Thomas não poderia dizer por quanto tempo eles correram, Édna indo na frente, com a bússola azulada equilibrada na mão enquanto pulava e desviava de árvores como se não fosse nada. Thomas sentiu seus pés começando a cansar, mas continuou em frente.

Até que os transfiguradores pararam, tão de repente que Thomas quase tropeçou e caiu em cima deles. Ele olhou em volta. Árvores enormes se erguiam diante deles, uma ao lado da outra, com ramos descendo como cortinas verdes entre seus galhos entrelaçados, formando uma espécie de parede natural.

– Chegamos… – Édna respirou fundo, abaixando a bússola.

– Onde? – Thomas ergueu o olhar para o topo das árvores, coroado de folhas escuras que escondiam o céu.

Sem dizer nada, Nôa afastou uma das cortinas de folhas e ramos, revelando pedras grandes e cobertas de musgo verde-escuro do outro lado; pareciam até as ruínas de um muro antigo, destruído pelo tempo e pela natureza. Thomas seguiu atrás do transfigurador, ao mesmo tempo nervoso e curioso. Havia algo de mágico naquela barreira natural, como se ela escondesse um portal (algo que ele já sabia existir naquele lugar); e era como se aquele lugar fosse sagrado, mantido em segredo por feitiços que Thomas desconhecia, mas que de algum modo haviam sido profanados.

Nôa já devia ter visitado o lugar antes, a julgar pelo modo decidido com que andava, guiando o grupo por um corredor entre ramos e as pedras. Thomas apressou o passo para acompanhar, sem querer perder o outro de vista quando esse virou ao lado de uma das pedras menores.

A passagem não era estreita, embora parecesse ser, e levava a uma pequena estrada escondida. Não importava o quanto entrassem, pouco dava para ver a frente, mas, quando se olhava para trás, ainda era possível ver Sir’benét. Parecia uma ilusão de ótica.

A trilha acabou em uma pedra coberta de musgo, com uma passagem para a esquerda, e Thomas quase deu de frente com as costas de Nôa quando esse parou.

Ele olhou por cima do ombro do outro e perdeu o ar.

No meio de uma enorme clareira arredondada, cercada por árvores de troncos grossos e pedras grandes, estava uma vila; tinham chegado à At’knik, porém, algo estava errado…

Casas pequenas e arredondadas de pedra e terra estavam espalhadas entre a grama rala e canteiros de flores, enquanto outras pareciam sair dos troncos grossos das grandes árvores mais ao centro da clareira, como se fossem partes naturais delas. Os galhos dessas árvores, longos e cheios de folhas, cobriam a cidade como um manto verde, ainda permitindo que alguns raios de luz descessem até o chão.

Um silêncio perturbador, pesado e denso, caía sobre a cidade, tornando difícil admirar suas cores e brilho.

Portas haviam sido arrancadas das dobradiças e janelas estavam escancaradas, os canteiros de flores coloridas estavam pisoteados e a grama tinha sido arrancada cá e lá, a terra revirada como se algo tivesse subido do chão.

Ângâm Tsendói

– Isso não faz sentido… – Nôa balançou a cabeça. – At’knik é protegida por magia, como…?

O transfigurador desceu pela trilha e Thomas viu que cada passo dele parecia pesar, como se a gravidade o puxasse para baixo com mais força. Seu peito doeu. Silenciosamente ele acompanhou Nôa pelo caminho de terra, formado por anos de caminhadas feitas pelos okrasiri.

Cestos, pás, vassouras, além do que parecia ser brinquedos, até mesmo um carrinho de mão de madeira, estavam atirados para todos os lados pela trilha. Os okrasiri deviam ter sido pegos de surpresa.

Perguntas circulavam na cabeça de Thomas: Como? Por quê? Quem?

Thomas sentia que já sabia a resposta para a última. Seus dedos envolveram a Pedra de Maes, mas ela continuava fria.

E, de repente, no meio do silêncio, Thomas ouviu um som diferente.

– Vocês ouviram isso?

