Dois anos depois:

Sete anos. Sete anos de vida e, hoje, deveria ser o dia em que entraria para a tão estimada Academia Ninja de Konoha.

Um dia para sonhar com o futuro, para sentir aquele nervosismo bom de quem está prestes a dar o primeiro passo em direção a algo grande.

Mas o céu nublado parecia refletir algo muito mais pesado dentro de mim.

As roupas pretas ao meu redor, os olhares vazios e os murmúrios baixos — nada disso deveria fazer parte de um dia que deveria ser feliz.

Mamãe se foi.

Essas palavras pareciam ecoar em minha mente como uma sentença, como se repetir fosse o único jeito de tentar entender o que realmente significavam.

Ela não estava mais ali.

Não leria seu jornal na varanda de casa, com uma xícara de chá nas mãos e um sorriso tímido que me fazia sentir que tudo no mundo estava bem.

Não ouviria mais a suavidade de sua voz me dizendo para levantar-se cedo ou para não esquecer de levar meu bentô.

E, mais cruel ainda, nunca mais sentiria o calor de seus braços ao me abraçar depois de um dia difícil.

Agora, só havia silêncio. E aquele vazio.

Olhei ao meu redor. O peso do luto parecia engolir tudo, até mesmo as cores ao meu redor.

As flores deixadas no altar, mesmo sendo tão bonitas, pareciam mortas para mim.

Pessoas que eu mal conhecia vinham e tocavam minha cabeça, oferecendo palavras que eu não conseguia absorver.

Palavras como "força", "coragem" ou "tempo". Palavras que escorriam pelos meus dedos como areia, incapazes de preencher o buraco que mamãe deixou.

Hoje deveria ser um dia feliz.

Mas como alguém pode estar feliz quando o mundo parece ter perdido toda sua luz?

Olhei para o horizonte, as nuvens pesadas ameaçando chover a qualquer momento, como se o céu também estivesse de luto.

A Academia Ninja esperava por mim, mas tudo parecia errado. Entrar lá sem mamãe me observando, sem seus olhos orgulhosos acompanhando cada passo meu, parecia impossível.

Era como se estivesse começando algo novo, mas deixada para trás em algum lugar que não conseguia alcançar.

Respirei fundo, engolindo o nó na garganta que parecia ter se formado ali há dias.

O peso era grande demais para meus sete anos de vida, mas, de alguma forma, eu sabia que precisaria carregá-lo.

Porque, mesmo sem ela, o mundo continuaria girando. As missões viriam, os anos passariam e eu teria que seguir em frente — mesmo que a ausência dela fosse um buraco no peito que nunca mais se fecharia.

Com os punhos cerrados e um olhar que tentava ser firme, sussurrei para o vento, quase como uma prece:

_ Hoje deveria ser um dia feliz, mamãe... Mas prometo que vou tentar.

E, mesmo com lágrimas silenciosas ameaçando cair, comecei a caminhar para a Academia.

Cada passo era um esforço, mas também uma promessa de que, de alguma forma, encontraria forças para seguir.

Por ela.

Por mim.

Por tudo que ainda estava por vir.

_ Sukui. — Parei e olhei para o papai que parecia ter perdido a alma que restava em seu corpo. _ Você está bem? — Iria discordar, queria chorar e colocar todo meu peso em seus ombros.

Queria gritar, pedindo minha mãe de volta, mas sei que ele não tinha culpa de nada ou poderia me trazer a mulher que ele tanto amou.

Mas sei que não podia deixar meus sentimentos pesarem na sua frente.

Papai levantou o olhar, mas parecia não me ver de verdade.

Seus olhos estavam opacos, como se tivesse se perdido em algum lugar onde ninguém poderia alcançá-lo.

Não era o homem forte que eu conhecia.

Não era o ninja destemido que tantas vezes vi sair em missões perigosas e voltar com um sorriso cansado, mas presente.

Ali, diante de mim, ele parecia apenas um homem quebrado.

_ Estou bem, Sukui. — Sua voz saiu baixa, quase um sussurro, como se até isso fosse um esforço imenso.

Mas eu sabia que não era verdade.

Sabia que ele carregava o mesmo vazio que me consumia, talvez até maior.

Quis abraçá-lo, mas não sabia como.

Ele estava tão distante, tão frágil, que tive medo de tocá-lo e vê-lo se despedaçar.

Quis gritar que não acreditava nele, que não estávamos bem e que nada jamais estaria novamente.

Mas, no fundo, sabia que meu pai estava tentando segurar tudo sozinho. E isso me machucava ainda mais.

_ Você deveria ir para a Academia. — Desviou o olhar, limpando os olhos discretamente. _ Sua mãe ficaria orgulhosa.

"Orgulhosa."

Aquela palavra parecia um golpe.

Como mamãe poderia estar orgulhosa se ela nem estava mais aqui?

Como poderia fazer qualquer coisa pensando no orgulho dela, se tudo que eu queria era que ela voltasse, só por um momento, para me dizer que tudo ficaria bem?

_ Papai... — Minha voz falhou.

Ele voltou a me olhar, e por um breve momento, vi algo brilhar em seus olhos — dor, saudade, talvez amor, ou tudo isso junto.

_ Vamos fazer o seguinte, Sukui. — Respirou fundo, como se estivesse reunindo o que restava de si. _ Hoje, você dá o seu melhor. Por ela. E eu... — Suspirou. _ Vou tentar dar o meu melhor também.

Seus olhos encontraram os meus novamente, e havia algo diferente agora.

Não era força, mas determinação. Ele não sabia como seguir em frente, mas estava disposto a tentar. Por mim.

_ Está bem. — Murmurei, mesmo que uma parte de mim quisesse gritar que isso não era justo, que mamãe não deveria ter nos deixado.

