Retornar para Sir’benét foi estranho. O ar confortável da casa de Ôkirba e da clareira iluminada foi deixado para trás, e algo mais desconcertante pairou sobre Thomas, e ele não saberia dizer exatamente o que era. Ele não sentia frio, mas estava contente por estar usando sua blusa quando um arrepio subiu por suas costas.

– Vai demorar muito pra gente chegar lá? – Ele pulou uma pedra coberta de musgo.

– Um pouco – respondeu Óhlem. – At’knik fica bem escondida na floresta.

– Hã… – Thomas desviou os olhos para a lança nas mãos do okrasiri. – É perigoso por aqui?

– Não muito, nós só gostamos da segurança da floresta. Mas sim, existem alguns animais por aí, predadores, sabe como é. – Óhlem sorriu torto e Thomas suspirou, notando que o outro só estava brincando com ele. Mas então a expressão do okrasiri se tornou mais dura. – Mas agora nós temos Fantasmas…

– Desde que o rei viajou? – perguntou Édna.

Óhlem pareceu hesitar antes de mover a cabeça com um som baixo, confirmando.

Thomas se lembrou do que Êkila tinha contado, sobre como Adraúde estava possivelmente relacionada tanto com o desaparecimento do rei quanto dos guardiões. Sendo que ela tinha ao seu lado seres com a capacidade de controlar árvores mortas, não era de se admirar que ela tinha conseguido se safar da justiça com tanta facilidade. Que tipo de poder essa mulher tinha para intimidar até a rainha de um reino mágico?

– É por isso que a gente precisa de um guerreiro. – Dava ainda para sentir o veneno na voz de Magdalenâ, assim como em seus olhos, mas Thomas também notou algo diferente. Medo, talvez…?

– É, eu notei… – As sobrancelhas de Magdalenâ se uniram quando Thomas concordou, e ela não olhou mais para ele.

Cada vez que o humano ruminava sobre aquilo, um misto de determinação e medo tomava conta dele. Ele queria poder fazer alguma coisa para ajudar, mas não sabia como. Era um tanto assustador, e Thomas pelo menos não tinha medo de admitir tal coisa.

Parte dele queria que San Iak estivesse certo, mas outra parte pedia com todas as forças que o homem estivesse errado. E ele não sabia qual lado ia ganhar.

Thomas suspirou, sem querer pensar mais naquilo.

– Então… – disse e os outros se voltaram para ele. – A gente pode conversar para, sei lá, passar o tempo?

– É claro. – Édna se inclinou contra uma árvore numa pose estranha. – Diga o que quer saber.

– Tem muita coisa que eu quero saber… – Thomas não pôde deixar de rir junto aos outros quando Magdalenâ quase derrubou a irmã, a forçando a continuar andando.

Ele pensou em como começar. Tinha tanta coisa na sua cabeça que era difícil escolher. Decidiu começar com algo mais simples, só para ajudar sua mente a se preparar para as informações mais importantes.

– Primeiro, eu preciso saber, porque faz tempo que eu estou pensando nisso… como vocês sabem a minha língua? Vocês falam uma língua totalmente diferente…

– Há várias línguas no Grande Reino – explicou Édna enquanto atravessava um grupo de árvores curvadas. – A língua de Magúz é a mais comum, mas também tem a Ancestral e outras línguas menores.

– Os anciões de At’knik usam a Língua Ancestral – adicionou Óhlem em tom de curiosidade.

– A sua língua… português… – Nôa riu por algum motivo que Thomas não entendeu. – Começou a ser ensinada já faz uns anos, quando a pedra de Maes mostrou que essa era a língua do guerreiro.

– Vocês aprenderam… por mim…? – As bochechas de Thomas esquentaram. – E-espera! “Faz uns anos”?

– Sim. Faz um tempo que procuramos pelo guerreiro. – Magdalenâ rolou os ombros. – Quando a pedra diminuiu a área de procura para a sua cidade, Édna tomou o trabalho das mãos do vovô. Por quanto tempo?

– Alguns meses.

