A Retribuição

6 A Redenção de Reid


Notas iniciais
Pessoal, finalmente tomei vergonha na cara e defini o rumo da fanfic. Ela será postada agora toda terça e sábado! :) Neste cap, teremos de volta o Todo-Poderoso Reid, cuja vida não está lá tão estagnada quanto a do nosso casal descarado. Por isso, preparem a insulina (principalmente para a parte final) e boa leitura!!

Londres, Inglaterra. 12 de Março de 1900.

–E é com muita honra que chamamos para ocupar o posto de Inspetor Chefe, em nossa Divisão, o Inspetor Edmund Reid!

Uma série de aplausos ecoou na delegacia da Divisão H, em Whitechapel. O inspetor-chefe Abberline, tão conhecido pelo caso de Jack, o Estripador, tal como Reid, fora especialmente convidado para fazer um pronunciamento “breve”, de cerca de uma hora e meia, tecendo elogios e menções à Reid, como se o corpo policial daquela delegacia já não tivesse plena confiança nele.

Finalmente, Reid, no auge de seus quarenta e quatro anos, atingiu o posto que tanto almejara em sua carreira: o de Inspetor-Chefe. Agora, ele tinha equipes para delegar, investigações a conduzir e liberdade para seguir sua intuição. Sua efetiva participação no caso de Bruce Finnegan e Marjorie Eccles, dois fugitivos internacionais, tornou-lhe mais agradável aos superiores da Scotland Yard como inspetor-chefe. Desde o fim do caso, algo lhe dizia que seria questão de tempo para que ele se tornasse inspetor-chefe, tal como disse Sherlock Holmes.

Três horas após a cerimônia de posse, a casa de Edmund Reid ficou repleta de policiais dos mais variados graus, desde meros uniformizados a oficiais da Scotland Yard. Havia bebida e comida a vontade. Norah andava de um lado para o outro, servindo aos convidados e perguntando se desejavam mais alguma coisa, enquanto Reid recebia cumprimentos calorosos de seus amigos da Força Londrina.

Enquanto conversava com velhos amigos da Scotland Yard, os olhos de Reid se depararam com a presença de Mrs. Sigerson – melhor dizendo, Mrs. Holmes. Óbvio, não era surpresa alguma que ela estivesse ali. Por uma coincidência do destino, Esther e Norah tinham se tornado amigas inseparáveis.

–Inspetor Chefe. – disse Esther, quando o cumprimentou. Reid sorriu em resposta.

–Para o Eddie, essas duas palavras são mais belas que a Nona Sinfonia, Sophie. – brincou Norah, fazendo ambos rirem.

–E como anda o seu marido fugitivo, Mrs. Sigerson?

Norah emburrou o semblante. – Edmund, não seja indelicado.

Ao invés de ficar abalada, entretanto, Esther o olhava fixamente. A partir daquele instante, Reid percebeu que Esther já estava ciente de que ele sabia a respeito de seu segredo. Ou melhor dizendo, do segredo de Sherlock Holmes.

–No Caribe, estudando a vida dos golfinhos. – ela disse, com um quê irônico.

–Ouvi dizer que o Caribe é um belo lugar...

Ignorando a conversa das duas mulheres, Reid se afastou, ainda com o sorriso satisfeito por conseguir espezinhá-la. Na opinião dele, era impressionante que ela e Holmes ainda continuassem com o tal casamento secreto. Ora, porquê não diziam logo a verdade? Que mal havia em ser um homem casado? Reid só via vantagens. Um belo sorriso a lhe esperar em casa, uma comida bem-preparada, para não contar as melhores partes da vida de um casado. Reid duvidava que Holmes tivesse o prazer de acordar ao lado de Esther após uma tórrida noite, ou de ver sua reação quando chegava em casa com flores ou chocolates. Ele estava perdendo as melhores partes, concluía Reid.

Após esta breve divagação, Reid decidiu que de problemas já bastava os dele, e voltou ao falatório de seus amigos policiais, que intercalavam a bebida com doses generosas de tabaco em seus cachimbos e charutos, deixando o ambiente enevoado e bastante agitado, com risadas e conversas altas.

