramação era a próxima segunda, certo?
- Sim, mas eu preciso resolver alguns assuntos pessoais. Então eu adiantei a matéria para poder pedir uma semana de folga. – Tudo dependia da resposta da editora e o coração de Emily parecia que ia saltar pela boca.
- Assuntos pessoais? Algo que eu deva saber?
- Por enquanto não...
Mas Dianna sabia muito bem do que se tratava. Sempre soubera, desde que a jornalista exemplar ficou desconcertada ao mencionar o nome de Santana Lopez.
- Tudo bem. Uma semana. Nos vemos na segunda que vem.
O largo sorriso que Emily deu como agradecimento fez com que a chefe tivesse certeza de ter tomado a decisão certa. Gostava da garota e queria que ela fosse feliz, mesmo que isso pudesse significar perder sua melhor repórter.
Emily saiu da sala de Dianna ainda rindo largamente. Ficou feliz por ter ido cedo ao trabalho. Assim não teria que lidar com nenhum chato fazendo perguntas sobre a matéria que tinha lhe tirado daquele ambiente pelos últimos dias.
No elevador, vasculhou a bolsa atrás do celular. Pegou o aparelho entre os dedos e digitou uma mensagem para Jake. Curta, mas cheia de significado. Fitou as letras que flutuavam na tela antes de enviar. Finalmente tinha uma resposta para o amigo:
Eu tenho coragem!
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