Thomas não sabia o que dizer. Eles tinham aprendido sua língua para poder se comunicar com ele! Era loucura!

– Sua língua é estranha – mencionou Magdalenâ. – E chata de aprender.

Thomas não pôde segurar uma risada, tanto com o comentário quanto com a expressão da garota.

– Concordo plenamente – Ele riu mais uma vez com o olhar que recebeu da transfiguradora. Dava pra ver que ela queria o incomodar com o comentário, mas a gramática portuguesa já tinha o incomodado o bastante para ele se importar.

Thomas pulou por cima de uma pedra grande, assim como os outros tinham feito, sentindo a pedra de Maes pular com o movimento.

Então o Grande Reino esteve procurando por seu guerreiro por anos, sendo guiado por aquele cristal, que não só descobriu em qual país ele morava, mas também quem ele era. Isso só enchia a cabeça de Thomas com ainda mais perguntas.

– E… essa família Maes. – Ele puxou o cristal azul-arroxeado para o nível de seus olhos. – Quem eram?

– Uma das famílias descendentes dos magos antigos – explicou Édna. – Grandes mágicos e alquimistas que ajudaram a criar o reino, o Conselho, e foram os primeiros a abrir os portais para outros mundos e para Sulun Sukól, ou… hum, o mundo de onde vêm os ‘sem corpos’…

– Sem corpos? – Thomas sentiu um arrepio.

– É, ou “Espíritos”, como vovô decidiu os chamar.

Aquilo não ajudava muito e, de qualquer forma, Thomas não estava a fim de saber mais sobre Espíritos, ou Fantasmas, não agora; talvez nunca? Ele se sentia estranho…

Thomas mordeu o lábio, querendo perguntar sobre ele, aquele homem que havia tido visões sobre ele. Mas por algum motivo, algo estava o segurando, como se dissesse para “esperar um pouco mais” …

– O avô de vocês é um Mago Conselheiro. O que é isso? O que ele faz?

– São pessoas poderosas e inteligentes, escolhidas para proteger o reino. Eles cuidam dos portais, da passagem do tempo… – Nôa ajudou Thomas a passar por entre duas árvores estranhas. – A maior parte do conselho é composta por transfiguradores, mas há outros também.

Devia ser um trabalho realmente importante. E pensar que ele, um simples humano, tinha sido escolhido para ajudar a proteger aquele lugar, e outros mundos… Sua barriga deu uma cambalhota.

Thomas ergueu a mão e segurou a pedra, se sentindo substancialmente mais calmo. Ele respirou fundo.

Certo, lá vamos nós…

– E San Iak?

– Um dos Magos Conselheiros mais importantes da última era. Foi ele que pediu para os Espíritos reabrirem o portal para o seu mundo alguns anos antes de morrer, para que você pudesse vir pra cá.

– Por que os portais foram fechados?

– Quem sabe? Talvez só por segurança? Para que ninguém passasse para outros mundos, ou viesse deles.

– San Iak foi o último dos Maes, filho único, e não teve filhos, então a família e o seu legado morreram com ele.

Thomas notou um brilho fraco e pálido dentro da pedra. Ele apertou os dedos em volta dela até a luz sumir.

Ele não sabia por quanto tempo a linhagem Maes tinha existido, mas achava um tanto triste imaginar o fim de uma família numerosa. O fazia se lembrar da família de seu pai, grande e com a mistura de quase cinco etnias diferentes, mas que agora tinha poucos descendentes. Enquanto a família de sua mãe constava apenas de uma pessoa: ela. Que diferença…

Thomas balançou a cabeça. Pensar em seus pais só o deixava mais inquieto.

– E esses outros mundos? Como são? – perguntou para se distrair.

– Não sabemos – disse Magdalenâ. – Fora o vovô, Édna foi a única da família que já passou para um outro mundo. E esse é o seu.

Era uma pena. Seria incrível viajar para outros mundos. Se bem que ele já estava em um outro mundo e aquilo já estava sendo uma aventura.

