A Second Chance
19 Born this way
Notas iniciais
O avião tocou o solo com um tranco, mas Emily nem percebeu – estava distraída demais admirando a aliança que recebera de Santana. Dois meses de noivado e ainda se pegava olhando para aquele anel sorrindo feito boba. Pensou em Jake, no que ele diria quando visse aquela cena ao vivo e sufocou uma risada. Era a primeira vez que voltava para San Francisco desde que se mudara para Nova York e tinha certeza de que teria que encarar um interrogatório.
Afastou aqueles pensamentos e se juntou aos outros passageiros que faziam fila no corredor. Estava ansiosa demais para aquele fim de semana para esperar sentada o avião terminar de taxiar na pista. Enquanto não se movia, resgatou o celular na bolsa e verificou suas mensagens. Algumas de Jake, estranhando o atraso do vôo, e uma de Santana, que tinha saído em turnê e estava perdida em algum lugar do mundo. “Londres é linda, mas faz frio e só chove. Preciso de você para me esquentar. Saudades. Te amo”. Sorria ao descer as escadas do avião.
Como sua única bagagem já estava pendurada nos ombros, pôde passar direto pela esteira que cuspia lentamente as malas e se encaminhar para o desembarque.
Do outro lado da porta que abria e fechava automaticamente, Jake conferia o relógio a cada dois minutos. O vôo de Emily estava mais de meia hora atrasado e ele se dividia entre permanecer ali ou procurar algum funcionário da companhia aérea. Quando se preparava para se afastar da multidão, a porta abriu mais uma vez e ele pôde ver, ainda distante, o rosto conhecido.
Emily identificou Jake no meio da bagunça no mesmo momento e correu para o amigo. Pretendia pular em seu pescoço, mas diminuiu o passo ao ver o cartaz que ele tinha nas mãos: Sra. Emily Lopez.
- O que é isso, Jake? – perguntou quando conseguiu, finalmente, parar de gargalhar.
- Achei que você pudesse querer ver como ficaria.
- Hummmm... Eu gosto. Mas ainda não sabemos se vamos mudar os nossos nomes.
- Isso é só um detalhe. Agora deixa eu ver o mais importante. Cadê o anel?
- Você não tem jeito mesmo, hein, Jake? Não podia esperar chegar no carro?
- Depois de dois meses inteirinhos de curiosidade? Nem pensar.
Sabendo que aquela era uma batalha perdida, Emily estendeu a mão para que o amigo pudesse observar a aliança. Era simples e elegante, como a própria jornalista. Santana conhecia a noiva bem demais e sabia que grandes pedras não combinariam com seu estilo.
- Gostei. É a sua cara.
- Eu também achei. A San me conhece bem.
- E por esse sorrisinho bobo eu posso entender que tudo vai as mil maravilhas no ninho de amor nova-iorquino?
- Sim, Jake. Está tudo perfeito!
No meio do caminho até o antigo apartamento de Emily, o locutor da rádio local anunciou a próxima música.
- E agora vamos ouvir o mais novo sucesso de Santana Lopez, Forever and a day.
Emily não resistiu e aumentou o volume do aparelho, abaixou o vidro do carro e cantou a música a plenos pulmões. Olhou para o lado e flagrou Jake fazendo o mesmo. Isso só incentivou a performance da jornalista, até que a canção terminou e os dois amigos caíram numa gargalhada simultânea que até parecia ensaiada.
- Sras. e Srs., parece que temos uma pessoa apaixonada neste veículo!
- Bobo. Sabia que ela compôs essa música para mim?
- Você já me contou isso umas vinte vezes, mais ou menos.
- E eu falei que a primeira vez que eu escutei foi quando ela me pediu em casamento?
