A Second Chance
24 If I can't have you
O toque do celular despertou Emily. Era sábado à tarde e ela havia deitado no sofá da sala para assistir a um filme, mas acabou adormecendo. Não tinha descansado bem nas últimas noites, sem a presença de Santana na enorme cama de casal. Esticou um braço preguiçosamente para pegar o celular na mesa de centro e sorriu quando viu a imagem da cantora fazendo uma careta – tinha tirado aquela foto na primeira semana que passaram juntas em Nova York. Sentia-se mal por ter deixado a noiva viajar sem uma despedida apropriada e pretendia compensá-la quando voltasse. Não estava disposta a deixar que Jessie ficasse entre as duas. Ainda sorria quando finalmente aceitou a ligação.
- Oi, amor.
- Oi, Em. Como estão as coisas aí em casa?
- Tudo na mesma. E por aí?
- Corrido, mas bem. O show de ontem foi incrível. Completamente lotado.
- Que bom, amor. Fico feliz. – Tentou sufocar um bocejo com a mão, mas não teve muito sucesso.
- Emily Fields, que voz de sono é essa?
- Eu estava cochilando quando você ligou.
- A essa hora da tarde? Não tinha nada melhor para fazer?
- Não com você em outro estado. – As duas partilharam uma risada e tiveram a certeza de que ainda estavam bem. – E eu não dormi bem essa noite, mas preciso ficar acordada para o aniversário da Anna.
- Verdade. Escuta, até que horas você deve ficar nesse aniversário?
- Não sei. Vai ser naquele bar novo que abriu, mas eu não sei a que horas ele fecha. Por quê?
- Porque eu consegui mudar o meu vôo para essa noite. Então, se der tempo, pensei em dar uma passada por lá.
- Será que você não vai estar muita cansada?
- Para encontrar com a minha noiva linda num bar e depois levá-la para casa? Nunca!
Emily sorriu diante da resposta sincera. Santana, às vezes, tentava esconder, mas no fundo não passava de uma romântica.
- Faz o seguinte: quando o avião pousar, você me liga e a gente vê o que faz.
- Combinado. Até mais tarde. Te amo.
- Também te amo.
***
Quando Emily chegou, o bar já estava lotado. Precisou desviar de algumas cadeiras para encontrar o grupo de amigos, que ocupava uma enorme mesa no fundo do salão. Pendurou seu melhor sorriso no rosto e caminhou em direção a eles. Tentaria fazer o máximo possível para se divertir com os novos amigos.
A aniversariante se levantou para receber a recém-chegada e trocaram as palavras normais para esses momentos. Emily cumprimentou o restante dos amigos com um aceno coletivo e ocupou uma das últimas cadeiras vazias, na ponta da mesa, quase colada ao grupo ao lado.
Apesar dos problemas da última semana, estava conseguindo se divertir. A equipe da revista era animada e eles estavam fazendo com que Emily se esquecesse de todo o drama com Jessie por alguns momentos. A conversa estava tão interessante que a jornalista nem percebeu quando o grupo que se sentava à mesa ao lado foi substituído por uma única mulher, que dava as costas para o bando barulhento que comemorava o aniversário de Anna.
Ao esticar a mão para tomar um gole da sua sexta caneca de cerveja, Emily agarrou apenas o ar. Tirando os olhos do amigo que contava uma história sobre sua época de faculdade, notou que a caneca estava mais para a ponta da mesa do que achou que tivesse colocado. Ignorou aquilo, achando que já era efeito do álcool, e ingeriu o líquido amargo.
Lá pela sétima caneca, o grupo decidiu terminar a noite numa boate perto dali. Como Emily já estava se sentindo um pouco tonta, achou que era melhor ir para casa. Despediu-se dos amigos na porta do bar e se afastou para chamar um táxi. Estava quase chegando à beira da calçada quando sentiu a visão escurecer e teve a sensação de que a rotação do mundo tinha acelerado muito. Sacudiu a cabeça tentando recobrar um pouco de sobriedade, apenas o suficiente para chegar até seu condomínio.
