A Second Chance

22 Safety dance


Semanas se passaram sem que Santana e Emily tivessem qualquer notícia de Jessie. A medida cautelar havia sido concedida e as duas achavam que as suas vidas haviam voltado ao normal e seguiam com o planejamento do casamento.

Tudo caminhava normalmente até que Emily sentiu uma mão se fechando ao redor do seu braço quando saía da redação para almoçar. Já era tarde para a refeição e, por isso, se encontrava sozinha. Assustada com aquela intromissão, virou-se para ver quem era responsável por aquilo com os olhos faiscando.

- Simone? O que você está fazendo aqui?

- Eu preciso falar com você, Emily.

- Eu não tenho nada para conversar com você. – Emily deu um puxão no braço, livrando-se do aperto da outra mulher. – E espero que você não apareça mais na porta do meu trabalho.

- Emily, eu não estaria aqui se não fosse importante. Acredite, eu não acho nem um pouco divertido bater papo com a mulher que me fez ser demitida.

- Você fez isso sozinha, Simone. Eu apenas abri os olhos da San.

- Eu não vim aqui para discutir isso.

- E sobre o quê você veio falar?

- É sobre a Jessie.

Ao ouvir aquele nome, Emily pôde sentir cada fio de cabelo em seu corpo se arrepiar. Alguma coisa no olhar de Simone garantia que o assunto era realmente importante. Pela primeira vez desde que a ex-namorada de Santana aparecera na porta da casa das duas, a jornalista sentiu medo.

- Muito bem, estou ouvindo.

- Aqui, não, Emily. Vamos para um lugar mais reservado?

Caminharam em silêncio até o restaurante que Emily já havia escolhido para o almoço daquele dia. Ele era perfeito para a conversa que as duas mulheres teriam: pequeno, escondido, silencioso e relativamente vazio, àquela hora do dia. A jornalista já conhecia a disposição física do lugar e encaminhou Simone para uma mesa mais reservada. Escolheu um sanduíche leve, enquanto a outra pediu apenas um suco.

- Fala logo, Simone. O que é que você quer me falar?

- Olha, eu sei que você não deve acreditar, mas eu ainda me importo com a Santana. Eu gosto dela de verdade.

- Você teve um jeito bem estranho de demonstrar isso. Eu ainda não me esqueci daquele quarto de hotel destruído. Você já?

- Eu sei que eu errei, Emily. Será que dá para deixar isso de lado por um tempo, por favor? O que me trouxe até aqui é bem mais importante.

- Então é bom você começar a falar.

O pedido das duas foi trazido até a mesa e Simone tomou um gole do líquido gelado antes de continuar a sua história.

- Eu fui ver a Jessie ontem. Desde que a Santana pediu a medida cautelar, ela mal sai de casa, não atende mais o telefone e eu fiquei preocupada. – Levantou o olhar para Emily, que deixava bem claro não se importar com o estado da outra mulher. – Bom, quando eu cheguei na casa dela, eu fiquei bem assustada. Ela não estava falando coisa com coisa, as paredes estavam cobertas de fotos da Santana e parecia que ela acha que ela e a Santana ainda estão juntas.

O pedaço de sanduíche que Emily tinha abocanhado pareceu inchar em sua boca e ela precisou de ajuda para engolir aquele pedaço de isopor sem gosto. Toda a cor tinha se esvaído de seu rosto e a mão caiu pesadamente sobre a mesa.

- Eu liguei para os pais dela, no Maine, pedi que eles viessem ficar com a filha, mas não sei se eles vão fazer isso. Acho que eles nem acreditaram em mim. – Precisou respirar fundo antes de continuar. – Olha, eu não sei se ela vai fazer alguma coisa, mas a pessoa que eu vi naquele dia não era mais a Jessie. Só achei que vocês deviam saber.

Depois de segundos intermináveis processando a gravidade do que acabara de ouvir, Emily finalmente conseguiu sair do transe em que tinha entrado.

- Obrigada, Simone. Eu realmente agradeço por você ter me procurado.

- Não precisa agradecer. Só me faz um favor?

- Diga.

