A Salvação de um Uchiha
11 Capítulo dez
O calor do sol era suave naquele início de tarde, era fresco, o som do vento nas folhas se misturava com a minha respiração.
Não estava treinando no sentido comum da palavra, mas me conectando com a natureza.
Meditar e permitir que meu chakra fluísse livremente pelas árvores e pela terra era uma experiência indescritível.
Sentia cada partícula de energia vibrando ao meu redor, como se a própria floresta estivesse respirando comigo.
O silêncio absoluto do momento me dava uma sensação de paz que raramente experimentava em outros lugares.
De repente, algo perturbou a serenidade.
Dois chakras se aproximavam, e os reconheci instantaneamente. O chakra azul, suave e relaxante, trouxe um pequeno sorriso aos meus lábios, enquanto o chakra alaranjado foi acompanhado de uma onda de alerta.
Percebi a intensidade e a raiva contidas nesse chakra quase imediatamente. Era impossível não saber quem estava vindo.
_ Ah, não... Não é possível... — Murmurei, antes de ver o jovem Uzumaki Naruto, correndo com uma lata de tinta em uma das mãos.
O garoto tinha apenas cinco anos, mas parecia já estar em busca de confusão.
Sua energia era impossível de ignorar. Ele era um tornado de vontade e desatino.
_ Melhor parar de correr, vai se machucar. — Falei, sem desviar o olhar, consciente de que não havia muito sentido em tentar pará-lo, mas sentia a necessidade de alertá-lo.
_ E quem se importa? — Naruto respondeu com aquele sorriso travesso, tão característico dele.
Seus olhos azuis brilhavam com uma curiosidade insaciável.
_ Eu me importo. — Ficou confuso. _ Vem, sente-se comigo, aprecie o que a natureza te oferece. — O convidei, sentindo que ele precisava de algo mais naquele momento.
Algo além de suas travessuras.
Naruto me olhou por um instante, visivelmente surpreso com minha atitude calma, mas, depois de um momento de hesitação, se aproximou.
Mesmo com o medo estampado em seu rosto, ele se sentou ao meu lado.
Estava claro para mim que ele tinha medo do desconhecido, e eu sabia exatamente como ele se sentia. Solidão, confusão, insegurança... Mas algo mais também pairava no ar.
_ O que você está fazendo aqui sozinha? — Perguntou, com a voz mais suave, mas com o olhar ainda desconfiado.
_ Treinando, e você, aonde está indo? — Perguntei, sem olhar diretamente para ele, mas sentindo a energia vibrando à minha volta.
_ Treinando? — Olhou ao redor, claramente confuso, e deu uma risada. _ Como pode treinar sem equipamentos?
_ Meditar é um treinamento também, Naruto. É ótimo para acalmar a mente, focar o chakra. — Expliquei, sentindo o peso da solitude que ambos compartilhávamos. _ Mas me diga, aonde você ia? O que estava planejando?
_ Ia pintar os monumentos dos Hokages. — Disse, com aquele brilho de travessura nos olhos.
_ Não é novidade. — Respondi com um sorriso pequeno.
Sabia exatamente o que ele estava pensando.
Naruto, como sempre, não conseguia ficar quieto por muito tempo. Ele se levantou de repente e me olhou com um olhar curioso.
_ Ei, posso te fazer uma pergunta? — Ele disse, enquanto ajeitava sua bermuda.
_ Claro, mas você já me fez uma pergunta. — Respondi com uma risada, me sentindo mais à vontade com a presença dele.
_ Você sabe quem eu sou? — Ele tinha uma seriedade inesperada para sua idade.
Fiquei surpresa pela pergunta, mas não hesitei.
_ Claro que sei. Uzumaki Naruto. Mas por que pergunta? — Tentei decifrá-lo.
A resposta veio rapidamente. Ele queria entender algo mais profundo, algo além da simples fama que o precedia.
Naruto suspirou e, sem mais palavras, se sentou diante de mim. Colocou a lata de tinta e o pincel no chão, com um ar pensativo.
Seus olhos eram claros como o céu, mas carregavam o peso de uma vida difícil. Ele era jovem, mas já parecia carregar o peso do mundo nas costas.
_ Por que você está me tratando tão bem? — Perguntou quase sem fôlego, como se sua pergunta carregasse algo importante.
Olhei para ele, as palavras surgindo com uma dor silenciosa que eu sabia que ele não compreendia totalmente, mas que compartilhávamos.
_ Porque também já fui amiga da solidão. — Suspirei, abraçando as minhas pernas. _ Entendo o que você sente, as pessoas da vila me chamam de aberração e não consigo comprar alguma iguaria que tem pela vila sem que eles fechem as portas na minha cara.
Naruto me olhou, sem palavras, e aquilo me tocou mais do que eu esperava.
_ Qual é o seu nome? — Perguntou de repente, ainda sem saber como reagir a tudo o que eu havia dito. _ Não te acho uma aberração, você até que é bonita.
Ri, surpresa pelo elogio e pela sinceridade da sua fala. O garoto era uma mistura de coragem e insegurança, e isso me fez sorrir.
_ Obrigada. — Falei suavemente, sentindo uma conexão com ele que ainda não sabia explicar. _ Meu nome é Uchiha Sukui. — Peguei uma maçã que estava ao meu lado e a ofereci. _ Sei que não é higiênico, mas...
Antes que pudesse terminar, ele mordeu o outro lado da maçã e deu um sorriso largo, fechando os olhos com prazer.