Quando finalmente avistou um veículo amarelo no horizonte, Emily sentiu novamente os efeitos da tontura, dessa vez mais fortes. Precisou apoiar-se num poste para manter-se de pé e começou a estranhar aquelas sensações. Não tinha bebido tanto para se sentir assim. Mas isso não importava mais. O táxi já estava perto e logo ela estaria em casa.
Num outro ponto da cidade, Santana desembarcava do último vôo de Boston para Nova York. Era início da madrugada e o rosto da cantora denunciava o esforço que tinha feito para sair da apresentação direto para o aeroporto. Mas aquela situação com Emily a estava deixando muito incomodada e não via a hora de chegar em casa e fazer as pazes com a noiva. Mesmo que nenhuma briga real houvesse acontecido.
Antes mesmo de chegar à esteira que cuspia as bagagens dos passageiros exaustos, Santana já tinha o celular colado ao ouvido, tentando falar com Emily. Do outro lado, nenhuma resposta. Como sabia que a noiva estaria num bar com os amigos, Santana imaginou que ela não tivesse ouvido a ligação e não esquentou muito com aquilo. Decidiu que iria direto para casa e esperaria por Emily na cama – isso, se conseguisse ficar acordada até lá.
Encontrou o motorista que a aguardava e permitiu que o homem carregasse sua bagagem até o carro preto. Confirmou que queria ir direto para casa e deixou a cabeça pender para trás, aliviando um pouco do desconforto que sentia no pescoço. Fechou os olhos por um segundo, deixando que a imagem de Emily se formasse no fundo de suas retinas. Era capaz de qualquer coisa por aquela mulher, até mesmo abrir mão de um pouco de sua liberdade.
A cantora se assustou quando o motorista a chamou, avisando que já estavam na porta de casa. Imaginou que devia ter cochilado um pouco durante o trajeto, confirmando aquela sensação com um bocejo incontrolável. Saiu do carro e caminhou em direção à porta da frente. Estranhou o fato de o alarme não ter sido ativado – Emily era tão cuidadosa com aquilo –, mas achou que a noiva pudesse ter esquecido.
Fechou a porta atrás de si e percebeu que o chuveiro do andar de cima estava funcionando. Cerrou os olhos e respirou fundo, visualizando o corpo nu da jornalista embaixo do jato d’água. Sentiu uma vibração no abdômen e precisou sacudir a cabeça para que conseguisse se movimentar novamente. Aquela briga já estava fazendo a cantora subir pelas paredes. Um sorriso sacana nasceu em seu rosto quando se dirigiu para as escadas. Imaginou que aquele seria um bom momento para reencontrar a sua amada.
A porta da suíte não estava fechada direito e Santana a abriu sem fazer barulho. A única luz do ambiente vinha da iluminação do banheiro, que vazava por debaixo da porta. Santana caminhou sorrateiramente, abrindo a segunda porta em silêncio. Ficou parada por alguns segundos, observando a silhueta feminina do outro lado do box. Como o material que separava o chuveiro do restante do banheiro era bastante opaco, a cantora não podia realmente enxergar muita coisa, mas a sua imaginação estava fazendo um ótimo trabalho preenchendo as lacunas.
Cansada de toda aquela espera, Santana abriu a porta. Tinha os olhos fechados e inspirava profundamente, inalando aquela mistura de cheiros e vapor.
- Oi, amor. Você demorou.
Aquela voz. Não era Emily que falava com ela. Conhecia aquela voz. Abriu os olhos como se tivesse levado um choque. Mas não precisava enxergar a mulher a sua frente para reconhecer a dona da voz que falava com ela: Jessie.
- O que você está fazendo aqui, Jessie? Como você entrou na minha casa?
- Nossa casa, você quer dizer.
- Não, Jessie. Essa é a minha casa. Como você entrou aqui?
- O segurança foi um querido inserindo o código dele no alarme, já que a sua amiguinha não tinha condições.
- Eu quero que você saia daqui imediatamente – disparou ao mesmo tempo em que fazia uma anotação mental para ter uma conversa com o responsável pela segurança do condomínio.
