A Second Chance
23 Fix you
Notas iniciais
Santana estacionou o carro na garagem e estranhou ao ver as luzes da sala acesas. Ainda não estava na hora de Emily chegar em casa. Ignorou os pensamentos e girou a chave na fechadura, entrando na sala. Apesar das luzes, Emily não estava no cômodo. A cantora começou a achar que talvez tivessem se esquecido de apagar quando saíram juntas naquela manhã, mas a garrafa de vinho na bancada da cozinha denunciou a presença da jornalista.
- Em? Onde você está, amor?
Não obteve nenhuma resposta e começou a estranhar aquela situação. Sabia que apenas alguma coisa muito séria teria feito Emily sair mais cedo do trabalho. Inspecionou os cômodos do primeiro andar da casa e, antes de subir as escadas, pensou ter ouvido um barulho na varanda. Aquele era o lugar preferido da noiva em toda a casa e se ela estivesse com algum problema, era ali que iria buscar refúgio.
Ao olhar pelas portas de vidro, Santana sentiu seu coração afundar no peito. Emily estava sentada no sofá largo, abraçando os joelhos. A taça de vinho descansava vazia na mesa a sua frente. De onde estava, a latina não podia ver o rosto da amada, mas algo dentro dela lhe dizia que ela havia chorado. Tentando respeitar um mínimo de privacidade, Santana abriu a porta de correr com barulho, dando a Emily a chance de se recompor.
Emily levantou o rosto e encarou Santana que caminhava em sua direção. A noiva tinha um olhar afetuoso para ela, o que fez com que os olhos de Emily ardessem com a chegada de uma nova leva de lágrimas. Precisava fazer Santana entender a gravidade da situação, mas não sabia como.
A latina sentou-se ao lado da noiva. Queria falar alguma coisa, mas não tinha palavras. Era inútil perguntar se alguma coisa tinha acontecido, isso estava estampado no rosto moreno contorcido pelo sofrimento. Preferiu deixar que o corpo falasse por ela. Olhou fundo nos olhos de Emily e a puxou para um forte abraço. Dentro daquela redoma que Santana formava com os braços, Emily sentiu-se protegida pela primeira vez em dias e sentiu os olhos arderem com as lágrimas que voltaram a escorrer pelo rosto, molhando o ombro em que se apoiava.
Santana mantinha Emily firmemente presa em seu enlace quando recostou o corpo contra o sofá. Ficaram assim por um longo tempo; a latina encostada, com as costas de Emily contra seu peito, a cabeça da morena apoiada em seu ombro e um braço protetoramente prendendo a jornalista pelos ombros. Emily observava os seus dedos entrelaçados, enquanto Santana fazia carinhos com o polegar. Sentiu uma onda de calor subir pelo seu corpo ao constatar como era simples estar ao lado daquela mulher. Santana depositou um beijo nos cabelos negros, sentindo a mesma onda de carinho que Emily.
- A Simone me procurou hoje. – A suavidade na voz de Emily não denunciava o teor da conversa e nem seu passado com Simone. Na verdade, quem ouvisse aquela frase daria a ela a mesma importância que um comentário sobre o tempo. Mas não Santana, que sabia muito bem o que aquilo podia significar.
- O quê? Como é que ela tem coragem?! O que ela queria?
- Ela queria conversar. Sobre a Jessie.
Emily sentiu Santana apertar sua mão. Sabia que aquele não era o assunto preferido da cantora, mas precisavam conversar sobre o que Simone tinha revelado.
- O que tem a Jessie? Não me diz que a Simone veio pedir para remover a medida cautelar?
Sentindo uma ponta de sarcasmo na voz de Santana, Emily ergueu o corpo para poder encará-la. Quando os dois pares de olhos negros se encontraram, a latina pôde ler no rosto da outra que o assunto era mais sério do que havia suposto. Naquele momento, sentiu uma onda de medo subir pela espinha.
- Não tem nada a ver com isso. Na verdade, a Simone me procurou para alertar a gente.
