A Second Chance
21 Highway to hell
Notas iniciais
— Explica de novo por que nós estamos convidando a sua ex-namorada?
Aquela era a quinta vez que reviam a lista de convidados para o casamento. Queriam uma cerimônia pequena, mas a primeira relação apresentava mais de 600 nomes. Com muita dificuldade conseguiram reduzir para 200 e, em todas as vezes que se juntavam para rever a lista, Santana implicava ao ver Nina ali.
- San, eu já expliquei mais de mil vezes. Eu não convidei a Nina, eu convidei a Dianna. Mas como elas estão namorando, a Nina vem como acompanhante da Di. Só isso.
- Olha, eu sei que você se sente responsável pela Dianna, que vocês se aproximaram nos últimos meses e tudo mais. Mas eu continuo não engolindo essa história de ter a sua ex-namorada no nosso casamento.
Emily achava graça daquela Santana ciumenta, mas a conhecia bem demais para saber que aquele não era o momento para dar risada. Ao invés disso, puxou a noiva pela mão para que se sentasse em seu colo. A latina logo enlaçou o pescoço da morena, olhando em seus olhos, procurando ali o porto seguro que costumava encontrar.
- Por que você não pensa assim: a minha ex-namorada vai ter que me ver casar com a mulher mais linda e sexy do planeta? – O ciúme de Santana esmoreceu um pouquinho e Emily aproveitou aquele momento para plantar um beijo rápido em seus lábios. – Além disso, na hora em que você aparecer naquele salão, dentro de um vestido branco, eu não vou conseguir olhar para mais ninguém.
- Quer dizer que antes você consegue?
Puxou a noiva para mais perto do corpo e beijou-lhe os lábios. Dessa vez, não era um beijo casto; era atrevido, profundo, sensual. Beijo de quem tinha algo a provar e não tinha tempo a perder. As mãos de Emily passeavam por Santana como se a pele da cantora fosse seu território. Por fim, descolaram os lábios e antes que a latina pudesse recuperar o fôlego, Emily emendou:
- San, eu estou casando com você. É você que eu escolhi para ser a minha mulher para o resto da vida. É com você que eu quero construir uma família. Foi por você que eu mudei toda a minha vida. Então, será que dá para parar com esse ciúme bobo e começar a acreditar no que a gente tem?
- É que eu adoro ouvir você se declarar para mim.
- Ah, é? Vamos ver o que você acha dessa declaração!
Nem bem terminou a frase e novamente tomou os lábios de Santana entre os seus, arrancando um gemido da garganta da outra. Quando Emily buscava a barra da blusa da cantora, ouviram o celular de Santana tocando em cima da mesa da cozinha. A jornalista afastou-se do corpo que estava em seu colo e descansou as mãos em cima das coxas da morena. Santana não gostou de ter todo aquele espaço entre as duas e protestou.
- Deixa pra lá, Em. Depois eu ligo de volta.
Quase conseguiu convencer a jornalista, mas algum complô formado pelo destino fez com que o interfone do condomínio também fizesse parte daquela sinfonia. Com um suspiro de desânimo, Emily tirou Santana de cima das próprias pernas e colocou-se de pé.
- Você atende o seu celular que eu atendo o interfone. Depois a gente termina essa conversa.
Ainda depositou um selinho nos lábios carnudos antes de caminhar até o interfone. Pôde ouvir quando a cantora atendeu a ligação de Mike ao mesmo tempo em que colava o fone ao ouvido.
Santana estava do outro lado da sala, com os olhos grudados nas costas de Emily. Não podia ver seu rosto, mas fazia de tudo para apressar o empresário. Odiava ser interrompida no meio de uma conversa tão interessante. Finalmente conseguiu cortar o papo com Mike e se encaminhou até onde Emily estava de pé. Viu quando a morena colocou o fone no gancho, mas não houve nenhum movimento da parte dela. Sem notar nada de estranho, Santana enlaçou a cintura delgada e deu uma mordida leve na nuca exposta pelo rabo de cavalo.
- Se eu não me engano, você estava no meio de uma declaração.
Emily removeu delicadamente os braços magros que envolviam sua cintura e dirigiu-se até a sala, largando o corpo no sofá. Santana virou-se sobre o próprio eixo, observando a noiva sem entender nada.
- Ei, Em, o que aconteceu? Quem era?
- Era a Jessie, San. Ela estava querendo falar com você.
- A Jessie? Como assim? O que você falou?
- Eu falei para o segurança que não era para deixá-la entrar e que se ela tentasse qualquer coisa, que ele podia chamar a polícia.