- Essa parte da história você sempre pulou, lembra? Dizia que ia me contar quando viesse para a Califórnia. Pois bem, estamos aqui, já quase chegamos ao seu apartamento, e eu tenho a noite inteira para ouvir você falar sobre essa paixão avassaladora que une a intrépida jornalista Emily Fields e a cantora de sucesso internacional Santana Lopez. É só sobre o que você sabe falar mesmo.
***
Já passava do meio-dia de sábado, quando finalmente acordou. A conversa com Jake se estendera até o início da manhã e o fotógrafo ainda dormia no sofá da sala. Preparou o café em silêncio e resolveu dar uma olhada em algumas caixas que tinham ficado para trás. Na pressa de se mudar logo para Nova York, empacotou o que era mais necessário e pediu que o amigo guardasse todo o resto até que ela tivesse tempo e paciência de decidir seus destinos.
As primeiras caixas estavam recheadas com seus livros e as revistas que traziam as matérias que tinha escrito. Decidiu que levaria tudo para a casa nova e deixou-as de lado. As próximas traziam fotos e quinquilharias que tinha acumulado com o tempo. Separou as fotografias e resolveu que o destino do resto seria o lixo. Não precisava ficar acumulando coisas. E assim seguiu, separando, lembrando e escolhendo o que levar e o que deixar para trás.
Já estava quase no fim da última caixa, quando puxou um embrulho pequeno. Desfez o laço com cuidado e abriu o papel amarelado. Dentro, deparou-se com fotos antigas de pessoas que não reconhecia. Começou a passar pelas fotografias rapidamente, na esperança de encontrar algum rosto conhecido, alguma pista do que se tratavam aquelas imagens. Até que a lembrança a atingiu de repente. Aquelas eram antigas fotografias da família de Nina, que a ex-namorada tinha levado para sua casa para montar um álbum. Ela devia ter esquecido ali antes do término da relação.
Como estava no espírito de fechar ciclos, deixou um bilhete para Jake, pegou as chaves do carro do amigo, colocou as fotografias dentro da bolsa e resolveu ir até o apartamento de Nina devolver as fotografias. Nem lhe passou pela cabeça telefonar antes para avisar. Tinham ficado bem depois que o namoro acabou e nada que pudesse encontrar lá a machucaria ou surpreenderia.
O porteiro do prédio a reconheceu e permitiu que subisse sem avisar à moradora. Caminhou pelo corredor do andar da ex-namorada e reparou que nada por ali tinha mudado. Tocou a campainha uma vez e pôde ouvir o som de passos dentro do apartamento. Estava distraída observando a janela do final do corredor quando a porta se abriu. Virou-se para encarar o rosto conhecido, mas o que encontrou do outro lado da porta não era bem o que esperava.
- Dianna?
- Emily? O que você está fazendo aqui?
- Eu vim entregar algumas coisas para a Nina. Mas o que...
Quando ia devolver a pergunta para a ex-chefe, foi interrompida por Nina, que apareceu na porta e enlaçou possessivamente a ruiva que estava em seu apartamento. Erguendo o rosto, abriu um largo sorriso ao encontrar os olhos castanhos.
- Em! Quanto tempo! Não sabia que tinha voltado à cidade.
- Só vim passar o fim de semana. Estava com saudades daqui.
- Imagino. E o que te traz aqui?
- Encontrei algumas fotos suas de família lá em casa e achei melhor devolver.
Durante o diálogo casual, Dianna mantinha-se congelada na mesma posição, presa no abraço de Nina e sem cruzar o olhar com Emily.
- Nossa, obrigada! Estava mesmo falando dessas fotos outro dia, não é, amor?
A pergunta foi coroada com um beijo rápido na bochecha de Dianna. Seu rosto adquiriu a mesma coloração dos cabelos e ela parecia que iria fugir correndo dali a qualquer momento.
- Você não quer entrar, beber alguma coisa?
Emily sentiu os olhos de Dianna arderem diante da possibilidade de estender aquele momento por mais tempo do que necessário e achou melhor encerrar por ali.