- Alertar sobre o quê?
- Parece que ela foi ver a Jessie essa semana e ela ainda acha que vocês duas namoram. A Simone disse que as paredes da casa dela estão cobertas de fotos suas.
- Só isso?
- Santana, você ouviu o que eu acabei de dizer? A sua ex-namorada, que já aprontou várias contra a gente, contra quem você teve que pedir uma medida cautelar, enlouqueceu de vez! Para ela, vocês duas ainda estão juntas!
- E o que você quer eu faça, Em? Eu não posso mandar nos pensamentos dela. E se ela não violar a decisão judicial, não há nada que a gente possa fazer. – Segurava as mãos da noiva entre as suas e esperava que pudesse passar um pouquinho de confiança para ela. Deu seu melhor sorriso, mas o que viu no rosto de Emily foi apenas dor.
- Eu sei, a Spencer falou a mesma coisa. Legalmente não podemos fazer nada, mas a gente pode se proteger.
- Aonde você quer chegar, Em?
- Acho que a gente devia aumentar a segurança. Da casa, sua. Não quero dar nenhuma chance para aquela mulher.
- Em, eu não quero ter essa conversa de novo. Já falei para você sobre como eu me sinto em relação a seguranças. Eu não gosto de tê-los por perto, acho que eles tiram a minha liberdade.
- Eu sei disso, San, e eu concordo. Mas na época não tinha uma maluca psicótica rondando as nossas vidas. Será que você não podia fazer isso por mim?
A súplica na voz de Emily balançou a convicção de Santana por um segundo, mas não foi suficiente para mudar sua opinião de vez. Uma das coisas que jurara a si mesma quando começou a fazer sucesso é que não deixaria a nova vida mudar quem ela era. E Santana não era mulher de fugir dos seus problemas, por piores que eles fossem.
- Em, o condomínio já tem segurança, ninguém entra sem autorização; o meu carro é blindado; a casa toda tem um sistema de alarme. O que mais você quer que eu faça?
- Eu não sei, San. Mas eu estou com muito medo.
Santana puxou novamente Emily para o seu abraço. Esperava poder aplacar a angústia da sua amada com aquele gesto, mesmo sabendo que era inútil. Conhecia o passado de Emily e sabia por que ela estava tão assustada. Tudo o que ela havia passado sendo alvo de uma jovem psicopata junto com as amigas tinha deixado uma cicatriz mais profunda do que a jornalista gostaria de admitir.
- Eu estou do seu lado, meu amor, e não vou deixar nada de mal acontecer.
- Promete?
- Prometo.
***
Um sonho agitado interrompeu o sono de Santana. A cantora não conseguia se lembrar das imagens que tinha visto, mas acordou com o corpo suado e a respiração em descompasso. Olhou para o lado e pôde ver, na penumbra que dominava o quarto, Emily dormindo tranquilamente. Velou o sono da jornalista por um tempo, sentindo uma mão invisível esmagar seu coração cada vez que pensava que poderia estar colocando Emily em risco. Mas já tinha lidado com outros malucos antes e não estava disposta a abrir mão da sua independência porque a Jessie não aceitava o fim do relacionamento. Mas, será que estaria disposta a abrir mão de Emily para manter a sua independência? Pensou nas cartas que tinha recebido nas últimas semanas. Cartas de amor, nenhuma delas assinada, mas conhecia muito bem a remetente. Convencera Mike a não revelar nada para a noiva. Emily não precisava ter mais aquela informação para assustá-la.
Rolou pela cama e abraçou a mulher que dormia, afastando aqueles pensamentos da cabeça. Sentindo o calor do corpo de Santana, Emily aninhou-se contra ela. A cantora inspirou o cheiro dos cabelos negros e sentiu a respiração falhar por um segundo. Ainda se assustava com a intensidade do amor que sentia por ela. Era algo que a deixava completamente vulnerável e a fortalecia, tudo ao mesmo tempo. Puxando Emily mais para si, Santana sussurrou em seu ouvido antes de adormecer novamente:
- Eu sempre vou te proteger, minha linda.