– O que? – Édna e os transfiguradores se viraram para ele.

Todos ficaram calados mais uma vez, tentando ouvir…

Nada.

Mas Thomas podia jurar que tinha ouvido alguma coisa.

Ele apertou a pedra, desconfortável, e…

– Ouçam!

Era o som de um sino, baixo e abafado, como se estivesse longe, bem longe.

– Ainda não estou ouvindo nada… – Nôa olhou em volta, confuso.

Thomas se voltou na direção de onde o som tinha vindo, embora não pudesse o ouvir mais.

– Veio de lá. – Apontou, lançando um olhar para o grupo. Ele não sabia o que esperava, talvez que um deles tomasse a dianteira, mas ninguém se mexeu. A tensão era palpável enquanto os transfiguradores tentavam ouvir o que o garoto tinha ouvido.

Thomas respirou fundo e seguiu na direção que tinha apontado. Além do leve ranger das janelas abertas, estava tudo tão quieto que ele pôde ouvir o som dos passos quando os outros decidiram o acompanhar.

Todas os caminhos se uniam e se dirigiam até um casarão em um dos fins da clareira; como algumas das casas, o casarão parecia ter nascido do tronco de uma árvore, com as veias da casca marrom enfeitando as paredes e envolvendo a moldura das janelas e das grandes portas abertas. Mas entre as marcas naturais haviam outras, mais profundas: marcas de garras, como se algum animal gigantesco tivesse atacado e aberto as portas à força.

Embora tivesse guiado o grupo até lá, Thomas hesitou, suas pernas decidindo parar de funcionar.

Nôa passou por ele, seguido por Édna e Magdalenâ, chamando pelo okrasiri vermelho e por outros nomes.

Thomas olhou em volta e viu algo caído perto das portas escancaradas e um arrepio subiu por suas costas. Era um sino.

Ele ergueu o olhar, havia um buraco no tronco da árvore, bem acima das janelas, e tudo indicava que o sino esteve preso lá uma vez, mas de algum modo tinha caído, ou sido arrancado. Mas como…? Thomas tinha ouvido o som do sino batendo, não caindo…

E então Thomas se lembrou de onde tinha ouvido aquele som antes: no castelo, antes de Adraúde chegar. Talvez tivesse se lembrado e imaginado…

Seu estômago revirou e ele se apressou a seguir os outros, sem querer ficar sozinho ali.

Um salão grande e redondo servia de entrada no casarão, era simples e pouco enfeitado, e tudo ali estava revirado, como se algum tipo de batalha tivesse acontecido. Flores amarelas iluminavam o lugar, mas Thomas notou que várias delas estavam murchas e manchadas, como se infectadas por alguma coisa.

E, assim como lá fora, o lugar estava vazio e silencioso. Tudo apontava para a existência dos okrasiri, mas era como se todos tivessem magicamente desaparecido.

Eles desceram pelo corredor largo no fim do salão, passando pelas passagens arqueadas que abriam para outras salas menores. Assim como o salão de entrada, as salas estavam reviradas e vazias.

– É melhor a gente se separar…? – Édna começou a falar, mas não parecia ter certeza.

Nôa só assentiu e seguiu em direção a uma das salas. Thomas se sentiu mal ao vê-lo se afastar sozinho; era claro que todos estavam afetados pela estranha destruição, mas Nôa era o mais abalado. Ele se perguntou quantas vezes o transfigurador já esteve ali antes…

Thomas quase escorregou enquanto entrava em outra sala.

– Cuidado. – Ele corou com o comentário de Édna.

Ignorando o curto pânico, ele levantou o pé, vendo no que tinha pisado. Era um lenço amassado e de aparência delicada, pintado com desenhos curvos e coloridos, que até lembrava nós celtas.

Por um momento, encarando aquele lenço, Thomas sentiu algo estranho, vindo de um canto de sua mente, bem ao fundo. Ele não conseguia entender, mas sentia como se, o que quer que fosse aquele cutucado, estava tentando avisar que algo ia acontecer.

Thomas se encontrou esticando a mão até o lenço.