Durante uma dessas conversas, o inspetor foi interrompido por um esbarrão de seu próprio filho, Eric.

–Ei meninão! – ele disse, carregando o menino de três anos em seus braços. – Não fique correndo para lá e para cá, ou acabará se machucando.

Embora bastante agitado, o menino obedeceu, assentindo com a cabeça. Depois de deixa-lo outra vez no chão, Edmund Reid observou o pequeno e agitado Eric correndo de volta, lançando um olhar travesso com seus olhos verdes, idênticos aos de Norah. Ele era capaz de enxergar naquele menino um pouco do espírito rebelde e tempestuoso de sua esposa, o que não era má coisa. Para ele, fora exatamente sua rebeldia que lhe fizera criar laços com uma das mulheres mais feministas de Londres.

Logo Norah tratou de pegar o agitado Eric e leva-lo em seus braços. Contemplando sua esposa e filho juntos, em uma casa repleta de alegria e fartura, em comemoração a um futuro que ele só vislumbrava em sonhos distantes, o inspetor Reid não tinha dúvidas de que aquele dia tinha sido o mais feliz de sua vida.

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–Eddie, você está acordado?

Eddie resmungou. Pergunta tola. Se ele estava dormindo, agora não estaria mais. Norah recebeu um grunhido em resposta, que a encorajou o bastante para continuar.

–Se eu te contar uma coisa, promete fazer segredo?

–Diabos mulher, são três horas da manhã! – disse Reid, sonolento e mal-humorado. Norah bufou, fazendo movimento de se levantar. No entanto, Reid a deteve pelo braço.

–Espere.

Norah riu, descrente. – Esperar pelo quê? Claramente eu não posso contar contigo nem mesmo para conversarmos! Acho que a única maneira de eu conversar contigo apropriadamente será se eu cometer um crime e prestar um depoimento na sua delegacia, Inspetor-Chefe.

–Não exagere... – retrucou Reid. – Simplesmente, estou cansado. Tive um dia cheio, com aquela cerimônia e a festa para os meus amigos. É só isto. Mas está bem, eu faço uma concessão. O que está te afligindo, a ponto de tirar-lhe o sono e me perturbar a esta hora?

Agora, Norah estava em dúvida se contava ou não. Reid suspirou.

–Você é mesmo difícil de entender, Norah.

–Só vou te contar se você me prometer que vai fazer disto um segredo. Custe o que custar. Do contrário, eu perderei toda a confiança em ti.

–Céus, mas que segredo é este? – perguntou Reid, curioso.

Após um longo suspiro, Norah confessou.

–Sophie e eu tivemos uma conversa ontem. Ela é... Casada com... Mr. Sherlock Holmes!

Percebendo que Norah ficara chocada até mesmo em dizer aquelas palavras, Reid não pôde deixar de dar uma sonora gargalhada, deixando-a irritada e confusa ao mesmo tempo.

–Ora, mas o que deu em você, seu insensível? Acaso contei uma piada?

Em meio a risos, Reid respondeu. – Quase isto, meu amor.

–Tens idéia desta revelação, Edmund? Sophie trocou o noivo por seu melhor amigo! E por Deus, é do Mr. Holmes que estamos falando! Eu confesso que jamais esperava tal coisa dele, manter um casamento secreto debaixo do nariz de seu amigo...

Quando finalmente parou de rir da descrença de sua esposa, foi a vez de Reid fazer exigências.

–Você promete que não vai se separar de mim depois do que eu te contar?

–Não prometo nada, Reid. De você, espero qualquer coisa. Pois então, diga.

–Eu já sabia.

Norah abriu a boca, em choque. – O quê?! E você nunca me contou?!

–Mr. Holmes me impediu. Disse que queria preservar sua amiga, e eu acatei. Satisfeita?

Norah estava longe de estar satisfeita. Pelo contrário, estava estarrecida. Levantou-se da cama, sustentando seu corpo de joelhos. Mesmo que estivesse completamente escuro, Reid sabia que ela estava furiosa.

–Há quanto tempo sabia disto? – ela disse, ameaçadoramente, com as mãos na cintura.

–Norah...

–Edmund Stuart Reid, há quanto tempo?