- Polícia?! Para quê chamar a polícia, Emily?
- Você ainda pergunta, San? Essa mulher é maluca! Primeiro ela faz com que a sua assessora afugente suas namoradas para você continuar livre para ela. – A raiva que sentia era tanta que Emily não conseguiu ficar no sofá e agora as duas mulheres se encaravam de pé, uma em cada lado da sala de estar. –Agora, ela aparece na porta da nossa casa, do nada, como se vocês fossem amiguinhas. Acho que você devia pedir uma medida cautelar contra ela.
- Medida cautelar? Emily, você não acha que está indo longe demais, não?
- Longe demais? Santana, como você pode ser tão cega? Ou você já se esqueceu do meu carro arranhado no mês passado? Ou de quando tentaram arrombar a porta do nosso outro apartamento?
- Você não sabe se foi realmente ela.
- Não. Eu tenho certeza. A única coisa que eu não sei é o que mais você está esperando acontecer para tomar uma atitude.
Santana não conseguia encontrar em si forças para pedir uma medida cautelar contra a ex-namorada. Parecia algo drástico demais, impessoal demais. Sempre preferira resolver seus problemas por conta própria. Mas sabia que Emily tinha razão. Cruzou o cômodo até a morena que tinha lhe virado as costas e, mais uma vez, jogou os braços ao redor da sua cintura, apoiando a cabeça em seu ombro.
- Se você vai se sentir mais segura, Em, eu ligo para o meu advogado amanhã. Tá bom assim?
- Obrigada, San. Já é um começo.
Santana sentiu os músculos da noiva começarem a relaxar e, subitamente, lembrou-se de onde tinham parado antes de serem interrompidas. Procurou o lóbulo da orelha de Emily, sugando com delicadeza. A jornalista sentiu um arrepio involuntário, mas afastou-se do abraço.
- Agora não. Perdi o clima.
***
Emily não conseguia dormir. Estava sentada na cama, observando a noiva. Santana parecia relaxada, enquanto as preocupações na mente da jornalista borbulhavam. Alguma coisa primitiva e ancestral lhe dizia que aquela Jessie era problema e que ela precisava proteger a sua família como fosse possível. Mas não conseguia fazer a cantora enxergar as coisas daquela maneira. Decidiu, então, que Santana teria uma semana para tomar uma atitude. Se não, ela mesma tomaria as rédeas da situação.
Já que não conseguia se desligar mesmo, decidiu fazer algo de produtivo da sua noite. Sem fazer barulho, saiu do quarto do casal e foi para o escritório. Precisava mandar alguns emails e sempre achara a madrugada um bom momento para escrever.
Nem bem tinha começado a digitar e viu uma janelinha piscando no canto inferior da sua tela. Não conteve o sorriso ao ver quem queria bater papo àquela hora da noite: Jake. Exatamente a pessoa de que precisava. Pegou o telefone, discou para o amigo e foi para a sala para não correr risco de acordar Santana.
- O que é que você está fazendo acordada, minha amiga?
- Nada demais. Só não consegui dormir. – A voz vacilou e traiu seus reais motivos.
- Sei. Pela sua voz imagino que você e a diva do rádio tenham brigado.
O novo apelido que o amigo tinha inventado para Santana fez Emily sorrir pela primeira vez desde a briga que tiveram mais cedo. O fotógrafo sempre teve o dom de animar o seu espírito, mesmo que brevemente.
- Eu não consigo esconder nada de você, né? Nem do outro lado do país.
- Eu nem sei por que é que você ainda tenta. Mas me conta, o que aconteceu?
A voz de Jake chegava até ela impregnada pelo carinho dos anos de amizade, fazendo com que se sentisse protegida. Precisava contar para alguém tudo o que estava acontecendo; precisava que alguém dissesse que não estava paranóica. Então, discorreu para o amigo tudo o que Jessie havia feito e o que Emily achava que ela havia feito. Não era um relato digno de prêmios, mas serviu para tirar um peso do seu peito.
- Em, eu acho que você está certíssima e no seu lugar acho que eu já teria corrido para a polícia.
- É o que eu gostaria de ter feito, mas a Santana se recusa em envolver a polícia ou advogados nessa situação. Até já liguei para a Spencer para pedir orientação.
- Olha, eu entendo a Santana. De alguma maneira ela deve se sentir culpada pela reação dessa tal de Jessie...
- Culpada, Jake? A mulher é louca!
