A Second Chance
26 I say a little prayer
Notas iniciais
Santana sentiu um arrepio na espinha ao cruzar novamente a porta de casa. Todas as cenas da noite anterior passavam pela cabeça da cantora quando sentiu um apertão de leve em sua mão. Olhou para o lado e recebeu um sorriso de encorajamento de Emily. A cantora aproximou o rosto da morena, depositando um beijo em seu ombro. “Era eu quem devia estar dando apoio para ela e não ao contrário”, pensou antes de continuar caminhando.
- Querida, você quer alguma coisa? Uma água?
- Não, mãe. Eu estou bem. Acho que preciso de um banho e dormir um pouquinho.
- Claro, claro.
Emily já estava com um dos pés no primeiro degrau da escada, mas estacou. Apoiando uma das mãos no corrimão, virou-se para trás e estendeu a mão livre para a noiva.
- Vem comigo, San?
A cantora respondeu com um sorriso e tomou a mão que lhe era oferecida. Subiram as escadas de mãos dadas, com a cabeça da jornalista apoiada no ombro de Santana. Ela até podia não se lembrar do que tinha acontecido ali apenas algumas horas antes, mas, a cada passo, uma nova imagem invadia a mente da latina. Via Jessie saindo do banheiro, brandindo uma faca em sua direção. Mas, principalmente, via os olhos vazios da mulher.
As lembranças eram tão fortes que Santana nem percebeu que já estavam na suíte principal. Sentou-se na cama de casal e, enquanto Emily se encaminhava para o banheiro, olhou ao seu redor. Não havia nem sinal do que tinha acontecido. Mike prometera que cuidaria de tudo e cumpriu a promessa.
- Acho que eu posso precisar de ajuda no banho, San. Não quer me acompanhar?
Emily tinha apenas a cabeça aparecendo pela porta do banheiro, um sorriso travesso brincava em seus lábios, os cabelos negros presos em um coque bagunçado. Antes que Santana pudesse responder, a jornalista puxou a cabeça de volta para o banheiro e a cantora pôde ouvir a água caindo do chuveiro. Aquele som lhe lembrou de como ela mesma também precisava de um banho e a ideia de água quente caindo em seus músculos cansados parecia muito tentadora naquele momento.
Livrou-se das roupas no quarto mesmo e quando se juntou a Emily no box, a morena estava de costas para a porta, terminando de enxaguar os longos cabelos. Enlaçando o corpo delgado pela cintura, Santana deixou que o líquido morno escorresse pelo seu corpo, levando embora o cansaço, a dor e a tristeza. Emily sentiu o aperto de Santana aumentar e se virou para olhar a noiva.
Santana tinha os olhos fechados e, mesmo com água caindo pelo rosto, era possível perceber que estava chorando em silêncio. Emily abraçou a latina pelo pescoço e apertou o corpo dela contra o seu. Diante daquela proximidade, Santana deixou as lágrimas que vinha segurando desde a noite passada chegarem com toda a intensidade. Soluçava e se agarrava ao corpo de Emily como se dependesse dele para sobreviver. E, naquele momento, dependia. Mais do que qualquer outra coisa no mundo.
Emily também chorava. Só naquele instante se deu conta da gravidade do que tinha acontecido e do quão perto chegara de perder Santana mais uma vez. A força da realidade a atingiu como um soco no estômago e ela deixou que suas defesas caíssem por terra.
As duas ficaram abraçadas daquele jeito por um longo tempo, até que finalmente Santana afastou-se um pouco para poder olhar no fundo dos olhos de Emily. Não sabia o que dizer. Perdão parecia muito pouco. Obrigada, menos ainda. E eu te amo nem começava a descrever a força dos seus sentimentos. Resolveu, então, falar na única língua em que conseguia traduzir o que se passava em seu coração. Emily leu a intensidade nos olhos de Santana e, antes que a cantora pudesse puxá-la, ela apertou com mais força a nuca da latina e procurou os lábios carnudos com os seus.
O beijo era sôfrego, desesperado. Era uma declaração, não uma carícia. Queriam extrair dali o próprio oxigênio de que precisavam para viver. Queriam que a outra tivesse plena certeza de seus sentimentos, sem espaço para dúvidas. Queriam ter algo de que se lembrar. Queriam ter algo em que se agarrar.