– Ah!

Uma dor pulsante correu de seus dedos para o resto de seu corpo, como se sua pele estivesse sendo queimada, membro por membro. Thomas perdeu o equilíbrio, sentindo que tinha caído e batido a cabeça com força.

Mas, tão rápido quanto tinha aparecido, a dor parou.

Ele piscou, notando que não tinha caído, ainda estava parado no mesmo lugar…

De repente o quarto silencioso se encheu de vozes, gritos e comandos, tudo em uma língua que Thomas não entendia. E, quando viu, estava no meio de um borrão de várias cores criado por vários okrasiri.

– O que está acontecendo?! – Thomas olhou em volta, mas Édna, Magdalenâ e Nôa tinham sumido, o deixando sozinho com os okrasiri.

Um grupo colorido correu para dentro do quarto, fechando a porta no caminho e se apertando contra ela. Algo bateu contra a porta e um brilho fraco envolveu a madeira por um momento.

Um okrasiri azulado que usava um lenço enfeitado na cabeça – o mesmo lenço que Thomas tinha tocado! E que tinha sumido de sua mão…? – se juntou a um grupo de okrasiri menores, os envolvendo com seus braços, embora não pudesse segurar todos de uma vez, enquanto se encolhiam contra a parede mais longe.

A cada empurrão contra as portas o brilho que envolvia a madeira parecia ficar mais fraca e mais fraca…

Thomas ouviu o sussurro do vento e sua pele se arrepiou.

Ele quase foi lançado para trás quando as portas foram abertas com um estrondo alto, pedaços de madeira e ramos chovendo ao seu redor, enquanto os pobres okrasiri foram lançados ao chão.

Formas escuras entraram na sala, contrastando com os okrasiri coloridos, e se movendo sem fazer som, a não ser um sussurro. Eles deslizaram sobre o chão como fumaça de queimada, escurecendo a sala.

– Fantasmas! – Era fácil adivinhar.

Thomas sabia que estava vulnerável, tinha que sair dali, mas seu corpo não obedecia!

Ele só pôde observar enquanto os Fantasmas se aproximavam dos okrasiri caídos e do grupo que ainda tentava se encolher no canto da sala. Alguns se levantaram e tentaram correr, mas a fumaça dos Fantasmas os envolveu. O okrasiri azul gritou alguma coisa, mas nada parou os seres cinzentos.

Thomas quis ajudar, mas seu corpo ainda não se mexia; ele tentou mover as pernas, sem sucesso; tentou mover os braços, mas nada! O mundo pareceu girar ao seu redor, o sibilar dos Fantasmas ficando cada vez mais alto.

Ele desviou os olhos do okrasiri azul quando uma mão feita de fumaça agarrou um dos okrasiri amarelados que tentou fugir da sala. O ser amarelado se debateu, mas não pôde lutar quanto uma nuvem de fumaça escura o envolveu como um casulo.

Thomas só pôde observar enquanto o ser amarelo desaparecia no escuro, parando de se mover totalmente.

O Fantasma se virou e na escuridão daquele rosto, Thomas pôde ver o que parecia ser uma caveira olhando, sem olhos, para ele.

– Thomas?

O garoto arfou, tentou engolir um pouco de ar, mas era como se alguma coisa comprimisse seus pulmões, o impedindo de respirar.

O mundo dançou ao seu redor, nada mais que um borrão sem forma, antes de se focar novamente. Ele piscou uma vez, duas vezes, olhou em volta…

Os Fantasmas tinham sumido, os okrasiri também, quem estava ali ao seu lado era Édna, o olhando de modo estranho. O lenço enfeitado estava de volta em suas mãos.

Thomas abriu a boca, sentindo a língua seca. Não sabia o que tinha acontecido ou o que tinha visto, mas sentia que precisava contar aos outros.

– Ouviram isso? – Nôa parou perto da entrada da outra sala.

Todos ficaram em silêncio.

Thomas instintivamente ergueu a mão para a pedra, procurando conforto, mas ela continuava fria. O som do sino caído ecoou em seus ouvidos mais uma vez.

