A Second Chance

27 I'm still standing


Notas iniciais
Bom, gente, estamos entrando na reta final da história. Além desse, tem mais um capítulo e o epílogo.
Espero que vocês gostem do meu desfecho para Santana e Emily.

A delegacia estava vazia. Era domingo de manhã e até os crimes da cidade pareciam ainda estar dormindo. Santana tinha preferido dar o seu depoimento logo no primeiro horário, não via a hora de se ver livre daquele pesadelo.

Mike e o advogado acompanhavam a cantora, que caminhava de cabeça baixa em direção à saída. Tinha passado as últimas duas horas relembrando e contando a história que mais machucava seu coração e, agora, parecia cansada. Escondia os olhos fundos por trás dos óculos escuros e Mike tinha a mão em suas costas, guiando-a para o elevador.

Quando achava que conseguiria sair incólume daquele ambiente, ouviu uma voz chamando por seu nome. Achou que nunca mais ouviria aquele timbre familiar e nem precisou se virar para reconhecer que era Simone quem a chamava.

Simone achou que talvez a cantora não tivesse ouvido, já que não deu nenhuma indicação disso, e caminhou até ela. Precisava conversar algumas coisas com Santana e sabia que aquela poderia ser sua última oportunidade. Acelerou o passo e colocou uma das mãos no ombro da latina.

- Como está a Emily?

As lentes escuras escondiam o fogo nos olhos de Santana. Como aquela mulher tinha coragem de lhe procurar depois de tudo o que aprontara? A vontade da cantora era de agarrar o pescoço de Simone, mas, lembrando-se de que estava em uma delegacia, achou melhor segurar seus instintos.

- O que você quer, Simone? Que eu livre a cara da sua amiguinha? – Dor e ódio se misturavam na voz da cantora.

- Não é nada disso, San, e você sabe. Quando eu soube o que tinha acontecido, eu fiquei preocupada com vocês.

Simone conhecia Santana muito bem para saber que a cantora não devia estar acreditando em nenhuma palavra do que dizia, mas precisava tentar. Quando a latina assumia aquela postura de irracionalidade auto-protetora, era difícil fazê-la enxergar qualquer coisa diferente dos cenários que já tinha pintado na própria cabeça, mas Simone não se perdoaria se perdesse a oportunidade de acertar as coisas com ela.

- Cinco minutos, San. É só isso que eu peço.

Santana olhou para o empresário, que lhe deu um sorriso de incentivo. Mike conhecia as duas há muito tempo e queria que elas, ao menos, se acertassem. Santana consentiu e, sem dizer palavra, caminhou em direção a uma área um pouco mais isolada da delegacia. Não precisava de plateia para a conversa que teria com a ex-assessora.

- Você não me respondeu, Santana. Como está a Emily?

- Como você acha que ela pode estar depois de ter sido dopada, seqüestrada e ameaçada pela Jessie? – Santana achou ter ouvido uma preocupação real na voz de Simone, mas preferiu manter a postura combativa. – Ela está mal. Os efeitos da droga já passaram e, ainda bem, ela se lembra de pouca coisa. Mas só de saber o que aconteceu, é o bastante para que ela se sinta péssima. A sensação de impotência é pesada demais para ela.

- E você? Como está? – Simone apontava para a bandagem que aparecia por baixo da manga da camiseta que a cantora usava.

- Eu? Chuta?

- Com vontade de matar o primeiro que passar pela sua frente?

- Na mosca. Mas não é o primeiro, é uma pessoa bem específica, que nós duas conhecemos.

- Eu imagino.

- Não, você não imagina. – Era chegada a hora de finalmente colocar para fora tudo o que sentia. – Você nunca foi ameaçada por uma ex-namorada. Você nunca chegou em casa e encontrou uma intrusa tomando banho no seu banheiro. Você nunca foi alvo de uma faca. Você nunca teve que escolher entre se proteger e proteger a pessoa que você mais ama no mundo. Você nunca sentiu a impotência de ver a sua noiva numa cama de hospital, sabendo que era culpa sua ela estar ali. Você nunca viveu nada disso, então não venha me dizer que você imagina. Ou que você entende. Ou que eu preciso perdoar a Jessie, que ela não sabia o que estava fazendo. O que ela fez, eu nunca vou perdoar.

- Você tem razão, Santana. Eu nunca passei por nada disso e eu concordo que o que a Jessie fez é imperdoável. É por isso que eu estou aqui, nessa delegacia.

Santana levantou os óculos e olhou com surpresa para Simone. Não era isso que estava esperando ouvir da mulher.

- Como assim, Simone? Explica melhor.

- Quando eu vi a notícia na televisão, eu não precisei pensar muito para saber quem tinha atacado a Emily. Para mim era muito claro que a Jessie tinha surtado de vez e feito o que eu temia. Lembra que eu procurei a Emily para alertar vocês?

- Lembro. – E a lembrança das conversas que tivera com a noiva fez Santana estremecer. Se ao menos tivesse concordado com ela...

- Então, eu não quero passar a mão na cabeça da Jessie. Ela precisa de ajuda, mas tem que arcar com as conseqüências do que fez. Por isso, ontem eu procurei o detetive responsável pelo caso. Falei que eu conheço a Jessie há muito tempo e que talvez eu pudesse ter algo de relevante a acrescentar. Quer dizer, eu acompanhei o namoro de você e mantive contato com ela depois que vocês terminaram. O meu depoimento é daqui a pouco.