Nos dias que se seguiram, Emily e Santana não tocaram mais no assunto, mas, mesmo sem falar no nome de Jessie, as duas podiam sentir sua presença entre elas, crescendo como uma sombra e tomando conta de todos os espaços. Santana sentia que a noiva se afastava lentamente e não sabia o que fazer para impedir. Ou melhor, sabia, mas ainda não estava convencida disso.
Na quarta-feira seguinte, o café da manhã na casa das duas estava particularmente silencioso. Emily rechaçava as perguntas de Santana, dizendo que estava tudo bem, que era apenas cansaço do trabalho. E isso até poderia ser verdade, já que a jornalista chegava cada vez mais tarde em casa. Mas bastou um olhar para o semblante moreno para que a cantora percebesse que os olhos dela estavam carregados de dor. Aquela constatação esmagou o coração de Santana mais uma vez e ela decidiu que conversariam de novo quando voltasse da viagem.
- Você não quer mesmo me encontrar em Boston no fim de semana? Eu tenho o domingo livre e pensei que...
- Esse fim de semana eu não posso, San. Você sabe disso. É aniversário da Anna, lá do trabalho, e eu prometi que iria. Eu já quase não saio com o pessoal, então...
- Eu tinha esquecido. Tudo bem, a gente viaja outra hora.
- Quando você volta?
- Meu vôo está marcado para o domingo, mas vou pedir ao Mike para tentar conseguir algum outro no próprio sábado.
- Não vai ser muito corrido?
- Eu quero voltar logo para você.
Um sorriso débil brilhou no rosto de Emily e Santana aproveitou aquele momento para uma aproximação. Deu a volta na mesa, sentando-se no colo da jornalista e jogando os braços ao redor do seu pescoço. A morena pareceu surpresa com aquela demonstração de carinho, mas não rejeitou a noiva. “Isso deve ser um bom sinal”, pensou Santana antes de depositar um beijo rápido nos lábios de Emily.
- Eu amo você, Em. – Olhava dentro dos olhos castanhos com seriedade, colocando toda intensidade possível em cada palavra. Precisava que Emily entendesse.
- Eu também amo você, Santana.
Com a declaração, Santana sentiu os músculos dos ombros de Emily relaxando, enquanto ela pousava as mãos na cintura da cantora. Parecia que a jornalista tinha, finalmente, baixado a guarda e Santana decidiu aproveitar o momento para matar um pouco das saudades que sentia. Puxou a morena pela nuca e depositou mais um beijo em sua boca, agora com mais vontade. Emily apertou Santana pela cintura e retribuiu a carícia, abrindo os lábios e sentindo o sabor da língua da cantora. Não se beijavam assim há alguns dias e o corpo de Emily vibrava ao sentir o gosto dos lábios carnudos.
Santana não estava disposta a deixar aquele momento passar e deslizou as mãos pela lateral do corpo da noiva, memorizando suas curvas. Emily estava quase se entregando, quando uma imagem de Jessie atrás delas invadiu sua mente. Aquilo foi o bastante para que se afastasse da cantora de supetão, arfando e com o peito movendo-se rapidamente. Santana olhava para ela intrigada, não entendia o que tinha acontecido para Emily mudar de atitude tão rapidamente. Quando se aproximou mais uma vez para tentar retomar o que tinha sido interrompido, a jornalista deu um apertão em sua cintura, indicando que a aproximação não era mais bem-vinda.
- Eu preciso ir, San. Já estou atrasada.
A cantora levantou-se do colo de Emily, dando passagem para que a jornalista pegasse sua bolsa e saísse pela porta, sem olhar para a latina mais nenhuma vez. Santana pegou seu copo de suco e apoiou o corpo no balcão da cozinha, olhando para a porta da sala com um olhar perdido. Emily nunca tinha fugido dela daquela maneira. Precisava resolver aquela história. Logo.
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