- Cuida bem da Santana. Ela ainda é muito especial para mim.

- Para mim também.

***

O resto do dia passou lentamente. As palavras de Simone desfilavam pela cabeça de Emily, levando com elas qualquer concentração que a mulher pudesse ter. Encarava a tela em branco do computador com os olhos vazios, nem se dando conta do que estava acontecendo na redação ao seu redor. Quando um dos colegas pousou uma mão em seu ombro, a jornalista deu um pulo na cadeira, assustada.

- Está tudo bem, Emily? Você parece distraída.

- Sim. Só estou com um pouquinho de dor de cabeça. Acho que eu vou trabalhar de casa o resto do dia.

Aproveitando que já tinha todos os dados de que precisava para a próxima matéria, a jornalista pegou seu material de trabalho, colocou a bolsa no ombro e saiu do prédio. Já na rua, ficou feliz com o fato de o seu carro estar na oficina. Não estava em condições de dirigir. Parou um taxi, deu o endereço da casa que dividia com a cantora e fechou os olhos, deixando a cabeça cair para trás. Passou boa parte do trajeto pensando novamente no que Simone havia contado para ela. Por mais que tivesse pressionado Santana para pedir a medida cautelar, achava difícil acreditar que Jessie fosse capaz de algo mais sério do que atormentar a vida das duas. Ela não parecia uma psicopata para Emily, apenas uma ex-namorada que ainda amava Santana.

Esse novo pensamento quase trouxe um sorriso ao rosto moreno, quando um novo se sobrepôs: se Jessie era assim tão inofensiva, por que Simone tinha procurado por ela, pedindo que tomassem cuidado? A antiga assessora de Santana conhecia Jessie muito bem e, se ela acreditava que a mulher podia representar algum perigo para elas, Emily decidiu que acreditaria. Nem acreditava que estava baseando seus sentimentos em algo que Simone tinha dito, mas quando se tratava de proteger a família que ela e Santana começavam a construir, Emily estava disposta a tudo. Por experiência própria sabia que aparências podiam enganar e que algumas pessoas eram capazes de tudo.

Ainda não queria preocupar a cantora, que já andava estressada com a agenda apertada de shows e entrevistas, mas precisava de outra opinião sobre aquele assunto. Entrando em casa, pegou o telefone e discou para o número que ficava do outro lado do país.

- Escritório de advocacia Hall, Wright e Adams, boa tarde.

- Boa tarde. Eu gostaria de falar com a Dra. Hastings, por favor.

- Quem gostaria?

- Emily Fields.

- Um momento por favor.

Enquanto esperava a amiga atender ao telefone, Emily serviu uma taça de vinho. Não costumava beber àquela hora da tarde, mas achou que, diante da situação, era mais do que justificável. O primeiro gole arranhava a garganta da jornalista, quando ela ouviu um barulho do outro lado da linha.

- Emily! Que surpresa! Como você está, amiga?

- Eu preciso de um conselho, Spenc.

- O que aconteceu, Em? Você está com uma voz péssima.

Agora não dava mais para voltar atrás. Conhecia a amiga e sabia que ela não iria descansar enquanto não soubesse o que estava acontecendo. Tomou mais um gole do vinho, recolhendo os pedaços da própria coragem.

- Lembra daquela história que eu te contei, sobre a ex-namorada da Santana e a medida cautelar que nós pedimos?

- Claro. Vocês fizeram a coisa certa.

- Pois é. Hoje, quando eu estava indo almoçar, a antiga assessora da San...

- Aquela que estava ajudando a doida e que a San demitiu?

- Essa mesma. Ela estava me esperando na porta do trabalho, dizendo que precisava conversar comigo sobre a Jessie.

- O que ela disse, Em?

- Ela falou que desde que a medida cautelar foi concedida, a Jessie não é mais a mesma, não sai de casa, não atende ao telefone e que ela estava preocupada.

- Não me diga que ela pediu para a Santana retirar a medida?

- Pelo contrário. Ela veio me alertar. Parece que a Jessie pirou de vez. Ela acha que ainda namora a San, cobriu a casa toda com fotos delas duas. Está completamente fora da realidade.