–Eu não vou contar mais, só porque você me chamou de Stuart... – disse Reid, virando-se de costas a Norah, finalmente voltando ao seu travesseiro.

–Mas é seu segundo nome...

Já de olhos fechados, Reid retrucava. – Sabe aquela mina de carvão desativada que fica perto da saída de Londres? Pois bem, meu pai costumava trabalhar ali. Ele pôs meu nome de Stuart porque houve um mineiro que morreu no dia de meu nascimento, em uma explosão com pólvora.

–Santo Deus! Você recebe o nome de um trabalhador morto em homenagem e o detesta? Quanta petulância...

Reid riu.

–Não foi necessariamente uma homenagem. Meu pai devia duas libras ao pai do rapaz. O velho soube no mesmo instante de meu nascimento, e da morte do filho. Dizem que ele bebeu um barril de rum inteiro, e sabe o que ele disse ao meu pai? “Richard, se você pôr o nome de seu filho de Stuart, eu perdôo sua dívida.”

Norah teve vontade de rir da história, mas notou que não era momento para isto.

–Bom, eram duas libras, afinal. Até que eu valia alguma coisa.

Havia um sorriso nos lábios de Reid, mas Norah duvidava que fosse diversão, ou qualquer coisa do tipo. Ele sabia que o inspetor vivera uma vida difícil e sofrida no subúrbio de Londres, que tinha uma família miserável e pobre, que passara fome e trabalhara desde criança em uma mina no interior, mas mesmo assim jamais cometera crimes porque sempre sonhara em se tornar policial, ao contrário de dois de seus irmãos, marginais que não viveram o bastante para ver o irmão promovido sequer à Detetive na Polícia Metropolitana.

Dando-lhe um suave beijo em sua bochecha áspera pela barba, Norah comentou.

–Reid, mesmo sendo um calhorda, saiba que você não tem preço.

–Belas palavras, Norah. Creio que poderei dormir descansado. – zombou Reid. – O que seria de mim sem você, minha feminista, sufragista, comunista e... Estou me esquecendo de alguma coisa?

–Sim. Eu também sou marxista.

–Isso... O que quer que signifique isso. – acrescentou Reid, após uma longa pausa, fazendo os olhos de Norah rolarem. – Pois bem, olhando para você aqui, ao meu lado, depois de dar o meu filho varão...

–Ah não, essa história de filho varão de novo não... – murmurou Norah enquanto era abraçada por Reid. Embora odiasse que ele fosse tão machista assim, Norah não sabia explicar porquê o amava tanto.

Qualquer pessoa veria como aberração a união daquela mulher, que panfletava em portões de fábrica, escrevia aos jornais em prol dos direitos femininos e participava de reuniões secretas em porões comunistas, com um policial machista e grosseirão da Scotland Yard, que já prendeu metade de seus “companheiros”. Apesar de suas vidas estarem dispostas em lados praticamente opostos, Reid e Norah enxergavam um no outro uma mesma coisa: a honestidade. Norah muitas vezes ficou abismada com a integridade de Reid. “São todos uns corruptos e cafajestes”, dizia a moça sobre a Scotland Yard. Essa era a sua opinião, até aparecer um certo policial, ainda aspirante à Detetive, na porta de uma fábrica durante uma greve, a impedir que um grupo de crianças operárias fosse agredida pelos demais policiais mais exaltados. Mesmo com este ato, este tal policial quase foi linchado pelos grevistas, se não fosse por uma mulher “muito ousada e mandona” a estender-lhe a mão e ajuda-lo a se esconder.

Foi neste dia que o tenaz Edmund Reid soube que estava perdido. E que sua perdição atendia pelo nome de Norah Celly Rosewood.

Notas finais
HAHAHAHA Reid não conhece Karl Marx (eu já li uma coisa ou outra e posso dizer que não perdeu muita coisa, não...) E que casal fofinho!! É a verdadeira prova de que os opostos se atraem. E espero que tenham gostado de saber como essa união impossível acabou saindo. E no próximo cap, a história começa a esquentar!!! Aguardem neste sábado!!! Um grande bj, obrigada por lerem, e reviews são sempre bem-vindos!!!