A Second Chance

11 Bust your windows


Notas iniciais
Boa leitura!

Pouco mais de 30 minutos depois, Emily ouviu alguém batendo em sua porta. Correu para abrir e deu de cara com uma Santana destruída. Olhos marejados, cabeça baixa, costas encurvadas e uma das mãos apoiada na parede, sustentando o peso do corpo.

Quando os olhos das duas se encontraram não foi preciso dizer nada. Emily abriu passagem para Santana, fechou a porta e envolveu o corpo magro da cantora em seus braços. Ali, de volta àquele abraço, Santana sentia-se protegida do mundo e se permitiu chorar.

Os soluços violentos da cantora faziam vibrar o peito de Emily e a jornalista a abraçava com mais força. Quando a respiração de Santana começou a se normalizar, Emily afrouxou um pouco o abraço, mas a latina permaneceu encaixada em seu corpo, a cabeça embaixo do seu queixo, os braços firmemente apertados ao redor da sua cintura.

Santana finalmente se afastou e, sem dizer palavra, foi até o banheiro lavar o rosto e verificar o tamanho do estrago. Ao voltar para o quarto, viu Emily sentada na beira da cama, olhando carinhosamente para ela.

- Quer conversar? – A preocupação na voz da jornalista era genuína.

- Agora não. O show tem que continuar, certo? – Emily pôde sentir uma ponta de ironia na frase tão clichê.

Na casa de shows, Santana reuniu toda sua equipe no camarim e comunicou que, a partir daquele dia, Simone não fazia mais parte do time. Os músicos, técnicos, produtores e demais presentes trocaram olhares confusos. Até aquela manhã estava com eles. Nada fazia muito sentido.

- Eu sei que vocês não devem estar entendendo nada e realmente não quero discutir os meus motivos. Tudo o que eu vou dizer é que descobri que ela não estava sendo leal e eu não preciso de ninguém assim comigo. E agora vamos em frente que aquelas pessoas lá fora estão esperando por um show.

Os presentes começaram a se dispersar e Santana tratou dos seus rituais pré-apresentação. Emily ficou sentada em um canto do camarim observando a movimentação: cabelo, figurino, maquiagem. E em meio a tudo isso Santana parecia relaxar, buscando concentração para o palco.

Já tinha assistido e registrado essa mesma rotina na noite anterior. Agora Emily observava como a latina tinha amadurecido desde a noite em que se conheceram. Santana sempre havia sido uma pessoa de atitude, mas agora exalava uma confiança de quem se conhece e sabe do que é capaz. Emily exibiu um pequeno sorriso. Gostava da pessoa que via a sua frente.

Faltavam poucos minutos para o início do show e Santana pediu para ficar a sós com Emily. Precisava conversar com a jornalista e não queria que ninguém ouvisse.

- Em, eu queria pedir um favor.

- Claro, San. Pode falar.

- Não publica nada sobre a Simone na sua matéria.

- Pode ficar tranqüila, eu nem pretendia. Essa história morre aqui.

Emily assistiu àquela apresentação de uma coxia na lateral do palco. Era uma posição privilegiada. Podia observar a reação da plateia e a movimentação da cantora – principalmente essa segunda parte. Cada vez que o olhar das duas se encontrava, trocavam um sorriso ou uma piscadela. Santana não sabia explicar, mas gostava de ter Emily ali do lado.

O celular da jornalista vibrou em seu bolso e ela o pescou para ler a mensagem de Jake: “Melhor apagar esse sorriso bobo da cara. Já está dando pinta! ; )”. Ergueu o rosto e encontrou o amigo numa coxia do outro lado do palco sorrindo para ela. Deu de ombros e sorriu de volta.

- Eu sei disso, Jake. – Falou em voz alta para si mesma.

A verdade é que sabia mesmo. Por mais que tentasse manter a objetividade e a racionalidade, era evidente que estava se apaixonando novamente por Santana. Não pela lembrança que morava em sua memória, mas pela mulher que ela estava conhecendo naqueles dias.

E Jake estava certo. Ela devia a si mesma tentar mais uma vez. O que tiveram foi tão bonito e o que estava nascendo naquele momento, tão forte, que mereciam uma chance. Mas antes precisava tirar dois problemas do caminho: Nina e essa matéria que não acabava nunca.

***

O caminho de volta do hotel foi silencioso. Ninguém na equipe estava no espírito para festa, principalmente Santana. Ela se despediu de todos e foi direto para seu quarto, seguida por Emily, que estava no mesmo andar.