O Grande Reino, fisicamente falando, não se parecia muito diferente do seu. O céu era azul, a grama verde, as árvores tinham galhos e folhas. Mas quanto mais tempo ele passava ali, mais ele podia sentir algo diferente; um tipo de força milenar emanava daquele lugar, o envolvendo do céu acima da copa das árvores, até a terra embaixo de seus pés.

Era estranho pensar que não era capaz de sentir algo assim em seu mundo. Talvez porque foi lá onde nasceu e viveu por quinze anos, talvez fosse só a falta de magia no mundo humano. Ao mesmo tempo em que ele ficava triste ao pensar na falta de magia em seu mundo, ele agradecia. Pelo menos o seu mundo não precisava de um herói de outra realidade para o salvar.

Mas aquilo só o deixava ainda mais confuso com a sua situação.

– Por que San Iak me viu como o guerreiro?

– É uma boa pergunta… – Édna suspirou, para a surpresa do rapaz.

Desconfortável, Thomas encarou o cristal, esperando que a família Maes pudesse jogar uma luz sobre aquilo tudo, seja ela metafórica ou não…, mas nada aconteceu. Ele suspirou. Ainda havia muito que queria saber, mas por algum motivo sentiu as palavras sumirem de sua garganta, ao invés disso ele se focou em acompanhar os outros.

Há quanto tempo estamos andando?. Thomas olhou para cima, mas o céu estava escondido pelas folhas. As árvores agora estavam tão próximas que era difícil não tropeçar em raízes e pedras.

A floresta Sir’benét parecia não ter fim! E Thomas já tinha tido sua cota de sustos com árvores estranhas, pássaros alçando voo repentinamente e outros animais pulando nos galhos ou rastejando embaixo das raízes.

Ele tropeçou pela terceira vez e sibilou.

Óp! – Óhlem riu, ajudando o rapaz a ficar de pé. – Tudo bem aí?

– Sim, só não estou acostumado a andar no meio do mato, sabe… – Thomas bufou. Não era totalmente verdade, ele gostava de se aventurar peelos bosques perto de sua casa, mas nenhum bosque se comparava àquela floresta.

– Não tem florestas de onde você vem?

– Tem sim! – disse Édna e Thomas se perguntou por onde a garota já tinha se aventurado em seu mundo.

– Minha cidade é bem verde, para uma área urbana pelo menos.

– É muito diferente? – Thomas sorriu, decidindo que o okirasiri tinha todo o direito de fazer perguntas, depois do seu questionário.

– Sim, bem diferente. Quero dizer, as cidades, a cultura… é um mundo diferente. – Ele deu de ombros, sem saber como explicar sem entrar em muitos detalhes. Ele esperava que Óhlem não começasse a perguntar sobre tecnologia, lembrando que a coisa mais tecnológica que ele tinha visto naquele lugar era o triciclo de Nôa.

O okrasiri abriu a boca, prestes a dizer alguma coisa, mas parou. Seus olhos grandes ficaram ainda maiores enquanto as pupilas brancas diminuíram, e sua cauda longa, que se enrolava e curvava ficou tensa, a ponta direcionada para o chão. Thomas ficou desconfortável com o outro olhando através dele, como se ele não estivesse ali.

– Óhlem?

– Tem alguma coisa errada… – Óhlem murmurava baixinho como se falar mais alto fosse perigoso.

Thomas tocou a pedra e sentiu um arrepio. O cristal estava frio como um pedaço de gelo.

– Óhlem!

O humano piscou, notando que Óhlem tinha corrido para longe, se lançando de galho em galho usando as mãos, os pés e a cauda para se mover com mais rapidez, ainda segurando a lança pontiaguda com força.

O grupo se entreolhou ao ser deixado para trás.

– O que está acontecendo?

– Alguma coisa em At’knik? – Nôa olhou de Édna para Magdalenâ.

Édna não esperou, só tirou a bússola do bolso e a ergueu em sua mão. O grupo apressou o passo na mesma direção que Óhlem tinha ido, embora não pudessem ser tão rápidos quanto o okrasiri.

A cada passo que dava, mais nervoso Thomas se sentia e, dessa vez, a pedra não o ajudou, continuando fria em seu peito.