A Second Chance

25 My life would suck without you


Emily abriu os olhos devagar, mas foi obrigada a fechá-los rapidamente. A luz forte do ambiente machucava suas retinas e ela tomou consciência de que sua cabeça latejava. A jornalista tentou virar o corpo para não encarar diretamente a fonte da luminosidade, mas sentiu cada músculo reclamar diante do movimento e desistiu. Respirando fundo, piscou os olhos algumas vezes até acostumar-se com a claridade e, por fim, conseguiu mantê-los abertos.

Quando conseguiu finalmente desviar o olhar do teto e da lâmpada que pendia, Emily notou que estava num quarto de hospital. Ao seu lado, monitores indicavam as mais variadas funções vitais e uma agulha permitia que o soro entrasse em suas veias. Não se lembrava de como tinha vindo parar ali. Sua última lembrança era de ter feito sinal para um táxi parar do lado de fora do bar onde comemorou o aniversário de Anna com os amigos do trabalho.

Será que tinha bebido tanto a ponto de precisar ser levada para o hospital? Tentou sacudir a cabeça para afastar aquele pensamento, mas isso só fez a dor aumentar. Agora parecia que até seus cabelos estavam sentindo dor.

Durante o movimento que tentou fazer, Emily pensou ter identificado uma forma humana perto de onde estava deitada. Ignorando todos os protestos de seu corpo, a morena virou o pescoço e encontrou Santana dormindo, enroscada nas próprias pernas, em cima de uma poltrona. Aquela posição não parecia nada confortável, mas Emily não quis interromper o sono da latina. Não tinha a menor ideia do horário e sabia que a cantora deveria estar cansada depois de uma semana de shows.

Santana tinha montado vigília do lado do leito de Emily desde o momento em que a jornalista fora trazida para o hospital. Sentia-se culpada e precisava estar ali quando a noiva abrisse os olhos. Mas o confronto com Jessie havia drenado suas forças e quando se recostou na poltrona, não resistiu e fechou as pálpebras só um pouquinho. Estava quase entrando num sono profundo quando pensou ter ouvido o próprio nome. Abriu os olhos num estalo e virou-se para a cama onde Emily deveria estar dormindo.

A visão que Santana teve foi o bastante para massacrar seu coração mais uma vez. A morena tinha os olhos fundos e uma expressão de dor no rosto. Olhava para Santana num misto de dúvida e vergonha, enquanto tubos e fios a conectavam aos equipamentos. Santana abriu um sorriso aliviado e levantou-se, caminhando em direção à cama. Usava sua voz mais doce para falar com a amada.

- Ei. Como você está se sentindo?

- Meu corpo todo dói. – A frase arranhou a garganta de Emily como se fosse feita de areia. – O que aconteceu?

- Você não se lembra de nada?

- A última coisa de que eu me lembro é de ter saído com o pessoal e ido pegar um táxi. Acho que eu bebi um pouco demais, né?

Um sorriso triste brotou no rosto de Emily e Santana precisou conter sua vontade de arrancar a jornalista dali, levá-la para casa e cuidar dela, sozinha, sem ninguém para atrapalhar. Ao invés disso, sorriu de volta e acariciou a face morena, que tinha perdido muito de sua coloração.

- Não, Em. Você foi dopada.

- Dopada? Como assim, San?

- A Jessie seguiu você até o bar e colocou alguma coisa na sua bebida. – Santana sentia a boca amargar apenas por pronunciar aquele nome. – Foi ela que te colocou no táxi, mas entrou com você para conseguir entrar na nossa casa.

Alguns flashes passaram diante dos olhos de Emily e ela começou a se lembrar de algumas coisas: Jessie falando com o vigia do condomínio, abrindo a porta da sua casa e a arrastando para dentro. Santana notou que ela devia estar se lembrando de algumas partes e se adiantou, segurando sua mão.

- Eu não acredito, San. – Virou o rosto para encarar a latina e notou, pela primeira vez, a bandagem que protegia uma parte do seu braço esquerdo. – O que aconteceu com você?

- Não foi nada, amor. O que importa é que você está bem.

- Não, San. Não me trata como se eu fosse uma criança. Eu quero saber. Eu preciso saber o que aconteceu. E eu preciso que você me conte.

Santana puxou a poltrona para mais perto da cama de Emily e tomou as mãos dela entre as suas. Precisou respirar fundo algumas vezes para poder iniciar um relato tão doloroso. Tinha certeza de que Emily era forte o bastante para ouvir aquilo, mas não sabia se ela mesma seria para reviver aqueles momentos mais uma vez.