Quando finalmente precisaram buscar por ar, deixaram as testas coladas por mais um momento. Não queriam quebrar o contato, mas não podiam ficar debaixo do chuveiro para sempre. Terminaram o banho, cada uma ajudando a lavar o corpo da outra.
Por fim, foram para a cama. Nem se preocuparam em vestir roupas. Apenas secaram levemente a pele e entraram debaixo das cobertas. Tinham uma necessidade quase física de sentir o calor do corpo da outra, como se isso provasse que estavam vivas. E juntas.
Santana esticou o braço para que Emily deitasse, enlaçando a jornalista pela cintura mais uma vez, moldando se corpo às costas morenas. O toque da pele de Santana fez a musculatura de Emily relaxar um pouco e ela soltou um suspiro de alívio. A cantora tinha o rosto colado à nuca da noiva e sorriu ao ouvir aquele som. De alguma maneira, sabia que ficariam bem.
- Eu te amo tanto, Em. Tanto. – A voz era pouco mais que um gemido.
- Eu sei, San. – Respondeu, entrelaçando seus dedos aos que Santana mantinha firmemente em seu abdômen. – Eu também te amo.
***
Santana não conseguiu dormir. Cada célula do seu corpo pedia por descanso, mas a sua cabeça não conseguia obedecer. Acabou por velar novamente o sono de Emily, sentindo seu calor e quase acreditando que o pesadelo tinha acabado.
A jornalista tinha se virado de frente para Santana, que tinha um dos cotovelos apoiados na cama e sustentava a cabeça com a mão. O outro braço repousava nas costas de Emily, fazendo movimentos circulares ao longo de sua espinha. Podia sentir a respiração suave em seu pescoço e aquilo fazia com que se tranqüilizasse um pouco.
Pela janela do quarto era possível perceber que o dia já cedia espaço para a noite, mas um fiapo de luminosidade ainda invadia o cômodo. Santana olhou para o rosto de Emily de novo e, dessa vez, deparou-se com as íris castanhas a encarando de volta. Sorriu o seu sorriso mais terno para a jornalista e depositou um beijo em sua testa.
- Acho que a sua mãe está fazendo jantar.
O barulho de panelas se chocando no andar debaixo chegava até o quarto das duas, tirando-as do mundo particular que haviam construído nas últimas horas. Emily passou um dos braços pela cintura de Santana, imitando os carinhos que recebia em suas costas. Ainda não estava pronta para sair daquele casulo. Ficaram alguns minutos numa longa contemplação, sorrindo com os olhos, sentindo com cada centímetro de pele. Até que tiveram certeza de que a vida havia voltado ao seu rumo normal. Saíram da cama, vestiram alguma coisa adequada e se juntaram aos pais de Emily.
O jantar havia sido tranqüilo e Santana pôde se certificar de duas coisas: Pam Fields ainda era uma excelente cozinheira e aqueles pais ainda não tinham perdoado a cantora pelo fim do seu relacionamento com Emily quase 11 anos atrás. Não sabia como reagir àquele conhecimento, mas teve certeza de que precisariam resolver aquilo logo.
O confronto não tardou em acontecer. Logo após a refeição, Emily resolveu voltar para o quarto. Ainda estava um pouco sob efeito dos remédios que tomara no hospital e suas pálpebras pareciam ter vontade própria. Santana acompanhou a jornalista até o quarto e depois de instalá-la confortavelmente na cama, foi para o seu escritório. Não tinha cabeça para trabalhar em nada naquele momento, mas não estava com ânimo para fazer sala para os sogros que não a suportavam.
Algumas horas depois sentiu a garganta seca e percebeu que não tinha bebido quase nada até aquele momento. Decidindo que não podia ser refém em sua própria casa, desceu as escadas e foi até a cozinha. O resto da casa estava em silêncio e achou que talvez pudesse fazer o trajeto de volta sem encontrar ninguém.
Colocava o copo na pia quando ouviu passos às suas costas. Como sabia que não pertenciam a Emily, demorou-se alguns segundos a mais antes de virar-se. Ryan percebeu a hesitação da cantora e decidiu que o melhor era ele tomar a iniciativa.
- Eu gostaria de conversar com você, Santana.