- Em...! Não acredito! Parece...

- A –A de novo? Também pensei isso. O que eu faço, Spenc?

- Legalmente, falando? Não há nada que você possa fazer. Até onde a gente sabe, ela não violou a medida cautelar e não é nenhum crime cobrir paredes com fotos de uma ex-namorada.

- Era o que eu temia.

- Agora, pessoalmente, acho que vocês deviam aumentar a segurança. Da casa e de vocês. Eu já vi mais casos assim do que eu gostaria e sei que essas pessoas podem ser capazes de qualquer coisa.

- Eu não sei se a San vai querer aumentar a segurança. Às vezes parece que ela acha que ainda é aquela garota de Lima que ninguém conhece.

- Você tem que fazer ela enxergar que vocês podem precisar de proteção. E se nada acontecer, melhor. Mas se a Jessie tentar qualquer coisa, vocês têm que estar preparadas. Promete que vai falar com ela?

- Pode deixar. Prometo. Obrigada!

- Sempre que precisar...

Emily foi reabastecer a taça que havia esvaziado durante a conversa. Sentia-se um pouco melhor, embora não soubesse se era culpa da amiga ou do vinho.

- Mudando de assunto, como está o Toby? Já se acostumou com a nova cidade?

- Chegando lá. Pelo menos ele está se adaptando melhor do que na última mudança.

- E o escritório?

- Por aqui, tudo indo bem. Estou com um caso importante e se tudo der certo, eu devo virar sócia até o fim do ano.

- Que bom, Spenc! Seus pais devem estar super orgulhosos!

- Eles estão, mas acho que a felicidade deles só vai ser completa quando eu chegar em Rosewood com um filho no colo.

- Quem diria, seus pais mais animados com a ideia de mais um neto do que com o seu sucesso profissional! Muita coisa mudou desde que a gente saiu do colégio.

- Nem me diga. Mas e você? Como estão as coisas na revista? E os preparativos para o casamento do ano?

- Na revista, tudo indo bem. Estou entrando no ritmo da cidade e o pessoal da redação é bem bacana. Ainda sinto um pouquinho a falta de San Francisco, mas sei que eu fiz a coisa certa em vir para cá.

- Concordo.

- Agora, sobre o casamento, nada decidido e tudo atrasado. A Santana mal tem parado em casa nas últimas semanas e é complicado organizar um casamento sozinha. Pelo menos, conseguimos fechar a lista de convidados e já mandamos produzir os convites. Agora não tem mais jeito de adiar.

- Como se vocês fossem conseguir adiar alguma coisa.

Emily abafou um risinho. A amiga a conhecia bem e tinha acertado. Não havia nada que ela e Santana quisessem mais no mundo do que se casar. Mesmo que não fosse tudo perfeito, mesmo que não houvesse bolo, vestido branco, convidados. Tudo o que queriam era dizer sim uma para a outra.

- Você tem razão. Ficou sabendo da Aria e do Ezra?

- Sim. Ela me ligou semana passada.

- E como ela está?

- Melhor do que eu imaginei. As coisas já não iam bem há algum tempo e acho que os dois se sentiram um pouco aliviados com o divórcio.

- Mesmo assim, nunca é fácil.

- Concordo. Uma pergunta: quem vai ser o par da Aria no seu casamento, agora que o Fitz não faz mais parte da equação?

- O Jake, aquele meu amigo fotógrafo de San Francisco.

- Será que essa é a melhor opção? Quer dizer, segundo você diz, ele daria em cima de um coqueiro se achasse ele interessante.

- Eu já conversei com ele e pedi para respeitar a Aria. Mas, talvez, ele seja exatamente o que ela precisa nesse momento.

Emily ouviu um barulho de estática, como se Spencer tivesse tampado o bocal do telefone, e imaginou que alguém houvesse entrado em seu escritório. Estava certa.

- Em, vou ter que desligar. Um cliente acabou de chegar e eu preciso atendê-lo. Depois a gente conversa?

- Claro.

- E pensa no que eu falei, viu?

- Pode deixar. Beijo.

- Outro.