– Saiam daqui! – Todos reconheceram a voz.

Thomas nem pensou duas vezes antes de seguir os outros de volta ao salão de entrada.

Óhlem, nada mais que um borrão vermelho correu em direção do casarão, até que uma coisa desceu em sua direção, o agarrando como uma mãozorra gigante. Thomas sentiu como se todos os músculos de seu corpo congelassem, tão de repente e com tanta força que sua cabeça girou.

Óhlem se debateu contra a “mão” que o segurava e, mesmo de longe, Thomas pôde ver que os “dedos” eram na verdade galhos, todos conectados ao tronco seco e carcomido de uma árvore morta.

– Como…? – arfou Édna, tão surpresa quanto o garoto.

Eles não tinham visto nenhuma árvore morta lá fora, era como se ela tivesse aparecido do ar.

O okrasiri conseguiu chutar alguns dos galhos secos, os fazendo em pedaços, só para uma fumaça escura sair dos cortes na madeira, o envolvendo em uma nuvem cinzenta, formando um casulo escuro.

– Óhlem! – Os transfiguradores gritaram e o coração de Thomas tentou pular de sua garganta. Se aquilo era assustador para eles que viviam naquele lugar…

Ainda mais fumaça começou a deslizar para fora dos sulcos na casca velha da árvore e Thomas se arrepiou ao ver a escuridão se erguer.

Nôa gritou alguma coisa e Thomas piscou, notando que ele segurava uma lâmina, uma adaga. O transfigurador correu na direção dos seres cinzentos e Thomas quis gritar para que ele voltasse, quis esticar os braços e agarrar o amigo, mas não tinha certeza se tinha se movido ou não, quando algo agarrou seus ombros, o puxando para trás.

Ele se virou, os olhos arregalados.

– Rápido! Rápido! – A voz de Édna rolou por seus ouvidos, soando distante. A garota o empurrou e dessa vez seu corpo se moveu.

Tudo aconteceu rápido.

Era como se flutuasse, ele até sentia como se não estivesse se movendo. Não ouviu som algum enquanto corria, mas continuou correndo, descendo pelo corredor, até ver uma janela aberta. E então havia uma pedra branca em baixo dele, e depois moitas altas e espinhosas. Ele saltou e passou pelas árvores.

Seus olhos arderam e suas pernas e braços formigavam… Ele não conseguia respirar… O mundo era pequeno demais, borrado demais, escuro demais… Seus ouvidos zumbiam…

O chão sumiu embaixo de seus pés.

E então escuridão.

Notas finais
Olá, amigo leitor! Eu gostaria de agradecer por ler essa história até aqui! Você deve estar se perguntando: Ué, cadê o resto? E aqui está a explicação: Estou publicando esse livro no Nyah! (e em outros sites) para apresentar minha escrita original, uma vez que a maior parte das histórias que posto são fanfictions de fandoms variados. Ainda assim espero que tenha gostado do que leu! Essa história é um sample dos primeiros capítulos da minha história "A Saga do Destino" uma saga Young Adult (Jovem Adulto) de cinco livros que acompanhará as aventuras de Thomas neste outro mundo, um mundo em que, aparentemente, ele é um lendário guerreiro! Estou no momento desenvolvendo o resto da saga e espero um dia poder publicar oficialmente esse livro e os seguintes! Por isso eu queria dividir com vocês um pouco do que eu escrevo e conseguir a opinião de vocês, meus leitores! Se você leu até aqui, eu agradeço! Se você puder tomar um momentinho para escrever sua opinião nos comentários, eu agradeceria ainda mais! Meu sonho é ter um livro publicado! Por isso qualquer ajuda, qualquer cooperação e critica é bem vinda! E se você gostou dessa história, espero que goste do que virá no futuro! Obrigado por ler! ♥ — Se tiver interesse, cheque meu site: https://linadoon.wordpress.com/ Ou o meu blog: https://bibliotecadelinadoon.blogspot.com/
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.