Santana havia recuado alguns passos, desorientada e sem saber o que fazer diante daquela invasão. Aproveitando o espaço, Jessie desligou o chuveiro e caminhou para fora do box calmamente.
- Isso é jeito de falar comigo depois de tanto tempo, Santana? Você costumava ser mais romântica.
- Quando eu tinha motivos para isso. Onde está a Emily?
- Quem se importa com aquela idiota? O que importa é que nós estamos juntas novamente, meu amor.
A cada palavra Jessie avançava mais em direção à cantora. Santana já havia controlado um pouco os seus sentimentos e agora procurava se lembrar onde tinha deixado a bolsa com seu celular. A lembrança a atingiu como um raio. Tinha abandonado tudo no andar debaixo quando correu para encontrar quem ela pensava que fosse Emily. Agora precisava dar um jeito de chegar até lá e ligar para alguém. Respirou fundo e controlou a voz antes de responder.
- Eu me importo, Jessie. Ela é a minha noiva e eu vou me casar com ela.
- Santana, será que você não enxerga? O seu lugar é comigo. É comigo que você tem que ficar.
- Jessie, eu amo a Emily e nada do que você faça vai mudar isso.
Aquela última frase acendeu uma chama de raiva nos olhos de Jessie. Quando o olhar de Santana encontrou as chamas no olhar da outra, pela primeira vez desde que toda aquela história tinha começado, teve medo. A pessoa que estava na sua frente era uma completa estranha e ela parecia capaz de qualquer coisa.
- É uma pena que você pense assim, meu amor. – A voz era doce, mas Santana percebeu um tom maldoso disfarçado. – Porque se você não ficar comigo, não vai ficar com mais ninguém.
- É? E o que você vai fazer, hein? – O objetivo de Santana era fazer com que Jessie se concentrasse em suas palavras e não no fato de que caminhava de costas em direção à porta. – Me amarrar no pé da cama?
- Eu pensei numa coisa um pouco mais simples.
Santana viu um sorriso perverso surgir no rosto que um dia amou e se assustou, tropeçando na cama e caindo de costas no colchão. Quando ergueu o rosto para se levantar, Jessie corria em sua direção, com uma faca em punhos. Tudo o que Santana pôde fazer foi rolar na cama para escapar do ataque, mas foi detida por um puxão em seus cabelos.
De alguma maneira, Jessie conseguiu ficar por cima de Santana e ergueu a lâmina acima de sua cabeça e mirou o lado esquerdo do peito da cantora. Relembrando-se do seu passado em Lima Heights Adjacent, a latina desviou o ataque e empurrou a mulher para longe ao mesmo tempo. Aproveitando essa pequena vitória, disparou em direção à porta. Precisava chegar até um telefone.
Ao pisar no primeiro degrau da escada, lembrou-se de Emily. Ainda não tinha visto a noiva e não sabia como ela estava. Depois de ver do que Jessie era capaz, temeu pela vida da pessoa que mais amava, mas continuou correndo em direção ao primeiro andar. Sabia que a melhor chance que tinham era se conseguisse ligar logo para a polícia.
Ao terminar de descer as escadas, ouviu passos acima de sua cabeça e virou-se, vendo que Jessie descia atrás dela. “Pelo menos ela não está indo atrás da Em”, pensou enquanto avistava a bolsa largada ao lado da porta. Agarrou a alça e procurou um lugar para se esconder. Jessie já estava no primeiro andar quando Santana trancou a porta do lavabo.
Os dedos da cantora estavam trêmulos enquanto discava os três números que podiam significar a sua segurança. Do outro lado da porta, podia ouvir Jessie gritando seu nome como se aquela fosse uma brincadeira perversa de pique-esconde.
Um clique indicou que alguém havia atendido a sua ligação e Santana não esperou que o atendente falasse primeiro.
- Entraram na minha casa. Você precisa mandar alguém urgente.