_ Acho que, mesmo que uma parte da maçã já tenha sido comida, a outra parte ainda está boa para alguém novo. — Disse, com aquele jeito único e simples de ver o mundo. _ É como você. Você mostrou uma parte de si para o mundo, mas tem muito mais para ser descoberta. Cada mordida é uma nova experiência.
Fiquei em silêncio por um momento, tocada pelas palavras de Naruto. Ele não sabia, mas falava com uma sabedoria que muitos adultos não possuíam.
_ Então, vou trazer uma maçã mordida todo dia para você, se quiser. — Falei brincando.
_ Vou adorar, dattebayo. — Sinto o calor da amizade florescendo, algo que eu raramente experimentava.
_ Posso te perguntar algo?
_ Claro. — Fechou os olhos momentaneamente.
_ O que você quer ser quando crescer?
_ Eu quero ser Hokage, dattebayo. — Respondeu com uma confiança que me impressionou.
_ Hokage? — Perguntei, já sabendo a resposta, mas querendo ouvir suas palavras. _ É o cargo mais alto de uma vila. Mas me diga, por que quer ser Hokage?
Naruto hesitou um momento, como se o peso de sua própria resposta fosse muito grande para carregar, mas então falou com a sinceridade de sempre.
_ Porque não tenho amigos, as pessoas não me amam aqui. Mas, se eu for Hokage, todos vão me reconhecer. — Riu, como se fosse algo simples.
Sorri, um pouco triste, mas com uma compreensão que só quem passou por isso pode entender.
_ Você é a primeira pessoa que não ri do meu sonho. — Ele disse, com os olhos brilhando. _ Não sei exatamente o porquê, mas é o que eu sinto e quero, quero ser Hokage.
_ Hokage... — Suspirei, pensando em suas palavras. _ Acredito em você, Naruto. Não porque você precisa de reconhecimento, mas porque você tem algo dentro de si que ninguém pode apagar.
_ Sério? — Acenei.
_ E você vai ter amigos. Amigos que vão ajudá-lo na sua jornada.
Toquei sua cabeça carinhosamente.
_ Estarei ao seu lado, não importa o que aconteça.
_ Você é um anjo? — Neguei.
_ Quer tomar sorvete?
Olhou para mim com surpresa, mas antes que pudesse reagir, o puxei pela mão, nos afastando da floresta e caminhando pelas ruas da vila.
Aquela simples ação de andar juntos, de mãos dadas, me fez sentir uma paz que raramente experimentava.
Mas quando chegamos à sorveteria, a realidade nos atingiu.
_ O que essas duas aberrações estão fazendo em meu estabelecimento? — O dono da sorveteria nos olhou com desdém. _ Saem daqui, estão espantando os clientes.
Não hesitei. Coloquei minha mão na cintura e encarei o homem com firmeza.
_ Não! — Respondi, com a voz decidida. _ Olha, senhor, sou uma cliente aqui, e quero tomar meu sorvete com meu amigo. — Ficou ofendido. _ Tenho dinheiro para pagar, então, se me der licença, eu e meu amigo escolheremos nossos sabores.
As pessoas dentro da sorveteria olhavam surpresas, mas não me importava. Não mais.
Naruto e eu rimos, comemos nossos sorvetes e brincamos com os olhares curiosos à nossa volta. Mas, quando estávamos saindo, o dono ainda tentou nos expulsar, mas não conseguiu.
Enquanto caminhávamos pelas ruas movimentadas de Konoha, o sorvete nas nossas mãos parecia um pequeno triunfo.
Naruto, com aquele sorriso travesso e energético, lambia o dele como se fosse a melhor coisa que já tinha provado.
Eu observava, sentindo uma pontada de algo que não experimentava há muito tempo: felicidade genuína.
_ Sukui... — Disse de repente, quebrando o silêncio entre as risadas. _ Você acha que as pessoas podem mudar o jeito como olham para mim?
Olhei para ele, surpresa pela pergunta, mas sem hesitar.
_ Claro que podem. — Respondi com firmeza. _ Mas não vai ser fácil. As pessoas têm medo do que não entendem, Naruto. Você só precisa mostrar a elas quem realmente é. Não com palavras, mas com ações.
Ficou em silêncio por um momento, pensativo, antes de soltar uma risada.
_ Acho que você é a primeira pessoa a dizer isso para mim. — Respondeu, um sorriso suave no rosto. _ Talvez eu possa começar mudando como eu as vejo também.
A profundidade de suas palavras me atingiu. Ele era tão jovem, mas carregava uma sabedoria crua, moldada pelas dificuldades.
Algo nele era inspirador, como uma chama que nunca se apagava, mesmo nos ventos mais fortes.
Aquela tarde marcou o início de algo especial.
Não apenas uma amizade, mas uma compreensão mútua. Dois corações solitários que, de alguma forma, encontraram conforto um no outro.
Enquanto o sol começava a se pôr, tingindo o céu de laranja e rosa, eu soube que Naruto e eu tínhamos mais em comum do que imaginávamos.
E, por mais incerto que fosse o futuro, eu sabia que ele tinha razão.
_ Sukui. — Quebrou o silencio novamente. _ Vou me tornar Hokage, e você vai ser minha conselheira. O que acha?
Tive que rir, mas havia algo de cativante na sua determinação.
_ Só se você me der sorvete de graça todos os dias. — Respondi, provocando-o.
Ele deu um salto animado, gritando:
_ Combinado! Dattebayo!
E assim, seguimos nosso caminho, dois amigos em busca de seus próprios lugares no mundo, mas, naquele momento, juntos.
De alguma forma, sentia que aquela amizade estava apenas começando e que, em breve, nossos caminhos se cruzariam novamente.
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