- Eu disse que entendo, não que concordo com a reação dela. Acho que as coisas aí já passaram dos limites.
- Há muito tempo.
- E o que você vai fazer?
- Bom, ela disse que ia falar com o advogado dela. Então eu vou dar mais uma semana para ela tomar uma atitude, se não eu mesma entro com uma ação.
- Faz muito bem!
- Mudando de assunto, eu quero aproveitar que estamos no telefone para fazer um convite.
- Adoro propostas indecentes! – A resposta de Jake fez Emily gargalhar com vontade, esquecendo-se de que era madrugada e que Santana estava dormindo.
- Você não presta, Jake! Mas essa proposta não tem nada de indecente. Eu quero chamar você para ser meu padrinho de casamento.
- Padrinho?
- É. Eu e a San conversamos e percebemos que se só tivéssemos damas de honra, só ia ter mulher na cerimônia. Então decidimos usar um costume latino, que é ter casais de padrinhos. E eu não podia deixar de ter o meu melhor amigo do meu lado, né? Então, você aceita?
- É claro que eu aceito, Em. Mas me responde uma coisa. Você falou que serão casais. Com quem eu vou entrar?
- Com a Aria. Nós vamos ter três casais cada uma. Os meus serão: você e Aria, Spencer e Toby e Hannah e Caleb.
- Aria é aquela morena linda, baixinha, que parece uma bonequinha. Acertei?
- Acertou.
- E o que o marido dela está achando da ideia de ela ser o meu par no seu casamento?
- Ela e o Ezra estão se divorciando. Por isso coloquei vocês dois juntos.
- Por que você não disse isso logo, mulher? Teria me feito aceitar o convite bem mais rápido!
- Olha, Jake, eu sei que você se interessa por qualquer coisa que se move, mas será que dá para pelo menos respeitar uma das minhas melhores amigas no dia do meu casamento?
- Qualquer coisa que se move, não. Mais respeito que eu sou um homem sério. Qualquer coisa linda que se move. – Emily adorava aquele lado bobo do amigo e era da companhia dele que ela mais sentia falta desde que se mudara. – E, Em, todo mundo sabe que casamentos são o melhor lugar para conhecer mocinhas esperançosas, mulheres recém-divorciadas e rapazes que nem querem saber de juntar os trapinhos. Parece que o casamento desperta algo animal neles.
- E você só se oferece para domar esse animal, certo?
- Eu tento. Pelo bem da humanidade, é claro!
A conversa com Jake ainda durou mais alguns minutos e, quando finalmente desligaram, Emily se sentia um pouco mais leve. Pela janela da sala entravam os raios débeis de um sol que ainda surgia no horizonte. Emily correu para a varanda para observar aquele nascimento que se renovava diariamente. Enquanto a maioria das pessoas era apaixonada pelo pôr-do-sol, a jornalista preferia aquela hora das manhãs. Para ela, era como se houvesse uma promessa no ar, nas cores sutis que lentamente iam surgindo, na vida que voltava à Terra como um balé bem coreografado.
Perdia-se nessas divagações quando sentiu um par de braços a enlaçando na altura dos ombros. Dessa vez, deixou-se acomodar no corpo da cantora e ficaram assim por um tempo, sem falar nada, apenas observando o espetáculo natural, até que Santana quebrou o silêncio.
- Senti sua falta na cama.
- Não conseguia dormir e não quis te acordar.
- Ainda está brava comigo?
Emily virou-se para poder encarar Santana ao responder àquela pergunta. Era preciso fazer com que ela entendesse a seriedade da situação.
- Com medo. Eu sei que você não gostaria de envolver ninguém nesse assunto, San, e eu respeito isso, mas eu tenho medo que ela possa fazer alguma coisa mais séria contra você. Até agora foi tudo bastante inofensivo, mas ninguém sabe do que ela é capaz. Eu até entendi quando você não quis fazer nada contra a Simone depois de ela invadir o seu quarto de hotel e destruir tudo daquele jeito, mas a Jessie já passou de todo limite.
Santana mal deixou Emily terminar a frase antes de cerrar seus lábios com um beijo sereno.
- Eu vou ligar para o advogado hoje, Em. Se é isso que eu preciso fazer para te deixar um pouco mais tranqüila, então não existe outra alternativa para mim.
As duas mulheres se abraçaram fortemente, enquanto sentiam os raios solares esquentarem seus corpos. No meio desse enlace cúmplice, Emily depositou um beijo rápido no pescoço da amada e sussurrou rapidamente:
- Obrigada, meu amor.
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