Permaneceram em silêncio, numa cumplicidade agradável, enquanto subiam os andares. Santana fitava dentro dos olhos castanhos da outra, que brilhavam de carinho. Podia ficar a noite toda perdida ali. Já no corredor, caminhavam tão próximas que seus braços roçavam a cada passo, gerando uma onda de calor nas duas mulheres.

Tão absortas que estavam em sentir a companhia da outra, nem perceberam que passaram do quarto de Emily. Quando se deram conta, já estavam no final do corredor, em frente à porta que levava ao quarto da cantora. Não havia mais nada a fazer a não ser dar boa noite. Ou será que havia?

- Bom, boa noite, San. Acho que você está merecendo uma ótima noite de sono.

- Preciso de uma que dure umas 40 horas, pelo menos. Só assim para esquecer essa história toda.

Por um breve instante seus olhares se cruzaram e, naquele instante, nada mais existia, apenas duas mulheres cansadas de lutar contra o sentimento que vinha crescendo em seus corações. Santana tocou a mão esquerda de Emily com a ponta dos dedos, subindo pelo braço moreno e acompanhando o movimento com os olhos. Quando alcançou o ombro arrepiado da jornalista, deixou que os dedos fizessem o caminho contrário, mas ergueu o olhar para encontrar o de Emily.

- San, acho que a gente não devia. – A negativa não encontrava eco no corpo da mulher, que deu um passo à frente.

- É... A gente realmente não devia.

As últimas palavras não passaram de um sussurro e as duas ex-amantes se encontraram no meio do caminho, num beijo apaixonado. Não havia urgência, mas uma espécie de calma, como quem finalmente encontra seu lugar no mundo. Os movimentos de Emily eram lentos, sensuais, explorando ao máximo o corpo que se moldava ao seu, invadindo a boca de Santana com a língua e pressionando o corpo da cantora contra a porta.

Santana puxou o cartão-chave do bolso de trás da calça e, sem descolar os lábios da jornalista, abriu a porta do quarto. Com o caminho livre, puxou Emily mais para si – uma das mãos em sua cintura e a outra na nuca – e entraram na suíte. Nem se preocupou em acender a luz, puxando a outra mulher em direção à sua cama. Emily correspondia aos beijos de Santana com intensidade, deixando-se levar pelos movimentos da latina.

No meio do caminho até a cama, Emily tirou a jaqueta jeans da cantora e explorava seu pescoço e ombros, quando a sentiu tropeçar e cair no chão. Seus corpos estavam tão colados que a jornalista não conseguiu manter o equilíbrio e caiu por cima da outra.

- Santana! Está tudo bem?

- Acho que sim. Tinha alguma coisa no chão. Acho que eu cortei a mão.

- Espera um instante que eu vou acender as luzes. Não se mexe.

Emily ergueu-se com cuidado e refez o caminho até a porta, tateando no escuro a procura do interruptor. Depois de alguns tropeços, encontrou o que procurava e iluminou a suíte da cantora.

Antes que pudesse se virar, ouviu um grito abafado vindo do local em que Santana tinha ficado no chão. Instantaneamente soube que algo não estava certo, mas nada a prepararia para a imagem que viu ao se virar. A suíte estava completamente destruída. Móveis quebrados, almofadas rasgadas, cacos de vidro espalhados pelo chão e palavras ofensivas escritas com batom vermelho nas paredes.

Procurou Santana com os olhos e notou que a cantora permanecia na mesma posição, parecia pregada ao chão. O único movimento que fazia era com a cabeça, tentando absorver todo o horror daquela cena. Emily sabia que não podia deixar a cantora ali naquele quarto e ajoelhou-se ao seu lado.

- Vem, San. Vamos para o meu quarto enquanto eu chamo a segurança.

- Simone... – Era tudo o que ela conseguia repetir, num fio de voz.

Apesar do choque, ou por causa dele, deixou que Emily a erguesse e atravessou o corredor até o quarto ocupado pela jornalista, acomodando-se no sofá. Abraçou as próprias pernas e seu olhar se perdeu no horizonte.

Depois de se certificar de que a cantora estava bem, Emily voltou para o corredor. Precisava tomar as rédeas da situação, mas antes precisava controlar seu corpo. Fechou a porta atrás de si e a usou como apoio. As mãos tremiam e os joelhos estavam bambos. Respirou fundo algumas vezes, endireitou as costas e se dirigiu ao quarto do agente de Santana. Era ele quem precisava lidar com aquela bagunça.