- Quando eu cheguei em Nova York, eu liguei para você, como a gente tinha combinado. Mas como você não me atendeu, imaginei que já pudesse estar em casa e eu fui direto para lá. Eu estranhei o alarme desligado, mas entrei em casa mesmo assim. Da sala, eu podia ouvir o barulho do chuveiro e subi correndo para te fazer uma surpresa, mas quem ganhou a surpresa fui eu.

Um sorriso amargo brotou no rosto de Santana sem autorização ao se lembrar do momento em que viu a cara transtornada de Jessie pela primeira vez naquela noite. Seus olhos queimavam enquanto lutava contra as lágrimas que teimavam em aparecer. Agora que relembrava dos fatos acontecidos apenas algumas horas antes, a cantora tinha a impressão de que tinham acontecido em outra vida.

- Eu dei de cara com a Jessie. Ela estava completamente fora de si, falando como se a gente ainda estivesse namorando. Eu só conseguia perguntar por você e quando ela percebeu que eu não ia cair na lábia dela, ela partiu para cima de mim com uma faca. Eu não sabia onde você estava, mas eu precisava ligar para a polícia, então eu corri para a escada.

O olhar de Emily alternava entre incredulidade e medo. Tudo o que Santana mais queria naquele momento era arrancar aqueles sentimentos do coração da noiva, mas sabia que isso era uma coisa que só ela poderia fazer. Entrelaçaram os dedos, como que querendo dar forças uma para a outra, e a latina continuou seu triste relato.

- Eu consegui pegar o meu celular e me escondi no banheiro para poder ligar para a polícia. O atendente recomendou que eu ficasse ali e é o que eu pretendia fazer, mas quando ela ameaçou ir atrás de você, Em, eu não consegui mais raciocinar. Eu não sabia o que fazer, mas não podia deixar ela fazer nada contra você.

Àquela altura, Santana já tinha deixado de lutar contra o choro que se formava em sua garganta e as lágrimas corriam soltas, deixando um rastro molhado pelo rosto moreno. Emily estendeu a mão para secar a bochecha da cantora e deixou que a mão ficasse em sua face um pouco mais. Podia ver como a latina estava sofrendo com o que tinha acontecido.

- Mas, mesmo depois de eu ter saído do banheiro, ela continuou ameaçando ir atrás de você. Eu não podia deixar isso acontecer, não podia. Então eu a joguei no chão e foi quando ela me cortou no braço. – Apontou para a bandagem apertada. – Mas não foi nada sério. Nem precisei levar pontos.

Emily deixou as últimas palavras de Santana evaporarem no ar. Tinha milhares de perguntas perambulando pela cabeça, mas não sabia por qual delas começar. Preferiu voltar para os acontecimentos daquela noite e quando, finalmente, falou, a voz saiu rouca, agarrada à garganta.

- E o que aconteceu com ela?

- A polícia chegou bem nessa hora e a levou para a delegacia. Eles queriam que eu fosse junto, mas eu precisava ficar com você. Eu precisava ter certeza de que você está bem. Eu não podia...

- Está tudo bem, San. Eu estou bem.

- Você não entende, Em. Quando eu abri a porta do seu escritório e encontrei você desmaiada no chão, amarrada, eu senti como se tivessem tirado o chão de debaixo dos meus pés. – Emily notou pela primeira vez as marcas roxas que circundavam seus pulsos. – Eu nunca me perdoaria se algo tivesse acontecido a você por causa da minha teimosia. Você é a coisa mais importante da minha vida, Em. E eu prometo que não vou deixar mais ninguém machucar você.

A jornalista estendeu o braço para a cantora e afastou-se para o lado da cama, num convite silencioso. Santana abriu um sorriso tímido e aceitou o chamado. Deitaram-se juntas no leito apertado e a cantora enlaçou fortemente o corpo da outra, que lhe parecia tão frágil. As duas mulheres deram vazão à gama de sentimentos confusos que tomavam seus corações naquele momento e as lágrimas delas se confundiram quando Santana tocou os lábios de Emily com os seus em um beijo rápido.

- Você não teve culpa, San.

- Mas se eu tivesse...

- Santana, foi a Jessie que fez isso, não você.

- Eu sei, mas... – A voz da latina era apenas um fio de som e não sentia muita credibilidade em suas respostas.