O medo em sua voz era evidente enquanto recitava o endereço e descrevia a situação para o atendente do outro lado da linha. Recebeu a recomendação de não desligar o telefone e não sair do banheiro. Era o que pretendia fazer, até a nova ameaça de Jessie.
- San, se você não aparecer para a gente brincar, eu vou ser obrigada a procurar a sua querida noivinha. Ela estava bem mais divertida.
Uma espécie de corrente elétrica percorreu a espinha da cantora ao ouvir aquela ameaça. Ignorando os conselhos do operador da linha de emergência, apoiou o telefone na pia e destrancou a porta. Respirou fundo e reuniu o máximo de calma e coragem que conseguiu antes de voltar para a sala. Precisava fazer isso. Pela Emily.
- Eu estou aqui, Jessie. Você não precisa fazer nada com a Em.
- Ah, que bonitinho, ela está defendendo aquela mestiça. Mas agora você não precisa mais se preocupar com ela, San. Eu estou aqui. Eu voltei para a gente ficar junto.
Santana não conseguia identificar as emoções da ex-namorada em sua voz e isso a deixava ainda mais preocupada.
- Jessie, você tem que entender que eu estou com a Emily, agora. Por favor. – Procurava manter a voz calma. Não queria que a outra mulher tivesse um acesso de raiva.
- Mas eu sou o amor da sua vida, San. Você sabe disso. E agora a gente pode viver a nossa história.
- Jessie... – A cantora tentou argumentar, mas Jessie parecia ter mergulhado em um mundo só dela.
- De repente alugar uma casa num lago durante o verão. Eu já te falei sobre o verão que eu passei no lago com os meus pais? Que besteira, claro que eu já falei. E quando a gente tiver os nossos filhos, a gente pode se mudar para outra casa, com um quintal enorme para eles brincarem. A minha mãe já falou que faz questão de vir nos ajudar no começo. Não é incrível? A gente pode ser uma família de verdade, San.
Santana mantinha os olhos fixos em Jessie, mas prestava atenção aos barulhos que aconteciam do lado de fora da casa. Esperava que a polícia chegasse logo. Não sabia por mais quanto tempo conseguiria controlar a ex.
- Mas, antes, eu preciso resolver um probleminha com aquelazinha lá em cima. – Quase cuspiu as palavras, com nojo, e deu as costas para Santana, encaminhando-se para a escada.
- Jessie, espera.
- O que foi, Santana?
- Me conta um pouco mais sobre essa casa no lago. – Era uma tentativa desesperada de manter Jessie longe de Emily.
- A gente vai ter muito tempo para falar sobre isso. Antes eu preciso resolver esse probleminha lá em cima.
Quando a mulher virou as costas novamente, toda a racionalidade de Santana foi para o espaço. Novamente seu corpo foi tomado por aquela fúria que aprendera em Ohio e ela saiu em disparada, se jogando em cima de Jessie. A mulher foi pega de surpresa e caiu no chão, mas não largou a faca que ainda carregava.
Do lado de fora, o barulho de sirenes começava a se intensificar e Santana desviou sua atenção de Jessie para olhar pela janela da sala. Nesse momento, sentiu uma ardência forte no braço. Olhou para a região e podia ver o sangue manchando a blusa branca. Jessie olhava assustada para o corte, como se, de repente, tivesse recobrado a consciência. Santana aproveitou aquele instante de distração para tomar-lhe a faca.
Segundos depois, os policiais arrombaram a porta da frente e encontraram duas mulheres sentadas no chão, com uma faca de cozinha entre elas. Uma tinha um corte feio no braço esquerdo e a outra tinha os olhos vazios e murmurava coisas sem sentido.
Um sargento reconheceu a cantora e ofereceu uma das mãos para que ela se levantasse. O olhar do homem estava carregado de perguntas, mas antes que elas pudessem ser verbalizadas, Santana deu-se conta de que ainda precisava fazer uma coisa.
Livrou-se do contato com o homem, correndo em direção à escada. Apenas um pensamento passava em sua cabeça. Apenas um desejo existia em seu coração. Apenas um grito ecoava em seu peito.
- Emily!
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