- Fica para outra hora. Eu combinei de almoçar com o Jake e já estou atrasada.
- Uma pena. Tchau, Em.
- Tchau, Nina. Tchau, Dianna.
A editora não respondeu, apenas se virou e entrou novamente no apartamento. A mente de Emily era uma confusão quando se encaminhou para o elevador. Nunca poderia ter imaginado que sua ex-chefe também fosse gay. E que ela estaria namorando sua ex-namorada. Era muita ex numa única situação.
- Emily?
Parou o movimento de chamar o elevador no meio do caminho quando ouviu o próprio nome. Virou o rosto na direção do som e encontrou os olhos azuis de Dianna. A mulher estava parada no meio do corredor e em nada lembrava a editora enérgica que Emily tinha conhecido. Ela parecia encolhida e a jornalista tinha quase certeza de ter visto um lampejo de medo em seus olhos.
- Antes de você ir embora, eu queria pedir uma coisa.
- Claro. Pode falar.
- Não comenta nada, com ninguém, sobre o que você viu aqui.
- Eu já não estou mais na revista, esqueceu?
- Não, mas você e o Jake ainda são amigos.
- Eu não vou falar nada com ele, mesmo sem entender porque você não é honesta sobre quem você é.
- Emily, as coisas não são tão simples assim.
- Realmente não são tão simples, mas não precisam ser tão complicadas.
- Quando você estiver numa posição como a minha, responsável por uma publicação desse porte, você vai entender.
- Olha, isso até podia ser verdade no seu antigo emprego. Mas você está em San Francisco, agora. Se você não puder ser honesta sobre a sua sexualidade aqui, você não vai poder ser em lugar nenhum.
- Eu sei, mas é que... – A frase morreu no peito da editora.
- Dianna, eu não estou falando para você colocar isso num outdoor, mas também não acho que você deva se esconder, como se você tivesse vergonha.
- Não é vergonha. É receio.
- Eu entendo. Todos nós já passamos por isso em algum momento. Quando eu estava no colégio, eu não tive muita escolha. Uma pessoa começou a espalhar rumores sobre mim para algumas pessoas e eu fui obrigada a contar para todo mundo. – Nossa, há quanto tempo não pensava em A. – Mas, quando eu fui para a faculdade, ninguém me conhecia e eu tive a chance de inventar uma nova Emily. E foi lá que eu criei a minha política pessoal. Eu não preciso anunciar nada para ninguém, mas também decidi que não iria me esconder. Então, perguntas honestas iriam receber respostas honestas. Quem realmente quisesse me conhecer, teria que vir perguntar para mim. Os outros, eu nem notava. Funcionou muito bem para mim. Não estou dizendo que você tenha que reunir toda a equipe da revista para fazer um anúncio, mas talvez você deva começar a pensar em não esconder do mundo inteiro um lado seu que pode ser tão incrível quanto os outros.
Ao final do discurso, as duas mulheres tinham os olhos cheios d’água. Depois de tanto tempo fora do armário, Emily ainda não tinha se esquecido de como era difícil esse momento de transição. Por isso fazia tanta questão que o seu relacionamento com Santana fosse o mais normal e natural possível. Por isso entendia o quanto a noiva se envolvia com esse assunto. E agora estava tendo a oportunidade de fazer por alguém o que tinham feito por ela anos atrás.
Abraçou Dianna com força e deixou que a editora se acalmasse, antes de terminar a conversa.
- Se você precisar de qualquer coisa, qualquer coisa mesmo, pode me ligar. Eu sei que pode parecer difícil, mas vale a pena.
Notas finais
Como não tive tempo de responder aos comentários, aproveito para responder que a letra da música do capítulo anterior é minha. Não achei nenhuma que casasse com a história e achei que uma música original tornaria o momento delas ainda mais especial.
Obrigada por todos os comentários! Mesmo quando eu não consigo responder, leio todos!
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