_ Ela é uma Uchiha sem Sharingan...

As palavras sussurradas alcançaram meus ouvidos mesmo em meio ao burburinho da Academia.

Desde que coloquei os pés ali e não demonstrei o que esperavam de mim, essa fofoca venenosa se espalhou como fogo pela vila.

Uma Uchiha sem o dojutsu que simboliza a glória do clã? Era mais que um boato; era um escárnio, um julgamento cruel de algo que não entendiam.

_ Como isso é possível? — Escutei outra voz sussurrar.

Eles me encaravam como se eu fosse uma aberração.

O olhar de pena ou desdém, dependendo de quem o lançava, me queimava mais do que qualquer ataque. Para eles, eu era uma renegada, uma mancha no orgulho do clã.

Mas não era verdade.

Eu tinha os olhos. O Sharingan estava lá, vermelho e vivo, as manchas negras esperando o momento certo para girar em poder.

Apenas não o havia demonstrado. Não quis. Não precisava provar nada a ninguém.

Os únicos que precisavam saber da verdade eram minha família e... talvez meus amigos.

Suspirei, tentando afastar os olhares e murmúrios enquanto caminhava pelo corredor.

Minha cabeça erguida era uma fachada, uma máscara que escondia a tempestade dentro de mim.

A dor do julgamento injusto era algo que eu aprendi a engolir, mas não significava que ela machucava menos.

Quando cheguei ao campo de treinamento, ele estava lá, como sempre.

_ Sukui. — Sua voz calma como a brisa que agitava as folhas.

Seus olhos me analisavam, mas não com o peso que os outros colocavam sobre mim.

Era um olhar diferente.

_ Eles estão falando de novo, não é? — Perguntou sem rodeios, cruzando os braços e me encarando de frente.

_ É o que eles sabem fazer. — Tentei soar indiferente, mas a amargura vazou na minha voz.

Ele se aproximou, seus passos firmes até parar à minha frente. Ficamos cara a cara, sua presença era como um escudo entre mim e o resto do mundo.

_ Por que você não mostra a eles que estão errados?

_ Porque não preciso. — Respondi, cruzando os braços. _ Não devo nada a ninguém além de mim mesma.

_ Eles têm medo do que não entendem. — Sua voz estava um pouco mais suave. _ Mas você não é o problema. Eles são.

Suas palavras tocaram algo dentro de mim. Pela primeira vez naquele dia, senti uma pontada de alívio.

_ Sukui, você é mais forte do que eles imaginam. — Sorriu, apenas de leve, mas foi suficiente. _ E, quando a hora certa chegar, você vai mostrar a todos quem realmente é.

Respirei fundo, sentindo o peso nos ombros aliviar, ainda que só um pouco.

_ Obrigada. — Murmurei, desviando o olhar.

_ Sempre. — Sua resposta veio com a firmeza de uma promessa, e algo no seu tom fez meu coração acelerar, mesmo que eu não quisesse admitir.

No fundo, sabia que ele estava certo. A hora de mostrar quem eu era ainda não tinha chegado. Mas, quando chegasse, não teria medo.

Contudo, não estava ali apenas para ouvir suas palavras reconfortantes ou para discutir as fofocas que rondavam meu nome. Tinha um propósito.

Toquei o cordão em volta do meu pescoço, sentindo o pequeno anel preso a ele.

Ele parecia mais pesado agora do que nunca, talvez pelo significado que carregava.

_ Não vim aqui só para conversar. — Minhas palavras saíram hesitantes, e ele arqueou uma sobrancelha, curioso.

Dei um passo para trás, puxando o cordão por sobre a cabeça. O anel brilhou sob a luz do sol, simples, mas carregado de intenções.

_ Isso é para você. — Estendo o anel para ele.

Piscou, surpreso. Seus olhos foram do anel para mim, como se tentasse entender o significado daquele gesto.

_ Um anel? — Perguntou, pegando-o com cuidado.

_ É... — Respondi, sentindo minhas bochechas corarem. _ É para que você sempre se lembre da nossa promessa, que teremos uma família feliz no futuro. — Ou pelo menos ser amigos.

Não falei o restante dos meus pensamentos, isso era apenas um devaneio se ele acabasse gostando de outra quando se fosse da vila.