Ao ouvir a voz grave, a cantora virou o corpo e encontrou o ex-militar parado, apoiado no balcão que ficava no meio da cozinha. Mesmo depois de tanto tempo na reserva, ele ainda parecia usar a farda por baixo da roupa. Tinha o rosto cansado e um olhar preocupado. Santana não sabia que rumo aquela conversa tomaria, mas era melhor que a tivessem logo.
- Claro, Ryan. Vamos sentar na varanda.
Sogro e nora caminharam lado a lado, num silêncio desconfortável, cada qual perdido em seus pensamentos. Santana ocupou um sofá confortável, jogando as pernas para cima do assento vago, e Ryan preferiu uma poltrona, mantendo os joelhos juntos e as costas eretas.
- Pode falar, Ryan. Sou toda ouvidos. – Pôde ouvir a pontada de cinismo em sua própria voz e se censurou. Aquela não era a melhor maneira de começar uma conversa com o pai da sua futura esposa.
- Olha, Santana, em primeiro lugar, eu queria pedir desculpas pelo comportamento da Pam hoje, no hospital.
- Ela só estava sendo mãe. Eu entendo.
- Sim, mas ela precisa entender que a Emily não é mais uma menininha. Ela é uma mulher, capaz de tomar suas próprias decisões.
- E algo me diz que vocês não concordam com algumas decisões dela.
- Eu não vou mentir para você. Quando ela nos contou que vocês duas tinham reatado e que ela iria morar com você em Nova York, nós não gostamos da ideia. – Falava lentamente, escolhendo as palavras certas. – Depois do que aconteceu quando vocês se separaram da outra vez, é compreensível que a gente ficasse com o pé atrás.
O militar deixou que um breve silêncio finalizasse aquela frase por ele. Os dois aproveitaram o momento para se lembrar de acontecimentos de mais de uma década.
- E nós continuamos temerosos por esse relacionamento, por ver a nossa filha pular de cabeça tão rápido em algo que já a havia magoado tanto no passado.
- Ryan, eu...
- Deixa eu terminar, Santana. Por favor. – O tom de voz do homem deixou claro para Santana que aquela conversa era difícil para ele. – Mas, então, nós recebemos aquela sua ligação ontem e a sua voz mostrava toda a sua preocupação com a minha filha, como se o sofrimento dela fosse o seu. E eu vi a maneira como você olha para ela e como ela se apóia em você. É nítido que ela te ama muito. E que esse sentimento é recíproco.
Santana não sabia o que dizer. Desde o jantar sabia que precisaria conversar com eles, mas, em nenhum dos cenários que inventou, a conversa seguia por aquele caminho.
- E é por causa desse amor que eu testemunhei hoje, que eu estou disposto a esquecer como você a fez sofrer no passado. Você faz a minha filha feliz e é só isso que importa. Mais nada.
- Obrigada, Ryan. Isso significa muito para mim e tenho certeza que para a Em também.
- Não precisa agradecer, Santana. – Ryan levantou-se e caminhou em direção à porta que dava para o interior da casa. Na soleira parou e olhou mais uma vez para a cantora. – Só não a machuque de novo. Se não, eu não respondo por mim.
Santana ainda permaneceu na varanda por um tempo, colocando os pensamentos em ordem, esperando que o cansaço vencesse aquela sensação de vigília e conseguisse, finalmente, dormir. Relembrava todos os acontecimentos que as levaram até àquela situação. No dia seguinte teria que ir até a delegacia prestar depoimento e queria se lembrar de cada detalhe. Jessie já havia contado toda a história, mas ainda assim seria ouvida. Agradeceu por Emily ter sido poupada dessa tortura por mais um dia.
Quando o sono finalmente dominou seu cérebro como uma droga, refez o caminho até o quarto em que deixara Emily dormindo e encontrou a jornalista abraçada ao travesseiro. Não ousou acender a luz para trocar de roupa e esgueirou-se para dentro das cobertas o mais suavemente que conseguiu. Emily não despertou, mas procurou o corpo de Santana. Até dormindo, precisavam da presença uma da outra. A cantora inalou o cheiro dos cabelos negros e, antes de adormecer, lembrou-se de um hábito de infância e fez uma pequena prece em silêncio. Sentia que tinha muito o que agradecer e aquele parecia ser o momento ideal.
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