As duas se encaravam sem saber como continuar aquela conversa, sem saber o que dizer em seguida. Nada daquilo havia sido programado ou planejado.

- Olha, San, eu sei que você deve me odiar. E você tem toda razão em se sentir assim. O que eu fiz contra você, não tem explicação. O que eu posso dizer é que eu me arrependo sinceramente de ter ficado do lado da Jessie durante todo esse tempo. Eu não sabia que ela era perturbada a esse ponto.

- E o meu quarto de hotel?

- Aquilo fui eu mesma, eu admito. Mas acho que pode ter sido influência de uma certa cantora explosiva com quem eu costumava trabalhar. – Deu um sorriso na direção de Santana e percebeu que as feições dela estavam um pouco mais brandas. – Conhece alguém assim?

- Não mais.

- A Emily te faz bem. Eu vejo isso agora.

Pensar na noiva, e em como tinha mudado por causa dela, trouxe um sorriso para os lábios da latina. Era verdade que Emily fazia bem a ela, mas ainda não tinha se acostumado que outras pessoas também percebessem isso.

- Faz sim. Ela é a minha vida.

Simone disfarçou os olhos rasos d’água olhando para o relógio. Tinha conseguido dizer tudo o que pretendia e agora sabia que precisava deixar Santana digerir suas palavras.

- Bom, Santana, agora eu preciso ir. Espero que você acredite em tudo o que eu disse. Foi sincero. – Deu as costas para a cantora, mas virou-se uma última vez. – Eu espero que você e a Emily sejam muito felizes juntas. Vocês merecem.

A mulher já havia se afastado alguns passos quando Santana pareceu sair da espécie de transe em que tinha entrado na última parte da conversa.

- Simone? – A ex-assessora parou onde estava e olhou para Santana. – Obrigada. Mesmo.

***

O clima estava bem agradável e Santana começava a se sentir um pouco mais a vontade com os futuros sogros. Emily se esforçava bastante para que isso acontecesse e parecia feliz com a convivência de todos. Até Pam parecia aceitar melhor a situação. Certamente o marido devia ter tido uma conversa com ela também.

Todos assistiam televisão juntos na sala, quando Santana lembrou-se de uma ligação que ainda precisava fazer. Não tinha conversado com Emily sobre o assunto, mas sentia que era o mais certo naquele momento. Levantou-se do sofá e caminhou até a bolsa que tinha deixado perto da porta. Procurou pelo celular e discou o número ali mesmo. Emily estranhou a movimentação da noiva e caminhou até ela, abraçando-a pela cintura e apoiando o queixo no ombro da cantora.

- Para quem você está ligando num domingo, San? Vamos voltar para o sofá.

Santana virou-se dentro do abraço e encarou Emily. Cada vez que mirava dentro daqueles olhos escuros se perdia e se encontrava. Era como se a jornalista fosse, ao mesmo tempo, âncora e timão da alma da cantora. Respirou fundo antes de abordar o assunto que vinha rondando sua cabeça desde que saíra da delegacia.

- Eu estava ligando para a organizadora do casamento. – Baixou os olhos antes de começar. Não tinha coragem de olhar nos olhos de Emily para aquilo. – Eu acho que é melhor a gente adiar um pouco.

Emily afrouxou os braços que prendiam Santana. Não podia acreditar que estivesse ouvindo aquilo. Mesmo depois de tudo o que tinha acontecido, essa ideia não tinha passado por sua cabeça em nenhum momento. Não entendia como Santana pudesse pensar naquilo.

- Você não quer mais casar, San? – Uma ponta de tristeza começava a tomar a voz da jornalista.

- Não é nada disso, meu amor. – Era exatamente essa a reação que temia. – É o que eu mais quero na vida. Eu só pensei que fosse melhor adiar um pouco, até a gente se recuperar do susto. Só isso.

- San, eu não quero adiar nada. Eu não posso adiar nada. – Puxou Santana pela mão até a cozinha. Não queria que os pais ouvissem aquela conversa. – Eu só vou me recuperar, eu só vou estar bem, completa, quando eu estiver casada com você. É só isso que me dá forças, amor. É só nisso que eu consigo pensar.

Santana não sabia o que responder. Precisava de Emily com a mesma força, mas achou que talvez ela quisesse desacelerar as coisas um pouco. Sentiu os olhos arderem diante das lágrimas que se acumulavam. As mãos de Santana estavam geladas quando Emily as tomou entre as suas. Tocou o queixo da cantora, erguendo seu rosto e olhando no fundo dos seus olhos.

- Se a gente fizer isso, San, ela ganha. Se a gente deixar a Jessie atrapalhar a nossa vida, mesmo que por um dia, ela ganha.

As duas permaneceram olhando uma para outra por algum tempo, antes que Santana enlaçasse o pescoço de Emily e enterrasse o rosto no pescoço da outra. Deixou que as lágrimas escorressem pelo rosto. Intimamente, era exatamente essa a reação que gostaria que a noiva tivesse.

Emily apertou Santana contra seu corpo e enterrou os dedos nos cabelos negros da cantora. Inalou o cheiro inebriante que vinha dos fios e falou em seu ouvido:

- O meu lugar é do seu lado, San. E é aqui que eu quero ficar. Para sempre.

- E mais um dia.