Mas meu coração esperava que esse pensamento nunca se concretizasse.

Distancio esses pensamentos por um momento, me fazendo observar o garoto que ficou em silêncio.

Enquanto segurava o anel na palma da mão. Então, para minha surpresa, ele sorriu, um sorriso pequeno.

_ Espere aqui. — Virou-se de repente e desapareceu, entrando na Academia.

Fiquei parada, confusa, o coração batendo rápido no peito. Quando ele voltou, trazia algo preso em um cordão fino em volta do pulso.

_ Também tenho algo para você. — Mostrou o cordão e revelando outro anel, idêntico ao que eu havia dado a ele.

_ O quê...? — Minha voz falhou, e meus olhos se arregalaram.

_ Guardei por um bom tempo, mas acho que agora é o momento certo. — Colocou o cordão nas minhas mãos. _ Para que você também nunca se esqueça que sempre estarei aqui.

As lágrimas ameaçaram cair, mas as segurei. Minhas mãos tremiam enquanto seguravam o anel.

_ Obrigada. — Sussurrei, a voz quase inaudível.

Itachi apenas sorriu, um sorriso suave, quase tímido, mas que parecia carregar uma certeza que ainda não entendia.

Ele abriu a pequena corrente de prata, prendendo-a com cuidado em volta do meu pescoço.

O toque era delicado, como se ele temesse quebrar algo além do cordão — talvez o próprio momento.

O anel, pequeno e simples, repousou suavemente sobre minha clavícula. Aquele objeto parecia muito maior do que realmente era.

Um símbolo que, mesmo sem palavras, dizia mais do que qualquer promessa.

Não sabia o que dizer.

Meu coração batia rápido, mas não era de medo. Era uma mistura de emoção e algo novo, algo que eu não sabia nomear.

Senti o calor subir às minhas bochechas enquanto meus olhos encontravam os dele.

Itachi observava, sem pressa, como se quisesse gravar minha expressão. Sob o céu nublado, com o vento sussurrando entre as árvores, ele finalmente quebrou o silêncio.

_ Agora ele é seu. — Murmurou.

Sua voz era calma, mas havia algo firme naquelas palavras, como se ele estivesse entregando mais do que um simples anel.

Por um instante, esqueci o frio que o vento trazia. Segurei o pequeno anel com as pontas dos dedos, sentindo sua textura gelada contrastar com o calor que brotava em meu peito.

_ Obrigada. — Respondi, minha voz quase sumindo no ar.

Não era apenas por ele ter me dado o anel, mas por algo muito maior. Por estar ali.

Por me fazer sentir que talvez, só talvez, não estivesse tão sozinha quanto sempre acreditei.

Sem pensar, deixei que minha mão buscasse a dele, tão pequena quanto a minha, mas firme, quente.

Seus dedos se entrelaçaram nos meus de maneira natural, quase como se sempre devessem estar assim.

Meu coração parecia querer escapar do peito.

Antes que pudesse hesitar, inclinei-me e o beijei.

Um gesto que parecia ousado, mas que era carregado de uma coragem nascida do momento.

Minha mente foi imediatamente puxada para a lembrança daquele dia...

A primeira vez que ele roubou meus lábios. Tão rápido, tão desajeitado.

Na época, nem sabia o que sentir, apenas fiquei ali, surpresa, enquanto ele desviava o olhar com uma mistura de timidez e orgulho. Mas agora, agora era diferente.

Hoje, não foi um toque passageiro.

O beijo foi mais demorado, uma troca que parecia dizer coisas que nossas palavras não conseguiam.

O gosto do doce que ele havia comido antes ainda estava ali, algo leve, açucarado, que tornava tudo ainda mais surreal.

Quando me afastei, meu rosto estava em chamas.

A vergonha me atingiu como uma onda, e soltei sua mão rapidamente, olhando para baixo.

O que tinha feito? Será que ele ficaria bravo? Será que eu estraguei aquele momento?

Mas antes que pudesse me perder em pensamentos, senti algo inesperado.

Seus lábios encontraram os meus novamente, de forma gentil, mas decidida.

Itachi não hesitou.

Era como se, naquele instante, ele quisesse me mostrar que também sentia algo, algo que talvez nenhum de nós entendesse completamente, mas que era real.

