A Salvação de um Uchiha
10 Capítulo nove
A escuridão era silenciosa, mas não vazia. Senti como se estivesse flutuando em um oceano infinito, onde o tempo não existia e as memórias eram ondas que vinham e iam.
Queria me mover, queria lutar contra aquela sensação, mas meu corpo parecia tão distante quanto as estrelas.
Foi então que ouvi.
Um som baixo, rítmico, como uma batida de coração. Não era o meu, disso eu sabia.
Era mais profundo, mais forte, como se pertencesse a algo muito maior. Aos poucos, comecei a distinguir palavras entre as batidas, sussurros que ecoavam como um coro antigo:
"Sacrifício... Escolha... Consequência..."
Minha mente lutava para compreender, mas antes que pudesse processar, uma luz pálida começou a se formar ao meu redor.
Não era quente nem fria, apenas uma presença que me envolvia, gentil mas inescapável.
Quando finalmente abri os olhos, estava em um lugar estranho, que parecia familiar e desconhecido ao mesmo tempo.
O chão era feito de espelhos que refletiam não apenas meu rosto, mas momentos da minha vida – memórias boas e ruins, escolhas feitas e caminhos perdidos.
E à minha frente, uma figura começou a emergir da luz.
Era alta e etérea, sem traços definidos, como se estivesse constantemente mudando.
Seus olhos, porém, eram fixos, profundos como o vazio do tempo.
_ Você fez o que poucos ousariam fazer. — A voz dela não era humana, mas ecoava em minha mente como uma melodia antiga. _ Mas ao salvar uma vida, você alterou o curso de muitas outras. Está pronta para entender o que isso significa?
Minha garganta estava seca, e minha voz parecia presa. Tudo que consegui foi balançar a cabeça lentamente.
_ O fio que você puxou não apenas conectava mãe e filha. Ele sustentava algo maior. Agora, o equilíbrio foi quebrado. E onde há desequilíbrio... — A figura fez uma pausa, os olhos brilhando intensamente. _ Há rachaduras.
Antes que pudesse perguntar o que aquilo significava, o chão sob mim começou a tremer.
As imagens nos espelhos se distorceram, fragmentando-se em milhares de pedaços, cada um refletindo um futuro diferente.
Alguns mostravam Hinata e Hanabi, felizes, enquanto outros revelavam escuridão, dor e perda.
_ Estas são as possibilidades. — Continuou a figura. _ Cada escolha cria um caminho, mas nem todos os caminhos levam à salvação. Agora, é você quem deve andar por eles.
Eu me ajoelhei, sentindo o peso daquelas palavras. Frosh não havia mentido.
O preço era muito maior do que eu imaginava. Mas por que eu? Por que esse fardo tinha que ser meu?
_ Porque você é a guardiã do tempo, a tecelã dos destinos. — Disse a figura, como se lesse meus pensamentos. _ E agora, mais do que nunca, o tempo precisa de você.
O chão sob mim começou a desmoronar, os pedaços de espelho caindo em um abismo infinito.
Queria gritar, mas o som parecia não existir mais. Apenas a voz daquela figura permanecia, ecoando em minha mente.
_ A próxima escolha será ainda mais difícil, mestra do tempo. Esteja preparada, pois o preço será mais alto do que qualquer coisa que você já enfrentou. E lembre-se... o tempo não é gentil com os indecisos.
E então, caí. A sensação era de ser puxada por correntes invisíveis, e quando finalmente atingi o chão – ou o que parecia ser chão – minha visão clareou.
Estava de volta ao quarto dos Hyuuga. Tudo parecia igual, mas havia algo no ar. Uma tensão, uma sensação de que algo havia mudado.
Frosh estava ao meu lado, olhando para mim com preocupação.
_ Você está bem, mestra? — Perguntou suavemente.
_ Não sei. — Respondi, sentindo o peso de cada palavra. _ Mas o que vem agora, Frosh?
A pequena raposa inclinou a cabeça, seus olhos cheios de algo que parecia... pesar.
_ Agora, você descobre o que perdeu.
E naquele momento, soube que o verdadeiro desafio ainda estava por vir.
Antes que pudesse fugir daquele lugar, os olhos da mulher começaram a se abrir.
Havia um brilho hesitante neles, um misto de confusão e gratidão que parecia perfurar a atmosfera carregada.
Ela me encarou, como se buscasse entender quem ou o que havia a salvado.
_ Quem... quem é você? — Sussurrou, a voz frágil, mas carregada de uma vulnerabilidade que me desarmou.
Antes que pudesse responder, o choro de Hanabi ecoou mais alto do berço ao lado.
A pequena agora parecia reagir à energia que preenchia o quarto, como se alguma centelha vital tivesse sido reacendida.
No canto, Hinata observava com olhos arregalados.
Mas algo havia mudado em seu olhar — aquele medo esmagador que antes dominava sua expressão dava lugar a algo inesperado: esperança.