- San, você precisa se perdoar. Não há nada que você pudesse ter feito de diferente. E pelo que eu pude perceber, você me salvou. Pensa só nisso, por favor.

Procurou os lábios da cantora com os seus, selando aquele pedido com um beijo. Ainda conseguia sentir o sal das lágrimas de Santana em seu rosto e sorriu contra a boca carnuda. Separaram-se e Emily aninhou o corpo nos braços da latina. Os medicamentos que entravam em seu corpo pelas gotas de soro começavam a fazer efeito e suas pálpebras pesavam terrivelmente.

Mas antes de dormir, ainda precisava que Santana entendesse uma coisa importante. Entrelaçou seus dedos com os delas e mirou fundo dentro dos olhos castanhos. Nesse momento, sentiu a voz falhar novamente. Nunca tinha visto tanta dor no olhar da cantora.

- San, eu te amo. E eu sei que o que aconteceu não foi culpa sua. Eu não te culpo e não posso permitir que você se culpe.

Santana apertou ainda mais aquele abraço e Emily escondeu o rosto na curva do pescoço da latina.

- Eu também amo você, Em.

Mas a jornalista já tinha dormido e não ouviu a declaração.

***

Depois de passar o resto da noite em observação, Emily teve alta na manhã seguinte e Santana não via a hora de tirar a noiva daquele lugar. Apesar de ser filha de médico, a cantora nunca fora muito fã de hospitais.

Depois de ajudar a jornalista a trocar o avental por uma muda de roupa que Mike havia trazido, Santana verificava se tinham pego tudo antes que pudessem sair dali. Emily estava apoiada na cama, quando a porta do quarto se abriu. A cantora achou que fosse mais uma enfermeira e nem se deu ao trabalho de olhar para trás.

- Emily!

Pam Fields nem esperou a porta fechar para correr em direção à filha. Antes que Emily pudesse dizer qualquer coisa, a mulher segurou seu rosto entre as mãos e examinou seu corpo, como se procurasse algum ferimento que a equipe médica não tinha sido capaz de encontrar.

- Mãe, eu estou bem. Mesmo.

- Não liga, filha. A sua mãe está inquieta desde que a Santana ligou para a gente para falar o que tinha acontecido.

- E eu não tenho motivos para isso? Uma louca dopa a minha filha, ameaça a vida dela e você quer que eu faça o quê? Ache graça?

Quem estava achando graça daquilo era Emily. Depois de tanto tempo morando longe dos pais, tinha se esquecido de como a mãe podia ser intensa. Pensava nisso quando ouviu um barulho às suas costas. Santana tinha terminado de arrumar as coisas das duas e se virava para encarar a cena familiar. Parecia que era a primeira vez que os pais de Emily notavam a presença da cantora no ambiente.

- Tudo pronto, Em. Quando você estiver pronta, podemos ir. – Santana olhava atentamente para o rosto da noiva. Não sabia como ela se sentiria com a presença dos pais ali, naquele momento. – Pam, Ryan, como estão?

- Oi, Santana.

- Ir para onde, Emily? – Pam continuava ignorando Santana, voltando todas as suas atenções para a filha.

- Para a minha casa, mãe. Onde mais?

- Pensei que você pudesse querer passar um tempo com a gente, em Rosewood. Assim eu posso cuidar direitinho de você.

- Mãe, a minha casa é aqui, agora. E é para lá que eu quero ir. – Estendeu uma das mãos para Santana, que a tomou, entrelaçando seus dedos.

- Mas você não deve ficar sozinha e com os horários da Santana...

- Eu já desmarquei todos os meus compromissos das próximas duas semanas, Pam. A minha prioridade é, e sempre foi, a minha família. E isso significa a Emily.

Emily sentiu as lágrimas voltando a seus olhos diante da demonstração de Santana. Sabia que a mãe podia ser intimidadora para algumas namoradas, e aquelas duas não haviam se dado muito bem da primeira vez que se conheceram, mas a cantora não parecia disposta a recuar agora. Emily e Santana trocaram um olhar cúmplice e a latina colocou um braço protetor ao redor da cintura da jornalista. Pam abriu os lábios para responder a cantora, mas Emily pressentiu que aquilo não ia terminar bem e interveio.

- Pai, mãe, por que vocês não passam uns dias com a gente? Vocês já estão aqui mesmo.

- Claro, minha filha. Eu e sua mãe vamos adorar.

E, assim, a terceira guerra mundial, entre Santana Lopez e Pam Fields, foi evitada.