Quando nos afastamos, o silêncio nos envolveu novamente, mas não era desconfortável.

Pelo contrário, era como se o vento, o som das folhas e até o céu nublado estivessem nos protegendo, criando um mundo só nosso.

O olhei, tentando encontrar as palavras certas, mas ele apenas sorriu, daquele jeito característico, com um brilho sutil nos olhos.

Um sorriso que dizia mais do que qualquer frase poderia.

E ali, naquele instante, com o anel pendurado em meu pescoço e o calor de seu toque ainda presente, senti algo que nunca havia sentido antes: pertencimento.

Como se, pela primeira vez, alguém tivesse realmente me enxergado. E esse alguém era Itachi.

_ Obrigado pelo presente. — Mostrou o colar em seu pescoço. _ Gostei muito.

Itachi abriu um sorriso suave, aquele sorriso que ele raramente mostrava, mas que parecia iluminar qualquer coisa ao redor.

Antes que pudesse responder, um som agudo de risadinhas e passos apressados chamou nossa atenção.

_ Nii-san! — Veio a voz infantil de um garotinho de três anos, que correu em nossa direção com a energia de quem não tinha preocupações no mundo.

Ele agarrou as pernas de Itachi com força, quase derrubando-o, enquanto ria alegremente.

Era Sasuke, o pequeno irmão de Itachi, com suas bochechas redondas e olhos grandes, ainda cheios de curiosidade e ingenuidade.

Ele levantou o rosto para o irmão com um sorriso tão largo que era impossível não sorrir de volta.

_ Sasuke — Itachi disse em um tom calmo, mas havia um carinho evidente em sua voz.

Ele se abaixou para ficar na altura do irmão, passando a mão pelos cabelos escuros do menino.

_ O que está fazendo aqui?

Antes que Sasuke pudesse responder, olhei para o lado e vi tia Mikoto se aproximando, andando com a elegância tranquila que parecia ser uma marca registrada dela.

Seus longos cabelos negros balançavam levemente enquanto ela conversava com a professora.

A cena era tão comum e ao mesmo tempo tão acolhedora que senti um calor reconfortante.

_ Sasuke, não pode sair correndo assim. — Chamou Mikoto, com a voz firme, mas cheia de doçura.

Ao notar Itachi, ela sorriu.

_ Ah, então era aqui que ele queria ir.

Itachi se levantou, ainda segurando a mão do irmão mais novo.

Mikoto chegou até nós e olhou para mim, seus olhos gentis analisando meu rosto por um momento antes de se voltarem para o anel em meu pescoço.

_ Que lindo presente, Itachi. — Havia algo em sua voz, uma mistura de aprovação e leve surpresa, como se entendesse o peso daquele gesto.

Senti minhas bochechas corarem levemente sob o olhar caloroso de Mikoto.

Havia algo de maternal nela que fazia com que qualquer um se sentisse acolhido, e ao mesmo tempo, sua presença trazia uma calma que era difícil de descrever.

_ Sukui, por que não vem jantar conosco hoje? — Mikoto perguntou de repente, sua expressão aberta e convidativa. _ Tenho certeza de que Sasuke adoraria ter companhia além do irmão.

Olhei para Itachi, incerta, mas ele apenas assentiu, como se aquela fosse a coisa mais natural do mundo.

E naquele momento, percebi que talvez tivesse ganhado mais do que um anel naquele dia.

Talvez estivesse ganhando um lugar ao qual pudesse pertencer novamente.

_ Eles são tão bons alunos que sentirei um pouco de falta dos dois. — A professora falou, fazendo que sua presença fosse notada. _ Infelizmente os dois não poderão fazer time juntos.

_ Mesmo que eu não tenha Sharingan...

_ Sinto muito, Sukui, mas vocês são do mesmo clã. — Chatice. _ Mas posso ver com o diretor essa questão. — Mikoto não entendeu, mas não perguntou. _ Vou deixar vocês irem, com licença.

A vimos ir e já começo a falar para a tia toda a situação que fui colocada, tudo por fofocas infundadas que talvez me ajude a ficar no mesmo time que Itachi.

_ Você é uma malandrinha. — Sim, eu era.

Até porque, já tinha visto isso em minhas visões.

Na verdade, já vi tudo... Apenas finjo que não.