Ele colocou a mão em meu ombro, o aperto leve, mas firme.

Foi o suficiente para que eu sentisse que, de alguma forma, ele ainda estava lá.

Que, mesmo quebrado, meu pai continuava tentando ser meu porto seguro.

Dei um passo para trás, e depois outro. Saio de casa com a sensação de que estava carregando o peso de duas vidas, mas, ao mesmo tempo, sabia que não estava sozinha.

Papai estava lá.

E, mesmo sem mamãe, precisaria aprender a continuar.

A Academia me esperava, e, com ela, um mundo que eu não sabia se estava pronta para enfrentar.

Mas, enquanto meus pés seguiam pelo caminho, repeti a promessa que havia feito mais cedo.

Porém, antes de poder pisar nos terrenos da Academia, meu pulso foi puxado, e meu corpo colidiu com outro.

O cheiro de terra molhada e um calor familiar inundaram meus sentidos.

Por um instante, todo o peso em meu peito pareceu mais leve, como se alguém tivesse dividido a carga comigo.

Olhei para cima e o vi.

Ali estava ele. A pessoa que, até então, não havia se feito presente nos meus pensamentos do dia, mas que sempre esteve presente na minha vida.

Era ele quem, no funeral mais cedo, havia permanecido à margem, sem me dizer palavras de conforto ou oferecer um abraço.

Apenas ficou ali, me observando de longe, como se quisesse me dar forças sem se aproximar.

Agora, seu olhar sério me atravessava como uma lâmina.

Ele ainda segurava meu pulso, e por um momento, parecia que queria falar, mas hesitava.

_ ... Você não está pronta. — Sua voz finalmente quebrou o silêncio, baixa e firme, mas não dura.

Franzi o cenho, confusa.

_ Não estou pronta para o quê? — Tentei puxar meu pulso, mas ele segurava firme, embora sem machucar.

_ Para isso. — Apontou. _ Para a Academia. Para seguir em frente como se nada tivesse acontecido. — Respirou fundo, e vi algo em seu rosto que nunca tinha visto antes: vulnerabilidade.

_ Não me diga como me sentir. — Minha voz saiu mais firme do que eu esperava, surpreendendo até a mim. _ Não pode me parar, não pode...

_ Não quero te parar. — Ele me interrompeu, soltando meu pulso devagar. _ Só... — Coçou a cabeça. _ Quero que saiba que não precisa carregar isso sozinha.

Sua mão caiu ao lado do corpo, e desviou o olhar, como se temesse que eu pudesse enxergar algo que ele não queria mostrar.

_ Você tem a mim, Sukui. Sempre teve.

Essas palavras me atingiram com uma força inesperada.

Por um momento, fiquei ali, parada, sem saber o que dizer. Meu peito parecia apertado, e as lágrimas que eu havia segurado desde o funeral ameaçaram escapar.

Ele deu um passo para trás, como se quisesse me dar espaço para respirar, mas seus olhos não desviavam dos meus.

Havia algo neles que me prendia, como se ele enxergasse cada pedaço quebrado que eu tentava esconder.

_ Quando a dor for demais... — Começou, dando mais um passo para trás.

Não pensei.

Minhas mãos agarraram o tecido de sua roupa com força, como se, ao soltá-lo, eu fosse cair num abismo sem fim.

_ Ou quando parecer que o peso é impossível de carregar... me procure. — Sua voz suavizou, mas as palavras estavam impregnadas de uma seriedade que me desarmou completamente.

Minhas pernas tremeram, e antes que pudesse evitar, as lágrimas começaram a cair.

Não era um choro silencioso, controlado. Era um soluço bruto, que vinha das profundezas do meu peito, como se cada dor guardada finalmente encontrasse uma saída.

_ Eu não consigo... — Minha voz saiu entrecortada, quase um sussurro. _ Não consigo carregar isso...

Meus dedos apertaram sua roupa ainda mais, e de repente, tudo explodiu: a falta da minha mãe, o vazio esmagador, a sensação de que o mundo continuava girando enquanto o meu havia parado.

_ Ela não vai voltar... Ela nunca mais vai voltar! — As palavras saíram como uma confissão, e meu corpo desabou contra o dele.

Por um instante, pensei que ele hesitaria, mas então seus braços me envolveram.

Não de uma forma hesitante ou incerta, mas com uma firmeza que me ancorou no lugar.

Seu corpo, tão pequeno quanto o meu, parecia conter uma força que eu não sabia que precisava.

_ Eu sei. — Sussurrou contra o topo da minha cabeça. _ Eu sei, Sukui.

Essas palavras, tão simples e carregadas de compreensão, abriram algo dentro de mim.

Chorei mais forte, minhas mãos agarrando seu pescoço, meu rosto escondido contra seu ombro.

Ele não tentou me fazer parar, não disse que tudo ficaria bem. Apenas ficou ali, me segurando, me deixando desmoronar em segurança.

_ Você não precisa ser forte sozinha. — Abraçou-me apertado. _ Estou aqui. Sempre estarei aqui.

Essas palavras se cravaram em meu coração como uma promessa que eu não sabia o quanto precisava ouvir.

Meu choro foi diminuindo aos poucos, embora as lágrimas continuassem caindo.

_ Não me solta... — Murmurei, minha voz frágil, quase inaudível.

_ Nunca. — Respondeu, apertando o abraço, como se quisesse me proteger do mundo.

Por um momento, no meio de toda a dor, encontrei algo que não esperava: conforto.

Talvez o vazio nunca fosse desaparecer completamente, mas enquanto ele estivesse ali, parecia que o peso seria um pouco mais fácil de suportar.