Levantei-me, as pernas trêmulas, enquanto limpava as mãos sujas com um pedaço de tecido.
O brilho que havia envolvido o quarto desaparecia gradualmente, deixando para trás um silêncio quase sagrado.
Frosh, ao meu lado, ergueu a cabeça, os olhos âmbar avaliando tudo com a serenidade de quem já havia testemunhado o peso do destino muitas vezes.
Pisquei, tentando ignorar o cansaço avassalador que consumia meu corpo.
A mulher, agora plenamente desperta, continuava a me observar. Não havia medo em seus olhos, apenas uma seriedade penetrante, como se tentasse decifrar quem eu era.
_ Meu nome é Sukui. Uchiha Sukui. — Falei, inclinando levemente a cabeça. _ Acabei de salvar sua vida. Espero que, quando chegar a hora, sua família me retribua.
O marido dela apareceu ao fundo, ofegante, os olhos cheios de alívio.
Provavelmente havia ido buscar ajuda, mas chegou tarde demais para testemunhar o que aconteceu.
_ Vocês têm minha palavra. — Respondeu, a voz firme, mas grata.
Meu olhar voltou para a mulher. Sua presença era quase palpável, como se ela carregasse uma força invisível, algo além do humano.
Tentei esconder minha exaustão, mas era impossível. O peso do que havia acabado de acontecer esmagava meu corpo.
Meu peito queimava, minhas mãos tremiam, e meus olhos estavam turvos. Cada respiração era um esforço colossal.
_ Espero que não me deixem na mão quando chegar a hora, Hyuuga. — As palavras escaparam de minha boca antes que pudesse contê-las.
Sem conseguir suportar a intensidade daquele momento, algo chamou minha atenção. Um espelho de corpo inteiro preso à parede.
Fui atraída até ele, os pés movendo-se quase contra a minha vontade. Era como se algo dentro de mim me puxasse para frente, algo que eu não podia resistir.
Quando me vi no reflexo, quase não reconheci a figura diante de mim.
Era eu... mas ao mesmo tempo, não era.
Foi então que percebi. O Sharingan estava ativo.
Meus olhos queimavam, as imagens refletidas em minha visão dançavam de forma quase insuportável.
O Mangekyou estava lá. Podia senti-lo, pulsando como uma entidade própria, viva, faminta.
Minha imagem refletia uma força imensa, mais intensa e feroz do que eu jamais imaginara.
Meus olhos, agora banhados em um vermelho profundo e vibrante, pareciam consumir a luz ao redor, irradiando uma aura sombria e sedutora.
O Mangekyou Sharingan se desdobrava neles com uma beleza perturbadora — suas formas, complexas e sinuosas, se entrelaçavam como pétalas de uma flor sombria, formando um padrão hipnotizante.
Cada giro das espirais parecia girar infinitamente, como se algo mais estivesse se movendo dentro deles, algo que desafiava o entendimento humano.
O centro de cada olho era uma espiral perfeita, um vórtice que parecia se abrir para um abismo insondável, e em torno dele, linhas finas e intricadas se entrelaçavam, formando um símbolo que exibia uma combinação de caos e ordem, beleza e perigo.
Era como se os próprios mistérios do universo estivessem gravados ali, em cada curva e contorno, refletindo um poder que não poderia ser desafiado.
E, ao olhar mais fundo, algo quase impossível de descrever se revelava: um brilho sutil, enigmático, que parecia esconder um segredo antigo, um poder ancestral aguardando ser desvendado.
Aqueles olhos não eram apenas um reflexo da força adquirida, mas uma porta para um mundo desconhecido, uma promessa silenciosa de que, ao ativar o Mangekyou Sharingan, eu estava prestes a tocar os limites da realidade e da percepção.
Era como se o próprio universo se refletisse ali, vasto e insondável.
O espelho parecia sussurrar verdades que eu não estava pronta para ouvir.
Respirei fundo, tentando me ancorar na realidade.
_ Sukui... — A voz da raposa veio de trás, fraca, mas carregada de significado.
Não me virei. Não podia.
_ Sei o que você está pensando. — Falei, minha voz quase um sussurro, enquanto meus olhos permaneciam fixos no reflexo. _ E sei o que isso significa para mim.
O Mangekyou Sharingan... Sabia o que ele era. Sabia o preço que ele exigia.
Havia cruzado uma linha que não podia ser desfeita, um limite que me separava de tudo o que eu era antes.
Agora, eu era uma Uchiha completa.
Mas o preço?
O preço era insuportavelmente alto.
Senti uma lágrima escorrer por meu rosto. Era de dor? De alívio? De arrependimento? Não sabia dizer.
_ O tempo não gosta de ser desafiado, mestra. — Frosh murmurou ao meu lado. Sua voz era um lembrete de que as consequências logo me encontrariam.
E sabia, no fundo, que aquele era apenas o começo do que o destino havia reservado para mim.
O poder queima, mas o fardo que ele traz... esse é eterno.
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